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Sobre utopias, distopias e heterotopias

A Modernidade nasceu sob o signo da utopia. A Europa, que durante quase setecentos anos vivera enclausurada, vence o cerco árabe e, singrando Atlântico, Índico e Pacífico, encontra o Novo Mundo que excede a tudo aquilo até então visto. Um mundo exótico que assusta e encanta. Um mundo cheio de riquezas. Especiarias nas Índias Orientais, escravos da África negra, o ouro e prata das Índias Ocidentais.
Com a força de cães, cavalos e canhões, o El Dorado das terras “descobertas” foi transferido para a Europa onde financiou o Renascimento cultural, a Revolução comercial e industrial e os nascentes Estados nacionais. Para os europeus, tudo parecia possível. Thomas Morus, em sua “Utopia”, faz uma crítica da moderna sociedade inglesa e afirma que tudo poderia ser ainda melhor. Igual Tomás de Campanella na “Cidade do Sol” onde as contradições da modernidade são superadas e chega-se à  cidade ideal.
Não durou muito e, aquilo que parecia utópico, se mostrou distópico. Primeiro, nos continentes periféricos onde milhões de pessoas foram sacrificadas na produção e transferir das riquezas para o Velho Continente. Depois, na própria Europa onde a máquina de produzir riqueza para poucos não se importou com a cor da pele das pessoas e os camponeses e operários brancos foram transformados em matéria prima do capitalismo. Jonathan Swift, em suas “Viagens de Gulliver”, descreve as cidades absurdas da modernidade. John Stuart Mill cria a palavra para nomear esta realidade: distopia. Karl Marx, em “O Capital”, destapa as entranhas deste sistema que produz absurdos e chega à exasperação na Primeira e Segunda Guerra Mundial. Absurdo que tem sua versão coletivista nos “gulags” soviéticos, nos campos de reeducação maoísta, nas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e se atualiza nas guerras da Afeganistão, Iraque, Congo, Iêmen, Síria e nos setenta milhões de homens e mulheres que peregrinam em busca de um lugar para morar e, muitos deles, acabam afogados no Mediterrâneo ou no Rio Grande que, no dizer do Papa Francisco, se transformaram em grandes cemitérios de corpos e esperanças.
Os clássicos “A Máquina do Tempo” de H.G. Wells, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley e no mais conhecido “1984” de George Orwell e seu famoso “Grande Irmão” refletem, em forma de arte, o mundo distópico que nos ameaça com seu sonho pavorosamente real.

Hoje constatamos que as utopias fracassaram e as distopias nos aterrorizam cada vez mais. Há para elas um alternativa possível? Michel Foucault, já na perspectiva de uma pós-modernidade, criou o termo heterotopia. Com este neologismo ele quer significar aqueles espaços marginais dentro da sociedade onde se pode viver não apenas o contrário da sociedade presente, mas uma antecipação do ideal que sonhamos para cada pessoa e para toda a humanidade. O heterotópico sempre é minoritário e, às vezes, fugaz. Mas indica que um outro mundo é possível e que a humanidade não está condenada à prisão do presente ou ao devaneio de um futuro incerto. É possível viver no presente o futuro.

A esta experiência de heterotopia os cristão chamam de Ressurreição. Ressuscitar não é nascer para outra vida. Ressuscitar é ter esta vida radicalmente transformada pela graça de Deus. Simbolizamos esta vida nova no renascer batismal. E esperamos que ela se complete na morte quando nos encontraremos face a face com Deus na Nova Jerusalém. Entre o batismo e o sábado de Deus, cabe-nos viver no presente como se já estivéssemos no futuro.

Tarefa difícil, pois o mundo nos seduz com sua lógica que parece insuperável. Mas difícil também pela tentação de evadir-nos deste mundo. Alguns conseguem viver esta dupla tensão de forma limitada. Outros conseguem ir mais além. A estes nós os chamamos de “santos” e “santas”. Entre estas últimas, Maria, a Mãe de Jesus. Em toda sua vida, desde a experiência de Deus em Nazaré até o Pentecostes, ela viveu no quotidiano o futuro de Deus. Em seu cântico diante do Anjo, ela lembra a fidelidade de Deus para com seu povo e sua decisão de colocar-se inteiramente a serviço de Seu projeto. Sua fidelidade leva-a ao pé da cruz e à missão guiada pelo Espírito. Viveu tão perfeitamente o futuro de Deus em seu presente, que a Igreja proclamou que ela já vive na plenamente na realidade divina. Não só seu espírito, mas também seu corpo. É a Assunção de Maria.

Na sua pessoalidade, Maria vive a heterotopia do Reino. Ela vive o novo em meio ao velho. E ela não vai sozinha. Junto com Maria de Nazaré vão tantas outras Marias da Graça, Marias de Lourdes, Marias das Dores, Marias das Neves, as Isabeis, Roses, Marieles, Dorothys, Matildes, Martas, Márcias, Joanas, Anas, Terezinhas, Tânias, Anastácias, Nargis… Mulheres testemunhando que não basta a utopia e que não se há de temer as distopias. Elas são a prova de que é possível viver a vida nova aqui e agora. Em amostra antecipada, sim,  mas já ressurreição.
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O presente do futuro

Que é o tempo? Uma velha pergunta que a humanidade sempre se colocou e que hoje parece em desuso. Vivemos a civilização do instantâneo, do agora, do imediato, onde o que importa é o presente.

