São Patrício X Antônio Conselheiro?

A modernidade é a era da “colonialidade”. O neologismo difundido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano, quer expressar as relações políticas e suas consequências econômicas, culturais, pedagógicas, étnicas, de gênero… que foram construídas no Ocidente a partir do séc. XIV e resultaram no euro-centrismo típico da modernidade. Eurocentrismo que teria sua expressão maior no atual processo de globalização capitaneado pelo capital transnacional.

A colonialidade se expressou de forma brutal no modo como as potências europeias – Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália, Rússia – invadiram, cada uma a seu turno, territórios na América, África, Ásia e Oceania subjugaram militarmente os povos nativos destes continentes, provocaram genocídios, exploraram as riquezas naturais e impuseram sua cultura. É uma história que todos conhecemos e muitos sofremos as consequências ainda hoje. A colonialidade não é algo do passado. Ela se instalou de tal modo nas mentes e corações das pessoas – tanto dos colonizadores como dos colonizados – que, muita vezes, parece ser difícil superar suas expressões tanto no macro das relações internacionais como no micro das suas manifestações culturais.

Dentro do histórico da expansão colonial europeia há um fato muito particular que poucos conhecem. A Inglaterra foi a nação que conseguiu manter pelo tempo mais prolongado uma colônia dentro da própria Europa. Trata-se da Irlanda. A partir do séc. XX, a dominação inglesa sobre a Irlanda sendo imposta de forma cada vez mais rígida. A propriedade das terras passou a ser um direito exclusivo dos ingleses e só eles tinham representação política. A língua nativa – o gaeilge– foi substituído pelo inglês e as profissões liberais foram proibidas aos nativos.

Dominados por todos os lados, os irlandeses encontraram na religião o refúgio pra manter a identidade cultural. Por oposição aos ingleses anglicanos, ser irlandês tornou-se sinônimo de ser católico romano. E, dentro do catolicismo, a figura de São Patrício – o escravo do séc. V que evangelizou a ilha verde – a grande referência de vida para os que resistiam ao colonialismo.
A grande fome do séc. XIX – provocada pela exploração inglesa e por um fungo importado do México – provocou a morte de mais de um milhão de irlandeses e fez com que mais de outros dois milhões deixassem a ilha em busca da sobrevivência. A maioria cruzou o Atlântico e se instalou na então conflituosa e próspera nação dos Estados Unidos da América. Antes do afluxo de latinos aos Estados Unidos, ser católico nos Estados Unidos equivalia quase que normalmente a ser descendente de irlandeses.

Junto com a fome e os poucos pertences, levaram para lá a tradição católica e a devoção a São Patrício expressa no nome de incontáveis paróquias, instituições religiosas e sociais. Para um descendente irlandês nos Estados Unidos, festejar São Patrícia é fazer memória do passado de dominação colonial da Inglaterra sobre a Irlanda e, ao mesmo tempo, afirmar a identidade cultural e a resistência de tantos homens e mulheres que deram a vida para que, no início do séc. XX, a pequena ilha pudesse proclamar sua independência e afastar definitivamente o sombrio passado colonialista inglês.

Há alguns anos, em Porto Alegre, assim como em outras cidades brasileiras, começaram a pipocar, especialmente nos bairros nobres, as “Saint Patrick’s Day”. Neste ano, em Porto Alegre, a Prefeitura autorizou a realização de onze eventos ao ar livre com ocupação de praças e interrupção de ruas. Todos eles acontecem nos bairros nobres de Porto Alegre. Decoração verde, trevos, cerveja verde, música típica… fazem parte do menu disponibilizado.

Enquanto dirijo lentamente ao som de uma música tradicional irlandesa à base de foles e violinos, pergunto às palhetas de meu Peugeot 208 que bailam de um lado para outro em um ritmo que não combina com a música se os organizadores da festa sabem quem foi São Patrício e a história colonial da Irlanda e sua luta pela afirmação da independência econômica, política e cultura. Como bom francês, meu Peugeot 208 responde um suave “penso que não”. Concordo com ele. Lembro do Halloween, do Black Friday e da gravata do Pelé na final do Copa de 1994. “Yes, nós temos banana, banana prá dar e vender”, como dizia o samba de antigamente. E junto vai a Petrobrás, a Embraer e a Base de Alcântara.

Enquanto deixo a Avenida Goethe e começo a descer a Doutor Timóteo, a sanfona, acompanhada da zabumba, do triângulo e da inigualável voz de Luiz Gonzaga me lembra que “Minha vida é andar por este país, pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações, das terras onde passei, andando pelos sertões, e dos amigos que lá deixei…” Sigo meu caminhando esperando encontrar, na esquina com a Cristóvão Colombo, uma festa em homenagem a Antônio Conselheiro. Não custa sonhar!

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