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Um pequeno grande passo.

“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.” A frase é do astronauta norte-americano Neill Alden Armstrong, o primeiro ser humano a pisar na lua. O feito, como os mais velhos lembram e os mais novos seguramente vimos em imagens de arquivo, é um dos mais significativos da história. Pela primeira vez, em 20 de julho de 1969, um homem caminhava em outro solo que não o do planeta Terra.

O “pequeno passo” era a culminância do Projeto Apollo. A meta era colocar astronautas no solo lunar e, através deste feito científico e tecnológico, demonstrar a superioridade do capitalismo sobre o socialismo. Era a época da corrida espacial. Depois de vários fracassos e 200 bilhões de dólares consumidos, o objetivo foi alcançado e devidamente mediatizado. Mais de um bilhão de pessoas acompanharam ao vivo, pela televisão ou pelo rádio, a efeméride que culminou com a frase de efeito devidamente preparada para a ocasião.

A frase de Neil Armstrong que celebrizou o episódio me veio à mente esta semana quando o Papa Francisco, com um gesto pouco ou nada midiático, baixou um decreto modificando um parágrafo do Código de Direito Canônico. Trata-se do parágrafo primeiro do Cânon 230. Três palavras foram suprimidas: “do sexo masculino”. É o cânon que regula o acesso, na Igreja Católica Romana de Rito Latino, aos ministérios do Acolitato e Leitorado. Com a modificação, pela primeira vez na história moderna do catolicismo romano – vale sempre lembrar que além deste há outros cinco ritos na Igreja Católica Romana – o acesso a esses dois ministérios é aberto a mulheres.

Verdade que tanto aqui no Brasil como em outros lugares do mundo, desde o Concílio Vaticano II havia mulheres exercendo o ministério de acólitas e leitoras nas milhares de comunidades espalhadas por campos e cidades. Mas o faziam de forma extraordinária para suprir a carência de ministros homens ou na incapacidade ou não vontade deles em exercê-los. Era um ministério temporário, instável, passível de revogação a qualquer momento e visto como de caráter supletivo. Quando não mais necessárias, as mulheres que o exerciam eram dele dispensadas.

Agora a figura é outra: passam a ser ministérios permanentes, estáveis, instituídos pela competente autoridade eclesiástica. Como vai ser na prática, dependerá muito da dinâmica das comunidades que assumirão esta possibilidade canônica.

É um pequeno passo para as mulheres. Muitos gostariam de vê-las não apenas no exercício de ministérios auxiliares, mas na titularidade de ministérios ordenados e na direção das comunidades locais, paroquiais e diocesanas. Fato que, é bom lembrar, já é comum em outras igrejas cristãs. Mas talvez esse pequeno passo na longa luta feminina para o reconhecimento no espaço eclesial, se transforme num grande salto para a Igreja Católica Romana. Afinal, ter ou não a possibilidade de mulheres colocando os pés no espaço que circula o altar, é símbolo da corrida pelo exercício do poder na Igreja Católica Romana. Assim como, na década de 1960, colocar um homem a pisar na Lua era o marco da vitória na corrida espacial, ter mulheres ao redor do altar é sinal indicador de que o céu é o limite quando se pensa em uma Igreja aberta e participativa. Apenas um sinal, mas um sinal que desejamos promissor.

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Fratelli Tutti: a paz e a superação dos conflitos.

Escrevo este texto sobre o Capítulo VII da Fratelli Tutti no dia 20 de novembro. Uma data importante na história do Brasil. Talvez a data mais importante. Ela celebra o fato mais significativo da nação brasileira. Hoje é dia de Dandara e Zumbi de Palmares. Um homem e um mulher que, nas suas individualidades, representam os milhões de africanos – estima-se em cinco milhões – que foram arrancados de suas aldeias e cidades e trazidos à força para o trabalho escravo no Brasil. Deles e de seus descendentes que, durante três séculos, de geração em geração, foram submetidos à mais degradante condição humana que é a privação da liberdade e a serem considerados não como pessoas, mas como instrumentos de trabalho.