Mas, concomitantemente, nos queixamos de que tudo passa muito rápido, que não temos tempo para tudo o que gostaríamos de fazer, que a realidade é fugaz, que tudo flui tão rapidamente e temos a impressão de que não somos nós mesmos o que fomos ontem e o que seremos amanhã ainda não o sabemos. Vivemos o paradoxo da atemporalidade e de um tempo que nos devora. Cabe, pois, voltar a pensar o que significa o tempo.

Ninguém melhor que Santo Agostinho para nos ajudar a pensar esta realidade humana. Na obra “Confissões”, Livro XI, ele se pergunta: “O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” Se ficarmos só nesta frase, parece que o santo africano desistiu de compreender a condição temporal de nossa existência. Mas, em seguida, no mesmo livro, ele nos convida a pensar o tempo não na sequência linear passado-presente-futuro, mas na mistura dos tempos que constitui o âmago da nossa existência: “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.”

“Presente das coisas passadas” é aquilo que vivemos e constitui a identidade que carregamos conosco como lastro ou como suporte. “Presente das presentes” é o agora que nos cabe viver e do qual não podemos fugir. Mas o que é “presente das coisas futuras”? Como algo que ainda não aconteceu pode incidir no que somos agora e, por paradoxal que possa parecer, mudar o passado que já se foi?
Se pensarmos bem, isso é mais comum do que reconhecemos. Na linguagem cotidiano, a isso nós chamamos “fé”. Não a fé enquanto conceito intelectual de acreditar no que não pode ser visto ou não pode ser compreendido. Mas a fé enquanto atitude existencial de viver no presente aquilo que sonhamos ser o futuro do ser humano e do mundo.

Quem tem fé em Deus, vive no presente como se já estivesse na presença do Deus que espera ver plenamente na eternidade futura. Se acredita num Deus que é amor, vai viver no presente relações amorosas com as pessoas com as quais convive. Se acredita num Deus de justiça, vai praticar a justiça para com os injustiçados. Se acredita num Deus da vida, vai cuidar das vidas feridas pelas forças da morte. Se acredita num Deus da verdade, vai opor-se a todas as calúnias, mentiras e trapaças semeadas pelos inimigos de Deus.

Essa fé de Abraão, de Isaac, de Jacó e de tantas personagens da tradição bíblica judaica que viveram coerentemente com aquilo que acreditavam ser o desejo de Deus para suas vidas. Essa também é a fé de Jesus que viveu no seu quotidiano aquilo que acreditava ser o projeto do Pai. Com efeito, ter fé significa, acima de tudo, viver no presente aquilo que acreditamos ser o mundo futuro.

Aquele que pratica no presente o contrário daquilo que afirma ser o ideal para o futuro, ou não tem fé, ou é mentiroso. Para enganar os outros, pode apresentar sonhos de futuro mirabolantes que não se concretizam em suas ações no presente. Com isso até é possível que engane alguns incautos. Mas, não passará muito tempo e a sua máscara cairá e todos perceberão que o seu futuro, na verdade, é o retorno do passado de morte e o sonho da sua continuidade num presente sem fim. Mas ninguém vive sem sonhos, sem futuro, sem fé. E os que se deixaram enganar, em pouco tempo, retomarão seus sonhos e sua fé e destruirão o devorador do tempo para que o presente volte a ser futuro e todos possamos voltar a sonhar.
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Vaidade das vaidades!

Em meio à crise econômica mundial e nacional, alguns números chamam a atenção. Segundo a OXFAM, uma das mais sérias entidades internacionais de combate à pobreza e à desigualdade, em meio à essa crise, a distância entre os mais ricos e os mais pobres vem aumentando em um ritmo nunca visto antes. Atualmente, as 36 pessoas mais ricas do mundo acumulam a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Ou seja, 36 pessoas detêm o equivalente a 3,6 bilhões de outros seres humanos. Nos anos de 2017 e 2018, a cada dois dias, surgiu mais um bilionário no mundo. Essa distância entre ricos e pobres têm uma de suas fontes na desigual tributação que os dois extremos sofrem.

No Brasil, sempre segundo dados da OXFAM, essa situação é ainda mais grave. Os seis brasileiros mais ricos – todos homens – detém a mesma riqueza que a soma dos 100 milhões de brasileiros mais pobres! A desigualdade no Brasil é seis vezes superior à média mundial. Em termos de desigualdade social, assim como no futebol, somos campeões do mundo…

É justo isso? Dentro da lógica capitalista, sim. Riqueza produz riqueza e “quem pode mais, chora menos”. É a lógica do mercado onde o mais forte engole o mais fraco. Dentro da lógica cristã, não. Pois, “não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos.” E mais: a riqueza que uns poucos privilegiados acumulam, é o que falta na mesa do pobre. E pior: é o que foi tirado da mesa do pobre. Com efeito, os bens disponíveis são limitados. E, para que um acumule o que não precisa, é preciso tirar do outro o que lhe é necessário. Como diz o profeta Jeremias, “como a perdiz que choca os ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas por meios injustos.”

Diante desse fato, pergunta o Livro do Eclesiástico: que adianta ao rico acumular tantas riquezas se, no final de uns poucos anos, morre e deixa tudo para outro que nada fez? Jesus é mais enfático: o desejo de acumular bens, a ganância de ter sempre mais, além de provocar a desgraça dos outros, leva à desgraça daquele que dedica sua vida a acumular. O rico, além de fazer a infelicidade dos outros, cava, ao mesmo tempo, o sepulcro de sua própria desgraça. A ganância só faz sofrer. Tanto ao que acumula, como ao que é espoliado. Este sofre injustamente. O ganancioso, sofre de sua própria maldade.

