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Si vis pacem, para bellum?

A frase é atribuída a Vegécio, um escritor romano que viveu no séc. V d.C. Dizia ele: Si vis pacem, para bellum. Para convencer o Imperador, de quem era amigo, a restaurar a grandeza do Exército Romano, escreveu um “Compêndio da Arte Militar” que, por sua simplicidade e praticidade, tornou-se referência da arte da guerra durante séculos no Ocidente. A fama da obra e a força da frase perduraram tanto que, no início do século XX, o Império Alemão, através da Fábrica Alemã de Armas e Munições (Deutsche Waffen und Munitionsfabriken) batizou uma de suas mais famosas criações, a Luger P08, de Parabellumpistole. Entre os anos de 1914 e 1918, mais de dois milhões de exemplares deste modelo foram produzidos e ele se tornou icônico de arma de defesa pessoal.

Curiosidades históricas a parte, voltemos ao importante da expressão popularizada por Vegécio. Ela afirma que a paz só pode ser alcançada pelo uso da força. Em outras palavras, só haverá paz quando as pessoas se sentirem suficientemente amedrontadas para não mais agirem violentamente. É uma lógica que tem forte apelo popular. Para muitas pessoas, a violência só poderá ser diminuída através do armamento generalizado dos cidadãos e de uma ação intimidatória por parte do Estado. Quanto mais armas nas mãos dos cidadãos e quanto mais violenta for a repressão por parte do Estado – polícia e Exército – contra os que praticam a violência, mais tranquila e pacificamente poderá viver a sociedade. Os inimigos da sociedade, sejam eles internos ou externos, só serão inibidos quando aterrorizados ou, no limite, aniquilados.

Foi esta lógica de forte apelo popular que levou à corrida armamentista que resultou na Primeira e na Segunda Guerra Mundial com seus milhões de mortos e incalculáveis perdas humanas e econômicas. Corrida que continuou através da Guerra Fria que quase resultou numa guerra nuclear que poderia ter acabado com a humanidade e boa parte da vida do Planeta Terra. A experiência cotidiana e os dados de todas as instituições que monitoram a violência a nível global indicam, sem sombra de dúvidas que, quanto mais armas em circulação, maior é a letalidade da violência.

Um olhar frio e sério sobe a realidade humana nos ensina que, diferentemente do que dizia o escritor romano e hoje apregoam os armamentistas, deveríamos afirmar: se queres a paz, prepara-te para ela! E o primeiro passo, é renunciar a toda lógica de violência. E o passo mais concreto, é livrar-se de todo e qualquer instrumento que possa fazer dano a outras pessoas.

Para o cristão, isso não é nada novo. É um compromisso que nasce da própria missão recebida de Jesus. Com efeito, quando enviou seus 72 discípulos, Jesus os advertiu claramente: “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” Mas, avisa o Mestre, os discípulos não podem agir como os lobos, pois, agindo como lobos, deixariam de ser cordeiros, deixariam de ser símbolos da paz. Os discípulos devem andar desarmados e sem ostentar nenhum símbolo de poder. E o seu anúncio dever ser o da paz: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro:
A paz esteja nesta casa!” E o anúncio proclamado deve ser tão radicalmente pacífico que precisa ser apresentada sem nenhuma pretensão de imposição. Se os habitantes da casa acolherem esta paz, os discípulos nela podem permanecer. Mas se os habitantes não acolherem a mensagem de paz, o discípulo não deve discutir ou querer impor a paz, pois isto seria abandonar a lógica da paz e aderir à lógica da disputa e do conflito que resultará, inevitavelmente, em violência. Para Jesus, os fins não justificam os meios e não se pode justificar uma ação má nem mesmo quando feita com boa intenção.

A tentação da lógica da violência como meio para alcançar a paz é tão grande que Jesus adverte os 72 discípulos: “…quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós.’” A lógica da violência é tão sutil e pegajosa que se aninha em nossos vestidos – físicos, mentais e espirituais – sem que nos demos conta dela e, às vezes, contra o discurso proclamado, acabamos por reproduzi-la em nossas relações diárias. É preciso livrar-se dela, sacudi-la de nossos corpos, mentes e corações. E isso só pode ser feito com a educação das novas gerações e a reeducação dos que fomos treinados para agir violentamente.

É preciso ensinar as pessoas que “não se pode trocar um aperto de mão com o punho fechado” e muito menos trocar um aperto de mão com armas na mão. Se queremos a paz, preparemo-nos para ela. E o primeiro passo é desarmar a mente, o coração e as mãos.

LULA, ALCKMIN E SUPLICY EM TRÊS ANOS

Poucos dias antes do Natal os noticiários brasileiros noticiaram com ampla repercussão o inusitado jantar promovido pelo grupo Prerrogativas onde se reuniram numerosos personagens da cena política brasileira. Havia para todos os gostos, desde a esquerda, passando pelo centro até a direita mais ou menos moderada e, claro, não faltaram os representantes do dito “Centrão” que, qual geleia mal apurada, se move para o lado onde pende o poder.

