E DEPOIS DA GUERRA?

A chamada Segunda Guerra Mundial foi a última grande guerra que teve como palco de conflitos o Velho Continente. A Guerra Fria resultante da polarização entre o mundo capitalista sob a hegemonia dos Estados Unidos e os países socialistas sob a tutela soviética deslocou os conflitos para as periferias. Coreia, Cuba, Vietnam, Camboja, Birmânia, Guatemala, El Salvador Nicarágua, Angola, Moçambique, Argélia, Iêmen, Colômbia, Afeganistão… a lista de conflitos é infindável com milhões de mortos que ultrapassaram em dezenas de vezes os que morreram, todos os lados somados, na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais. Mas como eram mortos da periferia, eram apenas números e, muitas vezes, subestimados para que a crueldade dos reais patrocinadores não chamasse a atenção.

Apenas como exemplo, nos Estados Unidos, a guerra do Vietnam só se tornou insustentável quando os caixões começaram a desembarcar aos milhares nos aeroportos norte-americanos. Foram em torno de 60 mil soldados mortos e mais de 200 mil feridos. Do lado vietnamita, estima-se em um milhão e duzentos mil soldados mortos e dois milhões de civis também vítimas fatais da guerra. Ao todo, mais de três milhões de mortos. A Guerra da Coreia havia deixado aproximadamente o mesmo número de mortos entre os nativos e o mesmo número entre os soldados norte-americanos.

No levantamento “How Death Outlives War: The Reverberating Impact of the Post-9/11 Wars on Human Health” (Como a morte sobrevive à guerra: o impacto reverberante das guerras pós-11 de setembro na saúde humana) produzido pelo Watson Institute International & Public Affairs, da Brown University da cidade de Providence, Estado de Rode Island, estima-se que a Guerra ao Terror consequente aos atentandos do 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova Iorque, tenha resultado em pelo menos 4,5 milhões de pessoas mortas  no Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria, Iêmen, Líbia e Somália. Agregue-se a esse número de por si assustador os milhões de refugiados que foram morrer nas costas do Mediterrâneo ou no Mar do Norte.

O perigo da guerra só assustou a Europa quando, nos anos 1990, a desintegração da antiga Iugoslávia resultou numa série de conflitos étnicos. Mas o conflito foi visto, majoritariamente, como um resquício da barbárie comunista que não passaria da periferia do civilizado Ocidente.

O cenário mudou quando, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia, reagindo às provocações da OTAN, ocupou partes do território ucraniano com maioria da população russófila. O conflito que todos achavam seria breve, prolonga-se por mais de dois anos e ganhou escala internacional com o envolvimento, direto ou indireto, das grandes potências econômicas, políticas e militares do mundo. Todos os atores sabem que um passo acima no envolvimento da OTAN no conflito pode levar a graves consequências para a Europa.

Mais recentemente, é o conflito na Faixa de Gaza preocupa o Ocidente. A Faixa de Gaza não está na Europa. Mas está na esquina da Europa. E Israel é um enclave ocidental no Oriente Médio. A aposta do governo israelense de aproveitar a ocasião do ataque do Hamas para regionalizar o conflito, pode extrapolar a própria região e chegar à Europa.

Há muitos conflitos bélicos no mundo. Estima-se em 50 as guerras ativas no mundo. Mas as que chamam a atenção, hoje, do mundo, são as duas últimas citadas que se tornaram guerras “gameficadas” do ponto de vista dos expectadores, mas que seguem sendo tristes carnificinas para os que as sofrem, tanto soldados como civis.

Quando estas guerras vão terminar? Difícil saber, infelizmente. De Gaza e da Ucrânia pouco ou nada restará. Serão regiões destruídas e que necessitarão serem reconstruídas totalmente. Infraestruturas de transporte, energia, saúde, educação, agrícolas… tudo terá que ser refeito a um custo que já está sendo calculado por aqueles que ganham com a destruição e esperam ganhar outro tanto com a reconstrução.

Mas há algo que não poderá ser reconstruído: as vidas humanas. Tanto as vidas perdidas como as vidas dos sobreviventes que permaneceram nos locais ou que puderam fugir para longe. Como serão suas vidas depois das guerras?

A cada dia buscamos nos diversos meios informações sobre as guerras. O rádio, a televisão, os jornais e portais só falam da capacidade ou incapacidade de um ator dobrar o outro e forçá-lo a aceitar a derrota. Mas poucos se perguntam pelas vítimas presentes e pelas vítimas futuras destas guerras.