Os três séculos de escravidão marcaram de forma estrutural a sociedade brasileira. Somos uma sociedade racista. Racismo que se expressa na cultura, na economia, na política, na educação, na literatura, nos meios de comunicação, nas religiões, no esporte, na vida familiar… Não há um recôndito das relações sociais brasileiras, das mais íntimas às mais públicas, que não esteja marcada pela violência racial.

Este ano o dia 20 de novembro, para os que moramos em Porto Alegre, é ainda mais triste. Na noite de ontem, em um hipermercado da Zona Norte da cidade, um homem negro de 40 anos, foi espancado até a morte por um segurança e um policial militar. O assassinato foi filmado pelas câmeras do estabelecimento. As imagens circularam nas redes sociais causando indignação. E gerou uma pergunta: quantos homens e mulheres negras, a cada dia, a cada hora, em todo o Brasil, sofrem violência e são mortos, pelo simples fato de serem negros e negras?

Há dados disponíveis. Subestimados, é claro. Escondidos, disfarçados, negados. A polícia, a justiça e a estatística também são racistas.

O que fazer diante destes fatos e outros semelhantes que se repetem a cada dia? A Fratelli Tutti nos dá algumas dicas. Primeiro, é preciso fazer memória das violências e injustiças cometidas. Elas não podem ser esquecidas. Precisam ser lembradas e celebradas. O esquecimento só perpetua a injustiça. E com isso está indicado o segundo passo: é preciso fazer justiça para com as vítimas. Um passo adiante para novas relações sociais só será possível quando o sofrimento das vítimas for reparado. A sociedade como um todo deve assumir o compromisso de sanar as feridas do passado criando as condições para que suas consequências não afetem o presente e nem comprometam o futuro.

Para isso, segundo o Papa Francisco, é necessário uma arquitetura da paz que consiste em criar mecanismos econômicos, políticos, educacionais e culturais que compensem aqueles e aquelas que, hoje, sofrem a violência herdada do passado. Projetos estruturais que encontram seu complemento no artesanato da paz que consiste em que cada pessoa, nas suas relações cotidianas, se comprometa a evitar e impedir a reprodução dos mecanismos discriminatórios que sutilmente se mantém no consciente ou no inconsciente das pessoas.

Depois destes passos, será possível a reconciliação, que não consiste num retorno à situação anterior à violência, mas em uma nova convivência capaz de reconhecer, integrar e superar os conflitos de modo a não repetir os erros do passado. Teremos então, a possibilidade de uma fraternidade universal e da amizade social com que tanto sonhamos.

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Fratelli Tutti – Em Defesa da Política

Há um fenômeno que, a cada período eleitoral, volta e ganha força em nosso país. Falo dos políticos que dizem odiar a política. São detentores de cargos públicos ou candidatos, de situação ou de oposição, que dizem que política é tudo sujeira, que os políticos não prestam para nada, que são todos corruptos, ladrões, falsos…e, no entanto, estas mesmas pessoas lutam com unhas e dentes para manter ou conquistar cargos ou para elegerem seus amigos e aliados!

Estranho fenômeno. Mas fenômeno que é real. Todos podemos constatá-lo, desde o nível municipal até o federal. Onde ele nasce e como ele se alimenta? Em primeiro lugar, há de se dizer que não é um fenômeno moral. Se fosse um julgamento moral sincero, estas pessoas não seriam candidatas e, as que não o são, deixariam de participar dos processos políticos. De fato, o desprezo e a satanização da política fazem parte de um projeto político que consiste em afastar os cidadãos da sua responsabilidade nas decisões que dizem respeito a toda a comunidade. Para os mal intencionados, quanto menos as pessoas participam da política, melhor. Esse é o sonho de todos os ditadores e de todos os corruptos.

Se vamos ao sentido último da política, constatamos que ela é a arte de organizar a vida em sociedade. Ninguém nasce, nem vive e nem morre sozinho. Todo o percurso de nossa existência é feito em sociedade. Dependemos dos outros para viver e com nosso trabalho contribuímos para que outras pessoas vivam. A regulação dessa troca entre os seres humanos e os vários grupos que compõem a sociedade e a humanidade se chama política. Política local, regional, estadual, nacional, internacional. Toda a convivência humana, próxima ou distante, é uma convivência política.