O prato principal do jantar, mesmo que muitos não o admitissem publicamente, era a presença simultânea e proposital entre Lula e Alckmin. O petista mor e um tucano de longa linhagem e alta plumagem pronto a saltar do ninho que por tanto tempo o abrigou em busca da vice-presidência. Como não podia deixar de ser, houve críticas e elogios de todos os lados. Nas redes sociais voaram confetes, serpentinas, fogos de artifício, bombas e também maledicências e palavrões. Comentários para todos os gostos. De minha parte, me mantive no silêncio diante do passado ali presente e pensando no futuro que pode acontecer.

A cena seguinte, menos bombástica mas também devidamente registrada, foi o encontro entre Alckmin e o ex-Senador Eduardo Suplicy no sábado de Natal. O objetivo era claro: manter viva a discussão sobre a possível chapa Lula-Alckmin. O efeito foi alcançado. O diálogo PT/Alckmin continua pautando o noticiário político.

No domingo a terceira cena que me moveu a escrever estas linhas: a morte de Desmond Tutu, o incansável bispo lutador contra toda forma de opressão e desigualdade. Mas, acima de tudo, o homem que foi o garante dos acordos que permitiram a superação do regime de apartheid na África do Sul. Liderando a Comissão de Verdade e Reconciliação, fez com que o aperto de mãos entre Nelson Mandela e Fréderic De Klerk não fosse seguido por um banho de sangue de repressão ou de vingança. Sem a Comissão de Verdade e Reconciliação liderada pelo pequeno gigante, todo o esforço político de Mandela e De Klerk poderia ter ido ao chão.

Lula e Alckmin talvez não tenham as dimensões de Mandela e De Klerk. Mas ninguém pode deixar de reconhecer que um representa a luta por um Brasil socialmente mais junto e o outro tem a trajetória da elite que nunca se incomodou com os sofrimentos da maioria do povo pobre e, na grande maioria dos casos, dela se aproveitou.

Na África do Sul havia o apartheid racial e legal. No Brasil, o apartheid social é informal mas não menos real e nem menos cruel que o do país do outro lado do Atlântico. Fico torcendo para que o aperto de mãos entre Lula e Alckmin sele o pacto por uma sociedade mais justa. Mas estou convicto que se não houver uma Comissão de Verdade e Reconciliação sobre as injustiças do passado distante e do presente próximo – entre elas os mais de 600 mil mortos por Covid19 e as múltiplas chacinas de jovens negros nas periferias das grandes cidades – dificilmente iremos além de uma conciliação de elites que nada de novo trará ao povo pobre brasileiro.

E aí a pergunta: quem poderá exercer no Brasil o papel que Desmond Tutu exerceu na África do Sul? Já não temos um Dom Hélder Câmara, nem um Dom Aloísio Lorscheider ou um Dom Paulo Evaristo Arns… As lideranças religiosas brasileiras, ou são silentes ou, em alguns casos, caricatos cúmplices da situação de dor e sofrimento de seus fiéis e de toda a nação. Quem tem autoridade moral hoje no Brasil para liderar um processo de desencobrimento das atrocidades e restauração da convivência entre vítimas e vitimários?

Talvez o provecto ex-senador por São Paulo possa indicar ou ser indicado para esse papel. É um burguês que sempre foi sensível à causa dos pobres. Pode ser a ponte entre o poleiro de tucanos e a estrela que, depois da tempestade, volta a brilhar. Quem sabe! Não custa sonhar com um 2022 melhor que abra caminhos para um novo futuro para o Brasil.

De qualquer foram, Feliz Ano Novo!

Meu fetiche de Natal

Símbolo ou fetiche? A distinção nem sempre é fácil. Muitas vezes o que queremos afirmar com uma das palavras se confunde com o que a outra quer dizer. Ainda mais nestes tempos de imprecisão linguística em que tudo o que é dito pode ser desdito ou entendido de forma totalmente diferente do que é.

Tentando uma aproximação, podemos dizer que símbolo é algo concreto que, por convecção ou analogia, indica algo abstrato. A cruz é símbolo do Cristianismo; a pomba representa a paz; a meia luz crescente o Islã; a foice e o martelo o comunismo; a suástica o nazismo.

Já o fetiche, é algo real e tangível que pretende substituir algo inalcançável. Coube a Sigmund Freud introduzir o conceito de fetiche na análise psicológica. Segundo ele, quando alguém não consegue alcançar o prazer sexual através de uma relação amorosa, pode dar-se prazer com algum objeto que simule a pessoa desejada ou em alguma parte de seu corpo que substitui o todo.

