ADVENTO É ESPERANÇAR!

“O futuro a Deus pertence!” diz a sabedoria popular. E a voz do povo é a voz de Deus! No que tange ao quesito “futuro”, nada mais exato do que dizer que o único que sabe o nosso futuro é Deus. Quantos planos já fizemos, quantos sonhos já sonhamos, quantos caminhos desenhamos, quantos mundos desenhamos… No entanto, nem sempre o planejado se realizou, os sonhos se desfizeram em fumaça, os caminhos se perderam no tempo e quantas pinturas as chuvas do tempo desfizeram!

Não conhecer o futuro pode ser angustiante. Mas também pode ser reconfortante. Faz-nos tremer o fato de não ter a segurança sobre o que vem pela frente. Faz-nos vibrar a possibilidade de que os males do presente possam ser no futuro superados, o que nos prende possa enfim ser desatado e possamos caminhar livres e realizados em todas as dimensões.

Já imaginou se soubéssemos hoje tudo o que nos vai acontecer amanhã? No amanhã próximo do dia que vai nascer e no amanhã longínquo das décadas que virão? Não teria graça. Com certeza! Seria muito monótono. O bom da vida é o imprevisível, o surpreendente o totalmente novo que hoje não pode ser vislumbrado e nem sequer imaginado mas que já está anunciado e, temos certeza, vai acontecer.

Entre as duas atitudes extremas – a segurança absoluta e o futuro totalmente aberto – está o esperançar. O caminhar com os pés no chão, os sonhos no infinito e a mente e as mãos em ação. Comprometer-se com o presente sem deixar de sonhar o futuro. E viver o futuro já no presente que ainda precisa ser transformado.

É a esse esperançar que nos convida o Tempo de Advento. A exemplo de Maria que, ao saber de que o futuro de Deus estava para acontecer, não esqueceu de acudir à sua prima Isabel. Saiu da segurança de Nazaré para o inóspito das montanhas levando consigo a esperança do futuro já a acontecer em seu ventre e no ventre do mundo.

E do encontro da dureza do presente no ventre de Isabel à leveza do futuro do ventre de Maria, nasce o canto da esperança no Deus que desconcerta os corações dos soberbos, derruba do trono os poderosos e exalta os humildes, sacia de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias.

O tempo se aproxima. Faltam poucos dias. Vamos festejar. Vamos esperançar. O futuro já e presente para os que tem a cabeça nas nuvens da esperança e os pés no chão da humanidade, aqueles e aquelas que sabem esperançar.

ADVENTO É JÚBILO

O Terceiro Domingo do Advento é o Domingo da Alegria. Em latim, é o Domingo Gaudete. Mesmo que na tradição da Língua Portuguesa se use a palavra “alegria”, a tradução mais fiel seria Domingo do Júbilo. Mas isso é apenas uma preciosidade linguística. Alegria e júbilo são sentimentos muito próximos. Poder-se-ia dizer, praticamente iguais.

Voltando ao Domingo do Júbilo ou da Alegria, neste terceiro domingo o uso de instrumentos musicais, de flores e outros adereços litúrgicos pode ser feito com menos moderação que o recomendado nos outros domingos deste tempo litúrgico. Qual a razão de tudo isso? Simples: o Terceiro Domingo do Advento indica que a metade do percurso na espera da chegada do Filho de Deus já ficou para trás! Está se aproximando o dia da grande festa da manifestação de Deus no meio de nós em forma humana na criança que nasceu de Maria de Nazaré em uma estrebaria em Belém da Judeia, protegida por José, rodeada por pastores e animais e festejada pelos anjos do céu.

Mas o que mais chama a atenção da maioria das pessoas é que, neste Terceiro Domingo do Advento, o Presidente da Celebração pode usar vestes de cor rosa. Muitos se admiram desta cor litúrgica utilizada apenas duas vezes por ano, neste domingo e no Quarto Domingo da Quaresma, o Domingo Laetare, literalmente, Domingo da Alegria.

Mas, por que a cor rosa? No Ocidente moderno, a cor rosa é ligada à feminilidade, sensibilidade, carinho, ternura, afeto. Para muitos marcados por uma tradição machista e preconceituosa, o rosa é também identificado com a homossexualidade ou, pelo menos, com uma masculinidade duvidosa. Mesmo hoje e na cultura urbana, são poucos os homens que se permitem utilizar alguma vestimenta de cor rosa. Uma das exceções são os presbíteros no terceiro domingo do Advento! E isso sempre levanta comentários nada agradáveis de parte de alguns fieis.

Mas a cor rosa, assim como as demais cores, não tem o mesmo significado em todos os tempos e todos os lugares. O significado das cores é algo que se constrói culturalmente e varia de lugar para lugar, de tempo para tempo e de cultura para cultura.

A maioria dos manuais de Liturgia e das páginas da Internet que tratam de temas litúrgicos somente afirma que se usa rosa porque é o Domingo da Alegria. Mas por que o rosa e não outra cor. Não encontrei nenhuma explicação que fosse satisfatória nos livros, blogs e sites litúrgicos. Curioso, fui buscar na História da Arte. E encontrei uma informação preciosa. A cor rosa ganhou destaque ao aparecer na história da arte associada à religião. Nas obras de Duccio e Cimabue do século XIII, por exemplo, o Menino Jesus era retratado vestido de rosa, que era a cor associada ao corpo de Cristo. Já a figura de Maria era revestida com roupas de cor azul e o divino e tudo o que a ele era associado, de cor púrpura.