Conforme a análise do Papa Francisco, no capítulo V da Fratelli Tutti, há dois modos de destruir a convivência social e geral o caos e a opressão. O primeiro, é o populismo demagógico. Fenômeno bastante conhecido entre nós: falsos líderes que utilizam as expectativas populares para manipular o povo. Estabelecendo uma relação direta entre o líder, o condutor, o coronel, o “mito” e as massas necessitadas, destroem as instâncias institucionais para impossibilitar qualquer forma de controle e limitação a seus projetos e seus poderes.

O outro modo de destruir a convivência política, é o projeto liberal – também bastante conhecido entre nós – que alimenta o “dogma de fé” de que não há necessidade de organização social ou do Estado. Na utopia liberal, cada um busca por sua própria conta e risco a solução para seus problemas, contra tudo e contra todos. Na verdade, nesse modelo, o que vale é a lei do mais forte: “quem pode mais, chora menos”. E os fracos sempre perdem…

Para construir a fraternidade universal e a amizade social, não há caminho fora da política. Em outras palavras, é no esforço perseverante em construir e reforçar as instituições sociais – associações, movimentos populares, sindicatos, partidos políticos – e, através delas, cuidar dos mais fracos e velar pelo bem comum, que se dão os passos para uma convivência humana digna para todos.

Nesse sentido, a política é a prática coletiva do amor cristão. Ajudando uma pessoa necessitada que está ao nosso lado, estamos praticando a caridade que ajuda essa pessoa concreta a sair de sua situação de dor, sofrimento ou miséria. Isso é importante e necessário. Envolvendo-nos na política, temos a possibilidade de ajudar não apenas uma pessoa, mas toda a coletividade a fim de que outras pessoas não venham a cair nessa situação ou mais rapidamente posam dela sair. É urgente que os cristãos passemos da caridade individual à caridade política.

Essa é a via para a remoção dos muitos obstáculos que impedem a fraternidade universal e a amizade social. Não há outra. Na convivência entre os humanos, sem política, não há salvação!

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Fratelli Tutti – De Babel a Pentecostes.

A globalização não é um fenômeno novo na história da humanidade. Na verdade, ela faz, desde os primórdios, parte do jeito humano de ser. Quando, há mais ou menos 130 mil anos, o homo sapiens saiu das savanas africanas para habitar a Ásia e, depois, a Europa, ali iniciou o processo de globalização. Nos contínuos deslocamentos em busca de sobrevivência, os vários grupos humanos que se formaram passaram a estabelecer intercâmbios sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos…

Na medida em que novos recursos tecnológicos foram desenvolvidos, as trocas se tornaram mais volumosas, intensas e rápidas. Imaginemos o que significou, há 5.500 anos, a invenção da roda para as viagens, o comércio e as guerras! Nos últimos 500 anos, trens, automóveis e aviões deixaram o longínquo cada vez mais próximo. Distâncias que foram reduzidas – no tempo e no espaço – pela imprensa, o rádio, a televisão e, hoje, a internet que possibilita conexões e intercâmbios imediatos com qualquer lugar do mundo.

O mundo está cada vez menor. E, paradoxalmente, temos a impressão que estamos cada vez mais longe uns dos outros. Distância de pessoas e distância de povos. Por que isso? Por uma razão simples. Mudam os tempos, mudam os suportes tecnológicos das relações, mas os encontros ou desencontros seguem basicamente dois padrões: Babel e Pentecostes.

Babel é a globalização como projeto de dominação. É o encontro que leva à imposição de um povo, de uma cultura, de uma economia, de uma religião, de um poder sobre o outro. Enquanto um domina, o outro é anulado, calado, silenciado. A narrativa bíblica diz que a pretensão era construir uma torre, um equipamento militar, o mais poderoso da terra. O projeto foi impedido pela pluralidade das línguas, pela diversidade, que explodiu a uniformidade e criou a diversidade de povos, línguas e culturas.

O outro padrão é o Pentecostes. Sob a ação do Espírito Santo, a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus passa a falar as mais diversas línguas e, mesmo assim, todos se entendem. É o encontro daquilo que havia sido disperso em Babel, não mais sob o regime da uniformidade, mas sob o modo da diversidade comunicante. Nesse regime, cada um mantém a sua própria identidade e a coloca em diálogo com a identidade do outro para que ambos se enriqueçam.