Diante do rico afogado em sua riqueza acumulada que faz o pobre sofrer, cabe uma atitude irônica como a de Jesus. Pobres ricos que só tem as riquezas nas quais locupletarem-se! E uma afirmação taxativa: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens”, pois pode ser que, nesta mesma noite, a morte bata à sua porta e, então, quem ficará com os bens acumulados?

Se os 36 homens mais ricos do mundo ou os seis brasileiros que detêm mais riqueza que os 100 milhões de compatriotas mais pobres se colocassem diante dessa possibilidade de que hoje mesmo podem ter a sua vida ceifada, talvez se dessem conta que sua riqueza nada mais é do que vaidade de vaidades. E uma triste vaidade que faz os outros sofrerem e, por isso, vaidade culpável diante de Deus e diante dos homens.
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O pão nosso de cada dia…

O que é religião? Pergunta instigante que já encontrou muitas respostas e continua a suscitar dúvidas e controvérsias. Difícil encontrar uma definição de consenso. A paleta de opções vai desde o considerar a religião como “ópio do povo” até a de proclamá-la como aquela que dá o “sentido último” a cada cultura e, dentro dela, à existência de cada grupo ou pessoa.
No fundo, creio que as duas visões não se contradizem. Pelo contrário, elas se complementam na medida em que indicam as duas possibilidades extremas da experiência humana. Com efeito, a religião pode levar a pessoa ao extremo da realização ou ao extremo da perversão. Porque religião – e aqui avanço uma possível definição de religião – é o conjunto de crenças, ritos, valores, normas e instituições – que prometem levar o ser humano à sua realização plena.
Evito aqui intencionalmente a palavra “transcendente”. No uso habitual, “transcendente” indica algo que não é deste mundo. Mas nem todas as religiões tem como meta conduzir as pessoas para um outro mundo futuro ou a um mundo paralelo ao mundo presente. Existem, sim, religiões que podem ser assim caracterizadas. Mas há sistemas religiosos que são marcadamente mundanos. Ou seja, prometem a salvação para este mundo mesmo, aqui e agora. E se não for agora, num futuro breve que está ao alcance da mão de todos. Pensemos na chamada “religião do mercado”. Basta você seguir as “leis do mercado”, seus ritos, seus valores, normas e instituições e, em pouco tempo, você terá sucesso e ficará rico.
É uma religião que tem seus livros sagrados e seus sacerdotes que, dominicalmente, tentam convencer as pessoas de que pequenas empresas podem se transformar em grandes negócios. Basta seguir a orientação dos empreendedores bem sucedidos que, por sua relação íntima com o Deus Mercado, agora têm a capacidade de guiar os que se convertem à nova religião. Os que fracassaram, é porque não tiveram fé suficiente nas eternas leis do mercado, não seguiram seus ritos e instituições ou não quiseram ouvir seus sacerdotes. Ou foram fracos e impersistentes. Pois na religião do Deus Mercado, só se salvam os mais fortes. Os fracos, são engolidos na voragem da luta pela sobrevivência. Por essas suas faltas, os fracassados já pagam no presente com o colapso de seus empreendimentos e ficarão para sempre gemendo e chorando no vale de lágrimas da pobreza, pois na religião do Deus Mercado não há graça. Aqui se faz, aqui se pena. Quem pode mais, chora menos. E são poucos os que se salvam.
Mas, e no cristianismo, como funciona a salvação? Qual é a meta do ser mais, de alcançar a plenitude do ser humano? Faço esta pergunta pensando na oração que Jesus ensinou a seus discípulos. Afinal, a oração é a expressão máxima dos desejos e promessas de uma religião. Nela, o fiel pede a Deus aquilo que mais almeja. E o que Jesus ensina a pedir no Pai Nosso? Coisas muito simples e mundanas. Em primeiro lugar, a justiça para os fracos. Era isso que a palavra Reino significava para um judeu: que o órfão, a viúva e o estrangeiro tivessem seus direitos respeitados. Pede o pão para o dia de hoje. Não pede riqueza, nem o acúmulo de bens. Basta a comida para satisfazer a necessidade presente e urgente. Pede o perdão das dívidas… Para o pobre, o mais cruel é estar devendo, pois o único que tem é a sua honra. E essa não tem preço!
E a oração termina com um “não nos deixes cair em tentação”. Mas não diz qual é a tentação. Pelo contexto anterior, sou levado a pensar que a tentação da qual Jesus nos ensina a pedir a Deus que nos livre, é a de não perdoar os que nos devem, de acumular o pão a tal ponto que a outros falte, de não fazer justiça para com os fracos e assim não acreditar que Deus é Pai de todos.
Estranha oração essa a do Pai Nosso. Ela revela uma religião dos fracos, dos fracassados, dos derrotados, dos endividados… que sonham com um mundo em que as relações não sejam marcadas pela dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Um mundo onde não haja vencedores nem vencidos, nem saciados nem esfaimados, nem credores e nem endividados.
Rezar o Pai Nosso, é comprometer-se com essa crença. E um desafio a cultivar valores e constituir normas e instituições que ajudem a forjar um mundo novo tal qual o rezado nesta oração tão simples e, ao mesmo tempo, tão transformadora.

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Sempre se fez assim!

