Arquivo da tag: osservatore romano

Obama e a alternativa laica

Por Walter Maierovitch em http://www.cartacapital.com.br/internacional/obama-e-a-alternativa-laica/

A secularização da sociedade avança no Ocidente de forma irreversível. Daí muitos perguntarem como a eleição e o início do papado de Francisco puderam atrair tanto a atenção e ter deslocado, para a missa inaugural, grande número de chefes de Estado e de governo. A resposta, por vozes seculares e à frente o renomado historiador Jacques Le Goff, é que a Igreja ainda influenciará por muito tempo.

O papa emérito Bento XVI com seu sucessor, Francisco. Foto: Osservatore Romano

O papa emérito Bento XVI com seu sucessor, Francisco. Foto: Osservatore Romano

Na missa, não passou despercebido aos vaticanistas e aos historiadores a ausência do presidente dos EUA, Barack Obama, representado pelo vice. É que a Conferência Episcopal dos Estados Unidos apoiou, na primeira eleição e na reeleição de 2012, o Partido Republicano, apelidado de “partido dos ricos”.

As iniciativas legislativas dos democratas, em particular a reforma sanitária de Obama a incluir o tema aborto, enfureceram os integrantes de uma conferência liderada pelo midiático Timothy Dolan, cardeal arcebispo de Nova York. Até os jesuítas entraram no lobby anti-Obama. Na revista quinzenal Civilização Católica, produzida pelos jesuítas, repercutiu o artigo de Luciano Larivera: “Muitos bispos perceberam em Obama, mais do que um reformador social, um aliado da cultura laica e de uma religião intelectual e individualista. Obama contribuirá à crescente secularização dos jovens e à transformação do partido democrático, em um tempo não muito longo, numa alternativa laica como aconteceu com os socialistas Zapatero, na Espanha, e Hollande, na França”.

Apesar do lobby anti-Obama pela Conferência Episcopal norte-americana, os católicos votaram em peso em Obama. Um detalhe: na reeleição de 2012, deixaram a ver navios a dupla mórmon-católica dos republicanos Romney e Ryan. Fora isso, e o cardeal Dolan nem foi consultado, a prestigiosa revista Catholic Health Association aplaudiu, num importante contraponto, a proposta reformadora de Obama em matéria de assistência médico-sanitária.

Para a eleição de Bergoglio tiveram fundamental peso os votos, em bloco, dos 14 cardeais norte-americanos, todos com a bandeira reformista da Cúria. Na verdade, isso aconteceu por mais uma bola fora do trapalhão cardeal Tarcisio Bertone, chefão da Cúria ao tempo do papado de Ratzinger e que lançou, para manter o status quo sobre o controle verticalizado e absoluto de poder administrativo-temporal, o candidato dom Odilo Scherer, que não conseguiu unanimidade nem entre os seus pares brasileiros.

A propósito, o linha-dura monsenhor Carlo Maria Viganò, então secretário do governadorato do Vaticano, enviou a Bento XVI uma detalhada e indignada carta sobre má gestão e corrupção na Santa Sé, cujo responsável era Bertone, secretário de Estado. Tal carta estava entre os documentos repassados à mídia pelo grupo de “corvos” vaticanos e que resultou, pelo furto, na condenação, com posterior perdão, do então mordomo papal.

Em janeiro de 2012, o teor da carta foi revelado no programa televisivo italiano Gli Intoccabili (Os Intocáveis). A título de eufemística promoção, Viganò foi enviado a Washington como núncio e em face da morte de Pietro Sambi. Logo após assumir como diplomata encarregado da ligação entre o papa e a Conferência Episcopal norte-americana, ganhou a consideração dos cardeais, que cerraram fileiras contra Bertone e a corrupção na Cúria. Viganò, dos EUA, continuou a torpedear Bertone, com total apoio dos integrantes da conferência, que passaram a ter, como afirmou o cardeal Dolan, informações importantes e até dados sobre as fofocas do Vaticano. Em síntese, os 14 cardeais norte-americanos chegaram a Roma prontos a eleger um papa capaz de “limpar” a Cúria de Bertone, um elefante em loja de cristais, pois nunca pertenceu, ao contrário de Scherer, à diplomacia eclesiástica.

O papa Francisco tem o compromisso eleitoral de reformar a Cúria e já se fala num triunvirato de cardeais  designados para a tarefa. Para os vaticanistas, Francisco não terá condições de enfrentar tudo sozinho, pois, ao contrário de Pio XII e Paulo VI, nunca, antes de ser eleito papa, atuou como gestor. E ao triunvirato será passado o relatório que investigou o caso VatiLeaks, deixado por Ratzinger ao seu sucessor e guardado no cofre dos aposentos reservados ao papa.