Freud não inventou este conceito do nada. Ele o buscou na etnologia que, desde o séc. XVIII, já o usava para caracterizar as religiões não ocidentais que apresentavam suas divindades agindo em lugares e objetos materiais. Charles de Brosse, primeiro etnólogo a utilizar o termo em um estudo dito científico, provavelmente tenha se inspirado na “caça às feiticeiras” dos séculos que os precederam. Afinal, “feiticeira” é a pessoa que é capaz de fazer com que objetos do quotidiano tenham qualidades divinas e, no limite, seja ela capaz de transformar algo material em sobrenatural.

De forma simples podemos dizer que o símbolo indica uma realidade que é diferente dele e o fetiche substitui esta realidade tomando o seu lugar e suas propriedades. Daí a pergunta que nos vem nestes dias que antecedem o Natal: quais são os símbolos natalinos mais populares? Tente fazer essa pergunta a si mesmo e às pessoas que estão ao seu redor. Pinheirinho, Papai Noel, trenó, renas, peru, chester, panetone, pacote de presente com fita vermelha e verde… serão as respostas mais comuns. Símbolos ou fetiches? No rigor do termo, fetiches. Eles substituíram e roubaram as propriedades daquilo que o Natal representa.

De fato, o menino que nasce em Belém, filho de Maria e de José, é o símbolo da presença salvadora no meio de nós. Ele mostra no concreto de sua fragilidade o projeto de Deus-Javé de libertar seus pequenos da escravidão do Egito, da Babilônia, da Assíria, do Império Grego, do Império Romano e, hoje, do império do consumo capaz de roubar até mesmo a esperança dos empobrecidos.

Queremos Natal, sim. Com muita festa, com muita alegria. Um Natal com seus verdadeiros símbolos: Maria, José, o Menino, o boi, o burro, os pastores, os anjos… Para que eles tenham lugar no presépio de nossas casas, cidades, de nosso país e do mundo, é preciso que nos livremos dos fetiches do capital. Um grande desafio natalino! Que possamos encará-lo com coragem e esperança.

FELIZ NATAL!


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Natal: tempo de alegria

Que o Natal é tempo de alegria, todo mundo sabe. Especialmente o comércio e o turismo que “fazem a festa”. Não a do nascimento do Deus-menino. É a festa do Papai Noel, o maior vendedor de todos os tempos. Um verdadeiro “deus do comércio”. Pensando bem, talvez o velho gordinho seja a versão moderna do deus romano Mercúrio. Apesar das diferenças de peso – Mercúrio é magro e o Papai Noel é gordo – os dois têm várias semelhanças: vestem vermelho, se deslocam voando – um de trenó e outro com asas nos pés – e estão sempre carregando um saco. O de Mercúrio é pequeno, uma simples bolsa amarrada por um cordão e levada nas mãos. O do Papai Noel é grande e levado nas costas pelo idoso. Mercúrio carrega dinheiro. Papai Noel aquilo que o dinheiro pode comprar. Os pais sabem bem disso…

Na verdade, os “presentes” que o dito “bom velhinho” traz não vêm de graça. São cada vez mais caros. Parece que a inflação das terras geladas de onde as renas trazem o trenó é mais alta que a do Posto Ipiranga. E ainda tem os presentes sem graça. Aquelas coisas que ganhamos e não sabemos o que fazer com elas. Ficam entulhando a casa e a gente fica fingindo que gostou apenas para agradar o amigo nada secreto de Natal. Nesta história de presente sem graça, o único que ganha são os comerciantes e os fabricantes de quinquilharias. Mas é o “espírito de Natal”. Não o de Jesus, mas o de Mamom, a versão cananeia de Mercúrio e de Papai Noel.

Mas voltemos ao Natal. O verdadeiro Natal. O do Deus que se faz menino na gruta de Belém, nascido da virgem Maria e de José nos tempos em que Tibério era o Imperador de Roma, Pôncio Pilatos o governador da Judéia, Herodes administrava a Galileia e seu irmão Filipe as regiões da Ituréia e Traconítides e o outro irmão, Lisâneas, governava Abilene. E para não esquecer do poder religioso, Lucas lembra que Anás e Caifás eram os Sumos Sacerdotes de Jerusalém.

É com esta “análise de conjuntura” onde apresenta os poderosos que oprimiam o povo, que o evangelista Lucas inicia sua narrativa da vida de Jesus. Início da Boa Nova que é lido na liturgia do Segundo Domingo do Tempo do Advento. A alegria anunciada por João Batista, o filho de Zacarias e de Isabel. Alegria que não pode ser conquistada com a espada dos poderosos, os incensos do templo e nem comprada com o dinheiro de Mercúrio ou de Mamom e tampouco transportada em um trenó.

A verdadeira alegria é a anunciada por João Batista, o filho do sacerdote que deixou o templo para, qual novo profeta Baruc, anunciar que o reinado de Deus está chegando. Um reinado onde a paz brotará da justiça para com os empobrecidos e a glória de Deus se tornará concreta e real na misericórdia entre os humanos e destes com toda a criação.