Talvez seja a hora de se fazer a pergunta: e depois da guerra, o quê? O que será das pessoas e dos povos depois de tanto ódio e violência? Poderão voltar a conviver como vizinhos? Voltarão a ser amigos como o foram em tempos passados? Ou o ódio e a destruição tomaram para sempre conta dos corações das pessoas estendendo-os por gerações e gerações? Que futuro queremos para a humanidade? Os patrocinadores das guerras já têm as suas respostas que divulgam a cada dia pelos meios de comunicação e pelas redes digitais. É hora de dizer não a essas respostas e começar espalhar novas possibilidades de convivência entre povos e nações.

É Primavera!

Foto por Erik Karits em Pexels.com

Mesmo que, no calendário oficial, a primavera só comece no próximo dia 21 de setembro, na prática, o inverno já se foi. Ainda algumas frentes frias, cada vez mais rápidas e menos intensas, nos lembram da transição que está terminando. É bom ver as árvores brotando e as flores colorindo pátios, quintais e campos e ouvir os sabiás preparando os ninhos e buscando suas parceiras para a festa do amor que resultará em novos pássaros cruzando os céus.

Um tempo muito bonito que, esperamos, encerre uma temporada em que os eventos climáticos extremos se mostraram cada vez mais comuns e devastadores. Ainda no outono, o Rio Grande do Sul viveu o desastre climático mais amplo da história recente. A quase totalidade dos municípios do Estado foi atingida por chuvas torrenciais que escoaram as águas numa rapidez nunca antes vista para os rios que, nas partes altas de seus percursos, passaram arrasando e arrastando tudo o que encontravam pela frente até se espalharem pela planície do Delta do Jacuí onde mantiveram, durante um mês, bairros inteiros das cidades da Região Metropolitano de Porto Alegre inundados.

As perdas humanas só não foram maiores em função da ativa solidariedade que cresceu junto com as águas. Os danos materiais ainda não foram totalmente calculados. Sobre as sequelas sócio emocionais, só o tempo dirá das dimensões que alcançarão. E, lembremos, as enchentes de abril foram uma reprise ampliadas das de setembro de 2023 às quais quase ninguém – principalmente as autoridades públicas – deram a devida atenção.

A Amazônia e, com ela, boa parte do Brasil, está vivendo a maior seca de que se tem registro. E, com ela, os incêndios que destroem campos, plantações, florestas, o pantanal e alcançam as cidades. A seca é o fator climático. Mas está mais do que provado de que a maioria dos focos de fogo tiveram sua origem em mãos humanas.

A nível global, vivemos o mês de agosto mais quente desde que há registros das temperaturas: 1,5 graus Celsius acima da média da era pré-industrial. É pouco!, dizem os céticos climáticos. Mas o suficiente para elevar os níveis dos mares e tornar áreas costeiras de todos os continentes perigosamente inabitáveis. Sem falar das outras alterações que os dados coletados, ordenados e divulgados pelos cientistas nos mostram a cada dia.

Mesmo assim, numa atitude de dissonância climática coletiva, continuamos consumindo, comerciando e produzindo como se nada disso estivesse a acontecer e o futuro da humanidade e de todas as espécies vivas que conosco coabitam a Casa Comum que chamamos de Planeta Terra não estivesse em risco. Um futuro apocalíptico que a cada vez se mostra mais próximo. Não é uma questão de milhões nem de milhares de anos. É uma questão de décadas ou, talvez, de anos apenas.

O que fazer para que os pássaros continuem voando, as flores desabrochando, as águas em seu ciclo de vida evaporando das florestas, circulando pelos rios aéreos, condensando em nuvens para cair em gotas que irrigam as árvores que nos alberga com sua sombra suave e nos alimentam com suas folhas e frutos?

O primeiro passo é pessoal: livrar-nos da cultura produtivista e consumista que afirma serem os recursos naturais infinitos e a nossa possibilidade de consumo ilimitada. É uma mentira deslavada que precisa ser passada a limpo até darmo-nos conta de que já ultrapassamos a capacidade de reposição do Planeta Terra e estamos caminhando para o abismo econômico onde só os mais poderosos sobreviverão.

Como alternativa temos a cultura da frugalidade: produzir e consumir apenas aquilo que é necessário. Não é um contentar-se com pouco. É transitar para uma economia com mais qualidade e menos quantidade, que priorize bens duráveis e sustentáveis e processos que não tenham apenas em conta o prazer humano, mas a viabilidade nos ecossistemas específicos e no conjunto dos seres vivos.