O paradigma da diversidade comunicante é o proposto pelo Papa Francisco como caminho para o encontro de povos e culturas no mundo globalizado em que vivemos. Fora dele, há duas opções. A primeira é o fechamento dentro da própria cultura e do próprio país. Quem opta por ele, morre por asfixia cultural e perde a oportunidade de aproveitar da riqueza do diferente. A segunda opção, tão daninha como a primeira, é a de impor o próprio modo de ser sobre os outros. É a cultura do imperialismo, da dominação, da aniquilação do diferente.

A diversidade comunicante, a opção proposta pela Fratelli Tutti, permite dar do que é próprio para que o outro cresça e receber o que é do outro para com ele também aperfeiçoar. Em todos os âmbitos do humano: econômico, social, político, cultural, religioso e outros mais. É ela que garante a sobrevivência das identidades, a própria e a dos outros. O isolamento e a homogeneização levam à anulação e à morte. Podemos fazer isso por interesse de sobrevivência. Já é um passo… Como cristãos, temos um motivo a mais: a diversidade é graça, é dom de Deus, e tudo aquilo que dele recebemos, não é para que fique apenas conosco. É para ser partilhado com todos e todas.

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FRATELLI TUTTI – UMA POLÍTICA PARA ALÉM DA MODERNIDADE

SS. Papa Francesco – Udienza Movimenti Popolari 05-11-2016 @Servizio Fotografico – L’Osservatore Romano

A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. (Papa Francisco, FT 69).

De forma esquemática, podemos dizer que a história da relação do cristianismo com a política tem dois grandes marcos. O primeiro, a “virada constantiniana” do séc. IV, quando o Imperador Constantino se aproximou do cristianismo e as lideranças cristãs aceitaram esta oportunidade como um modo de viver pacificamente e expandir a fé cristã por todo o mundo conhecido de então.

Deste ponto inicial e numa série de movimentos muito variados configurou-se o que os historiadores chamam de cristandade: a união entre o poder político e o poder religioso. Foi um modus vivendi que se prolongou até o segundo grande evento, tão significativo quanto o primeiro: a Revolução Francesa e, nela, a separação entre Igreja e Estado. Separação traumática, consequência da ruptura de um laço profundo e sólido que se havia constituído ao longo dos séculos.

No período posterior à Revolução Francesa, para alguns, ser católico era ser contra a democracia, ser contra a soberania popular e negar os direitos humanos. Um modo de pensar que foi a doutrina oficial da Igreja durante o séc. XIX e só começou a mudar, lentamente, com o avanço da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano II veio sepultar o sonho da volta das monarquias católicas e da união entre o trono e o altar. Sempre há alguns, claro, que sonham com esse passado. São os bufões da história cujas posturas caricaturais nem risos mais fazem despertar.

O fato é que o ideal iluminista da “liberdade, igualdade e fraternidade” se impôs como parâmetro político. Da diferente articulação dos três elementos surgiram variados modelos políticos. Por um lado, tivemos as sociedades que privilegiaram a liberdade e deixaram em segundo plano a igualdade. O indivíduo como sujeito político e a livre iniciativa econômica se tornaram os grandes valores neste modelo. Do outro lado, as sociedades que colocaram a igualdade no centro e deixaram a liberdade em segundo plano. A coletividade como sujeito político e o planejamento estatal tiveram mais importância neste modelo.

Os dois modelos tiveram seus êxitos e seus limites. Processos criativos houve em ambos os lados. Assim como em ambos os lados houve exacerbações que culminaram em individualismos excludentes ou regimes totalitários.

Para dar um passo adiante e sanar a crise que acossa a humanidade, o Papa Francisco propõe que resgatemos o terceiro elemento: a fraternidade. Ela ficou na sombra tanto no modelo liberal como nos projetos socialistas reais. Mas o que seria um projeto político baseado na fraternidade? Simples: pensar a vida em sociedade não apenas como um pacto entre sócios. O pacto é importante e não pode ser negado. É a partir dele que se formam as democracias. Mas é preciso ir além. É preciso incorporar na lógica política aqueles e aquelas que sequer tem condições para participar de um pacto social.