Como canta o Salmo 125 nesta mesma liturgia, a verdadeira alegria não é a anunciada pelo “Oh!Oh!Oh” da propaganda da Coca-Cola. A voz que a anuncia é a do Santo que chama os sem teto, os sem trabalho e os sem terra do mundo inteiro para a construção de uma nova sociedade, do Novo Céu e da Nova Terra onde todos serão verdadeiros cidadãos, filhos e filhas de Deus de pleno direito e fato. A alegria do Natal anunciada por João Batista, realizada por Jesus e celebrada no Segundo Domingo do Advento, é a certeza de que “os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” e que são “bem aventurados os que choram, porque serão consolados”.

Um bom esperançar natalino a cada um e cada uma!

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Natal: o símbolo dá o que pensar.

Na manhã de hoje, 23 de novembro de 2021, um caminhão guindaste rompeu o silêncio da Praça de São Pedro no Vaticano. Retirada de cima de um caminhão, uma árvore de 28 metros foi levantada e fixada na vertical. Ali permanecerá até o dia 9 de janeiro de 1922. O majestoso pinheiro, com em torno de 110 anos de idade, é originário de uma floresta sustentável do Trentino, no Norte da Itália. A agência de notícias do Vaticano diz que a árvore será decorada com ornamentos esféricos de madeira e iluminada com lâmpadas LED de baixo consumo.

Colocar uma “árvore de Natal” na praça de São Pedro é uma prática recente. Tem apenas 40 anos. A primeira foi ali colocada em 1982 quando João Paulo II era o Papa. Desde então, a cada ano, várias regiões da Europa disputam o direito de enviar a sua árvore para o Vaticano.

Ao ler a notícias, várias considerações me vieram à mente. Duas quero partilhá-las com os amigos para que pensemos juntos e juntas. A primeira uma inquietação franciscana tão cara ao Papa Francisco, como ele o demonstra na “Laudato Sì”. É uma preocupação ecológica. Quando Francisco de Assis, em Greccio, celebrou o Natal com a população local, fez vir, junto ao presépio, um boi e um burro. Apenas dois animais. Mas o suficiente para mostrar que a salvação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo abarca toda a criação. É um símbolo. E São Francisco, antes mesmo que Paul Ricoeur, sabia que os símbolos dão o que pensar.

E aqui eu penso: em tempos de “Laudato Sì”, de aquecimento global, de devastação da Amazônia, de Sínodo para a Amazônia, ainda faz sentido cortar uma árvore de 110 anos para colocá-la na Praça de São Pedro onde permanecerá por algumas semanas e depois… o que será feito com essa vida de 110 anos que foi interrompida apenas para o deleite visual dos que passam por Roma neste tempo de inverno? Milhões de fotos desta árvore circularão pelas redes sociais. Que mensagem elas levam para o mundo?

A segunda preocupação é sobre a relação entre religião e cultura. Todos sabemos que a data do Natal foi uma apropriação cristã da festa pagã do sol invictus, divindade erigida pelo Imperador Aureliano como religião oficial romana no ano de 274d.C.. Ao buscar uma aproximação com o cristianismo, o Imperador Constantino proibiu o culto ao sol invictus e substituiu o festival de 25 de dezembro pela comemoração do nascimento de Jesus Cristo.

O pinheiro é outro exemplo de apropriação de um símbolo pagão pelo cristianismo. Ele era utilizado por várias religiões para representar a presença da divindade. Quando os missionários cristãos penetraram nas regiões ocupadas pelos germânicos e escandinavos, eles assumiram esse símbolo religioso e incorporaram-no à festa natalina. Lutero, em seu intuito de purificar o cristianismo dos símbolos pagãos e sabendo que não podia contrapor-se a essa tradição, insistia em que a árvore deveria ser triangular para representar nela as três pessoas da Santíssima Trindade. Atitude sábia. Não se pode lutar contra a cultura. Pelo contrário. O cristianismo, assim como todas as religiões, sempre se expressa através dos símbolos culturais compreensíveis às pessoas.

E aqui eu me faço uma segunda pergunta: qual o símbolo da cultura de hoje que mais é associado ao Natal? Temo não estar equivocado ao afirmar que a grande maioria das pessoas hoje, quando pensa em Natal, pensa em Papai Noel. Na maioria dos presépios, desde as casas até os centros comerciais, não há lugar para Jesus. Maria e José continuam rodando por aí em busca de um lugar onde o menino poderá nascer. E é muito provável que tenham que, outra vez, buscar uma manjedoura.

Não creio que seja possível evangelizar o Papai Noel. Mais: temo que o Papai Noel já tenha comercializado definitivamente o Menino Jesus. Por isso, minha opção é radical: nada de presentes no Natal. E, para o presépio, nada de árvores. Nem naturais e muito menos as artificias. No máximo, um presépio artesanal, feito com materiais locais e da economia cooperativa e sustentável.