E neste ano de 2024 temos uma segunda possibilidade: as eleições municipais. Afinal, o município é nossa primeira “casa comum” social. É nele que se fazem as opções que primeiro nos afetam na vida cotidiana. Na hora de discernir em qual candidato vamos votar, é importante que coloquemos a variante ecológica no jogo. Para os/as prefeitos/as e vereadores/as que pretendem a reeleição, é bom observar como, na atual gestão, manejaram as questões ambientais na cidade: licenciamento ambiental para obras e loteamentos; o manejo dos resíduos industriais e domiciliares; o cuidado com os parques e praças; o plantio de árvores em áreas degradadas; o tipo de estímulo fiscal a empreendimentos que geram passivos ambientais.

Os mesmos critérios podem ser usados para candidatos/as novatos/as. Observar bem suas propostas e observar os partidos aos quais eles pertencem. Nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional, os partidos destes candidatos votaram a favor ou contra a desregulamentação ambienta? São daqueles que queriam “passar a boiada” sobre as leis ambientais e acabar com o pouco que ainda temos de biomas preservados que guardam a sobrevida de tantas espécies vegetais, animais e de nós humanos?

É uma questão importante para pensarmos neste mês de setembro em que a primavera se avizinha com o sol que brilha um pouco mais a cada dia, a vegetação que renasce depois do frio ou da seca e o ar que, dependendo de nossas opções, poderá continuar a encher nossos pulmões de esperança.

O Tempo é Superior ao Espaço

Foto por Samer Daboul em Pexels.com

No capítulo quatro da Evangelii Gaudium, quando fala do bem comum e da paz social, o Papa Francisco oferece quatro princípios para orientar a ação dos cristãos. Entre eles, está o de que “o tempo é superior ao espaço”.

Numa primeira observação, pode ser algo estranho. Mas é algo fundamental e prático. É um convite a assumir a tensão entre a plenitude que sempre desejamos e as limitações que encontramos no cotidiano. Segundo este princípio, mais do que se preocupar com resultados imediatos, o fundamental é iniciar processos que ajudem as pessoas a fazerem caminho e a transformarem sua situação pessoal, comunitária e sócio-ecológica.

Ao propor este princípio, Papa Francisco não inventou nada. Ele simplesmente resgatou o modo de agir do Deus de Jesus Cristo. Um Deus que nunca intervém de forma impositiva no caminhar humano. Ele não age de fora para dentro, de cima para baixo. Ele desce, caminha ao lado, dialoga, propõe, mostra o caminho para que façamos nosso próprio caminho. Ele propõe e dispõe, mas nunca impõe. O caminhar do povo de Israel no Primeiro Testamento e o modo como Jesus se relaciona com seus discípulos e com as multidões é demonstrativo desse modo de agir de Deus que é modelar para os que nos propomos a segui-Lo.

A cultura moderna incorporou tal proceder no conceito de historicidade. Segundo os modernos, o futuro não vem sozinho e de forma mágica. Na economia capitalista, o processo é composto por trabalho, poupança, investimento, lucro, mais investimento, mais trabalho, mais lucro e assim indefinidamente. Mas Webber explicitou a relação entre a teologia cristã e o surgimento do capitalismo. Tem também o outro lado, o da proposta comunista em que o indivíduo sacrifica seus interesses individuais e até sua própria vida em nome de um futuro justo para toda a humanidade. Nas duas versões, o que interessa é o processo a caminho do futuro desejado que permanece sempre como uma utopia que nos provoca para o mais.

Ao fazer as pazes com a modernidade no Concílio Vaticano II, a Igreja Católica reincorporou no seu agir o conceito de processos pastorais. Na América Latina, as Conferências do CELAM são um exemplo clássico desse modo de organizar a evangelização. No Brasil, os planos da CNBB e de quase todas as dioceses refletem o resgate da tradição judaico-cristã em diálogo com um dos seus filhos, a modernidade.

Mas a modernidade passou… estamos em tempos de pós-modernidade que, paradoxalmente (é um outro assunto a discutir!), traz em si traços da pré-modernidade. Tanto nas suas expressões sociais como nas eclesiais. E um dos mais provocantes é a perda da noção de historicidade e processualidade e sua substituição pela imediaticidade: o futuro é agora! Na economia, consumir sem precisar trabalhar, poupar investir. Desde o clássico “quem quer dinheiro” do recém falecido Sílvio Santos até o “Lata Velha” e “The Wall” do Luciano Huck são expressões midiáticas desse modo de pensar-se no mundo. O dinheiro cai do céu, não é preciso nenhum esforço, só estar no lugar certo na hora certa e tudo está resolvido. O sucesso estrondoso das apostas eletrônicas conhecidas como “bets” se fundamenta nesse modo a-histórico em que o que conta é o sonho de que o “reino de deus” do dinheiro abundante se realize imediatamente.

