O banqueiro, o padre, a missa e o dinheiro.

Há duas coisas que movem o mundo: a fé e o dinheiro. A fé é a que nos permite transcender o presente e sonhar com um futuro melhor, neste mundo ou noutro. O dinheiro é o que permite tornar este sonho possível.

Quando falo em “fé”, não penso apenas nas diferentes expressões religiosas. Me refiro também à fé antropológica, ou seja, à capacidade humana de construir um futuro para si e para a humanidade. Laica ou religiosa, individual ou coletiva, intra-histórica ou transcendente, na história ela tem encontrado muitas expressões.

Por “dinheiro” não entendo apenas as moedas que carregamos no bolso ou os números na conta bancária. São os recursos de que dispomos para viabilizar um projeto. Dinheiro, sim, mas também pessoas, capital, conhecimento, conexões.

Que seria do apóstolo Paulo sem as pessoas – homens e mulheres – que financiavam suas viagens e faziam coletas para sustentá-lo e torná-lo simpático às novas comunidades? Em suas cartas várias vezes ele agradece a seus colaboradores e financiadores. Ou então, que seria de Marx se não houvesse um Engels que lhe permitisse estudar e escrever sem ter que submeter-se à labuta diária para ganhar o pão de cada dia?

A união destes dois elementos pode mover montanhas tanto para transformar o mundo para melhor como para torná-lo menos habitável. Por um lado, pensemos num Martin Luther King e sua mobilização pelos direitos civis nos estados unidos, em Mahatma Ghandi e na luta do povo indiano pela independência ou em Desmond Tutu e Nelson Mandela na África do Sul lutando pelo fim do apartheid. São só alguns exemplos de pessoas que, movidas pela fé em uma humanidade melhor, a partir de um princípio religioso ou não, mobilizaram multidões.

Mas a união dos dois elementos também pode levar à exploração da fé dos pobres e desvalidos que, em nome do sonho de sair da miséria, entregam os poucos recursos que ainda dispõem a líderes que vendem sonhos a preço de ouro e acumulam fortunas que contrastam com a vida miserável dos fiéis de suas igrejas. Há vários exemplos em muitas igrejas e não há aqui necessidade de expor seus nomes. Sua fama é pública e notória.

Digo tudo isso porque hoje, dia 14 de janeiro de 2024, aconteceu no Brasil um evento surpreendente. O Canal “Instituto Conhecimento Liberta” (ICL), patrocinado pelo ex-banqueiro de investimentos, empresário, engenheiro, escritor, dramaturgo e apresentador Eduardo Moreira, transmitiu a missa do Pe. Júlio Lancelotti, um ícone do cristianismo defensor dos empobrecidos e marginalizados de São Paulo, a cidade mais rica da América Latina.

A aproximação dos dois vinha de há tempo. Mas transmitir a missa no canal oficial do ICL, não era algo que se esperasse. Mas aconteceu! E as reações nos comentários são surpreendentes e interessantes. Junto com muitos elogios, há também significativas críticas, tanto de setores da direita com da esquerda do espectro político e religioso. Críticas que revelam o surpreendente desta união e que revelam a base comum que une os dois campos no trato com a religião: ambos consideram que a religião tem como finalidade única manter o status quo.

A história tem mostrado que as religiões, quando mantém vivo o fundamento de sua fé, podem ser, sim, ser fator de transformação para melhor das sociedades. Para que isso se torne realidade, é preciso dar-se os meios necessários. E isto é tarefa nossa. É missão dos humanos que não se resignam ao mundo presente tal como ele está.

Não há como prever se a missa do Pe. Júlio transmitida pelo canal do ICL terá o mesmo “sucesso” das missas dos padres sertanejos, carismáticos ou fundamentalistas. No meu ponto de vista, seu “sucesso” está no fato de ter acontecido e mostrar um caminho de diálogo entre vários segmentos da sociedade em busca de um país e de um mundo onde todos e todas tenham o direito de viver na dignidade de filhos e filhas de Deus.

2 ideias sobre “O banqueiro, o padre, a missa e o dinheiro.

  1. Avatar de De Medeiros Gonçalves Vera LúciaDe Medeiros Gonçalves Vera Lúcia

    Assisti a celebração…
    Sou católica e enfrento dentro da minha igreja, pessoas que deveriam ter vergonha de se identificar como cristãs.

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  2. Avatar de Simas SirleiSimas Sirlei

    Que Deus te abençoe sempre com discernimento Frei, muito importante pra mim refletir a partir de sua fala, sou pedagoga, mas tenho a impressão que nunca entendi de verdade o que “via” , muito difícil compreender, só agora com 50 anos penso que vivi sempre na ilusão. Frei é muito difícil ver…a maioria das pessoas não vêem. Sério isso 🤔.

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