O outro mundo possível chama-se Ecossocialismo

Nova York, Estados Unidos – Joel Kovel, que teve um destacado papel em várias edições do Fórum Social Mundial (FSM), que nesta semana acontece em Dacar, afirma que o movimento deve ter por base uma prática e uma lógica anticapitalistas. Considerado o pai do movimento Ecossocialista, Joel analisa a história, trajetória e o futuro do movimento. Também é um dos autores do Manifesto Ecossocialista, que detalha um caminho alternativo ao atual de destruição ambiental. Joel disse à IPS que é preciso dar nome a este “outro mundo” e posicioná-lo firmemente contra a ameaça do capital global.


IPS: Qual foi seu papel nas edições anteriores do FSM?

JOEL KOVEL: Ecossocialismo é um conceito inerentemente global, não internacional, por isso o FSM é um lugar ideal para discutir suas principais ideias. Apresentamos o manifesto em Nairóbi em 2007, e o revisamos com um grupo de centenas de pessoas. O Ecossocialismo cresce magnificamente no terceiro mundo, mas é o quarto mundo, dos indígenas e dos povos sem Estado, o que realmente está à frente neste assunto. As pessoas do quarto mundo vivem em relações comunitárias e são vítimas diretas das corporações mineradoras e petroleiras predadoras que se enfiam no coração da terra e destroem as comunidades que são parte do solo. Por isso, dependemos do espaço único do FSM para difundir as ideias do Ecossocialismo.

IPS: O que se discute no FSM sobre a crise ecológica é suficiente?

JK: O FSM tende a se concentrar em áreas específicas dentro do assunto mais amplo do ecocídio, ou ecodestruição, como as sementes geneticamente modificadas ou a acidificação dos oceanos e o desmatamento. É preciso atender esses assuntos, mas não é suficiente para lidar com a magnitude da crise, que exige um diagnóstico muito mais amplo do que apenas das causas subjacentes do problema. Há pouquíssimo rigor teórico ou agudo sobre a crise ecológica em geral no FSM por muitas razões. As pessoas estão tão aterradas, há tantas causas válidas para se lutar, os problemas são difusos, com diferentes assuntos arraigados em localidades dispersas e ninguém pode decidir quais são os limites entre uma crise e outra. São tantas interrogações, como a de quando a crise dos oceanos passou para a atmosfera. É compreensível que as pessoas se mostrem reticentes em questões simples como a proliferação das garrafas de plástico.

IPS: O que o FSM pode dar de novo para avançar rumo a uma solução?

JK: Atualmente existe um problema de definição no FSM. Surgem diferentes questões que são transtornos ecossistêmicos, como a dúvida de quando se destroi a floresta pela monocultura, por exemplo. Cada crise ecossistêmica tem sua própria realidade concreta e localização específica, como o desastre de Bhopal, na Índia. A verdadeira crise ecológica é o conjunto de todas elas, que se agravam com rapidez, se propagam pelo mundo e aumentam de forma exponencial. Se quisermos encontrar a causa das diferentes crises sistêmicas, devemos olhar todas elas em conjunto e encontrar o que têm em comum. Cada problema tem sua própria causa, mas, virtualmente cada uma está vinculada à expansão capitalista e pode-se seguir seu rastro até a porta de um banco ou uma potência imperial. Se o FSM pretende atender o problema, deve identificar e articular a questão do capital global, que pode ser pensada de forma metafórica como um câncer que apresenta metástase. Sem importar a forma escolhida para tratar a doença, deve-se reconhecer que é uma realidade.

IPS: Em que o FSM mudou desde sua primeira participação em 2003?

JK: Infelizmente, o FSM tem tendência a girar em falso devido aos limites inerentes ao seu lema de “outro mundo é possível”, que é repetido até cansar e acaba sendo desanimador porque nunca chega a ser realmente desenhado. Porém, fato é que o FSM é o único lugar no qual se pode articular uma nova realidade, não apenas pensar na possibilidade de uma. Logicamente, deveríamos poder dizer que este “outro mundo” é o do Ecossocialismo. Entretanto, dada a natureza das organizações não governamentais e sua especialização em certas crises, o FSM não se refere o suficiente à causa da crise do capitalismo. O Fórum deve identificar o inimigo e lhe responder.

IPS: Pensa que Dacar oferece uma oportunidade para consegui-lo?

JK: Totalmente. A África é um dos lugares mais vulneráveis da Terra, o que é tremendamente irônico, pois é o menos industrializado do planeta. O continente é saqueado pela desapiedada extração de recursos como em nenhum outro lugar do mundo, em primeiro lugar porque é rico. E, em segundo, pela falta de proteção para deter a chegada das companhias. Há mais incentivos na África para começar a pensar de forma sistêmica. Dacar também é um centro mundial de pesquisa em ecologia, muito mais do que Nairóbi, e até mesmo do que Mumbai. O calibre geral dos intelectuais de esquerda presentes é extremamente alto no Senegal..

IPS: O que o FSM pode fazer para lidar com os desafios apresentados no Fórum Econômico Mundial que acontece quase simultaneamente?

JK: É preciso basear-se firmemente em uma prática e uma lógica anticapitalistas. É difícil, mas certamente possível. Creio que acima de tudo o FSM é um lugar onde a grande variedade de tendências se encontra, conscientes de que seus diferentes problemas são sistemáticos e têm a ver com a penetração do império e do capital global em cada rincão da Terra. Para continuar com a analogia médica, se você tem um paciente com um tumor no pâncreas, só é possível tratá-lo se os médicos concordarem que se trata de câncer. Só a partir daí se pode reunir e pensar no remédio, e há muitíssimas formas de curar isto. Envolverde/IPS

“Programa de renda negligencia mulheres”

Políticas de proteção social raramente consideram a desigualdade de gênero, apesar de a pobreza feminina ser mais grave.

Apesar das evidências de que a pobreza afeta mais as mulheres, os programas de proteção social — como os de transferência de renda ou de frentes de emprego — negligenciam as desigualdades entre os sexos, avaliam as cientistas sociais Rebecca Holmes e Nicola Jones, do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino, com sede em Londres.