Tudo aquilo que fosse associado ao divino, era representado com tons de púrpura. Quanto mais divino, mais forte a cor. Quanto mais distanciado da divindade absoluta, a cor ficava mais esmaecida. Ora, o rosa é o meio caminho entre o branco e o púrpura. Ele representa a divindade a caminho de manifestar-se plenamente na pessoa de Jesus de Nazaré nascido de Maria em Belém da Judeia. Para dizer, de forma concreta e visual esse fato que tanta alegria traz para a humanidade, a cor rosa é a cor do Terceiro Domingo do Advento. No dia 25, o rosa se transforma em vermelho e a alegria é plena!

Rejubilemo-nos então, sem medo e sem preconceito, com a Salvação que já está no meio de nós.

ADVENTO: TEMPO DE HUMANIZAR

Presente de Deus que não e uma coisa, um objeto, uma comida e muito menos é carregado em um trenó por um senhor estranho vestido de vermelho. O presente que Deus traz para a humanidade vem carregado no seio materno de Maria e é o próprio Deus que se faz presente no meio de nós na pessoa do menino indefeso nascido numa estrebaria em Belém da Judeia.

É uma data paradoxal. Nela dizemos que o que há de vir, na verdade, já aconteceu e que o futuro da humanidade está num evento passado que aconteceu há dois mil e poucos anos. Um paradoxo apenas aparente. Na verdade, a temporalidade que o Advento propõe a celebrar não é a cronológica, o suceder de segundos, minutos, horas, dias, semanas, anos que constituem o curto período de nossas vidas e da humanidade. A temporalidade que o Advento convida a celebrar é a kairológica, a fatualidade da presença de Deus não apenas em meio à humanidade mas na própria humanidade e não em qualquer humanidade. Deus se faz presente na humanidade mais frágil, mais desprezada e, por isso, mais temida quando nela se reconhece a presença de Deus.

Quem é Maria? Quem é José? Quem é aquele que vai nascer? São habitantes da Judeia que, para sobreviver, migraram para a Galileia e que, ao voltar para sua cidade natal, ninguém os reconhece como dos seus e, mesmo estando Maria a ponto de dar à luz, encontram como único lugar para abrigar-se da noite, do vento e do frio do inverno, uma gruta que servia de abrigo para os animais.

Mas é neles que Deus se faz presente no meio de nós. Essa é a boa notícia dos novos tempos que estão por chegar. O dia em que todas as pessoas, por mais humilde e sofrida que seja sua condição, sejam reconhecidas como morada de Deus. Para isso é preciso ter o olhar atento dos pastores que vigiam noite e dia, a pureza dos anjos que não fazem acepção de pessoas e a sabedoria dos estrangeiros que vem de longe para adorar o novo rei que vem governar o mundo não com o poder das armas, mas com a suavidade de uma humanidade plenamente assumida e transfigurada.

OS NOVOS GENTIOS

A realização do Reino implica na denúncia do anti-Reino. Como nos mostra a ação de Jesus nos Evangelhos, para que a Boa Nova do Reino se manifeste e seja conhecida, é preciso expulsar os demônios que escravizam e alienam as pessoas. Sem isso, a missão pode resumir-se a espetacularismo banhado por um falso irenismo em que nós, brancos que ocupamos os espaços sociais e eclesiais de poder e saber, nos arvoramos em anunciadores da Boa Nova aos coitados periféricos que vivem nas trevas da ignorância e da pobreza.

Na tradição católico-romana brasileira, o mês de outubro é, tradicionalmente, dedicado às missões. Nele, os membros da igreja são chamados a colaborar para que a Boa Nova de Jesus Cristo seja anunciada em todos os lugares. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, através de seus diversos organismos e meios, volta-se para que o espírito missionário se mantenha vivo e amplie em todas os espaços eclesiais.

Conforme as Pontifícias Obras Missionárias, principal braço operador da Campanha Missionária, neste ano de 2024 foram enviados 290 mil livros de novenas, 155 mil cartazes, 810 mil mensagens do Papa, 5 milhões de santinhos e 6 milhões de envelopes para a coleta missionária. Uma ação digna de louvor nestes tempos em que muitos católicos são seduzidos por uma espiritualidade autorreferencial pregada por “influencers” católicos preocupados acima de tudo com a manutenção de seus currais eclesiais e a monetização de suas redes sociais.

Em meio a tamanho e louvável esforço, há um detalhe que me chamou a atenção. É o do vídeo de promoção da Campanha Missionária. A qualidade técnica do vídeo contrasta, a meu modo de ver, com uma proposta missionária que parece não responder aos tempos e lugares atuais de missão. Não sou especialista em Missiologia, reconheço. Mesmo assim, arrisco algumas considerações que, peço, caso eu esteja equivocado, corrijam na devida forma e conteúdo para que possamos juntos crescer como testemunhas da fé que recebemos no batismo.

No meu modo de sentir, parece-me que o vídeo repete o clichê tradicional de que os gentios a serem evangelizados são os indígenas da Amazônia, os africanos e os pobres das periferias urbanas. Em todo o vídeo, há apenas duas cenas urbanas. E são das periferias das cidades onde, na imagética do vídeo, estariam os gentios a serem evangelizados. E esses gentios das periferias urbanas, não por acaso, são quase todos negros! E mais: em quase todas as situações apresentadas pelo vídeo, os missionários são pessoas brancas.