Isso não muda o mundo. Mas é um símbolo. E o símbolo dá o que pensar.

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A república é misógina?

República. Do latim res publica: aquilo que interessa a todos. Substantivo feminino misógino. Não se assuste! O misógino não está no dicionário. Eu acrescentei. Vou tentar explicar.

Desde a sua primeira configuração histórica conhecida, aquilo que hoje chamamos de república, teve horror a mulheres. Em 509 a.C., quando os proprietários de terras romanos expulsaram os reis etruscos e decidiram inventar outra forma de governar seus interesses comuns, as mulheres ficaram de fora. Só os patres famílias eram proprietários. Consequentemente, só eles poderiam ser eleitos para o senado e toda outra e qualquer função pública. E não eram só as mulheres que não participavam da república. Plebeus, pessoas de origem estrangeira e escravizados não participavam das votações.

A república romana nasceu oligárquica. Era de poucos e para poucos. Vale lembrar: nem todo sistema republicano é democrático. Democracia é bem outra coisa. Os atenienses que o digam. Seu sistema de governo decantado em prosa e versa e teorizado por Platão, não era muito diferente da romana. Na sua Politeia, Platão é claro: há três tipos de pessoas: os trabalhadores, os lutadores e os filósofos. A essa pequena elite que pensa racionalmente cabe o governo da cidade. As mulheres, deixa ele bem claro, se deixam levar pelas emoções. Elas não raciocinam. Por isso não podem ser ativas na república. Seu lugar é dentro de casa e submissas ao varão da casa.

Deixando de lado as repúblicas medievais, vamos direto à revolucionária gesta de 1789 que derrubou a monarquia francesa e instalou ali a república que encantou o mundo. Mesmo instituindo uma mulher – Marianne – como seu símbolo, a nova forma de governo não deu voto às mulheres. Na república burguesa, só os proprietários podem votar. E como as mulheres, legalmente, não são proprietárias, não votam. Simples assim! As francesas só teriam o direito a voto reconhecido em 1945.

No Brasil, a implantação da república só aconteceu devido à misoginia dos militares. Sim! Dom Pedro II tinha uma única herdeira legal, a princesa Isabel. Os dois primeiros rebentos masculinos da Imperatriz Leopoldina, faleceram crianças. Restou Isabel e ela queria exercer seu direito. Três vezes o fez interinamente durante as viagens de seu pai. Na última proclamou a Lei Áurea que assustou os fazendeiros do café e tirou o apoio econômico à monarquia. Mas foram os militares que deram o golpe. Na cabeça da intentona, o monarquista Deodoro da Fonseca. Havia muitas razões para os militares implantarem a república. Uns, educados no positivismo, o fizeram por opção ideológica. Outros, machistas, pelo medo de, em breve terem que obedecer às ordens de uma mulher. A república brasileira nasceu misógina.

Na República Velha as mulheres não votavam. Foi em 1932 que as brasileiras conquistaram direito a voto e elegeram suas primeiras representantes. Vieram vereadoras, deputadas, senadoras e governadoras. Mas tardou até 2010 para que uma mulher fosse eleita Presidenta. E aí a história é recente e conhecida. O golpe de 2016 foi um golpe tipicamente republicano: elitista e machista. Todos lembramos os epítetos, gestos e imagens utilizados para desqualificar Dilma Roussef. Total misoginia. Veio o golpe e temos na presidência uma pessoa que despreza as mulheres dizendo que merecem ser estupradas e expõe em público sua intimidade sexual com a esposa. E o sistema republicano não faz nada para impedir tamanha desfaçatez.

Diante da história passada e do presente que vivemos, só me resta concluir: a república, mesmo sendo um substantivo masculino, revela uma realidade misógina. Talvez seria bom os franceses substituírem a Marianne por um Mariano. E lembrar que para todo Deodoro da Fonseca existe um Silveira Martins! Qu’est-ce que vous en pensez?

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Sobre reformas e concílios.

No próximo dia 31 de outubro celebramos o Dia da Reforma. Nesta data, no ano de 1517, o monge agostiniano Martilho Lutero expôs, como era de costume para as coisas importantes, na porta da Igreja de Wittenberg, 95 teses para uma sessão de Quaestiones Disputatae.

Frei Martinho era professor titular de Bíblia na Faculdade de Teologia da Universidade daquela cidade. Discutir publicamente posições teológicas era uma prática comum na época. O tema central das 95 teses eram as indulgências. Era um tema sensível que mexia com duas questões fundamentais: a salvação da alma e o dinheiro no bolso. Mas não era uma questão simples. Ela mexia com dois tópicos fundamentais da fé cristã e da organização da igreja: a graça salvadora de Deus na cruz de Jesus Cristo e a autoridade do Papa em declarar a salvação em troca de dinheiro.