“Poucos programas sociais têm como objetivo primordial aumentar a autonomia de meninas e mulheres ou transformar as relações de gênero”, escrevem as pesquisadoras na edição mais recente da Poverty in Focus, revista do CIP-CI (Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), um órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro.

Em alguns casos, o problema simplesmente não é abordado. Em outros, a única medida adotada é incluir as beneficiadas como pessoa responsável por receber o dinheiro. Essa abordagem, argumentam as autoras, “resulta num conceitualização estreita das vulnerabilidades de gênero e num foco que apoia as responsabilidades domésticas tradicionais das mulheres”.

Raramente as políticas priorizam a transformação das relações domiciliares de modo a assegurar que o ganho de renda no lar seja alocado igualmente. Também são poucos os exemplos de programas que enfrentam as desigualdades de poder de decisão e de distribuição do trabalho dentro de casa.

Ao adotar essas estratégias, avaliam as pesquisadoras, os programas sociais abordam os riscos e vulnerabilidades econômicos, mas dão pouca atenção às dimensões sociais, como desigualdade de gênero, discriminação social e relações desiguais de poder. E, “para muitas populações pobres e marginalizadas, as fontes sociais de vulnerabilidade são frequentemente tão ou mais importantes”.

Uma pesquisa feita pelo Instituto de Desenvolvimento Ultramarino detectou alguns programas que tentam conciliar as duas abordagens – em Bangladesh, Gana, Peru, Etiópia, Índia e México. Há projetos que tentam facilitar o acesso de mulheres e meninas à escola e ao sistema de saúde, sobretudo durante a gravidez e a amamentação. Em outros, os benefícios em forma de dinheiro ou víveres são acompanhados de cursos de conscientização sobre violência de gênero. O mapeamento também encontrou iniciativas em que se estimulam a participação e a liderança feminina na comunidade, inclusive em debates que decidam o rumo dos programas.

Algumas ações de frente de emprego (em que se paga para o beneficiado exercer um serviço público) construíram creches e permitiram que as trabalhadoras tivessem horários mais flexíveis, contam as autoras. Outras incluíram a construção de estruturas que fazem com que as mulheres percam menos tempo em trabalhos domésticos (por exemplo: fonte de água potável próxima à comunidade, para que elas não tenham que se deslocar até outro local).

Mesmo esses programas, porém, ainda enfrentam desafios para promover a autonomia das mulheres (ou “empoderamento”), como destaca o texto. Algumas frentes de emprego, por exemplo, de fato aumentaram a renda feminina e ofereceram formas não abusivas de trabalho, mas preconceitos arraigados dificultaram a redução da desigualdade.

O artigo aponta que, como às vezes se assume que há alguns trabalhos que não são apropriados para mulheres, os homens em média ganham mais e elas trabalham menos dias. No Peru, as mulheres de fato participaram das discussões, mas isso tornou ainda mais difícil para elas conciliar as outras tarefas.

O ideal, avaliam as cientistas sociais, é estabelecer vínculos mais estreitos entre esses programas as políticas econômica e social. “Quando os instrumentos de proteção social são parte de um pacote maior da política econômica e social, eles têm mais probabilidade de ajudar a transformar as relações entre homens, mulheres, meninos e meninas.”

Uma nova verdade raia sobre o mundo árabe

Por

Os “documentos da Palestina” são tão demolidores quanto a Declaração de Balfour. A ‘Autoridade’ Palestina – e as aspas são indispensáveis – estava e está pronta a ceder o “direito de retorno” de talvez sete milhões de refugiados ao que hoje é Israel, em troca de um “estado” ao qual corresponderá apenas 10% (se tanto) do território do Mandato britânico na Palestina.

E, à medida que são revelados esses documentos terríveis, o povo egípcio começa a exigir o fim do regime do presidente Mubarak, e os libaneses indicam um primeiro-ministro que servirá ao Hezbollah. Poucas vezes o mundo árabe viu coisa semelhante.

Para começar pelos Documentos da Palestina, é evidente que os representantes do povo palestino estavam prontos para destruir qualquer esperança que os refugiados tivessem de algum dia voltar para casa.

Será – e é – ultraje para os palestinos saber que seus representantes lhes deram as costas. Não há modo pelo qual, à luz dos Documentos da Palestina, os palestinos ainda crerem que algum dia recuperarão direitos seus.

Já viram, em vídeo e por escrito, que jamais voltarão. Mas em todo o mundo árabe – o que não significa mundo muçulmano – há hoje uma compreensão da verdade que jamais por ali se viu antes.

Já não é possível, para o povo do mundo árabe, mentir uns aos outros. Acabou-se o tempo das mentiras. As palavras daqueles líderes – que desgraçadamente são também nossas palavras – esgotaram-se. E nós as levamos até esse fracasso. Nós mentimos a eles todas essas mentiras. E nunca mais conseguiremos recriá-las.

No Egito, nós britânicos amamos a democracia. Incentivamos a democracia no Egito – até que os egípcios decidiram que queriam por fim à monarquia. Então os metemos na prisão. Queríamos mais democracia. Sempre a mesma velha história. Assim como quisemos que os palestinos gozassem de democracia, desde que votassem ‘certo’, nos candidatos ‘certos’, quisemos que os egípcios apreciassem nossa vida democrática. Agora, no Líbano, parece que nossa democracia será substituída pela democracia libanesa. E não gostamos dela.

Queremos que os libaneses, é claro, apóiem o pessoal que nós apoiamos, os muçulmanos sunitas que apoiavam Rafiq Hariri, cujo assassinato – cremos, com razão – foi orquestrado pelos sírios. E agora enfrentamos, nas ruas de Beirute, queima de carros e violência contra o governo.

Mas… Em que direção estamos andando? Será, talvez, na direção de deixar que o mundo árabe escolha seus próprios líderes? Veremos talvez um novo mundo árabe não controlado pelo ocidente? Quando a Tunísia fez saber ao mundo que estava livre, Mrs. Hillary Clinton não abriu a boca. Foi o presidente do Irã, o doido, o primeiro a dizer que muito o alegrava ver a Tunísia liberta. Por quê?