No agir da Igreja Católica, passamos dos planejamentos pastorais para os eventos multitudinários e/ou midiáticos; da formação de leigos e leigas para o falar em línguas e aos “repousos no espírito”; das pastorais sociais – da terra, das águas, do povo da rua, das mulheres marginalizadas, da criança, do idoso… – para os Cercos de Jericó (não seriam “circos de jericos”?), exorcismos e “missas” de cura e libertação, novenas milagrosas e – última moda – as quaresmas de Miguel Arcanjo; da Pastoral da Juventude aos shows de bandas gospel e acampamentos catárticos; da teologia da libertação à teologia da prosperidade; dos ministérios como forma de serviço à comunidade ao coach religioso que pensa mais em seu próprio bem estar do que no cuidado daqueles que estão caídos à beira do caminho.

Essa lista – incompleta, é claro – de fenômenos preocupantes que constatamos na Igreja são, volto a insistir, manifestações de um modo de compreender-se no mundo da cultura pós-moderna que foi absorvido por setores da Igreja. Uma compreensão que tem por base a afirmação anticristã de que o espaço é mais importante que o tempo. A experiência vétero e novo testamentária, base de nossa fé, é de que o tempo, o caminhar, o processo, o passo-a-passo que cria autonomia pessoal e comunitária é mais importante do que o êxito imediato que pode preencher o hoje, mas não abre caminho para o Reino-que-vem para transformar plenamente toda a realidade e não apenas mascarar as dores do presente com um prazer imediato que logo se esvairá em fumaça.

O Papa Francisco insiste. Haverá, na Igreja, homens e mulheres dispostos a responder a seu apelo? Com certeza os há. E, se não os houver, as pedras se moverão para construir caminhos que conduzam, mesmo que lentamente, ao Reino-que-vem.

A SANTA CEIA OLÍMPICA

Muitos de nós acompanhamos a polêmica em torno a um dos quadros do longo e inovador espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. A cena que agitou as redes sociais e provocou a ira de muitos cristãos, principalmente católicos, foi a que representava uma ceia com personagens queer. O órgão oficial de comunicação do Vaticano se pronunciou, assim como os bispos franceses, alguns bispos brasileiros e diversos grupos e personalidades cristãs e até não cristãs.

Aos olhos de muitos, a cena foi interpretada como uma paródia do quadro da Última Ceia de Leonardo da Vinci e, indiretamente, uma ofensa à Última Ceia de Jesus Cristo com os apóstolos e a Eucaristia que, para todos os cristãos, é um Sacramento da presença viva de Deus no meio de nós.

Diante da repercussão, os criadores artísticos do show de abertura das Olimpíadas vieram a público afirmar que não se tratava de uma referência ao quadro de Leonardo da Vinci. Segundo Thomas Jolly e Daphné Burki, na verdade, a cena seria uma releitura LGBTQIA+ do quadro O Festim dos Deuses de Jan Harmensz van Biljer, pintado em torno de 1635 e hoje conservado no Museu Magnin em Dijon.

Uma observação calma e serena da cena olímpica e do quadro de van Biljer dá razão a Jolly e Burki. Mas eles não tem razão ao afirmar que não queriam ofender os cristãos pela razão de que, salvo raras exceções, não apenas no Ocidente mas em quase o mundo inteiro, a primeira associação de quem viu a cena foi com o quadro de Leonardo da Vinci que está na memória viva de todas as pessoas enquanto o quadro de van Biljer é praticamente desconhecido fora do mundo dos espertos em arte. Daí a justa indignação dos expectadores que se sentiram ofendidos e manifestaram seu descontentamento.

Por que esta diferença entre a intenção dos produtores e a recepção dos expectadores? Por uma lei básica da hermenêutica, como nos ensina Paul Ricoeur. O sentido de um texto ou de qualquer obra de arte, nos lembra o filósofo francês, não depende apenas da intenção do autor ao produzi-lo. Depois que tornou pública sua obra, o autor não é mais dono do sentido que lhe quis imprimir. O sentido de uma obra depende também de como os receptores a interpretam pois entre o mundo de sentido do autor e do receptor não há univocidade. São mundos diferentes e, muitas vezes, a obra, ao passar de um para o outro, muda de sentido.

Voltando ao caso concreto da cena da ceia na abertura dos jogos olímpicos, o que para seus autores seria a ceia dos deuses em que Dionísio/Baco ocupava o lugar central, para a grande maioria dos expectadores era a ceia de Jesus Cristo rodeado por discípulos com identidades sexuais indefinidas.

