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A síndrome de Herodes

“Le Massacre des Innocents” (Léon Cogniet. Paris, 1824. Detalhe)

Herodes não gostava de crianças. Mandou matar todas as que tinham menos de dois anos que em seu tempo viviam em Belém e proximidades. Está na Bíblia, lá no início do Evangelho de Mateus. Seu medo era que, entre as crianças, estivesse aquele que poderia derrubá-lo do trono. Seus soldados passaram casa por casa, povoado por povoado, vereda por vereda. Houve um grande pranto em Ramá. Choro e lamentação. Raquel chorava seus filhos e se recusava a ser consolada. Com ela, todas as mulheres, desde as recém paridas até as parteiras mais experimentadas. E, com elas, seus maridos e seus filhos, seus netos e bisnetos. Só escapou um: Jesus, o filho de Maria. E escapou porque um anjo avisou a José para que fugisse com Maria e o menino para o Egito.

Por essa e outras, Herodes também não gostava de anjos. Eram seres traiçoeiros. Não por serem anjos. Anjos são seres do bem. Um anjo nunca faz mal a ninguém. Por que, então, Herodes tinha medo de anjos? Simples: anjos não podem ser vistos. E, sendo invisíveis, não podem ser controlados. E, quem está no poder e a ele se aferra a todo custo, tem medo de tudo que possa fugir a seu controle. Nem os soldados, os mais treinados das forças romanas, cancheados nas mais duras lides da guerra por todo o Império, desde a Bretanha até a Mesopotâmia, conseguiam localizar os anjos e tê-los sob seu domínio.

Tal perigo já havia sido provado por Herodes. Foram os anjos que advertiram os velhos magos do Oriente para que não lhe passarem a informação sobre o lugar do nascimento do menino que viria a ser rei. Com isso, Herodes, além de não gostar de crianças e não gostar de anjos, passou a não gostar de velhos. Não por sua idade. Um velho não é um perigo para um rei. Ou pode ser. Se for na guerra, não é. Mas na sabedoria, com certeza é. O tempo ensina. E quem se deixa conduzir por esse pedagogo, quanto mais velho, mais sábio e mais perigoso para os poderosos. Junto com as dobras da pele e as canas que brilham, a vida ensina a ler os sinais dos tempos. Os velhos distinguem entre o verdadeiro brilho das estrelas do futuro e o fogo-fátuo dos pútridos gases que emanam dos cadáveres insepultos do passado. Os magos não voltaram para Herodes. Tomando o atalho da sabedoria, retornaram ao Oriente. Herodes enviou seus soldados para apresá-los. Mas os cavalos dos soldados não conseguiram alcançar os lépidos camelos dos forasteiros.

E por isso Herodes também não gostava de camelos. São resistentes. Não se deixam vencer tão facilmente. Fazem reservas nos tempos da abundância para usá-los na necessidade e no perigo. São lentos, sim, mas perseverantes e constantes. Assim como os jumentos que cercaram Jesus e o acalentaram com seu hálito na estrebaria de Belém e depois serviram de montaria para a mãe e o menino a caminho do Egito. O jumento só se parece com um burro. Engana-se quem confunde o jumento com o burro. Mas isso não é problema nem solução, nem para o jumento e nem para o burro. Herodes não gostava nem de um e nem de outro. E neste desgosto estavam incluídas as vacas, as ovelhas, as cabras, as galinhas. Tudo que não fosse animal de guerra, não interessava a Herodes. Só o cavalo valia. E não por ser cavalo, mas por ser montaria para os soldados e tração para os carros de guerra.

De quem então, Herodes gostava? A essas alturas o amigo leitor e a amiga leitora já devem estar se perguntando também. Herodes, na verdade, não gostava de ninguém. Não gostava de crianças, nem de anjos, nem de velhos e nem de animais. Será que ele gostava de si mesmo? Será que chegou a gostar de verdade de alguma das nove esposas que teve? Será que gostava dos sete filhos que com elas gerou? E dos militares que o cercavam? Dos generais, dos coronéis, dos capitães, dos tenentes e sargentos, dos cabos e soldados? Eles estavam por todos os lados. Seu governo era um governo de militares. E um militar nunca confia em ninguém. Confia apenas nas próprias armas e na capacidade de matar. Herodes sabia disso. E por isso, imagino, não gostava dos militares que o cercavam. E eles, num desprazer recíproco, não gostavam dele.

O que a história nos conta, é que o governo do Herodes que não gostava de crianças, nem de anjos, nem de velhos e tampouco de animais, durou pouco. Muito pouco. Foi tão violento e tão incompetente que seu superior, o Imperador Romano César Augusto, enviou-o ao exílio na França, onde morreu no esquecimento. Hoje, Herodes só é lembrado por suas maldades. Esse é o fim de todos os tiranos. Que assim seja. Amém.

Emily e Rabeca, assassinadas em um “confronto” com a policia no Rio de Janeiro, 2020.

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