Lutero sabia que estava mexendo com fogo. Mas ele nunca se propôs a dividir a Igreja. Ele, como tantos outros em seu tempo, queria uma reforma. E o caminho para alcançá-la, como era a tradição mais antiga, se daria com da realização de um concílio. Quando o incêndio se alastrou pelo Sacro Império Romano Germânico e alcançou toda a Europa, ele insistiu na necessidade de um grande diálogo a fim de resolver a questão. O jogo de força entre o Papado, o Imperador, os príncipes alemães e o rei da França tornaram o Concílio impossível. Cada um defendia seu interesse e os ideais do Evangelho ficaram em segundo plano. A crise prolongada pela não vontade de dialogar desaguou na tragédia. Quando Paulo III, em 1546, finalmente aceitou a realização do Concílio, já era tarde. A divisão do cristianismo no Ocidente estava consolidada e perdura até hoje. Trento erigiu uma das posições teológicas em dogma e declarou todos os que pensavam diferente como excluídos da Igreja.

Cincos séculos depois, no mesmo mês de outubro, quem convoca um Sínodo para a reforma da Igreja é o Papa Francisco. É o Sínodo sobre a Sinodalidade que se estenderá até outubro de 2023. A abertura já foi dada no dia 10 passado. O caminho foi aberto com uma chamada à ampla participação de todos os católicos, cristãos de outras igrejas, pessoas de outras religiões e também de quem não expressa nenhuma profissão religiosa. É um convite à escuta e ao discernimento para um caminhar conjunto de todos e todas. Um caminho sinodal aberto e inclusivo e esperançoso na direção de uma Igreja servidora do Evangelho.

As respostas até agora vista são variadas. Alguns aderiram com entusiasmo e já se puserem a trabalhar. Um número significativo reagiu com resignação, entrando no processo sem muito entusiasmo, mais por conveniência do que por convicção, numa mal disfarçada resistência passiva. Outros se opuseram abertamente à proposta recusando-se a participar e estimulando outros a boicotar o Sínodo numa clara atitude sectária.

O que acontecerá com a Igreja Católica Romana no decurso destes três anos de processo sinodal? Qual será o resultado final de tudo isso? Conseguirá o Papa Francisco romper com a inércia das instituições e a resistência das corporações eclesiásticas?

Nada é previsível. Tudo está em aberto. Neste cenário de incertezas, é bom lembrar que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem”. Se há decisões pessoais, como as do Papa Francisco, em promover o diálogo, sobre elas pesam as circunstâncias que não são de sua escolha e com as quais são confrontadas as vontades individuais. E, no quesito de tentativas de diálogo e conciliação, a Igreja tem um pesado legado de contradições, fechamentos, agressões e rupturas.

Tendo isso presente, aos que acreditamos na proposta sinodal de Francisco, só nos cabe agir e rezar para que a tragédia do séc. XVI não se repita como farsa neste início do séc. XXI.

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Nossa bandeira nunca será vermelha!

Talvez você lembre da Rosângela. O vídeo dela viralizou. Foi em novembro de 2018. O contexto era uma manifestação no Congresso Nacional a favor de um golpe militar. A jovem senhora parou diante de uma bandeira do Japão ali presente e, com seu celular, gravou um vídeo. Com voz rouca e aos gritos, ela apontava para o “símbolo comunista” que, segundo ela, havia substituído a verde-amarela brasileira.

Jogado na internet pela própria Rosângela, o vídeo rodou o mundo e inspirou dezenas de memes. Dias depois, Rosângela se retratou da confusa identificação entre a bandeira do Japão e uma suposta bandeira comunista. Mas continuou a insistir que “nossa bandeira jamais será vermelha”.

O “equívoco” visual de Rosângela não foi único naqueles dias. Houve carros vermelhos apedrejados pelo simples fato de serem vermelhos. Amigos meus evitavam sair às ruas com roupas vermelhas. Nos parquinhos das praças, os brinquedos vermelhos foram repintados em verde ou amarelo. A tinta vermelha sumiu das lojas de materiais de construção. Lojista nenhum arriscava ser tachado de comunista por vender qualquer item com a perigosa cor.

Mas Rosângela não foi a única “cidadã de bem” em ver por todos os lados a ameaça comunista. Ela foi apenas uma entre milhões de brasileiros e brasileiras que, levados pela velha teoria da conspiração do “marxismo cultural”, a ver comunismo por todos os lados: na bandeira vermelha do Japão, nas ciclovias de São Paulo, nas cores dos semáforos, nos direitos humanos, na defesa da Amazônia, na Campanha da Fraternidade da CNBB, nos materiais didáticos das escolas primárias, nas Universidades… Até as novelas da Globo e os filmes do Netflix eram vistos como propaganda esquerdista. Ah! E houve os casos de ameaças imaginárias como a nunca localizada “mamadeira de piroca” e o jamais encontrado “kit gay”. Se alguém, por acaso, tiver algum exemplar desses itens, favor enviar. E aí, sim, teremos finalmente a comprovação da materialidade da ameaça do “marxismo cultural”.

