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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Crise do software proprietário e o crescimento do Pinguim

Pesquisa revela: 49% dos entrevistados esperam o Linux seja a principal plataforma de servidor nos próximos cinco anos

Enquanto os donos do mundo do software sofrem com a recessão, o código aberto emerge e é adotado por cada vez mais pessoas. Segundo pesquisa realizada em fevereiro pela IDC com executivos de tecnologia da informação, 65% dos 330 entrevistados pretendem ampliar o uso de Linux em 10% ou mais em 2009.

Para os pesquisadores, tal aceleração é resultado de uma forte redução de custos e interoperabilidade com Windows. “Além disso o Linux é distribuído gratuitamente e o suporte técnico – da Red Hat, Novell e outros fornecedores – é contratado via assinatura anual”, informa o site PSL -Brasil.

De acordo com a pesquisa, outra razão do crescimento do Linux é a influência de mercados emergentes onde o Windows ainda não domina os usuários finais.

Presidente do Paraguai admite paternidade de menino de 2 anos

Presidente Fernando Lugo (arquivo)

Lugo admitiu relacionamento com mulher de 26 anos quando era bispo

O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, disse nesta segunda-feira que teve um relacionamento com a paraguaia Viviana Carrillo, de 26 anos, e reconheceu ser o pai de seu filho de dois anos, Guillermo Armindo.

“É verdade que tive um relacionamento com Viviana Carrillo. Diante disso, assumo todas as responsabilidades que possam ter ocorrido a partir deste fato, reconheço a paternidade do menino”, disse Lugo, em entrevista transmitida por emissoras de televisão locais.

Lugo disse ainda que não pretende fazer mais declarações sobre o assunto. “A partir deste momento e atendendo o interesse superior, a privacidade da criança, as altas responsabilidades que, ao mesmo tempo, me impõe o exercício da Presidência, não farei mais declarações sobre este assunto”, disse Lugo, que era bispo da Igreja Católica na localidade de San Pedro quando o episódio ocorreu.

Desde que disse que queria que Lugo reconhecesse a paternidade de seu filho, Viviana Carrillo se transformou em um dos principais assuntos da imprensa paraguaia.

Na quarta-feira passada, véspera do feriado de Semana Santa, advogados entraram na Justiça pedindo a Lugo que admitisse a paternidade. A partir da iniciativa, um juiz da cidade de Encarnación abriu processo contra o presidente paraguaio. Mas Carrillo desautorizou os advogados que tinham tomado a iniciativa.

Reações

As declarações de Lugo nesta segunda-feira sacudiram a política local. A ministra da Mulher, Gloria Rubín, apoiou a postura do presidente. “Acho sensacional. Admiramos sua sinceridade”, afirmou.

Por sua vez, o ministro do Interior, Rafael Fillizola, acusou os advogados que entraram com ação na Justiça de serem ligados ao ex-presidente e opositor Nicanor Duarte Frutos.

Ao mesmo tempo, o bispo Mario Melanio Medina parabenizou a “valentia” do presidente. “Dou meus parabéns. É um ato de valentia, e antes tarde do que nunca”, disse.

Quando lhe perguntaram se a Igreja poderia chegar a adotar alguma medida contra Lugo, já que ele ainda era bispo quando teve o relacionamento com Viviana Carrillo, o bispo respondeu que não, porque hoje Lugo já é “laico”.

Na opinião da juíza da Infância e da Adolescência, Ana Ovelar, o presidente deverá comparecer “pessoalmente” ao registro civil para oficializar a paternidade que acabou de reconhecer. “Só assim, a declaração dele terá validade”, disse à rádio Uno.

Lugo foi eleito em abril do ano passado e assumiu o cargo em agosto. Sua eleição foi histórica, ao marcar a derrota, pela primeira vez em décadas, do Partido Colorado.

O presidente paraguaio iniciou sua campanha eleitoral quando ainda era bispo. Para ingressar na carreira política, acabou renunciando ao cargo religioso. Em um caso inédito, o Papa Bento 16 aceitou seu pedido de renúncia para se dedicar à política.

