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Um Corpo Que Cai

Um corpo que cai não é apenas um corpo que cai. Um corpo que cai é toda a humanidade que cai. Estrepitosamente. Fragorosamente. Absurdamente. Ensurdecedoramente cadente. Do alto de um avião em ascensão. Um avião que não é apenas um avião. É uma nação. Um império sem noção. Um império que fez da opressão o seu modo de ação. Vietnã. Coreia. Camboja. Irã. Nicarágua. Panamá. Síria. Iraque. Afeganistão. Até onde irão? Insensatos. Sem razão. Servidão das armas da destruição. Da fome a consorte. Indústria da morte.

O corpo cai. O império cai? Talvez seja cedo demais. Mas há sinais de que cai. Ou é apenas um tombo para subir ainda mais? Por enquanto ouvimos apenas os “ais” dos que caem do sonho de partir para um lugar onde não entrarão jamais. A porta está fechada. A fronteira está fechada. A amizade é apenas fachada que se esvai, se esfumaça, disfarça, trapaça. Aqui o afegão não passa. O turco não passa. O negro não passa. O chicano não passa. Se passa cai. Tomba do muro. Por tontura, altura, arame farpado ou bala. Muitos muros. Duros. Escuros. Berlim é passado. Virado. Desmanchado. Envergonhado. Agora é Ceuta, Melilla, Palestina, Evros, Coreia, El Paso, Ciudad Juarez. Em cada porto. Em cada aeroporto. Em cada cabeça. Em cada corpo. Em cada rosto o muro está escrito, restrito, dito.

Vertigem. A humanidade rodopia qual turbina do C-17 que decola deixando para trás um rastro de corpos que caem. Estamos todos tontos de tanto girar sobre nós mesmos sem saber para onde ir. Para que lado vamos cair na hora em que a piorra de nossos desejos insanos não mais rodar? Para o sul, o norte, o leste ou o oeste? Os corpos caem para baixo. Sempre é bom lembrar. Vertigem de humanidade. Quando um corpo cai, é toda a humanidade que se vai.

Vertigo. Luzes se apagam. Está escuro. Estamos num lugar chamado Vertigem. Isso é tudo o que não queríamos saber. E a noite é cheia de buracos abertos pelas balas douradas que rasgam o céu de Cabul, de Caracas, de Manágua, do Vigário Geral, da Cidade de Deus, do Jacarezinho, do Alemão, de Paraisópolis. Os corpos caem. Corpos árabes, afganis. pashtuns, filipinos, marroquinos, argelinos, indonesianos, chicanos, peruanos, humanos. Jovens. Negros. Pobres. A humanidade cai. Vamos cair. Um buraco sem fim.

Um corpo que cai. Hitchcock não troca mais os corpos. Madeleine não é Judy. “Scottie” Ferguson não está tonto nas alturas. Os corpos que caem são reais. Únicos em suas realidades carnais. Do avião que sai não é apenas um corpo que cai. É um filho, um irmão, um esposo, um namorado, um pai. É amado. Esperado. Chorado. Talvez nem seja enterrado.

O mundo está louco. Aloprado. Alucinado. Não é a papoula. Não é o ópio do talibã. É o ópio do povo. A religião do dinheiro, do negócio, do capital, do lucro. Os aviões vão e voltam. As lágrimas vão e não voltam. As vidas vão e não voltam. As balas e os canhões voltarão? Nossa humanidade voltará? Vertigem. Um corpo que cai. A humanidade que cai.