Recuerdos de 1986.

Os amigos e as amigas que têm a paciência de ler estas letras devem estar sorrindo com o canto da boca só com o título deste texto. E imaginando minha idade, claro! Sem problemas. Já passei dos cinquenta e me abeiro dos sessenta. Falta pouco. É uma bela sensação, podem crer. Tem suas agruras, mas também suas gostosuras.

Quem compartilha comigo a faixa de idade dos acima do meio século, lembra que naquele memorável ano de 1986 muitas coisas importantes aconteceram no Brasil. A maior de todas, o Plano Cruzado para a estabilização da economia. Foi todo um fenômeno! De um dia para outro a inflação acabou, os preços estabilizaram, as pessoas puderam voltar a planejar seus ganhos e gastos. Quem não lembra dos “Fiscais do Sarney” fechando supermercados e dando voz de prisão a seus donos? O YouTube guarda vídeos interessantíssimos deste período.

Mas claro, era um plano artificial. E, artificialmente foi mantido até as eleições gerais de 15 de novembro. E, como não poderia deixar de ser, em meio a toda aquela euforia, o PMDB, partido no governo, teve uma vitória esmagadora elegendo 22 dos 23 governadores, 260 dos 487 deputados federais e 38 dos 49 senadores. Os partidos herdeiros da ditadura – PFL e PDS – ficaram em segundo e terceiro lugar. Na sequência, o PTB de Brizola, o PTB e o PT que fez apenas 16 deputados federais e nenhum senador.

Os deputados e senadores eleitos tinham também a missão de elaborar a nova Constituição Federal que resultou no texto de 1988 que ainda hoje vige.

Foi uma eleição importante. E complicada. Eram sete votos: dois senadores, um deputado federal, outro estadual, governador, prefeito e vereador. Tanto papel que às vezes ficávamos perdidos. E mais as confusões provocadas pelos fiscais que, na verdade, agiam como cabos eleitorais querendo, em alguns casos, votar no lugar dos eleitores que eles traziam em seus carros ou charretes. Não havia urna eletrônica, é bom lembrar. Era papel e uma sacola de lona verde.

E eu, estreando meu título eleitoral, fui nomeado Presidente da Mesa em uma cidade na qual passara a morar há apenas alguns meses. Era a Mesa com o maior número de eleitores inscritos do Capão do Leão. Muitos sequer imaginam onde fica Capão do Leão. É ao lado de Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul. O município havia sido recém-criado e a política local era dominada por duas oligarquias que disputavam o poder com todas as armas à disposição. E a afirmação não é apenas uma figura de retórica. Imaginem vocês a tensão.

Foi uma votação dura que conseguimos levar a bom termo. E foi uma eleição importante pois era o início do fim da ditadura. E a vitória do PMDB, se teve o Plano Cruzado como grande motivador, foi também alavancada pelo desejo da população em deixar para traz o regime militar e as trágicas sequelas que deixou na sociedade brasileira.

Estamos em 2022. Vinte e dos anos se passaram. E estamos de novo caminhando para eleições. Desta vez mais simples. Elegeremos apenas o Presidente, um Senador para cada estado, o Governador, os Deputados Federais e os Deputados Estaduais. Cinco votos eletrônicos. Tecnicamente fácil. Mas politicamente desafiadora. Temos outra vez que deixar para traz um governo assumidamente que tentou a volta ao que éramos antes de 1986: um país autoritário e corrupto onde as riquezas nacionais eram entregues às empresas estrangeiras e os lucros acumulados por uma oligarquia mesquinha. Mais do que por este ou aquele candidato, é preciso votar, outra vez, pela democracia. É o que está em questão nestas eleições.

Ah! Em 1986 a Copa do Mundo foi no México e a Argentina, com o genial Maradona e sua “Mano de Dios”, levaram a taça. Quem será o campeão este ano?

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