É preciso incorporar no fazer político a categoria de “próximo”, ou seja, incluir como sujeitos os grupos sociais e as nações que hoje jazem à beira do caminho da humanidade. É preciso acolher e colocar no centro da ação política os clamores que hoje não são ouvidos. No interno dos países, estados e cidades, escutar os fracos da sociedade: minorias sociais, étnicas, sexuais, de gênero, idade, condição sanitária… Na política internacional, as nações que, de tão empobrecidas, sequer contam no jogo político e econômico mundial. E o grande próximo e esquecido de quase todos os projetos políticos: a criação, tanto em seus seres particulares como nos grandes biomas.

Nas democracias, o poder emana das maiorias. Essa é a virtude da política moderna. Mas é também o seu defeito. Para superá-lo, não se anda para trás. É preciso radicalizar a democracia incluindo nela as vozes das minorias. Só assim liberdade e igualdade chegarão ao justo equilíbrio, pois cada um será considerado na igual dignidade a partir daquilo que o faz diferente de todos os outros. Teremos então uma sociedade fraterna para todos e todas.

Em seus encontros com os Movimentos Populares e na Laudato Sì, o Papa Francisco deu o exemplo deste novo jeito de fazer política. É nessa direção que os cristãos são convidados a impulsionar o jogo político. Não para trás, para a Idade Média. Caminhamos para o futuro, para além da modernidade.

Fratelli Tutti – Extra Misericordiam Nulla Salus

Fratelli Tutti se situa explicitamente na corrente do Ensino Social da Igreja. Ela se propõe a orientar o viver e o agir dos cristãos no mundo de hoje. E o faz a partir da fé, de uma leitura teológica da realidade e da ação necessária para transformá-la. Entre os muitos elementos teológicos presentes no texto, dois se destacam. Um de fundo e outro operacional. O primeiro responde à questão “por que ser irmãos e amigos”. A resposta é simples: porque somos filhos do mesmo Deus que é Pai de toda a humanidade. Desde a referência inicial a Francisco de Assis até a Oração Ecumênica final onde invoca “Deus nosso Trindade de Amor”, este motivo está explicitamente presente.

Mas o mais provocador e longamente tratado é o “como ser irmão e amigo”. É o teológico operacional da Encíclica e ocupa todo o segundo capítulo. Trata-se do Princípio Misericórdia. Esta é uma expressão elaborada pelo teólogo jesuíta Jon Sobrino, que é, inclusive, título de um livro seu. Para quem segue os passos, as falas e os textos do Papa, a argumentação não é desconhecida.

Em seu terceiro ano de pontificado, em 2015, como todos lembramos, o Papa Francisco proclamou um Ano Santo Extraordinário. Na Bula “O Rosto da Misericórdia”, o texto que faz a conexão com o Concílio Vaticano II é o do samaritano. João XXIII, ao convocar o Concílio, afirmou que a misericórdia é o modo como a Igreja deve situar-se no mundo moderno. Essa mesma parábola, tão rica em imagens e ensinamentos, é retomada como paradigma para a construção de uma nova humanidade e uma nova sociedade.

O marco da parábola é um diálogo entre Jesus e um perito em leis. Este pergunta a Jesus o que deve fazer para alcançar a salvação. A parábola com a qual Jesus responde todos a conhecemos… e por isso vamos diretamente ao fim quando Jesus, diante do desconcertado legista, cita uma frase do Livro dos Provérbios: “Fazer misericórdia e fazer justiça agrada mais a Deus do que oferecer muitos sacrifícios”. Todos lembramos que, na parábola, um sacerdote e um levita haviam passado pelo caído sem fazer nada porque tinham que ir ao Templo oferecer sacrifícios. Com uma simples narrativa, Jesus coloca em questão todo o sistema religioso da época, tanto os legalistas como os ritualistas. E, para espanto dos moralistas, um samaritano, estrangeiro, herege e impuro, é apresentado como modelo de salvação.