A Paixão de Mel Gibson

A mulher do ator Mel Gibson pediu divórcio nesta segunda-feira após 28 anos de casamento, citando diferenças irreconciliáveis.

Nos documentos do divórcio apresentados na Corte Superior de Los Angeles nesta segunda-feira, Robyn Gibson pediu o fim do seu casamento de 1980 com o astro de “Máquina Mortífera”.

O casal, que tem sete filhos, pediu privacidade em um comunicado conjunto.

“Durante todo o nosso casamento e separação nós sempre nos esforçamos para manter a privacidade e integridade de nossa família e continuaremos a fazê-lo”, disse o comunicado.

Não ficou claro por quanto tempo os Gibsons estão separados, mas uma notícia no site do programa de televisão de celebridades “Entertainment Tonight” disse que eles estavam morando separados há cerca de três anos.

Seis dos sete filhos do casal já são adultos. Robyn Gibson pediu a custódia conjunta do único menor, Tom, que fará 10 anos na terça-feira.

Mel Gibson, de 53 anos, um católico praticante, foi criado na Austrália e foi um dos mais bem pagos e mais populares atores do mundo na década de 1990, vencendo o Oscar de Melhor Diretor e Melhor Fotografia com o seu filme “Coração Valente”, de 1995.

Ele adotou um estilo de menor exposição pública desde o seu controverso filme de 2004 “A Paixão de Cristo” e desde a prisão por dirigir alcoolizado em Malibu, em 2006, quando ele lançou um discurso inflamado contra os judeus.

Justiça anula julgamento que absolveu acusado de assassinar Dorothy Stang

A Justiça do Pará anulou o julgamento de dois dos acusados de envolvimento na morte da missionária Dorothy Stang, assassinada a tiros em uma estrada vicinal de Anapu em 2005. Em sessão na manhã desta terça-feira, a 1ª Câmara Criminal Isolada da Justiça do Pará também determinou a prisão preventiva de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos supostos mandantes da morte da missionária.

12.fev.2004//Reuters
Dorothy Stang foi morta a tiros em uma estrada vicinal de Anapu (PA) em 2005
Dorothy Stang foi morta a tiros em uma estrada vicinal de Anapu (PA) em 2005

Ele havia sido absolvido em julgamento ocorrido em maio do ano passado. Na sessão de hoje, os desembargadores também anularam o último julgamento que condenou Rayfran das Neves Sales a 28 anos de prisão, conhecido como Fogoió, acusado de matar a missionária norte-americana.

Segundo o TJ-PA (Tribunal de Justiça), o pedido de anulação dos julgamentos foi feito pelo Ministério Público que, entre outras alegações, contestou o vídeo apresentado pela defesa de Bida, em que Amair Feijoli da Cunha, o “Tato”, aparece inocentando o fazendeiro. Segundo o Ministério Público, o vídeo foi anexado aos autos de forma ilegal.

Já em relação ao julgamento de Fogoió, o Ministério Público pediu anulação em virtude dos jurados não terem aceitado como agravante da pena o fato de o acusado ter aceitado recompensa de R$ 50 mil pelo assassinato. Segundo o pedido, caso a recompensa fosse levada em consideração, a pena seria superior aos 28 anos.

O outro suspeito de mandar matar Dorothy, o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, aguarda em liberdade ao seu julgamento, previsto para acontecer até o fim de junho.

Vaticano reconhece ‘virtudes’ que aproximam Irmã Dulce da beatificação

Irmã Dulce. Foto: Osid

Irmã Dulce morreu aos 77 em 1992, em Salvador

Um documento divulgado pelo Vaticano nesta sexta-feira reconhece “virtudes heroicas” de Irmã Dulce, uma etapa considerada fundamental no caminho para que ela possa ser considerada uma santa.

O texto, que inclui decretos aprovados pelo papa Bento 16 sobre processos de beatificação e canonização, cita a “serva de Deus Dulce Lopes Pontes, freira da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus”.