Não creio que Thomas Jolly e Daphné Burki e aqueles e aquelas que planejaram nos mínimos detalhes o espetáculo fossem grosseiramente ingênuos a ponto de ignorar a possível confusão de intepretação a que ela poderia dar origem. Sou mais inclinado a pensar que o fizeram propositalmente utilizando a técnica tão comum na publicidade de criar a ambiguidade para atrair interesse do público. Mas, digo novamente, isso é o que eu interpreto. Não sei se realmente eles pensaram assim. Pode ser que não. E isso só eles poderiam confirmar ou negar.

De qualquer modo, alcançaram o objetivo – direta ou indiretamente – de fazer com que a efêmera cena permanecesse na memória e continue a fazer com que muitos, por bem ou por mal, lembrem da sua obra.

Caíram os cristãos e suas lideranças na armadilha por mim imagina que teria sido criada pelos idealizadores do desfile? Tenho que confessar que sim… Mais uma vez a reação foi o quer provocou a repercussão e isso só mostra a dificuldade que os meios religiosos têm ao lidar com os modernos meios e técnicas de comunicação.

Há um longo caminho pela frente…

Religiões: religar ou excluir?

Foto por Pixabay em Pexels.com

A origem da palavra “religião” é controversa. Muitos sentidos para ela são indicados e cada um tem sua razão de ser. Me atenho aqui a apenas um. “Religião” teria sua origem no verbo “religar” com o sentido de restabelecer a relação, o encontro entre uma realidade e outra.

A maioria dos que adotam este sentido, pensam que religião é restabelecer a conexão entre o humano e o divino. Conexão rompida num passado mítico por alguma ação humana ou divina. Cada tradição religiosa tem um modo particular de pensar a ruptura e o restabelecimento dessa relação.

Mas há um outro sentido para o “religar” que também é plausível. “Religião” seria um modo de restabelecer as relações sociais. Ou seja, quando uma sociedade busca consolidar ou restabelecer uma coesão social, ela constrói um sistema religiosos no qual todos – voluntária ou involuntariamente – se sentem incluídos. Nesse caso, a identificação com a divindade é um meio para amalgamar os diferentes grupos sociais em torno a um projeto comum.

O exemplo mais claro para nós de formação cristã, é a comunidade religiosa da qual somos herdeiros, o judaísmo. Foi em torno ao culto a Javé/Eloim que se construiu a identidade judaica oriunda de diferentes grupos tribais. A fidelidade à aliança entre Javé/Eloim e o povo de Israel é o que garante a unidade e integridade da nação judaica.

Aliança que o cristianismo expande universalmente construindo um povo sem fronteiras étnicas, de gênero ou sociais. Foi a genialidade do apóstolo Paulo que ofereceu a base religiosa para a passagem de uma identidade social étnica à abertura universal onde toda a humanidade é vista como um único povo.

Senso de universalidade herdado pelo Islã quando Maomé faz a experiência de Allá como único Deus que deseja reunir toda a humanidade em um só povo.

Visto em outra perspectiva, desde o lado das realidades políticas, poderíamos citar o caso do Imperador Constantino que viu no cristianismo a possibilidade de religar o Império Romano ameaçado de esfacelamento. Ele não foi o único. Outros reis, imperadores e príncipes revestiram seu poder com a áurea religiosa para construir ou manter, conforme o caso, a unidade política em seus domínios. O cujus regio, eius religio do Tratado de Augsburgo, em 1555, que estabeleceu a trégua entre o católico romano Carlos V e os príncipes que haviam aderido à reforma da Igreja proposta por Lutero, é um outro exemplo clássico do papel das religiões na consolidação do poder político. Mesmo papel que tem a religião civil nos Estados Unidos da América que é, diga-se, um caso muito particular de uma não religião que tem uma clara função religadora da unidade nacional.

Mais recentemente, o “Deus, Pátria e Família” do fascismo salazarista de Portugal, adotado por movimentos totalitários em várias partes da América Latina, é outro exemplo de como a religião pode ser instrumentalizada para a consolidação de uma proposta de sociedade.

Tudo isso me faz pensar numa questão: qual é o papel das religiões numa sociedade? A experiência histórica nos ensina que elas não são apenas instrumentos para religar os humanos ao divino. Elas também têm um papel social. Elas são úteis para ligar os membros da sociedade. Ligação que pode ser inclusiva no modo do cristianismo ou exclusiva na opção dos regimes totalitários e das religiões que a eles se tornam subservientes que excluem da convivência social as pessoas consideradas diferentes ou incômodas para a sociedade

Se passarmos das macro relações sociais às situações do quotidiano na vivência religiosa, fica uma pergunta: a religião, tal qual eu a professo, ajuda a construir relações abertas e confiáveis ou leva ao medo do outro e à exclusão?