Não seriam essas imagens indicadoras de um colonialismo, rejeitado no conceito, mas mantido e praticado no inconsciente eclesial? Os conceitos revelam o consciente. As imagens, muito mais poderosas, manifestam o inconsciente que permanece para além de toda elaboração teológica e pastoral.

Mas há um problema ainda mais profundo. É o de saber quem, realmente, precisa ter acesso à Boa Nova de Cristo. Precisa dela o nativo da Amazônia que vive harmonicamente com a floresta, os rios, os animais e o seu grupo humano ou o fazendeiro sulista que vai ao norte para derrubar a floresta, vender ilegalmente a madeira e plantar pasto para criar gado ou soja para exportar para a China, Europa e Japão sem preocupar-se com as mudanças climáticas geradas por sua ação ecocida? Precisa da Boa Nova o africano que sobrevive em um ambiente comunitário partilhando com seus familiares amplos os recursos da natureza e do trabalho ou o branco europeu ou norte-americano que para lá vão para saquear os recursos naturais abundantes daquele continente assim como fizeram no tempo da escravidão ao saquear os recursos humanos construídos ao longo de milênios? Precisa da Boa Nova o morador da periferia que, mesmo na pobreza e acossado a cada dia pela violência da polícia, do tráfico e das milícias ainda consegue garantir a sobrevivência para seus familiares e ainda partilhar gratuitamente com os vizinhos e amigos que vivem a mesma situação ou o especulador imobiliário que, manipulando o poder público, empurra as pessoas pobres e pretas para periferias cada vez mais distantes dos lugares de trabalho e dos equipamentos públicos de educação, saúde, cultura e lazer?

Como mostra o vídeo institucional – e isso é muito louvável -, para os habitantes da Amazônia, da África e das periferias urbanas, a missão cristã leva a Boa Nova da Esperança. Mas como não mostra o vídeo – e isso é muito lamentável -, a missão cristã é também palavra profética que denuncia as causas das situações de pobreza e marginalidades urbanas, regionais e continentais.

A realização do Reino implica na denúncia do anti-Reino. Como nos mostra a ação de Jesus nos Evangelhos, para que a Boa Nova do Reino se manifeste e seja conhecida, é preciso expulsar os demônios que escravizam e alienam as pessoas. Sem isso, a missão pode resumir-se a espetacularismo banhado por um falso irenismo em que nós, brancos que ocupamos os espaços sociais e eclesiais de poder e saber, nos arvoramos em anunciadores da Boa Nova aos coitados periféricos que vivem nas trevas da ignorância e da pobreza. Foi com essa intenção que, na segunda década do séc. XVII, na sequência do Concílio de Trento, foi fundada a “Propaganda Fide”. Mas já estamos no séc. XXI e o Concílio Vaticano II está a completar 60 ano de sua realização em que propôs uma nova forma de pensar a missão.

SÍNODO SOBRE A SINODALIDADE OU TRENTO II?

Pope Francis and participants begin a working session of the assembly of the Synod of Bishops in the Vatican’s Paul VI Audience Hall, Oct. 13, 2023. (CNS photo/Lola Gomez)

Em recente postagem numa rede social escrevi que “em plena Segunda Sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, me sinto às vésperas do Concílio de Trento”. A postagem gerou diferentes reações. Uns corroborando minha afirmação e trazendo situações em que eles/as têm o mesmo sentimento. Outros, perguntando o porquê de minha afirmação.

Aos primeiros, digo que compreendo e me solidarizo com seus sentimentos em relação às situações eclesiais em que lhes cabe viver. Aos segundos, devo uma explicação. E ela é simples, se a encaramos do ponto de vista histórico e eclesiológico. O fato é que o Concílio de Trento (ou Sínodo de Trento, pois naquela época não se fazia distinção na nomenclatura), foi o primeiro da história da Igreja em que a participação foi restrita a clérigos. Todos os concílios/sínodos anteriores tiveram a presença de leigos. Homens e da nobreza, sim, mas leigos. E isso não mais aconteceu nos três concílios a partir de Trento, ou seja, o próprio tridentino, o Vaticano I e o Vaticano II.

Agora, no Sínodo sobre Sinodalidade, temos a participação de leigos e também de leigas de todas as classes sociais. Participação essa que não é tranquila para os que se sentem desclassificados em seu tradicional privilégio. Mesmo que não o verbalizem, muitos, até dos que estão em Roma nestes dias, devem estar pensando: “Como que agora ‘qualquer um’ pode participar do Sínodo?” A pergunta é: nos próximos sínodos e concílios, continuaremos a ter a participação de leigos e leigas ou, num imaginário Trento II, só poderão participação clérigos homens da nobreza hierárquica eclesial?

Essa primeira questão, trazida para os âmbitos continentais, nacionais, regionais, diocesanos, paroquiais, reverbera de forma muito mais crua e, em alguns casos, até violenta em muitas comunidades, paróquias, dioceses e conferências episcopais.

Mas o Concílio de Trento, depois de três décadas de crise institucional, teve que decidir sobre outra coisa muito importante: se a Igreja Católica e Apostólica continuaria a ser uma igreja plural ou ela seria uniformemente romana. A segunda opção foi a que prevaleceu no tridentino. Uniformidade organizacional, bíblica, teológica, litúrgica, canônica, ministerial, catequética, sacramental, moral. O Papa Francisco na Amoris Leititia, afirmou “reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais” (AL, 3), quer uma Igreja plural, diversa, poliédrica. Uma Igreja “que seja um lugar para todos, todos, todos”, como afirmou diante do milhão de jovens reunidos em Lisboa para a JMJ.