Com o reconhecimento das suas virtudes, a religiosa – que morreu em 1992, aos 77 anos – passou a receber o título de venerável.

O padre Paulo Lombardi, postulador da causa de beatificação de Irmã Dulce, comemorou a notícia. “É um evento extraordinário, uma grande conquista”, disse à BBC Brasil.

O titulo é o reconhecimento de que a freira viveu de forma heroica as virtudes cristas da fé, esperança e caridade e significa que o papa e a igreja aceitam e endossam tudo o que ela fez, disse e escreveu durante sua vida, explicou o prelado.

“Agora a beatificação está mais próxima, falta apenas a comprovação do milagre, que está sendo examinado pela comissão vaticana.”

“Madre Teresa do Brasil”

O processo de beatificação da religiosa brasileira, que trabalhou na capital baiana e destinou sua vida ajudar a população carente, começou em janeiro de 2000.

Paulo Lombardi não deu detalhes a respeito do suposto milagre que está sendo analisado, mas adiantou que se trata da cura de um doente em Aracaju.

Pela dedicação aos pobres e mais necessitados, Irmã Dulce foi definida como a “Madre Teresa do Brasil” pela comissão vaticana que examinou sua vida e suas obras de caridade.

Em 2003, a Congregação da Causa dos Santos recebeu os atos jurídicos do processo e reconheceu um possível milagre ocorrido por intercessão da religiosa, que ainda precisa ser comprovado.

Uma graça é considerada milagre após ficar demonstrado que foi alcançada logo após o pedido; se o pedido foi atendido de forma completa, se foi permanente e se não pode ser explicado pela ciência.

Dançarina de boate vira freira e ensina 'dança sacra' na Itália

Alunos de Anna Nobili (foto: Giuseppe De Carli)

Irmã Anna ensina ‘dança sacra’ a um grupo de jovens de sua diocese

Uma ex-bailarina e ex-acompanhante de homens em boates de Milão se tornou freira há um ano e agora dá aulas de dança contemporânea nos arredores de Roma.

“Antes, eu dançava sobre cubos e fazia ‘lap dance’ para homens que queriam apenas meu corpo, estava jogando a vida fora em boates transgressivas, fazendo sexo sem amor, que procurava como uma droga”, disse Anna Nobili, de 38 anos, em entrevista ao jornal La Repubblica nesta sexta-feira.

Anna Nobili entrou para a Congregação das Irmãs Operárias da Santa Casa de Nazaré e fez os votos no final do ano passado.

A dança voltou a fazer parte da vida da religiosa depois que o bispo da cidade de Palestrina, a cerca de 35 quilômetros da capital italiana, ofereceu à freira um espaço no convento para que ela pudesse ensinar passos de dança aos jovens da diocese.

Irmã Anna define o tipo de dança que faz e ensina agora como “holy dance” (ou dança sacra). “Agora, danço para Deus, e meus passos e minhas coreografias são dedicadas a ele”, afirma.

Coreografia ‘mística’

Com seu grupo de alunos, que se chama “grupo de dança litúrgica Holy Dance”, irmã Anna vai se apresentar na próxima terça-feira em uma das principais basílicas de Roma, a Santa Cruz em Jerusalém, durante a apresentação do livro Bíblia dia e noite, de Giuseppe Carli e Elena Balestri.

Anna Nobili (foto: Giuseppe De Carli)

Anna Nobili diz que se tornou freira após passar por uma ‘crise mística’

Segundo a tradição, nesta igreja, uma das mais antigas de Roma, estão guardadas relíquias da cruz onde Jesus Cristo morreu.

O grupo vai dançar diante de bispos e cardeais uma “coreografia mística”, cujo titulo é “Jesus, luz do mundo”, inspirada no evangelho segundo São João.

Além de se apresentar em boates, Anna também participava de programas de televisão como bailarina. Em 1995, ela teve o que definiu como uma “crise mística” e resolveu mudar de vida.