Vivemos na sociedade da inovação. Todos aspiram ao novo. E, quanto mais novo, melhor! Aquilo que aconteceu ontem, já é passado, velho demais. O que foi feito ontem, já está ultrapassado, não serve mais. As novidades acontecem em um ritmo cada vez mais frenético. A aceleração do tempo parece não ter limites a tal ponto que, aquilo que ainda não aconteceu ou ainda não saiu de fábrica, já está fora de moda. O futuro é uma miragem cada vez mais distante que, parece, nunca alcançaremos.
Nesse contexto, a frase algumas vezes pronunciada de que “sempre se fez assim”, pode, por um lado, incomodar por expressar um não reconhecimento dos tempos em que estamos vivendo e, por outro, pode também ser um sinal de resistência à cultura da obsolescência antecipada. De um lado estão os “novidadeiros”. De outro, os tradicionalistas. De um lado os que querem fazer sempre o novo. Do outro, os que querem fazer o que sempre já se fez, pois na repetição do passado encontram a segurança em tempos de mudanças aceleradas ao infinito.
Quem tem razão nesta disputa? Atrevo-me a dizer que nenhum dos dois lados. De fato, ambos colocam o acento no “fazer”. É uma atitude típica da cultura moderna do “homo faber” que avalia o ser humano por aquilo que ele faz. Os que fazem coisas do passado, são ditos cavernários. Os que fazem as coisas do futuro, visionários. Mas o que nos permite distinguir entre o que é típico do homem das cavernas e o que é típico do homem das estrelas?
Costumo dizer, em tom de ironia, que não há nada mais pós-moderno do que a Idade Média!… Sei que com isso não faço justiça nem a Baumann e muito menos a Tomás de Aquino. Os dois se revolveriam nos túmulos se ouvissem estas minhas palavras… Mas o fato é que, alguns comportamentos humanos apontados como típicos do período medieval, estão renascendo nestes tempos da ultramodernidade. Por exemplo, a compreensão religiosa do mundo, seja através das religiões ou de outras expressões culturais que se organizam com a lógica religiosa. A política, por exemplo vive de mitos fundadores, de santos, liturgias e dogmas. E a economia também. É só observar o discurso que se faz sobre os “humores do mercado” e veremos que ele é tratado como um Deus. E mais: os massacres na Síria, na Líbia, no Afeganistão, no Iêmen…, não podem ser comparados com as cruzadas medievais? Como dizia o poeta, “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.”
Qual a alternativa a essa mentalidade baseada no fazer que tanto pode nos enclausurar no passado fossilizado como nos enlouquecer por um futuro de miragens enganadoras? Não pretendo ter a solução, mas uma alternativa pode ser a de passar do “homo faber” ao “homo audiens”. Deixemo-nos de preocupar com o fazer e passemos a escutar. Passar do ativo que se pretende dono do mundo ao auscultante que procura entender o sentido daquilo que está ao seu redor.
Diante de Jesus que chega a sua casa, Marta e Maria têm duas atitudes diferentes. Marta parte imediatamente para fazer aquilo que sempre fazia quando o Mestre chegava a sua casa. Maria senta-se aos pés de Jesus para escutar o que Jesus pede dela. E se Jesus não precisasse daquilo que Maria estava sempre acostumada a oferecer-lhe? Seu trabalho, mesmo sendo feito com perfeição, teria sido inútil. Antes de fazer algo, é melhor escutar, estar atento ao que está ao nosso redor e discernir o que o momento presente pede de nós. Se não somos capazes de ouvir os rumores do presente, podemos nos perder num passado que já não existe ou num futuro que ainda não é e, até pode ser, nunca será.
Menos ação e mais contemplação. Menos certezas e mais escuta. Menos preocupação e mais auscultação. E nossa ação não será sem sentido e nem inútil!
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Entre o simples e o complicado

“Para quê fazer as coisas simples, se elas podem ser complicadas?” É a pergunta que nós, que nascemos antes da era digital, nos colocamos diante de sistemas operacionais, programas, aplicativos, telefones, comandos eletrônicos e digitais que, ao invés de facilitar, complicam a vida de muitos usuários. Se tomarmos os programas para edição de texto, por exemplo, de cada cinquenta funcionalidades, um digitador normal talvez utilize duas ou três. E olha lá!… O mesmo nos smartphones. São raras as pessoas que utilizam sequer 10% de todas as possibilidades que eles oferecem. Por que, então, não oferecer telefones, programas, máquinas… com os recursos básicos e que todas as pessoas possam utilizar?