É para essa Igreja verdadeiramente católica que o Papa convocou o Concílio. Mas o que vemos no dia a dia de nossas paróquias, dioceses e movimentos é muitas vezes o contrário: uma uniformização sufocante onde chega-se ao extremo de obrigar a todos/as a receber a comunhão numa forma que é, simbolicamente, tudo o contrário do proposto pelo Papa Francisco e que chega ao exagero de controlar as roupas com que as mulheres vão à Igreja. Não é exagero! Presenciei e muitos dos pacienciosos leitores devem ter presenciado cenas semelhantes. Sem falar nas outras uniformizações em padrões que excelsam um passado que só existe no imaginário de seus teatrais executores que não se dão conta de sua atuação momesca.

Temo que os resultados do Sínodo, mesmo que caminhem na direção de uma diversidade eclesial que possibilite a vivência da fé cristã nas diferentes culturas e realidades, dificilmente sejam aceitos por muitos ministros das diversas instâncias eclesiais que se acreditam guardiões de uma tradição morta que, em si mesma, não é tradição, mas tradicionalismo.

Para não delongar, só mais um tópico. Para tirar a Igreja da crise de credibilidade gerada pela simonia e nicolaísmo (para não delongar o texto sugiro que consultem o Google!), o tridentino, através do decreto Cum Adulescentia Aetatis  decidiu pela criação de seminários. Ingressados antes de serem contagiados pelos males do mundo, os meninos seriam transformados e sábios e obedientes regidores dos fieis da Igreja. O modelo deu certo e, durante quatrocentos anos, tivemos legiões de padres que serviram digna e fielmente à Igreja mantendo-se completamente apartados dos problemas do mundo.

Esse lado positivo da decisão de Trento, teve como contrapartida negativa a reclusão da Boa Nova de Cristo ao âmbito da sacristia. Apartados do mundo, os Ministros de Deus deixaram que o mundo se apartasse da Igreja e de Deus. No pré e no imediato pós-Vaticano II tivemos vários ensaios de novas formas de formação e vida dos presbíteros. “Padres operários” e a inserção das casas de formação de presbíteros e religiosos/as são exemplos desse movimento que foi abafado pela “volta à grande disciplina” (como dizia o saudoso J. B. Libânio) nos papados de João Paulo e Bento XVI.

O Sínodo para a Amazônia tentou retomar a temática dos ministérios na Igreja. Não foi possível. Agora a questão é retomada pelo Sínodo sob dois aspectos: ordenação de homens casados, ordenação de mulheres e formação do clero.

Não sabemos o que o Sínodo encaminhará. Só depois do final é que se saberá. Mas o que todos experimentamos é que o clericalismo está campeando cada vez mais nos mais diferentes espaços eclesiais e, apesar de todos os esforços do Papa Francisco, os abusos de poder, de consciência e, em certos casos, abusos sexuais, parecem tornarem-se mais fortes na medida em que o poder absolutizado e sacralizado de alguns sobre o Povo de Deus é questionado.

Por essas e outras razões, tenho minhas dúvidas: o Sínodo sobre a Sinodalidade não corre o risco de ser transformado em um Trento II? Não esqueçamos que, antes do Concílio de Trento, tivemos os Concílios de Lyon (1245 e 1274), Viena (1311-1312), Constança (1414-1418), Basileia-Ferrara-Florença-Roma (1512-1517 e Latrão V (1512-1517) que tentaram reformar a Igreja e não conseguiram. E aí veio o Concílio de Trento que enterrou de vez as teses conciliaristas que invocavam a descentralização e a pluralidade na Igreja. Um Concílio ou um Sínodo que não alcança seus objetivos pode dar voz e força aos que a ele se opunham. Por isso o meu medo eclesiológico que só é contido pela fé e pela esperança.

E DEPOIS DA GUERRA?

A chamada Segunda Guerra Mundial foi a última grande guerra que teve como palco de conflitos o Velho Continente. A Guerra Fria resultante da polarização entre o mundo capitalista sob a hegemonia dos Estados Unidos e os países socialistas sob a tutela soviética deslocou os conflitos para as periferias. Coreia, Cuba, Vietnam, Camboja, Birmânia, Guatemala, El Salvador Nicarágua, Angola, Moçambique, Argélia, Iêmen, Colômbia, Afeganistão… a lista de conflitos é infindável com milhões de mortos que ultrapassaram em dezenas de vezes os que morreram, todos os lados somados, na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais. Mas como eram mortos da periferia, eram apenas números e, muitas vezes, subestimados para que a crueldade dos reais patrocinadores não chamasse a atenção.

Apenas como exemplo, nos Estados Unidos, a guerra do Vietnam só se tornou insustentável quando os caixões começaram a desembarcar aos milhares nos aeroportos norte-americanos. Foram em torno de 60 mil soldados mortos e mais de 200 mil feridos. Do lado vietnamita, estima-se em um milhão e duzentos mil soldados mortos e dois milhões de civis também vítimas fatais da guerra. Ao todo, mais de três milhões de mortos. A Guerra da Coreia havia deixado aproximadamente o mesmo número de mortos entre os nativos e o mesmo número entre os soldados norte-americanos.