O caminho da conversão ao catolicismo e a decisão de se tornar freira não foram fáceis, segundo a religiosa. “Foi um caminho longo e sofrido”, disse irmã Anna.

Iluminação

Na entrevista ao La Repubblica, a religiosa compara sua história a de muitas outras moças. Diz que teve uma infância violenta e sem amor. Seus pais se divorciaram quando ela era pequena e, aos 13 anos, foi viver sozinha em Milão.

Anna Nobili (foto: Giuseppe De Carli)

Anna diz que procurava ‘a felicidade nas luzes do palco e da noite’

“Procurei a felicidade nas luzes do palco e da noite. Os homens gostavam de mim. Descobri a dança, e isso foi um meio para fazer conquistas. Estava no centro das atenções e jogava fora meu corpo”, afirmou.

Irmã Anna conta que teve uma espécie de iluminação, depois de tentar mudar de vida várias vezes, inclusive por meio do budismo.

“Fiz uma intimação a Deus: ‘se você está aqui, deve dizer pessoalmente, sem intermediários'”, disse.

A freira afirma que sua conversão ocorreu ao visitar a Basílica de São Francisco e Santa Clara, em Assis. Diante da basílica, irmã Anna disse que se surpreendeu com as cores do céu, sentiu a presença de Deus e começou a dançar diante das pessoas.

“No trem, de volta a Milão, percebi que Deus havia entrado dentro de mim. No espelho do banheiro, não me reconheci, houve uma transfiguração”, diz a freira.

Irmã Anna conta que ainda dançou como profissional de boate mais uma noite e, depois, desistiu.

“Eu poderia ter escolhido uma vida normal, ter uma família, filhos, mas minha busca me levou a uma escolha radical, evangélica. Aos poucos, cortei tudo. Fiz as pazes com meu pai e comecei um processo de purificação”, disse.

Mãe admite culpa em morte de filho que parou de dizer 'amém'

Uma americana que interrompeu a alimentação do filho de um ano e quatro meses porque ele deixou de falar “amém” antes das refeições, admitiu a culpa na morte da criança, em Baltimore, no Estado de Maryland.

Ria Ramkissoon, de 22 anos, faz parte de um culto chamado 1 Mind Ministries (Ministérios de uma mente, em tradução livre), cuja líder, Queen Antoinnette, havia ordenado em janeiro de 2007, que o bebê não fosse alimentado enquanto não dissesse “amém” antes das refeições. A criança morreu de inanição.

Segundo os promotores do caso, os membros da seita diziam que o bebê estava possuído pelo demônio.

Ria foi condenada a 20 anos de prisão e a cinco de condicional, mas o juiz disse que ela terá a pena reduzida se aceitar testemunhar contra os membros da seita.

O acordo para a redução da pena inclui que ela passará por um programa para se desligar do culto. Segundo os promotores, Ria ainda teria insistido que a Justiça concorde em reduzir sua pena se ela conseguir “ressuscitar o bebê”.

“Isto foi algo que ela insistiu e é um claro indicativo de que ainda é vitima deste culto. E até que se desligue de sua influência, não pensará diferente”, disse o advogado de Ramkissoon, Steven Silverman, em entrevista à uma rede de TV local.

Segundo o jornal local Baltimore Sun, a promotora Julie Drake relatou que depois da morte do bebê, a líder da seita ordenou que ele fosse colocado em um sofá enquanto membros do culto rezavam ajoelhados e a mãe dançava em volta do corpo.

Uma semana após a morte, o corpo da criança foi embalado em um cobertor e transportado com o grupo dentro de uma mala para a Filadélfia.

Segundo os relatos, a mãe teria rezado por mais de um ano ao lado do corpo da criança para que ela ressuscitasse. O corpo foi encontrado em abril de 2008.

O julgamento de Antoinette, de 40 anos, e de outros três membros do culto estava marcado para a segunda-feira, mas foi adiado porque eles não têm representantes legais.