Pergunta que, nós, cristãos, deveríamos nos fazer em cada momento em que nos aproximamos da Comunhão.

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AS CHAVES SINODAIS DE PEDRO

Foto por Ylanite Koppens em Pexels.com

A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, de forma sinodal, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social. Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

A FOGUEIRA DE SÃO JOÃO

Foto por Jens Mahnke em Pexels.com

Era mais um entre tantos. Aqueles homens estranhos que deixavam tudo para ir morar na beira do Rio Jordão. Uns vinham de Jerusalém. Ou do interior da Judeia. Outros eram da Galileia. Até da Samaria os havia. E nascidos no estrangeiro também apareciam. Judeus que um dia partiram em busca de dias melhores e que agora voltavam às origens para um recomeço. Um recomeço radical. Refazer o caminho da escravidão do Egito para entrar em uma Nova Terra Prometida. Não mais geográfica. Não mais cruzar o Mar Vermelho nem caminhar 40 anos no deserto. Agora quarenta dias eram suficientes. E o deserto estava aí do lado. Só cruzar o Jordão, descalçar os sapatos, agarrar o bordão, alimentar-se do que brota do chão – mel e insetos – e colocar-se totalmente nas mãos de Deus para uma vida nova para que fosse feita para sempre Sua vontade.

Não era uma multidão. Mas havia muitos. Uns mais jovens. Outros de idade mais avançada. Gente que havia sido rica. Outros que sempre foram pobres. Homens todos. Alguns que haviam sido casados e sua família haviam abandonado. Outros que nunca casaram porque acreditavam que a promessa feita a Abraão iria se realizar em breve e não havia necessidade de colocar a esperança na descendência. O Reino de Deus aconteceria aqui, agora, de imediato, para todos os que estavam vivos e para redimir os antepassados realizando o futuro no presente.

Entre todos, a chamar a atenção, aí estava João. Uma figura única, particular pela sua origem e modo singular. Filho de sacerdote. De quinta categoria, sim. Mas da tribo de Levi. Sua tradição não era a da profecia. Seu pai, Zacarias, uma vez por ano, no templo sacrifícios oferecia. E depois voltava para sua vila na montanha pois sua casa era marcada pela vergonha. Isabel, sua esposa, fora assinalada pela maldição. Filhos dela não nasciam. Sem descendência, o nome de Zacarias desapareceria. Até aquele dia em que o Anjo apareceu e um filho a Isabel prometeu. E a promessa aconteceu sob o olhar de uma prima distante que acorreu para ajudá-la em toda necessidade. Veio de longe porque quem perto morava naquilo não acreditava e até achava que era obra não de Deus como as duas diziam, mas de espíritos malignos que às duas acometiam.

Em meio à desconfiança dos parentes e vizinhos, João nasceu, cresceu, ficou adulto e para o Jordão desceu sem que ninguém se importasse. Era mais um entre tantos. Mais um com uma história estranha a dizer coisas estranhas que a alguns incomodavam e a outros apaixonavam. Os bem assentados dele se afastavam e claramente o condenavam. Os esfomeados, maltratados, perseguidos, doentes, esquecidos, todo o dia o buscavam. E ele os esperançava mostrando que no Reino de Deus todos podiam entrar. E muitos o seguiam, entre eles um seu parente da Galileia, filho da Maria que fora até a Judeia para vê-lo nascer. A Ele João indicou como aquele que o iria suceder. Não era uma função de honra. Profetas nunca tem um final feliz. É o que a Bíblia diz. Não por castigo de Deus. Mas por incompreensão dos seus. Ainda mais naquela terra onde predominava o dinheiro, o poder, a guerra. João foi preso, condenado e sua cabeça cortada para ser exibida em um burlesco banquete real.

“Nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, disse Jesus ao falar de João e a seu futuro prever. A fogueira das vaidades não aceita a palavra de quem diz a verdade. Fogueira que queima mais que as de São João. Ela arde por dentro e consome seu invólucro próximo e, se não for apagado com o extintor da humildade, invade e transforma em cinzas tudo o que está ao redor. Para apagá-la, não há outro remédio que o da cruz de Jesus que reluz mesmo em meio à maior escuridão. Não a apaguemos. Deixemo-la reluzir e o nosso caminho conduzir.

Santo Antônio, Rogai por nós!

Santo Antônio, aquele que abre o ciclo de festas juninas, é um santo cercado de ambiguidades. Primeiro, pelo nome. Uns o conhecem como Santo Antônio de Lisboa, por ter nascido naquela cidade lusitana. Outros, como Santo Antônio de Pádua, pois foi nesta cidade italiana que foi enterrado.