Efetivado o golpe parlamentar de 2016 e a trapaça judicial que tirou o candidato da oposição do páreo, um novo governo foi eleito em 2018 em base a fake news. E aí uma outra bandeira vermelha começou a aparecer pelo Brasil. Ela foi vista no fundo de uma piscina na casa de um professor em Santa Catarina. Foi riscada por três homens na pele de uma jovem em Porto Alegre. Foi estampada na logomarca de um supermercado na Bahia. Quatro homens a desenharam na testa de um jovem gay de Itaguara, na Grande Belorizonte. Foi pintada sobre um mural da campanha de prevenção ao câncer de mama em Dourados. Enfeitou a braçadeira de um jovem que passeava por um shopping em Caruaru. Outros jovens desfilaram braçadeiras com a mesma bandeira vermelha em Unaí e Curitiba. A mesma foi desfraldada por homens vestidos com as roupas rituais da Ku Klux Klan no Parque Moinhos de Vento em Porto Alegre. Membros do mesmo grupo invadiram, no último dia 20 de outubro, a Câmera de Vereadores de Porto Alegre, em protesto contra a vacina. Em suas mãos, outra suástica nazista.

Será que a bandeira vermelha nazista está substituindo a verde-amarela brasileira? Onde está a Rosângela para proclamar que “nossa bandeira nunca será vermelha”?

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Professor: um risco prazeroso

Ser professor é uma opção arriscada. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, em todos os países do mundo, é uma das profissões com os mais altos índices de stress. No Brasil, a pressão emocional vem acompanhada pela baixa remuneração. Num ranking de 48 países organizado pela OCDE, os professores e professoras brasileiros são os mais mal pagos. Junte-se a isso, a falta de reconhecimento social. São raros os docentes que já não ouviram a pergunta: “Você não trabalha? Só dá aula?” Como se “dar aula” não fosse trabalho!

Por que persistimos, então, nessa ocupação? Pelas razões de qualquer outra profissão: necessidade e satisfação. Por necessidade, porque todo ser humano, para sobreviver, precisa trabalhar. E ensinar é um labor como qualquer outro que busca a justa remuneração para a satisfação das necessidades básicas e dos prazeres que a vida humana merece.

E há também a satisfação como deveria haver em qualquer outra profissão. Uns sentem prazer em jogar futebol, em arar a terra, em esculpir ou desenhar, fabricar carros, cozinhar, limpar uma casa, vender… E nós sentimos prazer em ensinar, em transmitir conhecimento e em ver pessoas crescerem no saber e no ser. É neste último aspecto que está o maior prazer do professor e da professora.

Prazer que, há de se reconhecer, vem sempre acompanhado de uma dose de ansiedade. Afinal, o que vai ser desta criança, jovem ou adulto com o qual ocupamos nossas horas e dias?

Ser professor é viver a vida no futuro do pretérito. Quais vão ser as consequências futuras daquilo que ensinamos às pessoas do hoje que já é ontem? Pergunta difícil que, como diz o tempo verbal, mesmo sendo do modo indicativo, é sumamente dubitativo, marcam o dia a dia do professor e da professora.

Afinal, pessoas não são coisas nem máquinas. Não são determináveis. Não podemos moldá-las conforme nossos desejos e interesses. O êxito de nosso trabalho não depende, em última instância, de nós. Está assentado na acolhida e cultivo do que semeamos por parte de quem está à nossa frente. Ele é o sujeito. Nós, apenas os meios.

A maioria dos estudantes passa pelas nossas vidas e desaparece… Nunca mais os vemos ou temos notícias. Mesmo daqueles e daquelas que pareciam tão próximos. Outros aparecem muito tempo depois, quase sempre por acaso. Aparições que podem trazer alegria ou dor. Às vezes a notícia não é boa. Aquele ou aquela que um dia foi nosso aluno tomou um rumo na vida que o fez infeliz. Outras vezes a alegria explode ao descobrirmos que todo aquele potencial que apenas vislumbrávamos agora desabrochou e está a nossa frente uma pessoa realizada e transbordante de contribuições para a sociedade.

E a culminância do prazer do professor acontece quando um daqueles jovens que havia desaparecido da memória te encontra e diz: “Eu achava as suas aulas chatas e você muito exigente, mas agora me dei conta de como aquilo era importante e está sendo útil em minha vida”.

Mas há um degrau a mais, o suprassumo da razão de continuar na profissão de professor. É quando alguém chega e te diz: “As suas aulas me ajudaram a mudar o rumo da minha vida. Foi ouvindo a sua explicação que tomei uma decisão que foi decisiva para mim”. É uma frase que não tem preço. Ela compensa todas as horas mal pagas e arduamente trabalhadas. Ouvi-la, uma vez que seja na vida, justifica todos os esforços de quem se dedica ao ensino. É a realização antecipada de tudo o que sonhamos. É o presente do futuro.