“Deus é meu defensor”, teria dito a líder da seita.

Um papa no bunker

Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, visitou a África de 17 a 23 de março como quem faz questão de ressaltar sua indiferença para com a realidade social e seu descompasso com o mundo laico. Isso depois de forçado ao mea-culpa duas vezes, em rápida sucessão – uma ao admitir estar mal informado ao reabilitar bispos lefebvrianos afins ao negacionismo neonazista no próprio dia internacional em memória das vítimas do Holocausto, outra ao anular a nomeação de um bispo austríaco rejeitado por pares e vigários.

No único continente onde o catolicismo cresce de maneira significativa, Camarões e Angola são países com grande proporção de católicos. Perdido o contato com os costumes e relações sociais nas quais se baseavam seus cultos tradicionais, as populações que o êxodo rural arrancou de suas raízes tribais e jogou nas favelas procuram comunidades religiosas mais adaptadas a uma cultura urbana parcialmente ocidentalizada. A Igreja Católica continua a se beneficiar dessa desestruturação, embora seja crescente a concorrência do Islã, das igrejas evangélicas e de novos cultos sincréticos africanos.

O papa pareceu, porém, decidido a mostrar aos convertidos reais ou potenciais que o catolicismo não atenderá às necessidades sociais e espirituais da África moderna. Ainda no avião, condenou os preservativos em uma região que registra mais de 70% dos óbitos por Aids no mundo, onde 20 milhões já morreram e outra vida é perdida para a doença a cada 15 segundos.

Caso se limitasse a objeções teológicas, pouco haveria a dizer. Mas Ratzinger contrariou a ciência e o bom senso, insistindo em que a distribuição de preservativos agrava a epidemia. Ministros europeus, inclusive de países católicos, tomaram a iniciativa incomum de censurar o papa. O chanceler francês o acusou de “pôr em perigo a política de saúde pública em relação à proteção da vida humana”. A ministra da Saúde belga chamou sua posição de “perigosamente doutrinária”. Os ministros do Desenvolvimento e da Saúde alemães condenaram a afirmação do compatriota como “irresponsável”.

Não foi a única mostra de insensibilidade, desinformação ou ambas as coisas por parte do papa. Enquanto ele se preparava para falar de solidariedade e condenar a ganância, a violência e a corrupção, a Igreja fechava os olhos aos preparativos do corrupto e violento governo camaronês para a visita. Incluíram demolir com escavadeiras todas as casas e lojinhas que prejudicassem esteticamente o caminho entre o aeroporto e o centro da capital, Yaundé, sem perguntar como seus donos iriam trabalhar, dormir e comer nos dias seguintes.

Ali, o papa proclamou que “a África está em perigo devido a imorais sem escrúpulos que tentam impor o reino do dinheiro desprezando os mais miseráveis”, antes de viajar para Angola. O governo desse país empobrecido e devastado por décadas de guerra civil também fez gastos milionários para receber o pontífice. Além disso, em Luanda, a Igreja organizou dois jantares de gala a 500 dólares por cabeça, arrecadando cerca de 270 mil dólares para receber “mais dignamente” a passagem do pontífice.

Os responsáveis pelos caros e cuidadosos preparativos, que incluíram a mobilização de 12 mil policiais para cuidar da segurança do papa e de sua comitiva, não deram igual peso à segurança dos humildes. Na confusa abertura dos portões do Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, onde o papa encontraria a juventude angolana, um tumulto matou duas moças por esmagamento e mandou 89 jovens a hospitais.

Alheio ao drama, o papa assistiu à coreografia dos jovens que conseguiram entrar e os convidou a não ter medo de ousar “decisões irreversíveis” do casamento da ordenação sacerdotal. Só no dia seguinte, quando o desastre – ignorado pela cobertura oficial – foi divulgado na imprensa internacional, a Igreja e o governo angolano enviaram representantes ao hospital para visitar os feridos e levar seus pêsames à família de uma das mortas, uma catequista de 22 anos. A outra, não identificada, foi levada ao necrotério como indigente.