No levantamento “How Death Outlives War: The Reverberating Impact of the Post-9/11 Wars on Human Health” (Como a morte sobrevive à guerra: o impacto reverberante das guerras pós-11 de setembro na saúde humana) produzido pelo Watson Institute International & Public Affairs, da Brown University da cidade de Providence, Estado de Rode Island, estima-se que a Guerra ao Terror consequente aos atentandos do 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova Iorque, tenha resultado em pelo menos 4,5 milhões de pessoas mortas  no Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria, Iêmen, Líbia e Somália. Agregue-se a esse número de por si assustador os milhões de refugiados que foram morrer nas costas do Mediterrâneo ou no Mar do Norte.

O perigo da guerra só assustou a Europa quando, nos anos 1990, a desintegração da antiga Iugoslávia resultou numa série de conflitos étnicos. Mas o conflito foi visto, majoritariamente, como um resquício da barbárie comunista que não passaria da periferia do civilizado Ocidente.

O cenário mudou quando, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia, reagindo às provocações da OTAN, ocupou partes do território ucraniano com maioria da população russófila. O conflito que todos achavam seria breve, prolonga-se por mais de dois anos e ganhou escala internacional com o envolvimento, direto ou indireto, das grandes potências econômicas, políticas e militares do mundo. Todos os atores sabem que um passo acima no envolvimento da OTAN no conflito pode levar a graves consequências para a Europa.

Mais recentemente, é o conflito na Faixa de Gaza preocupa o Ocidente. A Faixa de Gaza não está na Europa. Mas está na esquina da Europa. E Israel é um enclave ocidental no Oriente Médio. A aposta do governo israelense de aproveitar a ocasião do ataque do Hamas para regionalizar o conflito, pode extrapolar a própria região e chegar à Europa.

Há muitos conflitos bélicos no mundo. Estima-se em 50 as guerras ativas no mundo. Mas as que chamam a atenção, hoje, do mundo, são as duas últimas citadas que se tornaram guerras “gameficadas” do ponto de vista dos expectadores, mas que seguem sendo tristes carnificinas para os que as sofrem, tanto soldados como civis.

Quando estas guerras vão terminar? Difícil saber, infelizmente. De Gaza e da Ucrânia pouco ou nada restará. Serão regiões destruídas e que necessitarão serem reconstruídas totalmente. Infraestruturas de transporte, energia, saúde, educação, agrícolas… tudo terá que ser refeito a um custo que já está sendo calculado por aqueles que ganham com a destruição e esperam ganhar outro tanto com a reconstrução.

Mas há algo que não poderá ser reconstruído: as vidas humanas. Tanto as vidas perdidas como as vidas dos sobreviventes que permaneceram nos locais ou que puderam fugir para longe. Como serão suas vidas depois das guerras?

A cada dia buscamos nos diversos meios informações sobre as guerras. O rádio, a televisão, os jornais e portais só falam da capacidade ou incapacidade de um ator dobrar o outro e forçá-lo a aceitar a derrota. Mas poucos se perguntam pelas vítimas presentes e pelas vítimas futuras destas guerras.

Talvez seja a hora de se fazer a pergunta: e depois da guerra, o quê? O que será das pessoas e dos povos depois de tanto ódio e violência? Poderão voltar a conviver como vizinhos? Voltarão a ser amigos como o foram em tempos passados? Ou o ódio e a destruição tomaram para sempre conta dos corações das pessoas estendendo-os por gerações e gerações? Que futuro queremos para a humanidade? Os patrocinadores das guerras já têm as suas respostas que divulgam a cada dia pelos meios de comunicação e pelas redes digitais. É hora de dizer não a essas respostas e começar espalhar novas possibilidades de convivência entre povos e nações.

É Primavera!

Foto por Erik Karits em Pexels.com

Mesmo que, no calendário oficial, a primavera só comece no próximo dia 21 de setembro, na prática, o inverno já se foi. Ainda algumas frentes frias, cada vez mais rápidas e menos intensas, nos lembram da transição que está terminando. É bom ver as árvores brotando e as flores colorindo pátios, quintais e campos e ouvir os sabiás preparando os ninhos e buscando suas parceiras para a festa do amor que resultará em novos pássaros cruzando os céus.

Um tempo muito bonito que, esperamos, encerre uma temporada em que os eventos climáticos extremos se mostraram cada vez mais comuns e devastadores. Ainda no outono, o Rio Grande do Sul viveu o desastre climático mais amplo da história recente. A quase totalidade dos municípios do Estado foi atingida por chuvas torrenciais que escoaram as águas numa rapidez nunca antes vista para os rios que, nas partes altas de seus percursos, passaram arrasando e arrastando tudo o que encontravam pela frente até se espalharem pela planície do Delta do Jacuí onde mantiveram, durante um mês, bairros inteiros das cidades da Região Metropolitano de Porto Alegre inundados.

As perdas humanas só não foram maiores em função da ativa solidariedade que cresceu junto com as águas. Os danos materiais ainda não foram totalmente calculados. Sobre as sequelas sócio emocionais, só o tempo dirá das dimensões que alcançarão. E, lembremos, as enchentes de abril foram uma reprise ampliadas das de setembro de 2023 às quais quase ninguém – principalmente as autoridades públicas – deram a devida atenção.

A Amazônia e, com ela, boa parte do Brasil, está vivendo a maior seca de que se tem registro. E, com ela, os incêndios que destroem campos, plantações, florestas, o pantanal e alcançam as cidades. A seca é o fator climático. Mas está mais do que provado de que a maioria dos focos de fogo tiveram sua origem em mãos humanas.