Mas esse não é o único lado duplo do popular santo. Ele carrega dois nomes. Fernando de nascimento. Antônio por opção e devoção ao monge Santo Antão. Mesmo que algumas tradições queiram lhe dar origem nobre, era de família plebeia. Rica, provavelmente, a ponto de poder sustentar seus estudos no Convento dos Cônegos Regulares da Santa Cruz que seguiam a regra de Santo Agostinho. Por opção largou as riquezas da família e seguiu a vida religiosa. Fascinado com os estudos possibilitados pela vida monástica, decidiu ser monge e fez seu noviciado. Não contente com o ambiente tumultuado de Lisboa, mudou-se para Coimbra onde dividiu seu tempo entre os estudos profanos e sagrados.

A vida silenciosa e de estudos no claustro foi interrompida quando Fernando, agora já Antônio, conheceu os frades franciscanos que se dirigiam ao Marrocos em busca do martírio. Juntou-se a eles. Cruzou o Mediterrâneo e aportou nas areias magrebinas, mas não alcançou seu objetivo. Seu desejo não foi satisfeito pelos árabes que o enviaram para a Sicília. De lá, junto com outros frades, no ano de 1221, foi a Assis para participar do Capítulo Geral que aprovaria a nova regra dos frades que Francisco não queria. Não se sabe qual postura o luso Antônio teve na querela entre observantes e intelectuais da nova Ordem. Talvez sua ambiguidade o tenha mantido em um meio termo.

O que se sabe, sim, é que Francisco, impressionado com Antônio que tinha a capacidade de unir profunda humildade com amplo e profundo conhecimento teológico, permitiu, coisa que até aquele momento não o fizera para ninguém, que ensinasse Teologia e tivesse livros. Fato que, segundo historiadores medievalistas renomados, não é tão comprovável como se diz ser. Tal permissão, tenha sido real ou não, não fez de Antônio um professor de Teologia tradicional. Em meio às ambiguidades características de seu percurso, dividia seu tempo entre a vida contemplativa, a pregação, o ensino de Teologia e os assuntos internos da ordem.

Antônio não era homem de uma causa só! Era um homem multifuncional, capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e todas com extrema qualidade. Talvez por isso as imagens que hoje temos de Santo Antônio tem certo caráter de indefinição. Assim como é difícil estabelecer qual é a graça específica da qual ele é mediador. Muitos o buscam para encontrar a pessoa amada e encaminhar um casamento; outros para conseguir o pão que faz falta na mesa; ou a restauração da saúde abalada; encontrar objetos perdidos também é missão encarregada a Antônio… A fila é quase infinita e faz dele um santo multifuncional.

E mais: um santo que ultrapassa as barreiras do catolicismo e do cristianismo. Nas algumas tradições de matriz africana, ele é o Bará ou Exú, aquele que faz a comunicação entre os orixás e os humanos. O santo da ligação, do encontro, do amor, tanto físico como espiritual.

Talvez alguns estranhem tal assimilação. Mas ela pode ser interpretada com um detalhe imagético: em todas as representações cristãs, Santo Antônio é representado com um Menino Jesus e uma Bíblia em suas mãos. A Palavra de Deus e o Verbo-que-se-fez-carne são a expressão maior da comunicação entre o divino e o humano. Que o santo das ambiguidades nos ajude a seguir o indicado nestas duas grandes mensagens de Deus.

ONDE ESTÁ DEUS?

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Onde está Deus? Onde está Ele que não faz nada? Por que Ele me abandonou?

É a pergunta que muitos se fazem nos momentos de dor e sofrimento, seja individual ou coletivo. A doença e a ameaça de morte, consequência de catástrofe natural ou da ação humana, colocam em cheque a própria vida e, na sua radicalidade, exige uma resposta daquele que é a razão de nosso viver. E, para quem tem fé, em Deus deveria estar a resposta que parece não se manifestar.

É uma velha pergunta que já foi colocada em toda a sua crueza no Livro de Jó da Bíblia cristã. O autor do livro da tradição sapiencial judaica, não encontra resposta para a pergunta. Simplesmente aceita o fato e faz uma afirmação radical de fé: Deus não é a causa de nossa desgraça. Mas o Livro de Jó não responde o porque de Deus não fazer nada diante da dor e do sofrimento de seus filhos e filhas.

A fé cristã que nasce da experiência daqueles e daquelas que fizeram a experiência de Jesus de Nazaré, tem uma resposta contundente: Deus está presente naqueles e naquelas que padecem qualquer tipo de sofrimento e sofre junto com eles e elas. Deus é nosso compadecente no sentido radical da palavra: ele sofre conosco as dores e sofrimento e as assume como suas transformando-as a partir de dentro. Foi assim que Deus fez ao assumir a condição carnal no presépio de Belém e na cruz do Gólgata.

