Fratelli Tutti – De Babel a Pentecostes.

A globalização não é um fenômeno novo na história da humanidade. Na verdade, ela faz, desde os primórdios, parte do jeito humano de ser. Quando, há mais ou menos 130 mil anos, o homo sapiens saiu das savanas africanas para habitar a Ásia e, depois, a Europa, ali iniciou o processo de globalização. Nos contínuos deslocamentos em busca de sobrevivência, os vários grupos humanos que se formaram passaram a estabelecer intercâmbios sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos…

Na medida em que novos recursos tecnológicos foram desenvolvidos, as trocas se tornaram mais volumosas, intensas e rápidas. Imaginemos o que significou, há 5.500 anos, a invenção da roda para as viagens, o comércio e as guerras! Nos últimos 500 anos, trens, automóveis e aviões deixaram o longínquo cada vez mais próximo. Distâncias que foram reduzidas – no tempo e no espaço – pela imprensa, o rádio, a televisão e, hoje, a internet que possibilita conexões e intercâmbios imediatos com qualquer lugar do mundo.

O mundo está cada vez menor. E, paradoxalmente, temos a impressão que estamos cada vez mais longe uns dos outros. Distância de pessoas e distância de povos. Por que isso? Por uma razão simples. Mudam os tempos, mudam os suportes tecnológicos das relações, mas os encontros ou desencontros seguem basicamente dois padrões: Babel e Pentecostes.

Babel é a globalização como projeto de dominação. É o encontro que leva à imposição de um povo, de uma cultura, de uma economia, de uma religião, de um poder sobre o outro. Enquanto um domina, o outro é anulado, calado, silenciado. A narrativa bíblica diz que a pretensão era construir uma torre, um equipamento militar, o mais poderoso da terra. O projeto foi impedido pela pluralidade das línguas, pela diversidade, que explodiu a uniformidade e criou a diversidade de povos, línguas e culturas.

O outro padrão é o Pentecostes. Sob a ação do Espírito Santo, a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus passa a falar as mais diversas línguas e, mesmo assim, todos se entendem. É o encontro daquilo que havia sido disperso em Babel, não mais sob o regime da uniformidade, mas sob o modo da diversidade comunicante. Nesse regime, cada um mantém a sua própria identidade e a coloca em diálogo com a identidade do outro para que ambos se enriqueçam.

O paradigma da diversidade comunicante é o proposto pelo Papa Francisco como caminho para o encontro de povos e culturas no mundo globalizado em que vivemos. Fora dele, há duas opções. A primeira é o fechamento dentro da própria cultura e do próprio país. Quem opta por ele, morre por asfixia cultural e perde a oportunidade de aproveitar da riqueza do diferente. A segunda opção, tão daninha como a primeira, é a de impor o próprio modo de ser sobre os outros. É a cultura do imperialismo, da dominação, da aniquilação do diferente.

A diversidade comunicante, a opção proposta pela Fratelli Tutti, permite dar do que é próprio para que o outro cresça e receber o que é do outro para com ele também aperfeiçoar. Em todos os âmbitos do humano: econômico, social, político, cultural, religioso e outros mais. É ela que garante a sobrevivência das identidades, a própria e a dos outros. O isolamento e a homogeneização levam à anulação e à morte. Podemos fazer isso por interesse de sobrevivência. Já é um passo… Como cristãos, temos um motivo a mais: a diversidade é graça, é dom de Deus, e tudo aquilo que dele recebemos, não é para que fique apenas conosco. É para ser partilhado com todos e todas.

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4 ideias sobre “Fratelli Tutti – De Babel a Pentecostes.

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  2. infectotropical

    Obrigado pela reflexão Frei Vanildo!
    E aqui sempre tive uma dúvida: os Discípulos falavam outras línguas que podiam ser entendidas pelos falantes dessas línguas ou eles falavam na língua mesmo deles que mesmo assim era entendida por falantes de outras línguas? Ou as duas coisas aconteceram? A pesquisa tem ideia de que outras línguas eram essas? Um abraço,

    Resposta
    1. Vanildo Luiz Zugno Autor do post

      Olá! Desculpe a demora na resposta… Como você assinala, se analisamos o texto, as duas coisas aconteceram: os apóstolos começaram a falar em línguas que não as próprias (v. 4) e 2) as pessoas entendiam a fala em suas línguas próprias (v. 6). Que línguas seriam essas? Nos v. 9-11 são elencados vários povos que estavam ali representados. Numa deducação lógica, seriam as línguas destes povos. Mas, mais do que o sentido literal, o escritor está interessado em mostrar que o Espírito de Deus torna possível a comunicação e o entendimento entre os povos dos quatro cantos (quatro pontos cardeais) do mundo. Portanto, não há mais separação/divisão/muros entre os povos. Somos uma ecumene onde todos são irmãos e irmãs. Abcs

      Resposta

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