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FAROL DA SOLIDÃO

MOSTARDAS, RS, BRASIL, 24.01.12: Praia do Farol da Solidão. Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini

O nome é estranho. Para alguns, assustador. Quem gostaria de ir passar seu verão num lugar chamado Praia do Farol da Solidão? Poucos, com certeza. Diria mais: quase ninguém. A maioria, ao pensar em praia, busca um lugar de agitação, divertimento, badalação. Mesmo agora, em tempos de pandemia, os gaúchos urbanos e também os pampeanos insistem em ir para Torres, Imbé, Tramandaí, Capão e, correndo todos os riscos, fazer aglomeração. Parece fazer parte da idiossincrasia metropolitana que imita as aves de arribação. Estas passam pelo litoral sulino em maio e setembro. Os bípedes com o telencéfalo altamente desenvolvido e o dedo polegar opositor, para lá vão entre o Natal e o Carnaval.

Mas a Praia do Farol da Solidão existe. Está a meio caminho entre Palmares do Sul e Mostardas. De Porto Alegre, são 150 quilômetros. Duas horas e meia em carro. Saindo da capital pela RS 040, passando Viamão, segue-se para Capivari do Sul e daí em diante, pela 101 – a Estrada do Inferno já não é tão infernal! – até topar com a Estrada da Solidão, um pouco antes do Vilarejo Doutor Edgardo Pereira Velho. São oito quilômetros de areia que se move conforme os ventos de cada época do ano. Se tudo der certo, em meia hora o viajante tem à sua frente o edifício que dá o nome ao lugar: o Farol da Solidão.

Ninguém sabe exatamente quando o sinalizador foi construído. Diz-se que no início do séc. XX. A memória mais antiga é de uma estrutura de ferro. Mais tarde foi substituída pela atual torre em cimento que, do alto de seus 21 metros avermelhados, sinaliza aos navegantes que a costa está próxima.

O povoado são três avenidas com mais ou menos dez ruas transversais. Oitocentas casas, segundo o dono de um dos três mercadinhos que funcionam o ano todo. Armazém de secos, molhados, úmidos e todo tipo de gênero alimentício e não alimentício – da pasta de dente ao herbicida – que funciona ao mesmo tempo como boteco para otimizar a estrutura e garantir o faturamento. De março a dezembro, a vida gira ao redor da pesca que a cada ano se torna mais difícil. O peixe míngua e muitos residentes já se foram e outros pensam em partir. Em janeiro e fevereiro, a economia ganha impulso com os veranistas. As duas pousadas chegam nos fins de semana à lotação máxima: em torno de quarenta pessoas. Também há a opção de alugar – e aí os preços são muito favoráveis – uma das tantas casas de madeira disponíveis no balneário. Vem gente de Capivari do Sul, de Mostardas, Tavares, Viamão, Porto Alegre e, não raro, aqueles que fogem da badalação de Santa Catarina, Torres, Tramandaí, Imbé e Capão.  

Mas o que leva alguém a um lugar tão distante e tão fora do padrão daquilo que se imagina em Porto Alegre como passeio de verão? O nome do local já diz: solidão! Quem vai para lá sabe aonde está indo: um lugar onde se pode estar sozinho. Está escrito por todo lado que o lugar é de solidão: na estrada, no farol e na vila. E também no nome de um dos botecos e de uma das pousadas. Não tem como errar e depois reclamar!

São poucos os cidadãos que fazem esta opção. É muito penoso em nossa civilização do contato superficial e da hiperconexão aleatória estar sozinho e encontrar-se consigo mesmo. O Farol da Solidão fica longe. E a estrada é difícil. Menos, porém, do que o caminho para dentro do interior de si mesmo onde podemos vagar na íntima solidão. Não custa tentar! E que tenhas uma boa viagem…

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CENAS DE VERÃO III: O PADRE E O PINSCHER