Trata-se de um papa muito mal informado? Em 12 de março, o papa queixou-se por carta ao episcopado da “hostilidade” com que foi recebida sua anulação da excomunhão do bispo Richard Williamson, após este negar o Holocausto, mas admitiu a má condução do caso. “Foi-me dito que consultar a informação disponível na internet teria possibilitado perceber o problema no início. Aprendi que a Santa Sé terá de prestar mais atenção a essa fonte de notícias.”

Para um não-católico, acreditar que nenhum dos secretários e assessores de Ratzinger tinha acesso a essas informações ao preparar uma decisão tão importante em relação a quatro bispos bem conhecidos é quase tão difícil quanto crer na infalibilidade papal ou na Assunção da Virgem. Principalmente tratando-se de um pontífice que liderou a Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora da Inquisição e do Santo Ofício) e perseguiu as mais obscuras manifestações de inconformismo teológico nos cinco continentes.

Leonardo Boff, por exemplo, foi castigado com o confinamento definitivo em um convento – ao qual não se submeteu, preferindo romper com o Vaticano –, após uma palestra na Eco 92 (anterior ao Google, vale lembrar), na qual responsabilizou a Igreja pela morte de milhares de índios na América Latina.

Um papa no bunker

Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, visitou a África de 17 a 23 de março como quem faz questão de ressaltar sua indiferença para com a realidade social e seu descompasso com o mundo laico. Isso depois de forçado ao mea-culpa duas vezes, em rápida sucessão – uma ao admitir estar mal informado ao reabilitar bispos lefebvrianos afins ao negacionismo neonazista no próprio dia internacional em memória das vítimas do Holocausto, outra ao anular a nomeação de um bispo austríaco rejeitado por pares e vigários.

No único continente onde o catolicismo cresce de maneira significativa, Camarões e Angola são países com grande proporção de católicos. Perdido o contato com os costumes e relações sociais nas quais se baseavam seus cultos tradicionais, as populações que o êxodo rural arrancou de suas raízes tribais e jogou nas favelas procuram comunidades religiosas mais adaptadas a uma cultura urbana parcialmente ocidentalizada. A Igreja Católica continua a se beneficiar dessa desestruturação, embora seja crescente a concorrência do Islã, das igrejas evangélicas e de novos cultos sincréticos africanos.

O papa pareceu, porém, decidido a mostrar aos convertidos reais ou potenciais que o catolicismo não atenderá às necessidades sociais e espirituais da África moderna. Ainda no avião, condenou os preservativos em uma região que registra mais de 70% dos óbitos por Aids no mundo, onde 20 milhões já morreram e outra vida é perdida para a doença a cada 15 segundos.

Caso se limitasse a objeções teológicas, pouco haveria a dizer. Mas Ratzinger contrariou a ciência e o bom senso, insistindo em que a distribuição de preservativos agrava a epidemia. Ministros europeus, inclusive de países católicos, tomaram a iniciativa incomum de censurar o papa. O chanceler francês o acusou de “pôr em perigo a política de saúde pública em relação à proteção da vida humana”. A ministra da Saúde belga chamou sua posição de “perigosamente doutrinária”. Os ministros do Desenvolvimento e da Saúde alemães condenaram a afirmação do compatriota como “irresponsável”.

Não foi a única mostra de insensibilidade, desinformação ou ambas as coisas por parte do papa. Enquanto ele se preparava para falar de solidariedade e condenar a ganância, a violência e a corrupção, a Igreja fechava os olhos aos preparativos do corrupto e violento governo camaronês para a visita. Incluíram demolir com escavadeiras todas as casas e lojinhas que prejudicassem esteticamente o caminho entre o aeroporto e o centro da capital, Yaundé, sem perguntar como seus donos iriam trabalhar, dormir e comer nos dias seguintes.

