Qual o limite do ódio?

Até onde pode ir o ódio? Até o infinito? Ou terá o ódio algum limite?

Esta triste pergunta nasceu em mim ao refletir sobre o triste fato de um insignificante vereador da cidade de São Paulo, com a anuência de outros 22 colegas, tentar instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para criminalizar o Pe. Júlio Lancelotti. Qual o crime do Pe. Júlio? Estender um cobertor para aqueles e aquelas que só têm o chão duro do viaduto como colchão para dormir, alcançar um prato de sopa para aqueles e aquelas que vagam com fome pelas ruas da cidade mais rica da América Latina, acolher e consolar as vítimas do lucrativo comércio de drogas ilegais, dos discriminados por sua condição sexual ou por seu estado mental… Esse é o crime do Pe. Júlio Lancelotti e daqueles e daquelas que com e como ele buscam ser um sinal de amor em meio a tanto sofrimento e tanta dor.

Numa sociedade normal em que os humanos agissem como humanos, o Pe. Júlio não seria criminalizado. Ele seria condecorado, homenageado, exaltado, imitado. Mas não: ele é processado por um edil cujo nome raramente é lembrado e que a esse cargo foi alçado pelo ódio transformado em instrumento de ascensão política. Percurso do qual é apenas um exemplar. Outros, cavalgando na marcha do ódio, da violência e da ofensa, chegaram a cargos de maior destaque: Prefeito, Governador, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador e até Presidente. E todos vimos as consequências: violência e morte alçadas a norma das relações sociais numa paródia macabra do fascismo europeu do século XX com trajes verde-amarelos e rituais religiosos que pregavam o extermínio de todos os que contestavam tais práticas.

Infelizmente, assim como o medo e o prazer, o ódio, em si mesmo, não tem limite. Quanto mais cresce, mais tende a expandir-se destruindo tudo o que vem pela frente. A tentativa de Comissão Parlamentar de Inquérito é apenas uma expressão minúscula daquilo que é um projeto anticivilizacional. Sim, porque “civilização” é a arte de viver juntos. E o que o fascismo prega é a impossibilidade da sociabilidade realizada no extermínio do diferente. Se não for detido, o ódio não tem fim e se expandirá até não haver nada mais para consumir até que, qual cão raivoso, terminará por morder o próprio rabo e, avançando em sua sanha devoradora, consumir o próprio corpo inteiro depois de ter arrastado o universo consigo.

Mas então, o que pode deter o ódio? Só há um antídoto para o ódio: o amor! Não é odiando aqueles que odeiam os pobres que acabaremos com o ódio. Odiando aqueles que odeiam as mulheres, os negros, os pobres, os povos nativos, a comunidade LGBTQIA+, os estrangeiros… só estaremos engrossando o círculo do ódio. É amando que se vence o ódio. É o que ensina o Pe. Júlio. E ele o ensina porque o aprendeu com Jesus quando afirma que não devemos resistir ao perverso e que, se alguém te ofender com um tapa na face direita, volta-lhe também a outra.  E se alguém quiser processar-te e tirar-te a túnica, deixa que leve também a capa.  Assim, se alguém te forçar a andar uma milha, vai com ele duas.

É insano o que Jesus diz, pode pensar alguém. Quando mal entendido, sim, é insano. Completamente insano! Mas a verdade é que Jesus não quer que nos resignemos e submetamos às práticas destruidoras dos que têm o coração habitado pelo demônio do ódio. Ele nunca ficou se omitiu diante da injustiça como alguns que, ante a perseguição ao Pe. Júlio, recomendam o silêncio. Estes – alguns, diga-se de passagem, colegas de batina e estola do padre perseguido – recomendam o silêncio porque talvez não queiram incomodar seus patrocinadores que estimulam e lucram com a política de ódio. Calar-se, em situações como estas, é ser cúmplice, é pecar por omissão.

Jesus nunca silenciou diante das injustiças. Pelo contrário. Alçou sua voz denunciando-as e pondo sua vida em risca para proteger os agredidos e ameaçados em sua vida. Lembremos apenas o episódio em que ele interpõe seu próprio corpo entre a mulher julgada por suposto adultério e as pedras que os donos da religião queriam sobre ela jogar. Foram posturas como estas que o levaram à cruz.

Mas ele nunca respondeu ao ódio com ódio. Ele não entrou na política do dente por dente, olho por olho. Diante do ódio escancarado, ele praticou o amor ilimitado, até mesmo aos seus inimigos declarados.

Ser cristão não é ir para a Igreja todo domingo. Ser cristão não é pagar o dízimo. Ser cristão não é receber os sacramentos. Ser cristão é passar da convivência baseada no ódio, à convivência construída no amor. Só isso. Não deixemos que o fermento dos fariseus contamine o pão da comunhão e da libertação que Jesus nos ensinou a partilhar e deixou como memória viva da sua presença.

Juntos podemos atuar por um cristianismo com mais padres julio lancelotti e menos fariseus e menos judas iscariotis.

Uma ideia sobre “Qual o limite do ódio?

  1. Avatar de Luis Evandro HinrichsenLuis Evandro Hinrichsen

    Grato, Vanildo. Texto oportuno. Essa gente renunciou à humanidade.

    Logo, novas revelações virão da crueldade que cultivam e que os destrói.

    Pretendiam, houvesse êxito no golpe contra a constituição, instalar um regime de terror.

    Mas, tanto esse vereador quanto os altos mandatários do bolsonarismo, já estão ou responderão por seus crimes.

    O tempo torna as coisas transparentes.

    Confesso que estou assustado com tanto ódio e maldade que fizeram, arquitetaram, mas, graças, não conseguir realizar.

    Fraterno Abraço Paz e Bem LEH

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    Resposta

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