A nível global, vivemos o mês de agosto mais quente desde que há registros das temperaturas: 1,5 graus Celsius acima da média da era pré-industrial. É pouco!, dizem os céticos climáticos. Mas o suficiente para elevar os níveis dos mares e tornar áreas costeiras de todos os continentes perigosamente inabitáveis. Sem falar das outras alterações que os dados coletados, ordenados e divulgados pelos cientistas nos mostram a cada dia.

Mesmo assim, numa atitude de dissonância climática coletiva, continuamos consumindo, comerciando e produzindo como se nada disso estivesse a acontecer e o futuro da humanidade e de todas as espécies vivas que conosco coabitam a Casa Comum que chamamos de Planeta Terra não estivesse em risco. Um futuro apocalíptico que a cada vez se mostra mais próximo. Não é uma questão de milhões nem de milhares de anos. É uma questão de décadas ou, talvez, de anos apenas.

O que fazer para que os pássaros continuem voando, as flores desabrochando, as águas em seu ciclo de vida evaporando das florestas, circulando pelos rios aéreos, condensando em nuvens para cair em gotas que irrigam as árvores que nos alberga com sua sombra suave e nos alimentam com suas folhas e frutos?

O primeiro passo é pessoal: livrar-nos da cultura produtivista e consumista que afirma serem os recursos naturais infinitos e a nossa possibilidade de consumo ilimitada. É uma mentira deslavada que precisa ser passada a limpo até darmo-nos conta de que já ultrapassamos a capacidade de reposição do Planeta Terra e estamos caminhando para o abismo econômico onde só os mais poderosos sobreviverão.

Como alternativa temos a cultura da frugalidade: produzir e consumir apenas aquilo que é necessário. Não é um contentar-se com pouco. É transitar para uma economia com mais qualidade e menos quantidade, que priorize bens duráveis e sustentáveis e processos que não tenham apenas em conta o prazer humano, mas a viabilidade nos ecossistemas específicos e no conjunto dos seres vivos.

E neste ano de 2024 temos uma segunda possibilidade: as eleições municipais. Afinal, o município é nossa primeira “casa comum” social. É nele que se fazem as opções que primeiro nos afetam na vida cotidiana. Na hora de discernir em qual candidato vamos votar, é importante que coloquemos a variante ecológica no jogo. Para os/as prefeitos/as e vereadores/as que pretendem a reeleição, é bom observar como, na atual gestão, manejaram as questões ambientais na cidade: licenciamento ambiental para obras e loteamentos; o manejo dos resíduos industriais e domiciliares; o cuidado com os parques e praças; o plantio de árvores em áreas degradadas; o tipo de estímulo fiscal a empreendimentos que geram passivos ambientais.

Os mesmos critérios podem ser usados para candidatos/as novatos/as. Observar bem suas propostas e observar os partidos aos quais eles pertencem. Nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional, os partidos destes candidatos votaram a favor ou contra a desregulamentação ambienta? São daqueles que queriam “passar a boiada” sobre as leis ambientais e acabar com o pouco que ainda temos de biomas preservados que guardam a sobrevida de tantas espécies vegetais, animais e de nós humanos?

É uma questão importante para pensarmos neste mês de setembro em que a primavera se avizinha com o sol que brilha um pouco mais a cada dia, a vegetação que renasce depois do frio ou da seca e o ar que, dependendo de nossas opções, poderá continuar a encher nossos pulmões de esperança.

O Tempo é Superior ao Espaço

Foto por Samer Daboul em Pexels.com

No capítulo quatro da Evangelii Gaudium, quando fala do bem comum e da paz social, o Papa Francisco oferece quatro princípios para orientar a ação dos cristãos. Entre eles, está o de que “o tempo é superior ao espaço”.

Numa primeira observação, pode ser algo estranho. Mas é algo fundamental e prático. É um convite a assumir a tensão entre a plenitude que sempre desejamos e as limitações que encontramos no cotidiano. Segundo este princípio, mais do que se preocupar com resultados imediatos, o fundamental é iniciar processos que ajudem as pessoas a fazerem caminho e a transformarem sua situação pessoal, comunitária e sócio-ecológica.

Ao propor este princípio, Papa Francisco não inventou nada. Ele simplesmente resgatou o modo de agir do Deus de Jesus Cristo. Um Deus que nunca intervém de forma impositiva no caminhar humano. Ele não age de fora para dentro, de cima para baixo. Ele desce, caminha ao lado, dialoga, propõe, mostra o caminho para que façamos nosso próprio caminho. Ele propõe e dispõe, mas nunca impõe. O caminhar do povo de Israel no Primeiro Testamento e o modo como Jesus se relaciona com seus discípulos e com as multidões é demonstrativo desse modo de agir de Deus que é modelar para os que nos propomos a segui-Lo.

A cultura moderna incorporou tal proceder no conceito de historicidade. Segundo os modernos, o futuro não vem sozinho e de forma mágica. Na economia capitalista, o processo é composto por trabalho, poupança, investimento, lucro, mais investimento, mais trabalho, mais lucro e assim indefinidamente. Mas Webber explicitou a relação entre a teologia cristã e o surgimento do capitalismo. Tem também o outro lado, o da proposta comunista em que o indivíduo sacrifica seus interesses individuais e até sua própria vida em nome de um futuro justo para toda a humanidade. Nas duas versões, o que interessa é o processo a caminho do futuro desejado que permanece sempre como uma utopia que nos provoca para o mais.

