Arquivo mensal: junho 2026

A COPA DE UM MUNDO DE CABEÇA PARA BAIXO

Foto por Alessandro Ascione em Pexels.com

Assistimos ontem o sofrível desemprenho da seleção brasileira. Surpresa  nenhuma. E não é culpa do Ancelotti. Há muito tempo a verde-amarela deixou de representar o Brasil. Agora o que interessa é o faturamento. O técnico italiano, assim como os que vieram antes dele, não convocam e nem escalam os jogadores que gostaria de chamar e colocar em campo. O caso Neymar é exemplar. Sem condições físicas, psíquicas e sociais de jogar, foi imposto pelos patrocinadores. Sua reação após o anúncio da convocação é exemplar: ao invés de agradecer a convocação e falar para os brasileiros e brasileiras, postou em suas redes sociais propaganda das bets que o patrocinam. Ele joga para as casas de apostas e não para a bandeira que o alberga.

No mundo do futebol brasileiro, Neymar é apresentado como o exemplo a ser seguido. É o que se propagandeia dia e noite nos jornais, rádios, televisão e mídias sociais que, não por coincidência, são patrocinados pelas mesmas casas de aposta que ganham milhões com as imagens dos jogadores que sonham um dia serem recompensados como o adulto disfuncional, chamado por alguns hipocritamente de “menino Nei”.

Nesse contexto, não há muito o que esperar da seleção brasileira em termos de resultado. Será uma grande zebra – para usar uma expressão bem antiga! – se chegar às finais e, maior ainda, quase um camelo passando pelo buraco de uma agulha, se conseguir trazer o propalado hexa.

Do outro lado no jogo de ontem, a seleção do Marrocos. Uma equipe com grandes destaques individuais, um esquema de jogo claro, disciplina tática e vontade de ganhar. E a grande maioria, vinte deles, com uma característica em comum: filhos de migrantes, nasceram na Europa e optaram por jogar pelo país de suas origens culturais. Jogar pelo Marrocos, para eles, foi uma opção. Poderiam, facilmente, ter um lugar nas seleções dos países onde nasceram.

Achraf Hakimi, Brahim Díaz e Yassine Bounou (Bono) jogam em grandes equipes e seriam facilmente convocados para compor as seleções de Espanha e Canadá. E outros tantos componentes da seleção argelina e de outras tantas poderiam fazer o mesmo. Mas optaram por não jogar pelo país onde nasceram e defender as cores dos países de seus pais.

Se olharmos o conjunto das 48 seleções em campo neste mundial, é surpreendente o número de jogadores nesta situação. São aproximadamente 287 os que nasceram em um país e jogam por outro. Um número nunca antes alcançado. Em copas anteriores, a quantidade era irrelevante e os casos isolados causavam estranheza e, em alguns casos, até severamente criticados e caracterizados como merceranismo. Hoje, o fato é aceito e até celebrado como expressão da globalização e do intercâmbio de culturas.

Mas, há um detalhe que surpreende. Dentre os 287 casos, são poucos os que nasceram na América do Sul, África ou Ásia e optaram por jogar na Europa. A grande maioria fez o caminho contrário. Nasceram na Europa e optaram por jogar pelos países de origem de seus pais. E aí talvez haja um indicativo de uma outra forma de globalização. Uma globalização anti-colonial ou, como se costuma dizer, decolonial. O sentimento de volta às origens, de recuperação das raízes, de reconstrução de identidades e de solidariedade que vence a tentação de acomodação às benesses do sistema imperial norte-atlântico.

A arte e os esporte – que também é uma arte – tem a sensibilidade para antecipar movimentos do conjunto da sociedade. Os jogadores de futebol estão construindo outros caminhos de deslocamento pelo mundo. Estão colocando o quadro das seleções mundiais de cabeça para baixo. O que antes estava acima, agora está abaixo e a copa está extravasando e mostrando que outros rios do mundo são possíveis.

Pobre pampa!

Foto por Alejandro Novoa em Pexels.com

Sem querer ser bairrista, gostaria de lembrar que há duas coisas que nenhum outro Estado do Brasil tem: o Bioma Pampa e a Lagoa dos Patos.

A Lagoa dos Patos é só nossa. Não a dividimos com nenhum outro Estado e com nenhum outro país. Já o Bioma Pampa, ele faz parte da cultura gaúcha e o compartilhamos com uruguaios, argentinos e paraguaios. Tudo isso até o presente momento. Pode ser que daqui a alguns anos não tenhamos mais nem Lagoa dos Patos e nem Bioma Pampa.

E não será por uma catástrofe cósmica. Será por uma irresponsabilidade ecológica mesclada com interesses políticos e pessoais. Essa conjunção catastrófica tem nome: duplicação da CMPC com a planejada unidade de Barra do Ribeiro. O Governo do Estado – Eduardo Leite e Gabriel Souza – diz que não se pode perder um investimento de vinte e poucos bilhões. Mas não falam das desonerações fiscais pactuadas que farão que o retorno para o Estado em termos de impostos seja quase nulo.

A imprensa empresarial só publica as notas de apoio de parte dos sócios – ocultos e não tão ocultos – da empresa chilena e dos interessados políticos coadjuvantes. Dos impactos ambientais e dos estudos que mostram o grave perigo do projeto, silêncio total! A CMPC é o maior patrocinador de quase todos os meios de comunicação empresarial do Estado.

A implantação do negócio é um risco para a Lagoa dos Patos. Nela serão despejados os rejeitos industriais com componentes tóxicos que poderão afetar a flora e a fauna nativas gerando desequilíbrios com consequências imprevisíveis. A plantação de eucaliptos, necessária para o suprimento de matéria prima, acabará com o pouco do Bioma Pampa que ainda resiste.

Até agora não ouvi nenhum tradicionalista, seja como pessoa física ou representante do Movimento Tradicionalista Gaúcho, pronunciar-se sobre a questão. Talvez também eles tenham medo de perder os patrocínios diretos e indiretos. Para o MTG, a Lagoa dos Patos e o Pampa são apenas símbolos atávicos de um passado que nunca existiu e não realidades vivas que precisam de cuidado. Se pelos menos, como diz a canção, houvesse algum caudilho prá lutar prá essa pampa pobre que ficou prá traz… Mas parece que a maioria se conformou a sequer ter a pampa pobre que herdou de seu pai. Triste gauchismo castrado em suas memórias ancestrais!