Pode haver várias razões para isto. Mas uma é indiscutível: porque a maioria de nós trabalha com a afirmação inconsciente de que o mais complicado é melhor. E não só no campo da tecnologia. Também na vida prática. Se uma pessoa vai ao médico e este, após uma consulta, não pedir nenhum exame e não oferecer uma longa lista de medicamentos a consumir, é provável que este médico seja considerado como não confiável. Mas se o médico pedir quatrocentos exames e disser que a pessoa tem dez doenças com nomes impronunciáveis e mandar tomar vinte remédios, caros e com bulas assustadoras, a pessoa muito provavelmente vai dizer: “esse médico é dos bons”!
No mundo das religiões, a necessidade que temos de complicar as coisas, é ainda maior. Quanto mais exigente ou bizarra nas suas demandas e ofertas for uma religião, mais provável é que atraia adeptos com rapidez e os mantenha convictamente ligados a essa experiência. Ainda mais se o chefe religioso usar nomes, roupas estranhas e tiver comportamentos bizarros.
O gosto pela complicação, de fato, parece fazer parte da própria condição humana. Mas não nos preocupemos: desde os tempos de Jesus era assim. Um rabino foi a Jesus e fez a pergunta religiosa clássica: “O que devo fazer para conquistar a vida eterna?” Jesus respondeu com aquilo que era o óbvio para todo judeu piedoso: “Observa os mandamentos”. E, para simplificar mais ainda as coisas, Jesus lhe diz: “E não precisa observar os dez. Basta observar os dois primeiros – amar a Deus e amar ao próximo – e tudo o mais se resolve!” Mas o doutor em leis, que era daqueles que acham que o complicado é melhor que o simples, logo atirou a pergunta: “Mas, quem é meu próximo?” De fato, os rabinos judeus tinham todo um sistema complicado para definir quem era “próximo” e devia ser amado e quem era “estrangeiro” e devia ser odiado. Jesus sabia disso e, para manter a sua afirmação na simplicidade da experiência da fé que pode ser alcançada por qualquer um, conta uma historinha simples: um homem foi assaltado e atirado meio-morto à beira do caminho. Vários passaram por ele sem fazer nada. Um samaritano passou, viu o homem caído e o ajudou. O samaritano é próximo daquele que estava caído à beira do caminho. Logo, o samaritano fez aquilo que é necessário para ter a vida plena e perfeita. Simples assim!
Se o caminho da salvação é esse, por que nossas religiões, inclusive o cristianismo, se apresentam de forma tão complicada? Tantas leis, tantas obrigações, tantos ritos, roupas, gestos, construções, negócios, funcionários, relicários, imposições, discussões sobre quem é Deus e qual é a melhor religião ou a Igreja que mais salva?
Suspeito que seja pela mesma razão que nos leva a desconfiar de máquinas, programas, softwares e telefones simples e fácil de usar: a satisfação com o complicado é um modo de disfarçar a nossa não disposição de fazer aquilo que é simples. Em outras palavras, complicamos para nos descomprometer. É preciso voltar ao simples, ao “arroz com feijão”, ao básico, àquilo que realmente nos torna humanos e nos conduz no caminho de Deus: amar ao próximo e amar o irmão. Tudo o mais pode até ser bom. Mas não é necessário. E pode atrapalhar o caminho da salvação.

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Si vis pacem, para bellum?

A frase é atribuída a Vegécio, um escritor romano que viveu no séc. V d.C. Dizia ele: Si vis pacem, para bellum. Para convencer o Imperador, de quem era amigo, a restaurar a grandeza do Exército Romano, escreveu um “Compêndio da Arte Militar” que, por sua simplicidade e praticidade, tornou-se referência da arte da guerra durante séculos no Ocidente. A fama da obra e a força da frase perduraram tanto que, no início do século XX, o Império Alemão, através da Fábrica Alemã de Armas e Munições (Deutsche Waffen und Munitionsfabriken) batizou uma de suas mais famosas criações, a Luger P08, de Parabellumpistole. Entre os anos de 1914 e 1918, mais de dois milhões de exemplares deste modelo foram produzidos e ele se tornou icônico de arma de defesa pessoal.

Curiosidades históricas a parte, voltemos ao importante da expressão popularizada por Vegécio. Ela afirma que a paz só pode ser alcançada pelo uso da força. Em outras palavras, só haverá paz quando as pessoas se sentirem suficientemente amedrontadas para não mais agirem violentamente. É uma lógica que tem forte apelo popular. Para muitas pessoas, a violência só poderá ser diminuída através do armamento generalizado dos cidadãos e de uma ação intimidatória por parte do Estado. Quanto mais armas nas mãos dos cidadãos e quanto mais violenta for a repressão por parte do Estado – polícia e Exército – contra os que praticam a violência, mais tranquila e pacificamente poderá viver a sociedade. Os inimigos da sociedade, sejam eles internos ou externos, só serão inibidos quando aterrorizados ou, no limite, aniquilados.

Foi esta lógica de forte apelo popular que levou à corrida armamentista que resultou na Primeira e na Segunda Guerra Mundial com seus milhões de mortos e incalculáveis perdas humanas e econômicas. Corrida que continuou através da Guerra Fria que quase resultou numa guerra nuclear que poderia ter acabado com a humanidade e boa parte da vida do Planeta Terra. A experiência cotidiana e os dados de todas as instituições que monitoram a violência a nível global indicam, sem sombra de dúvidas que, quanto mais armas em circulação, maior é a letalidade da violência.

Um olhar frio e sério sobe a realidade humana nos ensina que, diferentemente do que dizia o escritor romano e hoje apregoam os armamentistas, deveríamos afirmar: se queres a paz, prepara-te para ela! E o primeiro passo, é renunciar a toda lógica de violência. E o passo mais concreto, é livrar-se de todo e qualquer instrumento que possa fazer dano a outras pessoas.

