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FRATELLI TUTTI – UMA POLÍTICA PARA ALÉM DA MODERNIDADE

SS. Papa Francesco – Udienza Movimenti Popolari 05-11-2016 @Servizio Fotografico – L’Osservatore Romano

A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. (Papa Francisco, FT 69).

De forma esquemática, podemos dizer que a história da relação do cristianismo com a política tem dois grandes marcos. O primeiro, a “virada constantiniana” do séc. IV, quando o Imperador Constantino se aproximou do cristianismo e as lideranças cristãs aceitaram esta oportunidade como um modo de viver pacificamente e expandir a fé cristã por todo o mundo conhecido de então.

Deste ponto inicial e numa série de movimentos muito variados configurou-se o que os historiadores chamam de cristandade: a união entre o poder político e o poder religioso. Foi um modus vivendi que se prolongou até o segundo grande evento, tão significativo quanto o primeiro: a Revolução Francesa e, nela, a separação entre Igreja e Estado. Separação traumática, consequência da ruptura de um laço profundo e sólido que se havia constituído ao longo dos séculos.

No período posterior à Revolução Francesa, para alguns, ser católico era ser contra a democracia, ser contra a soberania popular e negar os direitos humanos. Um modo de pensar que foi a doutrina oficial da Igreja durante o séc. XIX e só começou a mudar, lentamente, com o avanço da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano II veio sepultar o sonho da volta das monarquias católicas e da união entre o trono e o altar. Sempre há alguns, claro, que sonham com esse passado. São os bufões da história cujas posturas caricaturais nem risos mais fazem despertar.

O fato é que o ideal iluminista da “liberdade, igualdade e fraternidade” se impôs como parâmetro político. Da diferente articulação dos três elementos surgiram variados modelos políticos. Por um lado, tivemos as sociedades que privilegiaram a liberdade e deixaram em segundo plano a igualdade. O indivíduo como sujeito político e a livre iniciativa econômica se tornaram os grandes valores neste modelo. Do outro lado, as sociedades que colocaram a igualdade no centro e deixaram a liberdade em segundo plano. A coletividade como sujeito político e o planejamento estatal tiveram mais importância neste modelo.

Os dois modelos tiveram seus êxitos e seus limites. Processos criativos houve em ambos os lados. Assim como em ambos os lados houve exacerbações que culminaram em individualismos excludentes ou regimes totalitários.

Para dar um passo adiante e sanar a crise que acossa a humanidade, o Papa Francisco propõe que resgatemos o terceiro elemento: a fraternidade. Ela ficou na sombra tanto no modelo liberal como nos projetos socialistas reais. Mas o que seria um projeto político baseado na fraternidade? Simples: pensar a vida em sociedade não apenas como um pacto entre sócios. O pacto é importante e não pode ser negado. É a partir dele que se formam as democracias. Mas é preciso ir além. É preciso incorporar na lógica política aqueles e aquelas que sequer tem condições para participar de um pacto social.

É preciso incorporar no fazer político a categoria de “próximo”, ou seja, incluir como sujeitos os grupos sociais e as nações que hoje jazem à beira do caminho da humanidade. É preciso acolher e colocar no centro da ação política os clamores que hoje não são ouvidos. No interno dos países, estados e cidades, escutar os fracos da sociedade: minorias sociais, étnicas, sexuais, de gênero, idade, condição sanitária… Na política internacional, as nações que, de tão empobrecidas, sequer contam no jogo político e econômico mundial. E o grande próximo e esquecido de quase todos os projetos políticos: a criação, tanto em seus seres particulares como nos grandes biomas.

Nas democracias, o poder emana das maiorias. Essa é a virtude da política moderna. Mas é também o seu defeito. Para superá-lo, não se anda para trás. É preciso radicalizar a democracia incluindo nela as vozes das minorias. Só assim liberdade e igualdade chegarão ao justo equilíbrio, pois cada um será considerado na igual dignidade a partir daquilo que o faz diferente de todos os outros. Teremos então uma sociedade fraterna para todos e todas.

Em seus encontros com os Movimentos Populares e na Laudato Sì, o Papa Francisco deu o exemplo deste novo jeito de fazer política. É nessa direção que os cristãos são convidados a impulsionar o jogo político. Não para trás, para a Idade Média. Caminhamos para o futuro, para além da modernidade.

Intolerância religiosa

75% das pessoas vivem em países com restrições religiosas, diz estudo

Policiais protegem uma igreja em Maiduguri, Nigéria, em maio de 2012.

Uma pesquisa do instituto norte-americano Pew Research Center indicou o aumento da intolerância religiosa nas cinco maiores regiões do mundo entre meados de 2009 e 2010. No período, passou de 31% para 37% a proporção de países com nível elevado ou muito alto de restrições a crenças e práticas de religião. Cerca de 5,2 bilhões de pessoas vivem em locais com este tipo de ressalva.

O crescimento ocorreu inclusive em países ocidentais que tradicionalmente impõem poucos limites à prática da fé. A maior parte dos locais com restrições governamentais ou alta hostilidade social envolvendo religião são países com as maiores populações do mundo.

Mas o aumento foi registrado também em países com nível moderado ou baixo de restrições, como Suíça e Estados Unidos, onde em Oklahoma houve uma proposta rejeitada pela justiça de declarar ilegal a lei islâmica. Em território suíço foi proibida a construção de novos minaretes em mesquitas, na Indonésia ocorreu o fechamento de mais de 20 igrejas por pressão de extremistas islâmicos e houve violentos confrontos entre cristãos e muçulmanos na Nigéria.

O aumento destas restrições foi atribuído a diversos fatores, como crescimento de crimes e violência motivada por ódio religioso ou preconceito.

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Os países com as maiores restrições governamentais em 2010 – que incluem leis, políticas e ações para limitar crenças e práticas religiosas – eram Egito, Indonésia, Arábia Saudita, Afeganistão, Irã, Tunísia, China, Rússia, Iêmen, entre outros. Estes locais somaram ao menos 6,6 pontos em um índice com nota máxima de 10.  O Brasil aparece entre os países com 0 a 2,3 pontos, no nível baixo, mesmo grupo de Austrália, Japão e Argentina.

Com elevada hostilidade social (7,2 pontos ou mais), estão Paquistão, Índia, Iraque, Sri Lanka, Bangladesh, Somália, Rússia, Palestina, Egito, entre outros. Neste ranking, o Brasil aparece no nível moderado (entre 1,5 e 3,5 pontos), junto com EUA,  Itália e Espanha. Por outro lado, o País está em melhor colocação que Alemanha ou França, presentes no grupo de elevada hostilidade social (3,6 e 7,1).

A China foi o país mais populoso com altas restrições, enquanto Paquistão, Índia, Israel e os Territórios Palestinos foram considerados locais com hostilidades sociais elevadas, como perseguição ou violência em massa.

O número de países onde houve assédio e intimidação de grupos religiosos específicos aumentou de 147 em 2009 para 160 em 2010. Cristãos, judeus, budistas estão entre os mais atacados.

No final de 2010, casos deste tipo contra cristãos foram registrados em 111 países (107 em 2006), contra muçulmanos em 90, e judeus em 68. Nos quatro anos do estudo, grupos religiosos foram assediados ou intimidados em 184 países.

O estudo abrange 2006 a 2010, neste período o número de países com muito alto nível de restrição governamental aumentou de 10 em 2007 para 18 em 2010. O número de países com muito alto nível de hostilidade também aumentou de 10 para 15.

A pesquisa engloba 197 países e territórios autoadministrados (Kosovo, Hong Kong, Macau e Palestina) e mais de 99,5% da população mundial.