Ali, o papa proclamou que “a África está em perigo devido a imorais sem escrúpulos que tentam impor o reino do dinheiro desprezando os mais miseráveis”, antes de viajar para Angola. O governo desse país empobrecido e devastado por décadas de guerra civil também fez gastos milionários para receber o pontífice. Além disso, em Luanda, a Igreja organizou dois jantares de gala a 500 dólares por cabeça, arrecadando cerca de 270 mil dólares para receber “mais dignamente” a passagem do pontífice.

Os responsáveis pelos caros e cuidadosos preparativos, que incluíram a mobilização de 12 mil policiais para cuidar da segurança do papa e de sua comitiva, não deram igual peso à segurança dos humildes. Na confusa abertura dos portões do Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, onde o papa encontraria a juventude angolana, um tumulto matou duas moças por esmagamento e mandou 89 jovens a hospitais.

Alheio ao drama, o papa assistiu à coreografia dos jovens que conseguiram entrar e os convidou a não ter medo de ousar “decisões irreversíveis” do casamento da ordenação sacerdotal. Só no dia seguinte, quando o desastre – ignorado pela cobertura oficial – foi divulgado na imprensa internacional, a Igreja e o governo angolano enviaram representantes ao hospital para visitar os feridos e levar seus pêsames à família de uma das mortas, uma catequista de 22 anos. A outra, não identificada, foi levada ao necrotério como indigente.

Trata-se de um papa muito mal informado? Em 12 de março, o papa queixou-se por carta ao episcopado da “hostilidade” com que foi recebida sua anulação da excomunhão do bispo Richard Williamson, após este negar o Holocausto, mas admitiu a má condução do caso. “Foi-me dito que consultar a informação disponível na internet teria possibilitado perceber o problema no início. Aprendi que a Santa Sé terá de prestar mais atenção a essa fonte de notícias.”

Para um não-católico, acreditar que nenhum dos secretários e assessores de Ratzinger tinha acesso a essas informações ao preparar uma decisão tão importante em relação a quatro bispos bem conhecidos é quase tão difícil quanto crer na infalibilidade papal ou na Assunção da Virgem. Principalmente tratando-se de um pontífice que liderou a Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora da Inquisição e do Santo Ofício) e perseguiu as mais obscuras manifestações de inconformismo teológico nos cinco continentes.

Leonardo Boff, por exemplo, foi castigado com o confinamento definitivo em um convento – ao qual não se submeteu, preferindo romper com o Vaticano –, após uma palestra na Eco 92 (anterior ao Google, vale lembrar), na qual responsabilizou a Igreja pela morte de milhares de índios na América Latina.

Obra desvenda a construção e o funcionamento do racismo no Brasil; leia capítulo

O Brasil não é um país racista, mas é um país onde existe racismo. Em uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), 97% dos entrevistados afirmaram não ter preconceito, mas 98% disseram conhecer pessoas que manifestavam algum tipo de discriminação racial.

Reprodução
Livro esclarece as origens e o funcionamento do racismo no Brasil
Livro esclarece as origens e o funcionamento do racismo no Brasil

A questão é um tema ainda difícil para o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Aqui, o debate sobre racismo é sempre atual, com todos os seus paradoxos e mitos, como o da democracia racial.

O estudo é citado no livro “Racismo no Brasil”, da coleção “Folha Explica” da “Publifolha”, que revela a maneira como se construiu, historicamente, o racismo à brasileira. Leia a introdução do livro, reproduzida abaixo, que leva o título de “Da Cor do Bronze Novo”.

A autora é a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, da USP. Ela explica quais os principais debates das teorias raciais no século 19, como teorias justificaram a miscigenação, os efeitos da escravidão no imaginário racial brasileiro, o “apartheid” social”, a questão da identidade e confusão e a raça projetada no outro. Ela também explica a formação do conceito de raça no país.

O livro também traz explicações, em comparação ao Brasil, de alguns aspectos do sistema de classificação racial dos Estados Unidos. A autora discute o mito da democracia racial e toca em uma questão vizinha ao racismo, a discriminação racial.