Para o cristão, isso não é nada novo. É um compromisso que nasce da própria missão recebida de Jesus. Com efeito, quando enviou seus 72 discípulos, Jesus os advertiu claramente: “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” Mas, avisa o Mestre, os discípulos não podem agir como os lobos, pois, agindo como lobos, deixariam de ser cordeiros, deixariam de ser símbolos da paz. Os discípulos devem andar desarmados e sem ostentar nenhum símbolo de poder. E o seu anúncio dever ser o da paz: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro:
A paz esteja nesta casa!” E o anúncio proclamado deve ser tão radicalmente pacífico que precisa ser apresentada sem nenhuma pretensão de imposição. Se os habitantes da casa acolherem esta paz, os discípulos nela podem permanecer. Mas se os habitantes não acolherem a mensagem de paz, o discípulo não deve discutir ou querer impor a paz, pois isto seria abandonar a lógica da paz e aderir à lógica da disputa e do conflito que resultará, inevitavelmente, em violência. Para Jesus, os fins não justificam os meios e não
se pode justificar uma ação má nem mesmo quando feita com boa intenção.

A tentação da lógica da violência como meio para alcançar a paz é tão grande que Jesus adverte os 72 discípulos: “…quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós.’” A lógica da violência é tão sutil e pegajosa que se aninha em nossos vestidos – físicos, mentais e espirituais – sem que nos demos conta dela e, às vezes, contra o discurso proclamado, acabamos por reproduzi-la em nossas relações diárias. É preciso livrar-se dela, sacudi-la de nossos corpos, mentes e corações. E isso só pode ser feito com a educação das novas gerações e a reeducação dos que fomos treinados para agir violentamente.

É preciso ensinar as pessoas que “não se pode trocar um aperto de mão com o punho fechado” e muito menos trocar um aperto de mão com armas na mão. Se queremos a paz, preparemo-nos para ela. E o primeiro passo é desarmar a mente, o coração e as mãos.

Pedro, Paulo e o martírio do cotidiano

A Basílica de Santa Maria del Popolo, em Roma, guarda duas das principais obras do pintor italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio: “O martírio de São Pedro” e “A conversão de São Paulo”.
Na primeira, o artista, seguindo a tradição, representa o martírio de São Pedro por crucificação. Segundo antigas tradições, Pedro foi condenado à morte no período da perseguição do Imperador Nero, por volta do ano 64 d.C., na cidade de Roma. O pescador galileu pediu a seus algozes para ser crucificado de cabeça para baixo. Desse modo, ele não se igualaria a seu Mestre, Jesus Cristo. Na tela, três soldados romanos, com os rostos obscurecidos, têm dificuldade em levantar o corpo do ancião que observa resignadamente a própria mão transpassada pelo cravo.
Na segunda tela, a conversão de Paulo é apresentada com detalhes que mesclam a narrativa bíblica com a tradição apócrifa. Estando Saulo a caminho de Damasco com ordens para capturar os membros da seita dos cristãos, foi tocado por uma luz que o fez cair por terra e o cegou. Diferentemente da narração bíblica, a tradição diz que Saulo “caiu do cavalo”. Na tela, Caravaggio retrata Saulo com as características de um soldado romano: armadura, espada e manto vermelho. Mas o cavalo não está aparelhado para a montaria e o combate. Paulo está no foco de luz. O cavalo, meio sombra, meio luz. E o servo de Paulo apenas emerge das trevas.
Vendo as duas telas, vem uma pergunta: por que não pintou Caravaggio, em paralelo ao martírio de Pedro, o martírio de Paulo? Segundo a tradição, Paulo também sofreu o martírio na perseguição de Nero. Ele teria sido decapitado em Roma. Segundo as normas romanas, os estrangeiros, como Pedro, podiam ser submetidos à pena mais degradante da crucificação. Já os cidadãos romanos – e, segundo a tradição, esse era o caso de Paulo – ao terem constatado o crime de traição à pátria, sofriam a decapitação, uma forma mais digna de morte segundo os padrões da época.
Sejam quais forem as motivações que levaram o pintor italiano a não apresentar, lado a lado, os dois martírios, os quadros nos lembram da forma da morte dos dois apóstolos símbolo dos primórdios cristãos. Tanto Pedro, o evangelizador dos judeus, como Paulo, o evangelizador dos gentios, sofreram a morte violenta por parte do poder dominante da época, o Império Romano.  A perseguição a ambos, no entanto, iniciara já na sua terra natal, na Palestina, e foi movida pelas mesmas autoridades do povo judeu que haviam crucificado Jesus. Os mesmos sacerdotes que entregaram Jesus a Herodes e a Pilatos, também fizeram de tudo para que Pedro e Paulo deixassem de anunciar a doutrina do amor e da misericórdia de Jesus. Como no caso de Jesus, fizeram isso não por serem maus. Antes pelo contrário. O Sumo Sacerdote Caifás e seu Sinédrio composto por 70 homens espertos nas leis religiosas judaicas, tanto na condenação de Jesus, como nas perseguições a Pedro e Paulo, apresentavam-se como convictos defensores de Deus e da religião.
É difícil, na distância do tempo e das culturas, fazer qualquer juízo sobre o caráter pessoal das autoridades religiosas judaicas. O fato é que, um olhar atento nos permite ver que, mais do que defender a seu povo e sua religião, o Sumo Sacerdote e o Sinédrio, além de defender seus interesses pessoais de donos da religião e do poder econômico, estavam fazendo o jogo do império estrangeiro na sua dinâmica de dominar o povo judeu.
E se a história tivesse sido diferente? Se Pedro e Paulo não tivessem sido perseguidos pelas autoridades de seu povo e tivessem tido um final de vida menos dramático? Mesmo parecendo a muitos iconoclasta, esta alternativa não é desconhecida da Bíblia. Pelo contrário, é apresentada positivamente pelo livro dos Atos dos Apóstolos. Segundo este livro, no capítulo 28, chegando prisioneiro em Roma, “Paulo morou dois anos numa casa alugada, vivendo às custas de seu próprio trabalho. Recebi a todos os que o procuravam, pregando o Reino de Deus. Com toda coragem e sem obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor Jesus Cristo”.
Um final menos heroico, mas não por isso menos desafiador. O apóstolo dos gentios, o grande Paulo, morando de aluguel e vivendo do trabalho de suas mãos, com a porta da casa sempre aberta para receber a todos os que o buscassem. Uma descrição muito distante do imaginário do poder que associamos aos apóstolos e seus sucessores. Um grande desafio para uma igreja que se quer em constante saída e juntos aos pobres da sociedade e da própria Igreja. Parafraseando o Papa Francisco, esta seria uma outra forma de martírio. Não o martírio da cruz ou o da decapitação, mas o martírio do cotidiano, de viver a fidelidade a Jesus Cristo não apenas em situações extraordinárias, mas no ordinário do dia-a-dia. Um martírio já vivido por pessoas que moram na porta ao lado, mas pouco notado por muitos que se dizem defensores de Deus e da religião. Um desafio para as autoridades religiosas de hoje. E um desafio para todos os que se dizem seguidores de Jesus de Nazaré, a exemplo de Pedro e de Paulo.

