E se Deus votasse?

Os mais jovens talvez não, mas os mais velhos, com certeza, lembram da seleção brasileira da Copa de 1970. Um time de “feras”, como dizia seu treinador João Saldanha. Foi ele que, depois da derrota na Copa de 1966 na Inglaterra, assumiu a seleção e, quando ninguém acreditava nela, conseguiu montar um time até hoje lembrado. Saldanha só não foi ao mundial porque era comunista. O Brasil vivia em pleno AI5 e o regime militar não podia arriscar deixar um vermelho comandando a canarinho. Saldanha foi dispensado e Zagalo dirigiu a equipe montada por Saldanha e até hoje temos que aguentar o bom velhinho e sua mania de ver 13 em tudo.

Entre as frases célebres de João Saldanha, está a de que “se macumba ganhasse jogo, campeonato baiano terminava empatado”. Comunista que era, teoricamente, não devia acreditar em Deus. Mas como os comunistas brasileiros, em sua grande maioria, são mais espiritualistas que materialistas históricos e dialéticos, a frase do ilustre treinador se torna ainda mais instigante. E ela me provoca exatamente neste momento de nossa história em que caminhamos para uma eleição em que temos a impressão que o grande eleitor é Deus ou que votaremos para decidir qual é a divindade que vai governar o Brasil nos próximos quatro anos.

O religioso tomou conta do espaço político e, alguns candidatos, ao invés de apresentar soluções para os problemas econômicos, sociais, ambientais e culturais do país, parecem estar dando catequese ou fazendo um sermão numa igreja. Aliás, há candidatos que frequentam mais igrejas do que palanques eleitorais e, quando vão a estes, os transformam em verdadeiros púlpitos. Ao invés de apresentar soluções para a fome que assola 70 milhões de brasileiros, propõem que estes façam jejum para que seu candidato vença a eleição! Como se a dor da fome real não fosse suficiente.

Mas, como sou teólogo, sou tentado a levá-los a sério e fazer uma pergunta: qual seria o/a candidato/a que se encaixa no perfil de alguém que faz a vontade de Deus? Para o cristão, há um parâmetro bem claro. São as bem-aventuranças. Lá estão, tanto no Evangelho de Mateus como no de Lucas: felizes os pobres, os mansos, os que te fome e sede de justiça, os misericordiosos, os que choram, os limpos de coração, os que constroem a paz, os que são perseguidos por causa do Reino.

O Evangelho de Lucas apresenta o contraponto às bem-aventuranças. Lucas fala das mal-aventuranças, as maldições, os “ai de vós” os ricos, os que estão fartos, os que riem desprezando os que sofrem, os que se acham acima de todos e só querem aprovação e aplausos.

Tendo presente as bem-aventuranças e as mal-aventuranças nos perguntamos: se Deus votasse nessa eleição como alguns parecem desejar, em quem será que Ele votaria? Naqueles e naquelas que provocam a fome, a violência, a morte, que se mostram insensíveis à dor e ao sofrimento dos que perderam seus familiares e amigos na pandemia, naqueles e naquelas que promovem a destruição da vida dos humanos mais frágeis e das florestas, dos rios, do ar e dos animais que neles vivem? Ou Ele votaria naqueles e naquelas que defendem teto, terra, trabalho, educação e dignidade para todos, começando pelos que delas mais necessitam?

Nestes tempos de eleição, é bom lembrar a frase de Jesus: “Nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai” é que entrará no Reino dos Céus. E a vontade do Pai é que todos tenham vida, e a tenham em abundância. Que me desculpe João Santana. Mas, se Deus votasse, com certeza, a eleição não terminaria empatada. Seria uma goleada de 7 a 1, acachapante, inapelável, sem qualquer possibilidade de recurso ao VAR! Mas Deus não vota. Quem votamos somos nós. Com que critérios votamos? Esta é a pergunta a se fazer. Boa decisão!

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