Tempos de quebrar a canga.

A profecia sempre se manifesta em tempos difíceis. Não é fácil ser profeta. Há um alto preço a pagar. Às vezes com a própria vida. Profetas antigos e recentes tiveram seu sangue derramado por dizer e testemunhar a verdade. Dietrich Bonhoeffer, Mahatama Gandhi, Martin Luther King, Chico Mendes, Padre Rutílio Grande, Monsenhor Oscar Romero, as irmãs Adelaide Molinari e Dorothy Stang são alguns exemplos de nossos dias. Outros, como Nelson Mandela, não perderam a vida, mas amargaram anos e anos de prisão até que a verdade os libertasse.

A razão da perseguição aos profetas e profetisas é que eles e elas ousam dizer a verdade que muitos gostariam de dizer e não têm coragem. Verdades que, normalmente, incomodam aos poderosos de seu tempo. Em alguns casos, verdades que também incomodam aos amigos e companheiros de dores e sofrimentos. A verdade que precisa ser dita e ninguém quer dizer, normalmente, é inconveniente.

Lembro do profeta Jeremias. Viveu em Jerusalém no final do séc. VII e início do séc. VI a.C. O Reino de Judá havia sido dominado pelos babilônicos. Jerusalém e seu templo foram saqueados. A elite judaica desterrada para a sede do grande império. Os que ficaram na terra, a cada ano, tinham que pagar pesados tributos para não serem deportados também.

A raiva e o desejo de revolta grassavam entre o povo. Jeremias faz uma canga para si, colocou-a no pescoço e desfilou por Jerusalém. Fez outras cangas e as enviou para os reis da região que também haviam sido dominados pelos babilônicos com a mensagem de que, por enquanto, era preciso suportar a canga, mas que, em breve, viria o tempo de quebrá-la e recuperar a liberdade. A polêmica se instaurou. Uns aceitaram a palavra do profeta. Outros a rejeitaram e quebraram a canga. Não é fácil discernir caminhos em tempos conturbados.

No dia de ontem, cinco de maio, o bispo de Itacoatiara, no Amazonas, Dom José Jonilton Lisboa de Oliveira, publicou um decreto proibindo, por tempo indeterminado, a todas as instituições diocesanas, receber doações de políticos, madeireiros, empresas de mineração e de exploração de petróleo e gás. A justificativa é de que essas pessoas e empresas são as causantes do desmatamento, da expulsão dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pequenos agricultores de suas terras e que isso contradiz as orientações do Papa Francisco, a Doutrina da Igreja e a Palavra de Deus.

Dom José Jonilton tirou a canga do pescoço da Igreja de Itacoatiara. Um gesto profético que, esperamos, seja secundado por todas as dioceses da Amazônia e de todo o Brasil. A canga no pescoço dos pobres, hoje, já não é feita de madeira ou de ferro como no tempo de Jeremias. Ela é feita do dinheiro que cala e prende aqueles que deveriam gritar a justiça e libertar os pobres.

Que acontecerá com Dom Jonilton? Que passará com a Igreja de Itacoatiara? Tempos difíceis para eles se anunciam. Receberá muitas críticas dos poderosos de sua região. Calúnias e difamações serão levantadas contra ele. Até sua vida pode ser colocada em perigo. E isso não só de fora. Até de dentro da Igreja será questionada sua decisão. Como no tempo de Jeremias, falsos profetas também hoje abundam.

Mas, com certeza, não faltará a solidariedade, inclusive econômica, de cada um e cada uma que se sentem comprometidos com “uma Igreja pobre e para os pobres”, como o desejava o saudoso Papa João XXIII e o tem testemunhado o Papa Francisco. Uma coisa é certa: o vento da profecia voltou a soprar na Igreja do Brasil.

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