No Egito, o futuro de Hosni Mubarak parece ainda mais perturbador. Bem pode acontecer de seu filho ser escolhido para sucedê-lo. Mas só há um califado no mundo muçulmano, e é a Síria. Os egípcios não querem o filho de Hosni. Não passa de empresário peso leve, que nada garante que consiga (sequer que tente), resgatar o Egito de sua própria corrupção.

O chefe da segurança de Hosni Mubarak, um certo Suleiman – hoje, muito doente – dificilmente poderá substituí-lo.

Por toda parte, em todo o Oriente Médio, estamos à espera de assistir à queda dos amigos dos EUA. No Egito, Mubarak deve estar decidindo para onde fugirá. No Líbano, os amigos dos EUA estão em colapso. É o fim do mundo dos Democratas no Oriente Médio árabe. Ninguém sabe o que acontecerá depois. Só a história, talvez, conheça as respostas.

Igreja do interior de SP anuncia rifa de Fusca lotado de cerveja

O anúncio seria comum se não estivesse exposto na entrada da catedral de Ribeirão: “concorra a um charmoso Fusca branco, 1980, a álcool, carregado de cervejas”.

É o que diz o banner, iniciativa do padre Francisco Moussa, 33, que visa arrecadar fundos para construção do centro social da catedral.

Para os fiéis, no entanto, a inclusão da cerveja ao prêmio da rifa vendida a R$ 2 vai contra o que a igreja sempre pregou: o combate ao uso excessivo do álcool.

“Estou sem palavras. A igreja prega que a gente não pode abusar do álcool, que não pode apelar a jogos de azar, mas está fazendo tudo isso”, disse a funcionária pública Alzira Gonçalves, 50.

Outras duas fiéis ouvidas pela Folha concordaram com Alzira. O sorteio está marcado para hoje, às 20h, em frente à catedral.

Para o padre Jerônimo Gasques, existem outras formas “éticas” para a igreja captar recursos. “Isso [sorteio de carro carregado de cervejas] denigre a igreja, além de não ser sadio evangelicamente”.

Ele é autor de diversos livros que abordam a atuação da igreja -como “Dízimo e Captação de Recursos”- e aboliu as festas na paróquia de Presidente Prudente (SP).

Procurado pela reportagem da Folha, o padre não quis explicar os motivos que o levaram a rifar um Fusca carregado de cervejas. O arcebispo de Ribeirão Preto, Joviano de Lima Júnior, não comentou o assunto.

Casais brigam 312 vezes por ano, diz pesquisa britânica

Foto de série da BBC de 2003, sobre hábitos do parceiro que irritam os casais

O controle remoto da TV: fonte de desentendimentos (BBC/Arquivo)

Uma pesquisa feita na Grã-Bretanha com 3 mil pessoas indicou que os casais brigam em média 312 vezes por ano – principalmente às quintas-feiras por volta das 20h, por dez minutos.

O levantamento, encomendado por um varejista online de artigos e peças para banheiros, sugeriu que a esmagadora maioria das brigas se origina de motivos banais, como deixar pelos na pia, entupir o ralo do chuveiro com cabelo e “surfar” entre canais de TV.

“Todos os casais brigam, mas ver o quanto eles discutem por causa de coisas simples, como as tarefas domésticas, nos faz abrir os olhos”, disse o porta-voz sobre a pesquisa, Nick Elson.

“Parece muito tempo perdido em bate-bocas, independentemente de quão irritante sejam os hábitos.”

As razões dadas por homens e mulheres refletem algumas já conhecidas e proclamadas diferenças no comportamento dos sexos.

Enquanto elas reclamam que os parceiros não trocam o papel higiênico quando este termina nem abaixam a tampa do aparelho sanitário, eles ficam nervosos quando as parceiras demoram para ficar prontas e reclamam sobre as tarefas domésticas.

Deixar as luzes acesas, acumular entulhos e não recolher as xícaras espalhadas pela casa após o chá ou café também são razões citadas por ambos os sexos para as brigas.

Oito de cada dez entre os três mil adultos britânicos pesquisados disseram ser obrigados a limpar, constantemente, a sujeira do outro.

E se as mulheres ficam mais frustradas com os hábitos dos parceiros, a pesquisa indicou que são eles que mais vêem nas razões banais motivos para uma separação.

Um quinto dos homens entrevistados disseram considerar essa opção em consequência das dificuldades de convivência.

A seguir, os hábitos que mais irritam as mulheres:

1. Deixar pelos na pia
2. Deixar a privada suja
3. ‘Surfar’ entre canais de TV
4. Não trocar o rolo de papel higiênico
5. Não abaixar a tampa da privada
6. Deixar as luzes acesas
7. Xícaras sujas pela casa
8. Toalhas molhadas no chão / na cama
9. Acumular pertences
10. Não dar descarga

E os hábitos que mais irritam os homens:

1. Demorar para ficar pronta
2. Reclamar que ele não faz nada
3. Deixar as luzes acesas
4. Entupir o ralo do chuveiro com cabelo
5. Acumular pertences
6. Encher a lata de lixo além da capacidade
7. Deixar lenços de papel pela casa
8. Xícaras sujas pela casa
9. ‘Surfar’ entre canais de TV
10. Assistir a novelas

O sobrenatural na era da Internet

Entre os lançamentos recentes de livros de terror e fantasia, uma das capas mais interessantes é a do romance A Corrente, de Estêvão Ribeiro (Editora Draco, 184 págs., R$ 33,90), por se distanciar dos clichês do gênero. Em vez de uma casa mal-assombrada ou alguma entidade sobrenatural da noite, exibe um teclado de computador queimado – um objeto familiar, hoje quase onipresente, deformado de maneira a parecer mais ameaçador que um monstro imaginário, o que está de acordo com o espírito do enredo.