Para quem, como o Papa Francisco, se coloca na tradição de Francisco de Assis, a parábola é ainda mais instigante. Ela remete à conversão do jovem Bernardone. No seu Testamento, ao descrever a conversão provocada pelo encontro com os leprosos, São Francisco utiliza a expressão do Livro dos Provérbios e da parábola do samaritano misericordioso: “…como estava em pecados, parecia-me por demais amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles”.

Fazer misericórdia! Este é o imperativo para a construção de uma nova humanidade e de uma nova sociedade. Não basta “ter” misericórdia. É preciso “fazer” misericórdia. Ter é para si. Fazer, é para o outro, para aquele que foi assaltado, espancado e abandonado na beira do caminho. Para Francisco de Assis, o apelo por misericórdia vem dos leprosos jogados para fora das cidades medievais. Vai ao encontro, desce do cavalo, beija, cuida, recoloca em humanidade. Jon Sobrino, nosso teólogo salvadorenho, no subtítulo de seu livro, chama os cristãos a “descer da cruz os povos crucificados”. Com efeito, a misericórdia não é uma atitude individual. Ela é comunitária, coletiva, política. É o princípio que rege a salvação de cada pessoa, sim, mas também da Igreja e toda a sociedade.

Fora da misericórdia, não há salvação. É o apelo da fé que precisa chegar à razão e ser transformado em ação.

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Nole mi tangere!

Dia 22 de julho a Igreja celebra Santa Maria Madalena. E o faz com uma festa. Dentro das categorias litúrgicas, é o modo mais elevado de lembrar um santo, no caso, uma santa. A elevação de categoria litúrgica de Maria Madalena aconteceu em 2016 por decisão do Papa Francisco. Até então, celebrava-se apenas a memória desta mulher.

A decisão não foi uma inovação. Na Idade Média, vários teólogos, incluído Santo Tomás de Aquino, a chamaram de “apóstola dos apóstolos”. Título mais do que merecido pois, segundo os Evangelhos, foi a encarregada por Jesus de anunciar a ressurreição aos outros discípulos.

Ela fazia parte do grupo dos seguidores e seguidoras do Mestre desde a Galileia. Juntamente com Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana e muitas outras, elas sustentavam o grupo com seus bens. Eram mulheres poderosas e independentes que, contrariando as tradições e leis, abandonaram tudo para seguir Jesus.

Maria Madalena é uma das personagens mais frequentes nos evangelhos. Quatorze vezes é citada nominalmente. Acompanhou Jesus até Jerusalém e, junto com a mãe de Jesus e as outras mulheres, foi das poucas que presenciaram a crucificação.

Além de discípula fiel e apóstola de primeira hora, a única informação que dela nos dão os evangelhos é que foi libertada de sete demônios. Em linguagem bíblica, era uma pessoa que sofria muito e, no encontro com Jesus, foi libertada. De que ela sofria? Os evangelhos nada dizem.

Por que então a tradição associou Maria Madalena a uma prostituta? É uma boa pergunta… A primeira vez que isso aconteceu foi num sermão de São Gregório Magno, pronunciado no ano de 591 d.C. No sermão, o Papa confunde a Madalena com a mulher adúltera e com a Maria que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas. Uma indevida ligação que que se perpetuou em sermões e obras de arte e chegou até o cinema contemporâneo.

E mais: por que durante séculos tal associação foi aceita acriticamente? Também é uma boa pergunta… Não sei se tenho uma boa resposta para as duas boas perguntas. Mas tenho, no mínimo, uma suspeita: a dificuldade, tanto na Igreja como na sociedade, em aceitar o protagonismo das. São Gregório Magno, em seu sermão, já deixou a dica. Maria, a Mãe de Jesus, era o modelo de mulher submissa. Madalena, a de mulher independente que se arrepende e passa a ser submissa.

São João Paulo II, na Encíclica sobre a Dignidade da Mulher, lembra que estamos em outros tempos e precisamos reconhecer a dignidade e protagonismo das mulheres na sociedade e na Igreja. Nessa mudança, é preciso ouvir das mulheres de hoje, aquilo que Jesus disse outrora a Maria de Magdala: “Noli me tangere! Não me detenhas!” Elas pedem passagem.

*Imagem: “Nole mi tangere!” de Fra Angelico (c. 1440).