Ao fazer as pazes com a modernidade no Concílio Vaticano II, a Igreja Católica reincorporou no seu agir o conceito de processos pastorais. Na América Latina, as Conferências do CELAM são um exemplo clássico desse modo de organizar a evangelização. No Brasil, os planos da CNBB e de quase todas as dioceses refletem o resgate da tradição judaico-cristã em diálogo com um dos seus filhos, a modernidade.

Mas a modernidade passou… estamos em tempos de pós-modernidade que, paradoxalmente (é um outro assunto a discutir!), traz em si traços da pré-modernidade. Tanto nas suas expressões sociais como nas eclesiais. E um dos mais provocantes é a perda da noção de historicidade e processualidade e sua substituição pela imediaticidade: o futuro é agora! Na economia, consumir sem precisar trabalhar, poupar investir. Desde o clássico “quem quer dinheiro” do recém falecido Sílvio Santos até o “Lata Velha” e “The Wall” do Luciano Huck são expressões midiáticas desse modo de pensar-se no mundo. O dinheiro cai do céu, não é preciso nenhum esforço, só estar no lugar certo na hora certa e tudo está resolvido. O sucesso estrondoso das apostas eletrônicas conhecidas como “bets” se fundamenta nesse modo a-histórico em que o que conta é o sonho de que o “reino de deus” do dinheiro abundante se realize imediatamente.

No agir da Igreja Católica, passamos dos planejamentos pastorais para os eventos multitudinários e/ou midiáticos; da formação de leigos e leigas para o falar em línguas e aos “repousos no espírito”; das pastorais sociais – da terra, das águas, do povo da rua, das mulheres marginalizadas, da criança, do idoso… – para os Cercos de Jericó (não seriam “circos de jericos”?), exorcismos e “missas” de cura e libertação, novenas milagrosas e – última moda – as quaresmas de Miguel Arcanjo; da Pastoral da Juventude aos shows de bandas gospel e acampamentos catárticos; da teologia da libertação à teologia da prosperidade; dos ministérios como forma de serviço à comunidade ao coach religioso que pensa mais em seu próprio bem estar do que no cuidado daqueles que estão caídos à beira do caminho.

Essa lista – incompleta, é claro – de fenômenos preocupantes que constatamos na Igreja são, volto a insistir, manifestações de um modo de compreender-se no mundo da cultura pós-moderna que foi absorvido por setores da Igreja. Uma compreensão que tem por base a afirmação anticristã de que o espaço é mais importante que o tempo. A experiência vétero e novo testamentária, base de nossa fé, é de que o tempo, o caminhar, o processo, o passo-a-passo que cria autonomia pessoal e comunitária é mais importante do que o êxito imediato que pode preencher o hoje, mas não abre caminho para o Reino-que-vem para transformar plenamente toda a realidade e não apenas mascarar as dores do presente com um prazer imediato que logo se esvairá em fumaça.

O Papa Francisco insiste. Haverá, na Igreja, homens e mulheres dispostos a responder a seu apelo? Com certeza os há. E, se não os houver, as pedras se moverão para construir caminhos que conduzam, mesmo que lentamente, ao Reino-que-vem.

A SANTA CEIA OLÍMPICA

Muitos de nós acompanhamos a polêmica em torno a um dos quadros do longo e inovador espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. A cena que agitou as redes sociais e provocou a ira de muitos cristãos, principalmente católicos, foi a que representava uma ceia com personagens queer. O órgão oficial de comunicação do Vaticano se pronunciou, assim como os bispos franceses, alguns bispos brasileiros e diversos grupos e personalidades cristãs e até não cristãs.

Aos olhos de muitos, a cena foi interpretada como uma paródia do quadro da Última Ceia de Leonardo da Vinci e, indiretamente, uma ofensa à Última Ceia de Jesus Cristo com os apóstolos e a Eucaristia que, para todos os cristãos, é um Sacramento da presença viva de Deus no meio de nós.

Diante da repercussão, os criadores artísticos do show de abertura das Olimpíadas vieram a público afirmar que não se tratava de uma referência ao quadro de Leonardo da Vinci. Segundo Thomas Jolly e Daphné Burki, na verdade, a cena seria uma releitura LGBTQIA+ do quadro O Festim dos Deuses de Jan Harmensz van Biljer, pintado em torno de 1635 e hoje conservado no Museu Magnin em Dijon.

Uma observação calma e serena da cena olímpica e do quadro de van Biljer dá razão a Jolly e Burki. Mas eles não tem razão ao afirmar que não queriam ofender os cristãos pela razão de que, salvo raras exceções, não apenas no Ocidente mas em quase o mundo inteiro, a primeira associação de quem viu a cena foi com o quadro de Leonardo da Vinci que está na memória viva de todas as pessoas enquanto o quadro de van Biljer é praticamente desconhecido fora do mundo dos espertos em arte. Daí a justa indignação dos expectadores que se sentiram ofendidos e manifestaram seu descontentamento.

Por que esta diferença entre a intenção dos produtores e a recepção dos expectadores? Por uma lei básica da hermenêutica, como nos ensina Paul Ricoeur. O sentido de um texto ou de qualquer obra de arte, nos lembra o filósofo francês, não depende apenas da intenção do autor ao produzi-lo. Depois que tornou pública sua obra, o autor não é mais dono do sentido que lhe quis imprimir. O sentido de uma obra depende também de como os receptores a interpretam pois entre o mundo de sentido do autor e do receptor não há univocidade. São mundos diferentes e, muitas vezes, a obra, ao passar de um para o outro, muda de sentido.