A estrutura da obra, por outro lado, não é particularmente original. Segue um modelo comum a muitos thrillers de suspense, nos quais uma maldição ligada a um fantasma vingativo (ou outra entidade com a mesma função) abate um grupo de personagens, um a um. A referência mais próxima parece ser o filme O Chamado (The Ring, 2002) de Gore Verbinski, baseado no Ring japonês de Hideo Nakata, de 1998, derivado, por sua vez, do romance homônimo de Koji Suzuki, inspirado no conto “Okiku e os nove pratos”, do folclore japonês.

Em O Chamado, as vítimas recebiam um telefonema anunciando sua morte depois de assistir a uma misteriosa fita de vídeo. O enredo de A Corrente, nacional e atual, torna-se mais próximo do leitor, mais familiar, verossímil e por isso, mais perturbador, ao recorrer a uma dessas repetitivas e banais “correntes” de e-mails, que prometem a felicidade a quem as repassar e castigos terríveis a quem as ignorar – que neste caso, sempre se realizam.

Muitas das histórias de terror – principalmente as que envolvem fantasmas e similares – são fundadas em boa parte na culpa. E este tipo de combinação do mal-estar tecnológico com a culpa associada à insuficiência ou à inadequação de normas morais tradicionais para lidar com as novas realidades é um achado que sem dúvida outras obras voltarão a explorar no futuro.

Isso dá ao romance um toque de slipstream. A expressão em inglês significa literalmente “cone de aspiração” (ou de sucção), ou seja, o efeito de “vácuo” ou “arrasto” que produz um veículo ao se deslocar em grande velocidade, mas seu uso literário (cunhado por Bruce Sterling, um dos criadores da ficção científica cyberpunk) se refere a obras que, recorram ou não à especulação científica ou fantástica, exploram o efeito de estranheza ou de dissonância cognitiva que resulta da rapidez das transformações sociais e tecnológicas, a sensação de ser “aspirado” e “arrastado” por mudanças rápidas e mal assimiladas. Como em Reconhecimento de Padrões de William Gibson (co-criador do cyberpunk, junto com Sterling) que nada tem de fantástico ou especulativo, mas com a consciência de estar descrevendo uma realidade que há muito pouco tempo seria ficção científica e ainda causa certo pasmo.

Neste caso, o romance testemunha a rápida incorporação ao quotidiano do brasileiro comum de uma cidade média (Vitória, do Espírito Santo) de comportamentos que até início dos anos 90 soariam como ficção científica de vanguarda, difundidos por uma revolução tecnológica, mas que se articulam contraditoriamente com hábitos, superstições e ideias morais e religiosas herdadas de nossos avós. Dentro das convenções do gênero, o enredo de A Corrente é satisfatoriamente bem construído. Os personagens são verossímeis e têm vida. O fundamento da maldição, revelado no final, é suficientemente interessante para não decepcionar, ao ser revelado após longa expectativa.

Deixa a desejar, por outro lado, a adesão desnecessária, às vezes inadequada, a certos clichês do gênero. Por exemplo, antes de apagar o e-mail fatal, cada um dos personagens “punidos” comete algum pecadilho de internet. Baixar um vídeo pornô ou uma música pirata, acessar um chat na hora do expediente, perder tempo atualizando o blog quando se deveria estar procurando emprego…

Lembra os tantos filmes de terror adolescente nos quais as vítimas sempre são apanhadas ao fazer algo “errado”, como fumar maconha ou ter relações sexuais. Além do clichê reproduzir um moralismo irrefletido, neste caso os “erros” são tão periféricos e sem importância que dificilmente alimentarão uma real sensação de “culpa” no mais ingênuo e impressionável dos adolescentes. Só o protagonista cracker (e não apenas hacker, como diz o texto) comete crimes sérios, como roubar senhas de correntistas bancários para cometer fraudes financeiras.

Outro cacoete do cinema a se evitar é a tendência a recair, vez por outra, numa visão “cinematográfica” da cena, mostrando coisas que o personagem em foco não poderia ver, mesmo se os acontecimentos são narrados do seu ângulo limitado (como é usual numa história de mistério) e não do ponto de vista de um narrador onisciente.

Em certas passagens críticas ou violentas, atitudes, percepções e manifestações físicas deixam a desejar em verossimilhança. Policiais atendem a um chamado de emergência para deter um suposto assassino e se fazem anunciar pelo porteiro. Um personagem luta com uma pessoa acamada pela posse de um molho de chaves sem perceber que a segunda está se encharcando de álcool e acendendo um isqueiro (impossível visualizar) e as reações ao incêndio que se seguem são pouco convincentes. Um tiro e o desabamento de uma pilha de sacos de cimento num corredor ligado a um hospital lotado passam despercebidos, sem chamar a atenção de ninguém. Mesmo uma história de terror fantástico deveria ser mais realista em pormenores como esses.

Certas repetições de situações e reafirmações do óbvio deixam a sensação de “já li isso antes” e poderiam ter sido evitadas. A revisão deixou escapar alguns erros incômodos, tais como “não apreciará de estar ali” (p. 23), “mal estado” (p. 25), “sofrível cena” (com o sentido equivocado de “cena de sofrimento”, p. 46), “parecem não lhe obedecerem” (p. 65), “sua amiga está lhe traindo” (p. 66). Referimo-nos ao discurso do narrador, é claro: em diálogos, chats e e-mails, os “erros” reproduzem adequadamente a linguagem coloquial do contexto.

No conjunto, apesar destas as ressalvas pontuais, as imperfeições não chegam a comprometer o resultado. É um bom thriller sobrenatural para quem aprecia o gênero.

Freira troca Amazônia por doentes de cólera no Haiti

Freira italiana morou na cidade de Parintins, no Amazonas. Foto: Alessandra Correa/BBC Brasil

Há cinco anos, quando a freira italiana Marcella Catozza, 47 anos, trocou a cidade de Parintins, no Amazonas, pelo Haiti, ela tinha como objetivo abrir uma escola.

A região escolhida foi Waf Jérémie, uma das partes mais pobres da favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe.

“Na primeira semana, vi 12 crianças morrerem vítimas de desnutrição”, conta a missionária franciscana. “Resolvi abrir uma clínica.”