Em consequência dessa afirmação radical, o cristão é convidado a olhar o mundo a partir da condição e da situação dos crucificados de hoje. Por isso o cristianismo é religião de misericórdia e compaixão. É o que nos lembrou Jürgen Moltmann, um dos maiores teólogos das últimas décadas, falecido no dia de ontem. É da cruz de Jesus Cristo que nasce a Esperança para a humanidade. É dos crucificados da história que nasce um futuro diferente para a humanidade e para a criação.

A afirmação de Moltmann nos ajuda a pensar, a partir de nossa fé cristã, a situação das milhares de pessoas que tudo perderam nas enchentes do Rio Grande do Sul. Algumas delas perderam até mesmo a vida. E junto com as vidas humanas muitas vidas de animais, de plantas e da própria terra e água foram machucadas ou destruídas. Compadecer-se e ter misericórdia que se transforma em solidariedade ativa, é o caminho para acolher e afirmar o Deus presente em cada uma dessas vidas e, a partir desse sagrado encarnado, construir novas relações entre os humanos e com toda a criação para que Deus não mais seja crucificado em suas criaturas, pois é nelas que Ele está presente nos momentos de dor e sofrimento.

Não é lixo!

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Não é sujeira o que ficou revirado no interior das casas. Não é lixo o que ficou acumulado nos pátios. Não é entulho o que atravanca ruas e avenidas. Não é descarte o que está jogado à beira dos caminhos e estradas.

Cada tábua, cada roupa, cada louça, armário, taça, sapato, touca… Cada chapéu, geladeira, fogão, televisão, penteadeira… Cada telha, cada carro, bicicleta, cabide, chupeta… Cada vida perdida, humana, animal, cada árvore tombada ou partida, são partes de uma memória perdida que nunca mais será esquecida.

Objetos não são só concretos. Eles são abstratos. Eles não tocam apenas o tato, o olfato, a visão, a audição e o paladar. Eles estão presentes em nosso andar, estar e fazem parte do mundo no qual habitamos, nos situamos, labutamos, sofremos e amamos. Cada objeto ausente, é um pedaço de nós que se vai. Dizer que é sujeira, lixo, entulho, descarte é colocar a vida à parte, é não considerar que cada pessoa não é apenas ela, mas um mundo de relações que se constrói dando sentido a cada pessoa, ser vivente e objeto que fazem parte do dia-a-dia imediato ou do longo tempo de vidas vividas e agora truncadas no seu sentido por um fato que corta o presente do passado ao tirar da convivência tudo o que a ele nos ligava.

Quantos anos para adquirir um terreno e nele construir a casa tanto sonhada? Quantos meses de longo financiamento para pagar o carro que a tantos lugares nos conduziu? Quantas prestações mensais para comprar a televisão que dava distração nos momentos de cansaço? E a roupa tanto desejada e agora afogada no lodo ou levada pela correnteza… E as fotos do casamento, do batizado dos filhos, dos netos em algazarra, do passeio na praia, da festa com os amigos, dos animais queridos que também aqui não mais estão.

Dizer que tudo se recupera, não é verdade! O perdido jamais é recuperado. Pode-se construir outra casa, comprar outro carro, outra televisão, roupa, móveis. Mas o que se foi, foi para sempre. Dizer que é hora de olhar para frente, é engano de quem não compreende que o humano não é apenas um possuidor de objetos. O que nos faz humanos, é a capacidade de dar sentido e fazer das pessoais, animais e das coisas, algo que amamos.

Ninguém ressuscita sem passar pela morte. É o que nos ensina a sabedoria cristã. Mas aquilo que morre, não é sujeira, lixo, entulho, descarte. É testemunho da vida que ficou e não pode ser deixado simplesmente à parte. Fazer o necessário luto implica em respeito, cuidado, atenção para não pisar nas memórias das vidas que as produziram.

Se não tem sentido manter o corpo de uma pessoa morta indefinidamente insepulto, também não faz sentido fazer um enterro sem antes velar o corpo. Ao velar o corpo, reverenciamos a vida da pessoa que morreu. Do mesmo modo, ao limpar a casa, o pátio, a rua, a cidade, é importante parar um instante, contemplar o que está à nossa frente e reverenciar as vidas que ficaram simbolizados naqueles objetos dos quais nos despedimos. Só assim nos damos conta do valor das nossas vidas e abrimos a possibilidade de não mais produzir a morte.