Uma preparação um tanto esquizofrênica

Problemas com a imprensa e amistoso milionário contra país de ditador fazem parte da estranha preparação da seleção de Dunga para a Copa do Mundo

Tudo começou no dia 11 de maio quando o ex-capitão Dunga convocou os seus 23 preferidos para vestir o fardamento canarinho na primeira Copa do Mundo Fifa a ser realizada em território africano. Enquanto todos pediam os meninos Ganso e Neymar que brilhavam no Santos, as surpresas foram Kléberson, reserva do Flamengo, e Grafite, que jogou apenas 15 minutos num amistoso contra a Irlanda e deu um passe de calcanhar para Robinho marcar.

Dunga exaltou o patriotismo e disse não saber afirmar se os períodos da ditadura e da escravidão foram ruins porque não os viveu. Invocou a dedicação para justificar a presença de jogadores de futebol duvidável como Doni, Gilberto, Josué, Gilberto Silva, Felipe Mello, Julio Batista, Elano… dai já vai praticamente metade da patota.

No dia 21 de maio, a seleção da CBF começou a sua preparação para a Copa no Centro de Treinamento do Caju, do Clube Atlético Paranaense. Dizem a más línguas, que o fato de a seleção ter o Caju como base de treinamento fez parte do acordo para o Atlético-PR votar no candidato da CBF Kléber Leite, na eleição dos Clube dos 13, em abril.

Contudo o que se viu nesse período em que o time de Dunga esteve treinando no Brasil foi tudo menos os jogadores e futebol. Portões fechados para a imprensa e a torcida. Protestos e revolta por parte dos fãs curitibanos que queriam ver os seus ídolos de perto. Permissão concedida pela cúpula da comissão técnica apenas no último dia em Curitiba. Problema resolvido com o povo, deve ter pensado Dunga. Porém a outra parte dos que estavam presentes, para informar o resto da população brasileira, a imprensa, não ficam tão feliz e assim começou um atrito com o “carismático” técnico da seleção que viria se agravar com o tempo.

Em seguida, os jogadores, comissão técnica e o alto escalão da CBF, entre eles o presidente Ricardo Teixeira e o chefe da delegação brasileira na África do Sul, o presidente do Corinthians e amigo pessoal de Teixeira, Andres Sanches – que também votou a favor de Kleber Leite na eleição do Clube dos 13 – viajaram para Brasília. No Palácio do Planalto foram recebidos pelo presidente Lula. Neste encontro duas cenas no mínimo engraçadas: na primeira, na foto geral com todos os jogadores, o presidente Teixeira se viu espremido entre a barriga do presidente Sanches e o ombro do presidente Lula. Na outra, o patriótico e carrancudo Dunga cumprimenta de cara fechada e com a mão no bolso o sorridente presidente da República.

Rumo à África do Sul surgiu um boato de ordem política e organizacional, mas em relação a Copa de 2014 no Brasil. Os amigos Teixeira e Sanches parecem ter trocados figurinhas durante o vôo sobre uma certa construção que abalaria moralmente e politicamente um inimigo em comum: o presidente do São Paulo Futebol Clube, Juvenal Juvêncio. Juvenal, por sinal, estava na chapa vencedora de Fabio Koff na eleição do Clube dos 13. Mas voltando a construção: trata-se da arena multi-uso que seria erguida em São Paulo para servir de abertura para o torneio mundial de 2014. Com essa decisão o Corinthians ganharia de presente o seu tão sonhado estádio e Teixeira acabaria com as esperanças de Juvêncio de ver o Morumbi como abertura para a Copa de 2014. No olho deste furacão, o prefeito Gilberto Kassab por enquanto se esquivou: “nada a declarar”.

Voltando a Dunga e a preparação para a Copa deste ano. A seleção da CBF está hospedada num hotel construído especificamente para o mundial e de acordo com o padrão Dunga de segurança e reclusão. Faz corridas no campo de golfe anexo ao hotel e treina numa escola particular próxima. Todas as instalações utilizadas pelos jogadores e comissão técnica ficam numa área de altíssimo nível na periferia da gélida Joanesburgo, frequentada praticamente apenas por brancos, segregação social herdada do apartheid – período em que essa separação era explicitamente racial.

Como de praxe, a seleção realizará amistosos para servir de preparação técnica antes do início do torneio. Só que neste ano, como também tem sido de praxe por parte da CBF de Teixeira, os amistosos terão interesses econômicos. Juntos, os amistosos contra Zimbábue e Tanzânia arrecadarão aos cofres da entidade 5 milhões de euros. Mesmo tecnicamente, esses jogos são questionáveis porque ambas seleções ficaram longe de se classificar para o Mundial e estão aquém de outros conjuntos nacionais africanos que o Brasil poderia enfrentar como a anfitriã África do Sul e a irmã Angola, que enviaram convites a CBF logo recusados.

O amistoso contra o Zimbábue no dia 2 de junho envolve questões políticas muito delicadas que a seleção brasileira, em fase de preparação para a Copa, não deveria se envolver. O Zimbábue é um dos países mais pobres do mundo, não tem uma moeda corrente própria por causa da incalculável inflação e está sob um sangrento regime de repressão há trinta anos comandado pelo ditador Robert Mugabe, que foi o mais beneficiado pelo amistoso. Mugabe desembolsou milhões de euros para dar um dia de paz e alegria para o seu povo poder ir assistir os “samba boys” brasileiros no estádio Nacional de Harare, capital do país, reformado recentemente com dinheiro e trabalhadores chineses. Na capa de hoje do jornal do governo zimbabuano, o de maior circulação no país, o ditador Mugabe aparece cumprimentando o sorridente Kaká. Vitória de Mugabe.

De volta a Joannesburgo, os jogadores brasileiros realizaram um treinamento no estádio de Glastonbury, em Soweto, bairro pobre da periferia da capital que ficou famoso pela resistência ao apartheid e que tem como morador ilustre o ex-presidente Nelson Mandela. O evento foi organizado pela Fifa e tinha como objetivo aproximar a população mais pobre sul-africana do rico evento que a federação está organizando no país.

Nesta mesma quinta-feira 3, a rixa entre imprensa e comissão técnica teve mais um episódio. O auxiliar Jorginho reclamou que os jornalistas andam apenas criticando e parece que estão torcendo contra a seleção. Revoltado, ressaltou que essa disputa apenas fortalece e não atrapalha. Aparentemente Jorginho e Dunga estão acostumados com a parte da imprensa que tem como slogan “o nosso compromisso é torcer pelo Brasil” e se esqueceu que o papel dos jornalistas não é torcer nem a favor e nem contra, mas de apenas analisar e informar a situação apresentada.

A seleção segue treinando entre a elite até domingo quando parte para a Tanzânia para um novo amistoso contra a seleção local na segunda-feira. Pelo menos na Tanzânia há uma democracia.

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