Hoje, a pequena clínica comandada pela irmã Marcella é a esperança dos moradores da região para combater a epidemia de cólera, que já matou 3,6 mil haitianos.

O porto de Waf Jérémie é a porta de entrada para muitos dos haitianos vindos do interior para a capital. A população é calculada em 70 mil pessoas, mas Marcella diz acreditar que o número real seja o dobro.

Lixo

Assim como na maioria das favelas de Porto Príncipe, em Waf Jérémie não há saneamento. Nas vielas entre os casebres, porcos reviram o lixo enquanto crianças brincam descalças.

Nesse cenário, a epidemia de cólera se alastra. “As condições de higiene aqui são terríveis. Eles não têm latrinas, não têm água potável. É muito fácil contrair a doença”, diz a religiosa.

A clínica comandada por Marcella começou a tratar de doentes de cólera em 7 de novembro, duas semanas após o início da epidemia no país. Segundo a freira, já foram atendidas cerca de 1,5 mil pessoas.

“Nas primeiras semanas, tivemos 16 mortes”, diz. “Quando íamos às casas explicar sobre a necessidade de buscar tratamento rápido em caso de diarreia ou vômito, as pessoas riam, diziam que esses problemas são parte do dia-a-dia aqui. Tivemos de explicar que esse tipo de diarreia matava.”

Agora, segundo a missionária, os moradores já têm mais informações a respeito da doença e sobre a importância de buscar atendimento logo. Com isso, não foram registradas mais mortes.

São atendidos em média 25 pacientes por dia, divididos em três alas, de acordo com a gravidade do quadro.

Dificuldades

Além de voluntários, a equipe é formada por enfermeiras locais, que falam o crioulo haitiano – uma das duas línguas oficiais do país, junto do francês – e ajudam a orientar a população sobre cuidados de higiene para evitar o contágio.

Apesar dos esforços, Marcella admite que a luta contra a doença é difícil diante das condições de vida na favela.

“Na verdade, fiquei até surpresa que o número de pacientes seja tão pequeno. Dadas as condições em que vivem, imaginava que em duas ou três semanas a doença iria se propagar muito mais”, diz a freira.

“Enquanto não houver água potável e saneamento, o problema vai continuar.”

Porto de Waf Jérémie é a porta de entrada para muitos dos haitianos vindos do interior para a capital. Foto: Alessandra Correa/BBC Brasil

Por iniciativa da freira italiana, casas foram construídas em Waf Jérémie

O prédio original em que a freira instalou sua clínica quando chegou ao Haiti foi destruído pelo terremoto de 12 de janeiro de 2010, assim como uma escola que funcionava ao lado e era comandada por outra irmã franciscana.

Depois do terremoto, as freiras mantiveram o atendimento em barracas, até que uma organização não-governamental italiana financiou o projeto de cólera.

Trabalho

Dos cinco anos que viveu no Brasil, Marcella trouxe a experiência do trabalho com crianças de rua. O centro educacional que comandava em Parintins atendia 700 jovens.

No Haiti, além da clínica e da escola – que está sendo reconstruída –, ela coordena outros projetos na comunidade de Waf Jérémie, como uma cozinha comunitária e a construção de 122 moradias populares, erguidas graças a doações de amigos.

Em breve, a italiana pretende iniciar um programa profissionalizante para jovens, ensinando os adolescentes da região a trabalhar em carpintaria, padaria e outros ofícios.

“O maior problema ainda é a falta de emprego”, diz Marcella. A taxa de desemprego no Haiti chega perto de 80%.

“Eles precisam de trabalho. Não está certo deixá-los dependendo de nós (voluntários e organizações de assistência)”, afirma.

Ao comentar a situação um ano depois do terremoto, a freira diz que, em Waf Jérémie, a tragédia acabou significando uma oportunidade de mudança.

“Antes não havia nada aqui. Agora eles têm escola, casas e atendimento de saúde”, diz. “Mas no resto do país, só mudou para pior.”

‘Invasão’ de cultura e cidadania no Complexo do Alemão (RJ)

Os 33 anos de sacrifícios de tia Beth na luta contra a violência e miséria foram recompensados nesta segunda-feira (10/1) com a visita da ministra Ana de Hollanda (Cultura) ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), onde assinou a criação do segundo Ponto de Cultura da comunidade. Esse novo equipamento no local beneficiará o projeto Oca dos Curumins, que tia Beth toca desde 1977, alfabetizando e oferecendo atividades esportivas e culturais para crianças e jovens.

O projeto nasceu na sala da casa de sua mãe, cresceu e hoje atende 300 meninos e meninas da comunidade, oferecendo atividades esportivas, artesanato, aulas de inglês e reforço escolar. Com o apoio do Ministério da Cultura, tia Beth — que chegou ao Complexo do Alemão aos 10 anos de idade junto com os pais e os cinco irmãos — acredita que irá, no mínimo, triplicar o número de beneficiados. Nos próximos três anos, o projeto receberá R$ 180 mil:

Muda muito, porque vamos ter uma estrutura para desenvolver as ações já existentes, implantar novos projetos e atender muitos outros interessados. E vou dizer: nesses mais de 30 anos, percebi que a Cultura é um divisor de águas na vida dos meninos. Através da cultura, melhoramos a saúde, educação, e promovemos a cidadania. É maravilhoso.

O Complexo do Alemão, antes considerado quartel-general da principal facção criminosa do Rio de Janeiro, foi ocupado pela polícia e pelo Exército no dia 28 de novembro de 2010 e desde então vem procurando meios para transformar sua realidade — e a cultura é um dos mais poderosos agentes dessa transformação. “Decidi ter como minha primeira agenda pública a visita ao Complexo do Alemão, pela importância simbólica e fundamental que a cultura tem no combate à violência”, afirmou, destacando que acompanhou de perto a vitória contra o tráfico, “uma vitória do cidadão junto com o Estado brasileiro”. Segundo a ministra, a cultura tem uma função a cumprir nesse processo: dar as ferramentas para que as comunidades possam ser autoras na transformação de sua realidade e na promoção de uma cultura de paz.