Tenho o prazer de dizer que já ouvi essa frase. E foi  muito bom ouvi-la! Por ela e por todas as outras, agradeço a cada um e cada uma que, nestes 22 anos de magistério, partilharam a sala de aula comigo. Obrigado!

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São Francisco e os animais

Início de outubro e a mesma cena em inúmeras Igrejas: filas e filas de pessoas com seus animais para serem abençoados. A maioria são cães. Também há muitos gatos. E pássaros de todas as cores e plumagens. E não deixam de aparecer as lagartixas, tartarugas, peixes e iguanas. E alguns até estranhos para a vida doméstica: galinhas, mini-porcos, cabras, guaximins…

Estima-se que hoje, no Brasil, haja em torno de 150 milhões de animais domésticos: 55 milhões de cães, 25 milhões de gatos, 25 milhões de peixes ornamentais, 40 milhões de aves ornamentais e 2,5 milhões de répteis e pequenos mamíferos. Toda esta população animal gera um mercado de aproximadamente 40 bilhões de reais. Em plena pandemia, o “mercado pet” foi um dos que mais cresceu no Brasil: 13,5% no ano de 2020. Apenas para efeito de comparativo, o Bolsa Família, programa do governo federal destinado ao segmento mais pobre da população humana brasileira e que atende de 15 milhões de pessoas, teve, em 2019, um orçamento de 30 bilhões de reais.

A tendência, segundo especialistas do setor pet, é a de “humanização dos animais” com oferta de produtos premium, rações especiais e produtos de higiene que facilitam a convivência dos bichos de estimação com os humanos, bem como serviços veterinários, banho, tosa, fitness e hotelaria. Segundo um dos maiores empresários do setor, “o animal que ficava do lado de fora da casa e se alimentava com restos de comida, virou um filho”. Nesta descrição, claro, não estão incluídos os animais que acompanham as milhares e milhares de pessoas que, em todas as cidades do Brasil, desde as metrópoles até as pequenas interioranas, vivem na rua e se alimentam das sobras das comidas que já não são destinadas aos animais.

Mas voltando à bênção dos animais nos perguntamos: o que diria de tudo isso o santo que é invocado como protetor dos animais? Nessa questão que sempre provoca muita polêmica, é melhor deixar o santo falar. Na Primeira Regra, Francisco fala explicitamente da questão e diz: “Ordeno a todos os meus irmãos que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma”. É uma das poucas ordens que Francisco dá aos irmãos. Normalmente, ele pede ou aconselha. Aqui, ao se tratar de animais, ele ordena que os frades jamais os possuam.

Mas então, São Francisco não gostava dos animais? Ele gostava, sim. Podemos vê-lo em várias passagens das diversas biografias do santo. No relato de Tomás de Celano, há três episódios que mostram a relação que o Santo de Assis estabeleceu com três animais: um pássaro aquático, um faisão e uma cigarra. O pássaro aquático é trazido a Francisco por um pescador a fim de alegrar o santo em sua doença. Depois de ouvir o pássaro, ele “ordenou com bondade à ave que voltasse sem medo à sua primitiva liberdade”. Ao faisão, Francisco deixa a liberdade para escolher entre “morar conosco ou ir para os lugares de costume, que são mais adaptados para ele”. Quanto à cigarra, depois de desfrutar de seu mavioso canto, Francisco a despede para que parta livremente.

Quanto ao famoso Lobo de Gubbio, Francisco não o acorrenta e nem o encerra num tenebroso canil. Simplesmente o alimenta e lhe permite retornar a seu ambiente original.

Francisco ama os animais. Mas como seu amor é verdadeiro, não os quer submissos e a serviço do seu prazer. Ele quer os animais livres, vivendo em seu ambiente natural e sendo o que eles são e não instrumento para a satisfação das carências humanas. Quem escraviza animais pelo prazer que eles lhe proporcionam ou para suprir as próprias carências, não está vivendo o espírito de São Francisco. Muito antes pelo contrário…

O que fazer, então, com os 50 milhões de animais presos nas casas e apartamentos. Libertá-los seria condená-los à morte na selva urbana. É responsabilidade de quem os aprisionou cuidá-los até o fim de suas vidas. E, mais importante ainda, interromper o mercado de exploração animal não comprando outros para substitui-los na escravidão.

Quanto aos humanos que não conseguem viver sem o amor de um animal, para esses, talvez seja aconselhável procurar um psicólogo e desvendar as razões que o impedem de amar e deixar-se amar por humanos. O amor, como lembra outro santo medieval, Santo Tomás de Aquino, nos torna iguais àquilo que amamos. Se amamos a Deus, nos tornamos divinos. Se amamos os humanos, nos humanizamos cada vez mais. Quanto aos animais, cabe-nos apenas deixar que vivam livres em sua animalidade feliz.

Que São Francisco nos ajude neste caminho.

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