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O que estão dizendo de mim por aí?

Quem sou eu? A velha pergunta que está na origem da religião, da filosofia, da psicologia, da antropologia, da história e, podemos dizer, de todas as ciências humanas, continua sendo posta. Todo ser, desde o momento em que se constitui como humano, se pergunta pela própria identidade. E, junto com esta pergunta inicial, surgem as outras questões básicas às quais a humanidade tenta responder desde os seus primórdios e que continuarão a ser o aguilhão do pensar até o fim dos tempos: quem sou, de onde vim e para onde vou? Em outras palavras, qual o sentido da minha existência?
Em meio às múltiplas e sempre inconclusas tentativas de resposta à questão tão crucial, dois caminhos se delineiam. O primeiro, presente em tradições egípcias e na filosofia grega, tornou-se famoso através da expressão escrita na entrada do Templo de Delphos: “Conhece-te a ti mesmo”. No sentido original e também no uso que, segundo Platão, Sócrates dela faz, a frase era um chamado à humildade. Algo assim como “não te aches mais do que aquilo que tu és”. Mas a frase tinha outro significado: não te preocupes com a opinião dos outros. Olha para dentro de ti mesmo e, no teu eu, encontrarás a tua verdadeira identidade.
É com este sentido que a afirmação foi retomada no início da modernidade. René Descartes, o pai da Filosofia Moderna Ocidental, através do aforismo “cogito, ergo sum” (penso, logo existo), estabeleceu que a única certeza que temos é a que nasce do nosso próprio pensamento. E que todas as outras coisas existem na medida em que podem ser pensadas pela minha subjetividade. Inclusive Deus. Sua existência só é real porque passível de ser pensada pelo humano.
A segunda tradição que tenta dar uma resposta à questão da identidade dos humanos, nasce da tradição judaico-cristã. Na tradição bíblica comum às duas tradições, o ser humano é aquilo que é na medida em que é dito por Deus. No relato da criação, é a voz de Deus que cria o ser humano e lhe dá nome constituindo-lhe uma identidade. E essa constituição da identidade continua no relacionamento que os humanos estabelecem com as outras criaturas e com as pessoas com quem são chamados a conviver. Diferentemente do pensamento cartesiano, a verdade não nasce de dentro de si mesmo, mas emerge da palavra do outro. É Deus, outro humano ou as outras criaturas que dizem a verdade sobre mim.
Esse modo de pensar era tão comum na cultura judaica que, segundo o Evangelho de Lucas, Jesus não tem nenhum receio em perguntar aos discípulos: “Quem diz o povo que eu sou?” Diante das evasivas respostas relatadas pelos discípulos – “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” – Jesus quer saber quem ele é para os discípulos e pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” A resposta dada pelos discípulos é por nós conhecida: “Tu és o Ungido de Deus”.

A partir da resposta, Jesus tem sua identidade estabelecida. Mas a história não termina aí. Jesus explicita aos discípulos o que significa ser “ungido de Deus” em meio a um mundo de dor e opressão: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia.” E se essa é a identidade do Mestre, os discípulos têm, a partir dela, a sua identidade também definida. “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará.”
Voltando à nossa questão da identidade, percebemos que, ao dizer a identidade dos outros, também estamos dizendo e construindo a nossa. Ou seja, nossa identidade é sempre relacional. Em outra palavra, eu sou eu e minhas relações. Se quero saber quem sou, preciso olhar para quem são as pessoas com as quais me relaciono e a qualidade das relações que com elas estabeleço.
Quando levada a sério, esta constatação nos recoloca, como no sentido original da expressão grega “conhece-te a ti mesmo”, numa postura de humildade. Nós não somos nada sem os outros! E, desde a experiência religiosa cristã, nós não somos nada sem o grande outro que é Deus. Por isso Paulo diante do orgulho dos judeus e gregos que, cada um a seu modo, se achavam o máximo de cultura e civilização, ele diz: para os que são batizados, “o que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo.” Diante de Deus, todos, na diversidade cultural, social ou de gênero, têm a mesma dignidade, pois todos encontramos a nossa identidade em Deus que nos criou e nos aceita tal qual somos.