“A experiência dos Pontos de Cultura é fundamental, como a presença do Estado nesses territórios ao reconhecer e potencializar o trabalho dessas comunidades pela sedimentação da paz.”

Os Pontos de Cultura são um projeto do Ministério da Cultura, por meio do qual organizações não governamentais de todo o país recebem recursos federais para desenvolver projetos na área. O outro Ponto de Cultura do Alemão, Raízes em Movimento, que desenvolve o Projeto Circulando, de pintura com grafite e de leitura, também foi visitado por Ana de Hollanda.

O coordenador do Instituto Raízes em Movimento, Alan Pinheiro, aposta que em 2011 mais de mil jovens serão beneficiados pelo projeto, praticamente o dobro de 2010, “com a ajuda do Ponto de Cultura”. Desde 2001, o grupo trabalha a questão ambiental, promove atividades esportivas e ações para a educação e cultura, além da capacitação constante de seus integrantes. “O objetivo é formar replicadores e protagonistas sociais dentro da própria comunidade”, avaliou Alan.

Vaticano perde o monopólio da Teologia e esta ciência ganha espaço em centros acadêmicos laicos

Juan G. Bedoya

A teologia, a disciplina acadêmica que já foi considerada a imperatriz das ciências, hoje parece encerrada em uma capela de catequistas que repetem o que o Vaticano decide a cada momento. É só uma aparência. Grandes pensadores cristãos produzem sua obra abrigados em centros universitários laicos, ou publicam em editoras livres do controle eclesiástico. Um exemplo é o teólogo suíço Hans Küng, especialista no Concílio Vaticano 2º junto com Joseph Ratzinger (hoje papa Bento 16). Execrado sem contemplações por Roma, que lhe retirou inclusive a categoria de “teólogo católico”, Küng continua sendo uma referência mundial. No próximo mês de janeiro será investido doutor “honoris causa” pela Universidade à Distância (Uned), por proposta de sua Faculdade de Filosofia.

Na Espanha já funcionam uma dezena de centros superiores onde a teologia ou as ciências das religiões não têm qualquer odor eclesiástico. São cátedras criadas sem interferência religiosa e dirigidas por professores das próprias universidades. Entre outras, contam com centros desse tipo as Universidades Complutense e Carlos 3º (Madri), a Pablo de Olavide (Sevilha), Pompeu Fabra de Barcelona, Universidade de Valência e a cátedra de filosofia da religião e história das religiões na própria Uned.

A perda do tradicional monopólio teológico da hierarquia católica foi pacífica. Ninguém discute mais a competência do Estado para criar faculdades de teologia, muito menos a existência de universidades católicas com o mesmo fim. Nem sempre foi assim. A sabedoria popular, a mais afetada pelas ferozes guerras de religião que assolaram a Europa durante séculos, cunhou a expressão “E se armou a de Deus é Cristo” [um grande alvoroço] para representar as consequências das disputas teológicas sobre se Jesus de Nazaré era filho de Deus e não um simples Messias.

Velhas lembranças da Inquisição, entre outras. Agora a Igreja de Roma tem um núcleo irrenunciável de doutrina e o guarda a sete chaves, sem discussão, mas sem violência. Para fora, entretanto, florescem teólogos que escapam da caverna, livres de ameaças de tortura ou fogueira. São poucos, mas costumam ter o favor do público. É a atração da dissidência.

Entre os que na Espanha pagaram pela ousadia de ser livres destacam-se nos últimos anos José María Díez-Alegría, José María Castillo, Benjamín Forcano, José Antonio Pagola, Juan Masiá e Juan Antonio Estrada, afastados da docência através de processos tortuosos. O último caso é o do teólogo franciscano José Arregi, obrigado a abandonar a congregação de Francisco de Assis para evitar males maiores a seus superiores.

“Humiliter se subiecti” – submeteu-se humildemente. Essa era a fórmula de submissão dos censurados por Roma. Persiste. O Vaticano 2º suprimiu em 1965 o Santo Ofício da Inquisição, mas ressurgiu com força, agora com o nome de Congregação para a Doutrina da Fé. Também há uma latinada para enunciar a nova intransigência. “Roma locuta, causa finita” – uma vez que Roma tenha se pronunciado, o assunto fica decidido. É difícil encontrar outra instituição que trate de modo tão desdenhoso os que defendem outros pontos de vista em suas fileiras.
O Vaticano 2º proclamou que haviam terminado os métodos do Santo Ofício – cruéis, muitas vezes criminosos, com dezenas de milhares de pessoas queimadas vivas ou assassinadas por outros meios -, diante do escândalo de que três dos principais papas do século passado tivessem sido molestados pelo inquisidor de turno como suspeitos de heresia ou desvios pastorais. Foram Bento 15, João 23 e Paulo 6º. Grandes teólogos do famoso concílio também sofreram o indizível nas garras do Santo Ofício. Décadas mais tarde, observaram com estupor que um dos melhores peritos do Vaticano 2º, o alemão Joseph Ratzinger, iria ressuscitar algumas das práticas inquisitoriais repudiadas em 1965.

Foi o cardeal austríaco Franz König quem deu o alarme, e expressou bem alto sua perplexidade. Ele o fez quando Ratzinger caiu sobre o teólogo jesuíta belga Jacques Dupuis por “desvios doutrinários” no livro “Para uma Teologia Cristã do Pluralismo Religioso”. Em uma disputa com Ratzinger muito instigada nos meios católicos, o grande König saiu à forra. “Minha função não consiste em aconselhar à congregação doutrinal, mas não posso permanecer em silêncio porque meu coração se parte quando vejo causar um dano tão evidente ao bem comum da Igreja de Deus. A congregação tem perfeito direito de salvaguardar a fé – embora ainda o fizesse melhor se a promovesse. No presente caso, entretanto, é um sinal de que estão se ampliando a desconfiança e a suspeita sobre um autor que tem as melhores intenções e que adquiriu grandes méritos em seu serviço à Igreja Católica”, escreveu em um depoimento intitulado “Em Defesa do P. Dupuis”.