Para boa parcela dos gaúchos que desfrutamos apenas de um breve e instável verão, ir à praia entre o Natal e o Carnaval é praticamente um ritual. Para muitos, mais do que o mar, o sol e a areia, os poucos dias ou semanas – para os mais agraciados, um mês! – tornam-se uma espécie de parêntesis onde se pode viver a distopia do quotidiano assoberbado por trabalho, compromissos, aparências e rotinas. Aproveita-se este tempo, mesmo que breve, para não fazer nada ou para fazer aquilo que não se pode fazer durante o ano. Para o bem ou para o mal…
Uma das coisas que muito me impressiona no Litoral Norte gaúcho é a frequência das pessoas às igrejas. Falo, concretamente, da Igreja Católica. Em cada pequena praia há uma capela. Algumas em condições precárias que só funcionam durante o veraneio. Outras, com sólidas estruturas e que funcionam o ano todo. Em umas e outras, é quase corrente haver missa todos os dias. Padres que se deslocam do interior, da serra ou da região metropolitana para descansar e, a convite da comunidade ou por interesse próprio, celebram a missa nas capelas. Tanto nos fins de semana como durante a semana.
Sábado de tarde. Tempo chuvoso e nordestão batendo. Impossível ir à praia. A missa na capela próxima da casa é às 20 horas. Chego quinze minutos antes. O espaço é grande. Cabem, tranquilamente, umas quatrocentas pessoas. Lotada. Consigo um lugar para sentar na fila de bancos do lado direito. Uma enorme variedade de idades, cores e vestimentas. É o Rio Grande mesclado em oração!
Um rapaz com um violão e um pequeno grupo de senhores e senhoras afina a voz para animar a missa. Um ruído no fundo da capela e depois o silêncio. Um perfume de incenso se espalha no ar. Olho para trás e aí está o padre para a procissão de entrada. Idade mediana, entre os 40 e 50. Um pouco mais do que bem paramentado para meu gosto. À sua frente um séquito de seis coroinhas e dois ministros. Os coroinhas marcham à frente com velas e o incenso. Um dos ministros carrega a cruz. O outro a Biblia. Em seguida o padre fechando a procissão e, a seu lado, um pinscher marron-avermelhado. A procissão é acompanhada por um canto tipicamente carismático.
Ao chegar ao altar, depois das devidas genuflexões e inclinações, cada um toma seu lugar. O pinscher também teu o seu. Quando o padre está sentado, descansa deitado entre seus pés. Quando o padre se levanta, o pinscher vai para baixo do altar e permanece de pé, olhando a assembleia. De vez em quando, sabe-se lá se motivado pelo irritante som da microfonia, pelo canto desafinado ou por algum olhar ou gesto de alguém da assembleia, o pequeno cão solta três ou quatro de seus agudos latidos que são pacientemente suportados pelos frequentadores da missa. Afinal, o pinscher é do padre. Os paroquianos o sabem e os visitantes desde o início da missa se deram conta do fato.
O movimento dos coroinhas, dos ministros e do comentarista não provoca qualquer reação do pequeno cão. Mas os latidos se tornam mais agressivos quando as leitoras se aproximam para proclamar os textos bíblicos que antecedem os evangelhos. Parece que ao pinscher do padre não agradam as presenças femininas perto do altar.
Depois do Evangelho, o padre inicia o seu sermão. O pinscher permanece sob o altar olhando a assembleia. A fala se prolonga monotamente mais do que o tempo recomendado. Depois dos primeiros minutos de atenção, os assistentes começam a torcer para que o tempo passe rapidamente. Uns fecham os olhos, talvez lembrando as ondas do mar. Outros ocupam o tempo vasculhando as visagens e vestimentas de seus vizinhos e vizinhas. Nos fundos, não faltam aqueles que aproveitam para dar uma olhadinha nas redes sociais. Na terceira fila do lado oposto de onde estou, uma senhora de meia idade com seu filhinho no colo. Pela aparência, não é veranista. É moradora do local. Talvez uma senhora que tenha trabalhado o dia todo e que, no fim do sábado de labuta, tenha vindo à igreja para encontrar um momento de consolo e esperança. No seu colo, a criança com o rosto tão cansado como o da mãe. Talvez não cansada esta do trabalho, mas da solidão ou quem sabe da fome, da multidão da igreja cheia, do calor que já começa a se tornar incômodo ou do sermão que não termina mais. Previsivelmente, a criança começa a chorar. A mãe tudo faz para acalmá-la. Por um momento, ela cessa seu lamento para em seguida recomeçar. Os circundantes olham, uns com compreensão e comiseração e outros com um certo incômodo. De sob o altar, a cada choro da criança, os agudos latidos do pinscher… O padre, sem interromper a fala que repete as mesmas frases pela enésima vez, olha para a criança, a mãe e o pinscher. Diante dos olhos assustados da assembleia, desce do altar com o microfone e se dirige até a terceira fila onde está a mãe e a ela se dirige falando ao microfone para que toda a igreja ouça: — A senhora, por favor, faz essa criança parar de chorar ou se retira da igreja!
Todos os oitocentos olhos estão cravados na criança e na mulher. Esta, com uma calma muito além do que se poderia esperar da situação, responde tranquilamente: — Quando o senhor fizer o seu cachorro parar de latir, eu faço o meu guri parar de chorar. Mas sair da igreja eu não saio…

O padre olha para a criança, para a mulher, para o pinscher, para a assembleia. Todos os presentes estão com os olhos cravados no padre. Uns olhares sérios, outros interrogativos, risonhos e até desafiadores. Sem abaixar a cabeça nem dizer outra palavra, o padre dá meia volta, retorna ao altar, levanta os braços e inicia a rezar o “Creio em Deus Pai”. A assembleia se levanta. A mulher continua sentada com seu filho que já não chora no colo. O pinscher está sob o altar, de pé, atento ao menor movimento da assembleia. A missa segue…