Nós só nos conhecemos na medida em que somos conhecidos e nos deixamos re-conhecer pelos outros na constante dança dos encontros e relações.
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O Abraço Múltiplo de Deus

Deus é amor. Uma simples frase de três palavras. Simples assim. Tudo está dito. É o coração da teologia do evangelista João. Ele a repete incessantemente: Deus é amor. E diz mais: quem ama mora em Deus. Linda e aconchegante expressão: morar em Deus. Quem não o deseja? Todos sonham em um dia entrar e permanecer na casa de Deus. Quem sabe, agora mesmo. Pois o tempo que há de vir só tem sentido se já o saboreamos antecipadamente no agora. Ninguém deseja aquilo do qual sequer sentiu um pré-gosto. Só desejamos plenamente o que conhecemos antecipadamente. O aperitivo desperta a vontade de comer mais. Amar agora, é a condição para poder viver o amor plenamente em Deus.

Mas o que é o amor? Para o cristão, o amor é Jesus Cristo. É ele quem nos mostra antecipadamente o que viveremos plenamente em Deus. “Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”, disse Jesus. E pelos inimigos também. Ele não morreu na cruz apenas por aqueles que com Ele fizeram o caminho da Galileia até Jerusalém. Morreu por todos. Inclusive por aqueles que o mataram na cruz. A todos perdoou. A todos amou.

Amor e perdão são duas coisas que caminham sempre juntas. Como disse Jesus falando a respeito da mulher que lhe ungiu os pés com lágrimas, “os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pois ela amou muito. E quem experimentou a alegria do perdão, é capaz de amar mais e mais. Não há amor sem perdão. E o perdão é a fonte de todo amor, porque Deus nos amou primeiro.

Amar é perdoar. Amar é dar. E, mais do que dar, amar é dar-se. É entregar-se totalmente ao outro. Quem quer o outro para si, não ama. Querer o outro para si não é amar, mas é possuir, é tomar o outro para que ele sirva aos meus interesses. Quando quero o outro para mim, não estou amando, mas dominando. E, dominar, é fazer-se senhor do outro. É fazer do outro um objeto de minhas posses. É coisificar o outro.

O amor só é possível quando há a capacidade de esvaziar-se, de anular-se a si mesmo para que o outro tome conta de mim. Foi o primeiro movimento de Deus para que o mundo passasse a existir. Deus, que é tudo, encolheu-se para que o mundo e a humanidade passassem a existir. Deus, ao criar do nada, pôs um limite ao seu todo. Agora ele tem outro a quem amar e por quem se entregar.
E essa entrega ele a realizou enviando seu Filho ao mundo na condição humana. Para tal, como diz Paulo na Carta aos Filipenses, Ele esvaziou-se da condição divina e assumiu a condição humana. E não qualquer condição humana. Deus assumiu a condição dos últimos dos humanos, a condição dos escravizados. Na identificação com os escravizados de ontem e com os escravizados de hoje, Deus mostrou o seu amor pela humanidade. Fazendo-se um de nós, mostrou-se como Filho de Deus e mostrou o caminho para Deus. É na identificação compassiva com os escravizados de hoje que encontramos o amor real de Deus.

A entrega de Deus à humanidade foi tão amorosa, tão livre, que o Filho não quis adonar-se da ação salvadora. Ele se retirou. Voltou para junto de Deus. E nesse vazio criado pelo Filho, Deus enviou seu Espírito para que a humanidade continuasse a caminhar com suas próprias pernas. O amor não domina. O amor liberta e permite que a pessoa continue, livremente, a ser ela mesma.

Quando alguém diz que ama, mas não permite que o outro seja ele mesmo, não está amando. Está dominando. Está estabelecendo uma relação de senhor e escravo, e não uma relação de amante e amado.

Na criação do Pai, na salvação do Filho e na santificação do Espírito, experimentamos, de formas variadas, os múltiplos apelos do abraço de Deus que nos ama. Um abraço que não prende. Pelo contrário, é um abraço de entrega. Deus se coloca em nossos braços e nos faz seus no seu amor acolhedor. Um abraço no qual Deus, longe de nos segurar presos a Si, nos impulsiona, nos dá força, nos impele para que sigamos nosso caminho e sejamos cada vez mais nós mesmos.

Um abraço que exige entrega. Que nos compromete a abraçar também. Um abraços que nos faz abrir os braços e deixar que os abraços dos escravizados de hoje nos tomem a nossa identidade e nos façam um com eles assim como Deus se fez e se faz um com nós. Um abraço que nos pede a coragem de retirar-nos do centro para que seja criado espaço para que o outro irrompa com sua própria 
identidade. Um abraço que nos transforme no que o outro é para que ele recupere a sua dignidade. Um abraço que não prenda o outro a nós, mas lhe dá força para que trilhe seus caminhos e sonhos.
Assim agindo, experimentaremos já no agora um pouco do futuro e pleno amor de Deus. Amor que se dá de formas múltiplas, variadas, nos muitos abraços de Deus e nos muitos abraços que damos e acolhemos no dia a dia.

Abraçando e amando, poderemos compreender um pouco do que significa afirmar que Deus é Trindade. Pois a Trindade de Deus não é um mistério lógico e nem ontológico. É um mistério de amor. Um mistério que só pode ser desvendado se nos permitirmos acolher os múltiplos abraços de Deus e nos permitirmos abraçar e deixarmo-nos cingir pelos braços que em nossa direção se estendem a cada dia.