König, um dos grandes aberturistas do Vaticano 2º, tinha motivos para se dizer escandalizado. Não só estavam pisoteando a proclamação conciliar da liberdade religiosa e de consciência, como a ideia de que se devia proteger o trabalho dos teólogos. König chegou a lembrar a Ratzinger o discurso de Paulo 6º à Cúria Romana em pleno concílio: “Temos de aceitar com humildade a crítica, com reflexão e também com reconhecimento” .

Ratzinger mantinha então a mesma ideia. Escreveu em 1968: “Ainda acima do papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer primeiro, se for necessário inclusive contra o que diga a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens cuja humildade e obediência não sejam menores que sua paixão pela verdade, e que amem a Igreja mais que a comodidade de sua própria carreira”.

Essas palavras foram levadas pelo vento assim que Ratzinger ascendeu em 1981 à presidência da Congregação Doutrinal, convertida pouco a pouco em férrea polícia da fé. Desde então, a teologia é tratada como criada do magistério episcopal.

Obediência e unidade são as palavras que justificam tudo. E também a vontade de Deus. Mas os teólogos não fazem caso. Seguem nisso o Evangelho, mais que a seus superiores. É o que afirma Hans Küng, companheiro e amigo de Ratzinger quando coincidiram como docentes na Universidade de Tubingen, na Alemanha. “Jesus tampouco obedeceu às cegas. Já com 12 anos, no templo, demonstrou que não obedecia cegamente a seus pais.”

A verdade os fará livres, proclama Jesus. É em nome dessa liberdade que o teólogo Küng se rebelou. “Não poderia seguir outro caminho, não só pela liberdade, que sempre me foi querida, como pela verdade, que está acima de minha liberdade. Se o tivesse feito, teria vendido minha alma pelo poder na Igreja.”

Durante séculos a Igreja romana se opôs à tradução dos textos sagrados para as línguas de cada povo. Quando Lutero publicou a Bíblia em alemão, o papa intensificou suas exigências de que levassem a Roma a cabeça do monge agostiniano. Com as ideias de Jesus nas mãos do povo, Roma não poderia justificar seu poder terreno, nem suas pompas e vaidades, nem o afã de dominação ou a marginalização da mulher. Por isso, como afirma Küng, “parece que Jesus goza de maior estima fora da Igreja do que dentro dela”. Acrescenta: “Nunca se pergunta o que Jesus teria feito ou dito; tal pergunta torna-se nesse contexto tão estranha que a maioria as julgaria pouco menos que absurda”.

Foi o que destacou bem alto o teólogo José María Díez-Alegría, expulso da Universidade Pontifícia Gregoriana em Roma e refugiado em uma das barracas do Pozo del Tío Raimundo, junto ao mítico José María Llanos. “Jesus entrou em Jerusalém no lombo
de um burrico. Papas viajam coroados com a tiara pontifícia.”

Não houve um só aspecto da vida em que a Igreja não se considerasse com direito a impor seu ditame. Monarcas autocráticos, os papas praticaram durante séculos a doutrina de Gregório 7º em “Dictatus Papae”, de 1075: só o pontífice romano pode usar insígnias imperiais, “unicamente do papa beijam os pés todos os príncipes”, só a ele compete depor imperadores, suas sentenças não devem ser reformadas por ninguém, enquanto ele pode reformar as de todos.

O último desses imperadores (ou assim se acreditava) foi Pio 12, soberano entre 1939 e 1958. Obcecado pelo protocolo tradicional, os funcionários deviam ajoelhar-se quando o papa começava a falar, dirigir-se a ele ajoelhados e sair do aposento andando para trás.
São lembranças do brasileiro Leonardo Boff, forçado a abandonar a ordem franciscana. “Minha experiência de 20 anos de relação com o poder doutrinário é esta: é cruel e impiedoso. Não esquece nada, não perdoa nada, exige tudo. E para alcançar seu fim toma o tempo necessário e escolhe os meios oportunos.”

Boff nunca esquecerá que inclusive tentaram queimar seus livros. Depois de muitas disputas, silêncios e humilhações, chegou o dia em que teve “a sensação de ter chegado diante de um muro”. Então abandonou também o sacerdócio. “Há momentos em que uma pessoa, para ser fiel a si mesma, tem de mudar. O próprio Jesus foi morto por dizer que nem tudo é lícito neste mundo. Nem tudo é lícito na Igreja. Existem limites intransponíveis: a dignidade e a liberdade da pessoa. Deixei o ministério sacerdotal, não a Igreja. Afastei-me da ordem franciscana, não do sonho terno e fraterno de são Francisco de Assis. A Igreja hierárquica não possui o monopólio dos valores evangélicos, nem a ordem franciscana é a única herdeira do Sol de Assis.”

O hoje papa Bento 16 foi professor de Boff em Munique, Alemanha, e inclusive lhe deu de seu bolso o dinheiro para que pudesse publicar a tese de doutorado porque a considerava uma grande contribuição teológica. “Ratzinger é uma pessoa muito complexa e ao mesmo tempo muito negativa para a Igreja. É um homem muito influenciado pela teologia agostiniana, com uma visão pessimista do ser humano. Não é um homem que ilumine o caminho, mas que o obscurece, impedindo transitar por ele. Duvido que creia no ser humano, e portanto também duvido que confiasse em mim. Por isso me condenou.”

“Gestapo eclesiástica”, “máquina de estrangular”, “camarilha indecente e ignorante”… Esses são alguns qualificativos contra a Inquisição romana na boca do dominicano francês Yves Congar. Afastado do ensino, mandado ao exílio, humilhado, Congar chegou a se sentir destruído, à beira do suicídio. “Desproveram-me de tudo aquilo em que acreditei e a que me entreguei”, disse. Mas resistiu e venceu. Como compensação aos anos de silenciamento e em reconhecimento a sua profundidade teológica (um dos grandes inspiradores do Vaticano 2º), João Paulo 2º o fez cardeal em 1994. De Congar é esta frase: “Pode-se condenar uma solução, mas não se pode condenar um problema”.

