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Vers le Grand Sud
São duas da tarde. Um calor tremendo. Quase quarenta graus. Ar seco e um vento quente que faz balançar os galhos das árvores ao redor da casa. Depois de cinco dias de retiro com os freis capuchinhos da Delegação do Haiti, nos preparamos para descer o morro e tomar o caminho do Sul em direção a Les Cayes e de lá a Abacou onde residem Frei Sérgio e Frei Ademar. Digo “descer” porque a Casa de Retiros das Irmãs da Caridade de São Luiz onde estivemos nesses dias está na parte alta da cidade de Porto Príncipe.
Aqui no Haiti, em Guadalupe e Martinica foram os franceses. Logo ali adiante, na Jamaica, na Guiana, Belize e Nicarágua os ingleses. Em Arruba, Curaçao e Suriname, os holandeses. Todos eles buscando romper o monopólio da Espanha para a qual só restou Cuba e Puerto Rico. O Mar Caribe que luz azul à minha direita e suas férteis e quentes terras pelas quais andamos, durante três séculos, foi duramente disputado pelas emergentes potências europeias que alimentavam de doces as mesas da decadente nobreza e enchiam os cobres de ouro da emergente burguesia que com a força do trabalho dos milhões de homens e mulheres escravizados trazidos da África acumulava capital para a Revolução Comercial que depois se tornaria Industrial com o famoso triângulo Europa-África-América da primeira globalização capitalista. Em cada rosto de cada homem e de cada mulher que caminham ao longo da estrada que leva de Porto Príncipe a Les Cayes está impressa de forma indelével a história das “veias abertas da América Latina e Caribe” magistralmente descritas pelo inolvidável Galeano.
Platão em Cité Soleil
São dez horas da manhã. O sol escaldante de quase quarenta graus transforma as úmidas ruas de Porto Príncipe em nuvens de pó que se levantam a cada Tap-Tap que passa repleta de homens e mulheres de todas as idades. O colorido berrante dos 4X4 adaptadas para o transporte público contrasta com o rosto sombrio da maioria de seus passageiros. Na longa e ampla avenida que separa a Zona Portuária do aglomerado de Cité Soleil, a cada cinquenta ou cem metros, um pequeno grupo de pessoas se aglomera em torno a um pastor que chama à conversão e à prosperidade em Jesus. Ao lado dos prédios das igrejas com as denominações as mais chamativas possível, pequenos quiosques que vendem loterias que prometem fazer milionários.
Mas o que, tenho certeza, é real, são os três meninos que estiveram a meu lado durante a missa, a centena de mulheres e crianças que rezaram e cantaram ao som dos tambores e a presença de Padre Renato e dos irmãos e irmãs da Missão Belém. Tudo isso é muito real num mundo que nos quer fazer crer no irreal.
VALHA-NOS PLATÃO!
Dando voltas na memória
Pobre diabo!
A banalidade da violência
Para os que se aventuram pelos campos da Filosofia, da Literatura ou do Cinema, certamente não lhes soa estranho o título deste despretensioso texto. Como já intuíram, inspiro-me abertamente na obra da filósofa Hannah Arendt. Entre suas obras, a mais conhecida é, sem dúvida, “A banalidade do mal”. Publicada como livro em 1963, ela reúne a série de reportagens por ela produzidas para o “The New Yorker” por ocasião do julgamento do oficial do exército alemão Adolf Eichmann. A obra ganhou como título “Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal”. Tal foi o impacto da obra que foi versada em filme pelo menos dez vezes. A última e mais contundente – pelo menos do meu ponto de vista – foi a lançada em 2012 por Margarethe von Trotta.Os monstros não caem do céus nem surgem do nada. Como nos ensinou Hannah Arendt, os monstros são frutos de construção histórica e política. E a política, a arte de conviver com o diferente, é a única forma de combatê-los.