Voltando ao caso concreto da cena da ceia na abertura dos jogos olímpicos, o que para seus autores seria a ceia dos deuses em que Dionísio/Baco ocupava o lugar central, para a grande maioria dos expectadores era a ceia de Jesus Cristo rodeado por discípulos com identidades sexuais indefinidas.

Não creio que Thomas Jolly e Daphné Burki e aqueles e aquelas que planejaram nos mínimos detalhes o espetáculo fossem grosseiramente ingênuos a ponto de ignorar a possível confusão de intepretação a que ela poderia dar origem. Sou mais inclinado a pensar que o fizeram propositalmente utilizando a técnica tão comum na publicidade de criar a ambiguidade para atrair interesse do público. Mas, digo novamente, isso é o que eu interpreto. Não sei se realmente eles pensaram assim. Pode ser que não. E isso só eles poderiam confirmar ou negar.

De qualquer modo, alcançaram o objetivo – direta ou indiretamente – de fazer com que a efêmera cena permanecesse na memória e continue a fazer com que muitos, por bem ou por mal, lembrem da sua obra.

Caíram os cristãos e suas lideranças na armadilha por mim imagina que teria sido criada pelos idealizadores do desfile? Tenho que confessar que sim… Mais uma vez a reação foi o quer provocou a repercussão e isso só mostra a dificuldade que os meios religiosos têm ao lidar com os modernos meios e técnicas de comunicação.

Há um longo caminho pela frente…

Religiões: religar ou excluir?

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A origem da palavra “religião” é controversa. Muitos sentidos para ela são indicados e cada um tem sua razão de ser. Me atenho aqui a apenas um. “Religião” teria sua origem no verbo “religar” com o sentido de restabelecer a relação, o encontro entre uma realidade e outra.

A maioria dos que adotam este sentido, pensam que religião é restabelecer a conexão entre o humano e o divino. Conexão rompida num passado mítico por alguma ação humana ou divina. Cada tradição religiosa tem um modo particular de pensar a ruptura e o restabelecimento dessa relação.

Mas há um outro sentido para o “religar” que também é plausível. “Religião” seria um modo de restabelecer as relações sociais. Ou seja, quando uma sociedade busca consolidar ou restabelecer uma coesão social, ela constrói um sistema religiosos no qual todos – voluntária ou involuntariamente – se sentem incluídos. Nesse caso, a identificação com a divindade é um meio para amalgamar os diferentes grupos sociais em torno a um projeto comum.

O exemplo mais claro para nós de formação cristã, é a comunidade religiosa da qual somos herdeiros, o judaísmo. Foi em torno ao culto a Javé/Eloim que se construiu a identidade judaica oriunda de diferentes grupos tribais. A fidelidade à aliança entre Javé/Eloim e o povo de Israel é o que garante a unidade e integridade da nação judaica.

Aliança que o cristianismo expande universalmente construindo um povo sem fronteiras étnicas, de gênero ou sociais. Foi a genialidade do apóstolo Paulo que ofereceu a base religiosa para a passagem de uma identidade social étnica à abertura universal onde toda a humanidade é vista como um único povo.

Senso de universalidade herdado pelo Islã quando Maomé faz a experiência de Allá como único Deus que deseja reunir toda a humanidade em um só povo.

Visto em outra perspectiva, desde o lado das realidades políticas, poderíamos citar o caso do Imperador Constantino que viu no cristianismo a possibilidade de religar o Império Romano ameaçado de esfacelamento. Ele não foi o único. Outros reis, imperadores e príncipes revestiram seu poder com a áurea religiosa para construir ou manter, conforme o caso, a unidade política em seus domínios. O cujus regio, eius religio do Tratado de Augsburgo, em 1555, que estabeleceu a trégua entre o católico romano Carlos V e os príncipes que haviam aderido à reforma da Igreja proposta por Lutero, é um outro exemplo clássico do papel das religiões na consolidação do poder político. Mesmo papel que tem a religião civil nos Estados Unidos da América que é, diga-se, um caso muito particular de uma não religião que tem uma clara função religadora da unidade nacional.

Mais recentemente, o “Deus, Pátria e Família” do fascismo salazarista de Portugal, adotado por movimentos totalitários em várias partes da América Latina, é outro exemplo de como a religião pode ser instrumentalizada para a consolidação de uma proposta de sociedade.

Tudo isso me faz pensar numa questão: qual é o papel das religiões numa sociedade? A experiência histórica nos ensina que elas não são apenas instrumentos para religar os humanos ao divino. Elas também têm um papel social. Elas são úteis para ligar os membros da sociedade. Ligação que pode ser inclusiva no modo do cristianismo ou exclusiva na opção dos regimes totalitários e das religiões que a eles se tornam subservientes que excluem da convivência social as pessoas consideradas diferentes ou incômodas para a sociedade

Se passarmos das macro relações sociais às situações do quotidiano na vivência religiosa, fica uma pergunta: a religião, tal qual eu a professo, ajuda a construir relações abertas e confiáveis ou leva ao medo do outro e à exclusão?

Pergunta que, nós, cristãos, deveríamos nos fazer em cada momento em que nos aproximamos da Comunhão.

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