Para o bom entendedor, Francisco deixou claro que trocará a verticalização curial pelo poder horizontalizado, a aproveitar os sínodos, consistórios e conferências. Será um pontificado colegiado. Ao preferir o título de bispo de Roma, não se coloca como “vigário de Cristo” na terra. Ou seja, o único em condições, nas questões de fé, de contar com a infalibilidade, conforme reconhecido ao papa no Concílio Vaticano I, de 1868.

Num pano rápido, começou a corrida contra o tempo e muitos apostam que o papa usará a vassoura, mas manterá, nas questões de fé, o perfil de conservador popular.

Risco de cofres vazios dá força à eleição de um papa italiano

Contam os anticlericais que os cartuchos – que fazem voto de silêncio – elegem o seu representante de forma agitada. Ninguém fala, mas os cartuchos trocam bilhetes debaixo das mesas o tempo todo.

O cardeal Ravasi conta com o lobby fortíssimo da agremiação laico-social dos Focolari. Foto: Osservatore Romano

O cardeal Ravasi conta com o lobby fortíssimo da agremiação laico-social dos Focolari. Foto: Osservatore Romano

Nessa eleição para o sucessor de Ratzinger ao trono petrino, o silêncio foi posto de lado e só faltaram comícios, embora, no domingo, cada cardeal papável tenha se apresentado a celebrar missa nas suas paróquias honorárias. E todos os vaticanistas ficaram de olho no que foi dito na homilia.

Mas, dos 115 cardeais votantes, muitos estão preocupados. A ponto de reformularem o voto a fim de eleger um papa italiano. Afinal, os votantes precisam “segurar a barra”. E a barra é valiosa.

Pelos cálculos do respeitado matemático Piergiorgio Odiffeddi, a Santa Sé custa (para o governo e o povo italiano) 9 bilhões de euros por ano. A propósito, a Itália está internamente mais quebrada e 3 em cada 5 jovens não conseguem um posto para trabalhar. Atenção: 9 bilhões/ano em dinheiro vivo. Ou, como dizem por aqui, em “contante”.

A “grana” decorre do pacto e da concordata Lateranense, que, em 1929, o papa Pio IX (astai-Ferretti) firmou com o então primeiro-ministro Mussolini. Este, interessado no apoio da Igreja ao seu projeto fascista. Convém lembrar que, antes de chegar ao poder, Mussolini era um anticlerical.

Os últimos três primeiros ministros italianos jamais cogitaram em revisar o pacto e a concordata Lateranense. Berlusconi se dizia, como chefe de governo, o garante dos valores morais pregados pela Santa Sé. Antes dele, o premier era Romano Prodi, católico de sacristia. Mario Monte, que arrochou a Itália e produziu recessão e desemprego jamais sentidos, virou, na última eleição, o candidato veladamente apoiado pelo Vaticano, tudo em dobradinha com o “papa-hostia” Casini. Com medidas impopulares e a mexer com o bolso e o estômago dos italianos, Monti foi o maior fracasso da última eleição. Nem para coligações a assegurar governabilidade o premier-vacante é cogitado.

Hoje, e em tempo de midiática eleição papal, vários políticos italianos, com o populista Grillo à frente, aproveitam para falar de revisão do pacto lateranense ou calote.

Esse quadro está a pesar em favor de um papa italiano. Italiano e capaz de garantir os 9 bilhões de euros anuais. Isso vem sendo ressaltado por canonistas (no mundo laico se chamariam juristas) e vaticanistas.

Como percebem até os coroinhas dos bairros paulistanos da Mooca e do Bom Retiro, não é por acaso que existem 28 cardeais italianos num colégio votante de 115. Toda a América Latina tem menos cardeais que a igreja italiana. Idem a África, a Ásia e as Américas do Norte e Central.

Esse risco de cofres vazios teria levado a uma frustrada tentativa de acordo no final de semana. Acordo entre os dois grupos que polarizaram o pré-conclave. Ou seja, acordo entre o grupo reformista da Cúria, liderado por Angelo Scola e o grupo antirreformista da cúria, com Odilo Sherer à frente.

Pelo acordo, Sherer seria o papa e o italiano Scola ficaria, como secretário de Estado (equivalente a primeiro-ministro) no governo da Cúria, que deseja reformar.  Scola teria resistido ao acordo. Até porque teria, no momento, 40 votos e o brasileiro Scherer apenas 25. Mais ainda, o secretário de Estado é nomeado pelo papa e, como o latim é língua oficial do Vaticano, demissível “ad nutun”, ou seja, com um balançar de cabeça do papa.

Como o acordo não saiu, apareceu um terceiro papável italiano e com trânsito na política italiana. Trata-se do biblista e hebraísta Gianfranco Ravasi. O cardeal Ravasi conta com o lobby fortíssimo da agremiação laico-social dos Focolari. E o lobby dos focolari é tão forte como o religioso do Opus Dei ou o lobby da Comunhão e Libertação que apoiam Scola. Já o lobby dos Cavaleiros de Colombo, fundado em 1920 nos EUA, é feito para eleger o carismático e bem humorado cardeal de Nova York.