O jesuíta Juan Masiá, expulso da cátedra de bioética na Universidade Pontifícia de Comillas, afirma que a Igreja Católica fala de direitos humanos para fora, mas não os respeita dentro. “Renunciar ao espírito inquisitorial é uma questão pendente. Quando impera um sistema de pensar – na realidade, de não pensar – estritamente regulamentado pelos cânones da ortodoxia, quem quiser subir em sua ordenação não terá outro recurso além de calar-se. A perfeita ortodoxia levada ao extremo daria destaque ao silêncio e notabilidade à repetição de papagaio; uma aprovação por pouco a quem insinuar timidamente perguntas proibidas. E certamente uma suspensão a toda divergência, por mais fiel, responsável, inteligente, meditada e ponderada que seja.”

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

"Preconceito nunca se apresenta claramente", diz 1º embaixador negro do Brasil; leia relato

Meu pai foi agente de portaria, um contínuo (…) O preconceito nunca se apresenta claramente. No campo das relações humanas, você nota reação positiva ou negativa (…) É preciso que haja ações afirmativas (…) Eu não me beneficiei de nenhuma política. Na minha época, isso não havia.

Filho de um contínuo, Benedicto Fonseca Filho, 47, foi promovido em dezembro a embaixador, o primeiro negro de carreira. E o mais jovem. Passou por Buenos Aires, Tel Aviv e Nova York. Vai chefiar o departamento de Ciência e Tecnologia. Ele declara orgulho de ser negro e filho de pais humildes que o educaram para chegar ao topo na casa mais aristocrática do país.

Nasci no Rio, em 1963. Mudei para Brasília em 1970 porque meu pai veio ser funcionário do Itamaraty. Ele foi agente de portaria, que é um contínuo. Quando eu tinha nove anos, toda a família foi para a [antiga] Checoslováquia [no leste europeu], quando meu pai foi removido para Praga por três anos.

Sergio Lima/Folhapress
Embaixador Benedicto Fonseca Filho, na escadaria do Itamaraty, em Brasília
Embaixador Benedicto Fonseca Filho, na escadaria do Itamaraty, em Brasília

Naquele tempo, todos os funcionários das embaixadas eram de carreira. Hoje, esses são terceirizados. Foi essa experiência internacional que me despertou o interesse pelo Itamaraty. Talvez por ter estudado em escolas internacionais, na escola francesa e na americana.

Meu pai e minha mãe, na sua humildade, nunca pouparam esforços para nos proporcionar as melhores condições de estudo.

Hoje, meu pai tem 84 anos, já é aposentado há 14. Minha maior satisfação foi eu ser promovido com ele ainda vivo. Ele ficou tão ou mais contente do que eu.

Fiz o concurso [do Itamaraty] em 1985 e entrei de primeira, aos 22 anos. Quando saiu a lista dos aprovados, um jornal de Brasília fez uma matéria que dizia: “Mulher e negro passam em primeiro lugar no Rio Branco”. A mulher foi o primeiro lugar e eu, o segundo.

Vinte e cinco anos depois, uma mulher passar em primeiro lugar já não causa tanto espanto. Naquela época, tinha só uma mulher embaixadora.

Hoje, são várias mulheres embaixadoras, acho que 20, ocupando postos importantes. Talvez chame muito mais atenção quando um negro ascende na carreira do que uma mulher.

Em relação à diversidade racial já avançamos muito, mas ainda temos muito que avançar. Houve um olhar para essa questão na gestão do ministro Celso Amorim.

PRECONCEITO

O preconceito nunca se apresenta claramente. No campo das relações humanas, você nota reação positiva ou negativa das pessoas.

Mas seria leviano dizer que eu experimentei uma situação que pudesse identificar como preconceito [no Itamaraty]. Nunca houve.

Me lembro de um caso [de reação positiva]. A primeira vez que fui à ONU em 2004, um colega do Caribe me chamou no canto para dizer que pela primeira vez via um diplomata negro na delegação brasileira.

Ele enfatizou: “It’s the first time ever, ever. We are proud” [É a primeira vez. Estamos orgulhosos].

Eu faço um paralelo com os EUA, que tiveram um sistema de cotas importante para criar uma classe média negra que se autossustenta, que agora pode seguir em frente sem a necessidade de políticas diferenciadas.

No Brasil, as cotas das universidades vão produzir uma diversidade salutar.

COTAS NO ITAMARATY

É preciso haver políticas de ação afirmativa. No ministério, damos bolsas para proporcionar condições financeiras adequadas para que os afrodescendentes se preparem, o que tem tido um resultado muito positivo.

O objetivo é dar condições para pessoas que têm talento. Algumas vezes é visto como se estivessem recebendo um privilégio. Temos o cuidado de preservar as condições de preparação.

Eu não me beneficiei de nenhuma política. Na época, não havia. Mas olhando retrospectivamente, creio que me beneficiei de certas circunstâncias.

Tive oportunidades que raramente os negros têm. Morei no exterior, estudei idiomas com a ajuda do Itamaraty, porque ajudavam nos estudos dos filhos dos funcionários.

Os críticos das cotas têm uma contribuição que não é irrelevante. Eles dizem que, cientificamente, não há raças, não há diferenças entre brancos e negros.

É uma desmistificação para quem acha que há diferenças intrínsecas. Mas há uma falha no argumento. Do ponto de vista humano e das relações sociais, existem diferenças.

Basta ver os índices sociais, condições de saúde e de moradia para ver que existe um problema. Isso não é tratado de maneira séria e aprofundada [pelos críticos].

Nosso país tem muitos passivos. A preocupação social e racial tem que andar lado a lado. Ou deixamos as coisas acontecerem, ou tentamos uma intervenção. O assunto não pode ser jogado para debaixo do tapete.

ÁFRICA

Nos últimos anos, houve uma preocupação de diversificar as relações externas, ter um olhar novo não só em relação à África. Resgatar elementos de nossa identidade, cultura e sociedade.

Mas também avançamos na área comercial, levando em conta nosso interesse econômico. Tenho orgulho de ser negro. Faz parte da minha identidade. E de ser brasileiro. Mais do que isso, tenho orgulho de ser filho dos meus pais.