Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

"NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A ESPERANÇA!"

“Não tenhais medo!” São essas as primeiras palavras que, segundo o Evangelho de Marcos, Jesus diz às mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé – que vão ao sepulcro para ungir seu corpo. Jesus sabia que elas não tinham medo. Afinal, se tiveram a coragem de levantar-se de madrugada para ir ao local onde o corpo do mestre havia sido depositado e dar-lhe as honras fúnebres como mandava a tradição judaica, era porque elas já haviam vencido o medo.
Mas, medo de que? Do Ressuscitado? Do Anjo que se fez ver? Não… Nada disso! Fazer tal afirmação é desconhecer o contexto em que se deu a morte de Jesus.
O medo ao qual Jesus se refere, era o medo da cruz. Era o medo do suplício infligido pelas autoridades romanas a todos aqueles que ousavam levantar-se contra o seu jugo dominador. Dentro do “terror de Estado” imposto pelas tropas romanas sobre as populações subjugadas, as crucificações, geralmente múltiplas – é sempre bom lembrar que Jesus não foi crucificado sozinho – tinham como objetivo, além de eliminar um revoltoso, evitar que outros seguissem no mesmo caminho. Para tal, utilizava-se o instrumento de tortura inventado pelos persas, introduzido no Ocidente por Alexandre Magno e otimizado pelos romanos: a crucificação.
O objetivo de tal método de tortura e morte não era o de matar, mas prolongar pelo máximo de tempo o sofrimento do prisioneiro. Tal macabro espetáculo – sempre levado a cabo de forma espetacular – era um forte antídoto contra toda ânsia de contestação da dominação romana.
Do ponto de vista romano, a morte na cruz de Jesus foi um fracasso. Ele morreu rapidamente e seu corpo não ficou exposto até ser consumido pelas aves do céu. Mesmo assim, haviam alcançado seu objetivo: os discípulos, aterrorizados com o sucedido ao seu mestre, haviam fugido e retornado aos seus lugares de origem. Os pescadores – seis dentre os doze discípulos – haviam voltado ao lago para pescar. Mateus talvez tenha retomado sua banca de impostos… Dos outros, não há notícias. Só as mulheres ficaram ao pé da cruz. Só elas não se deixaram vencer pelo terror de estado do Império Romano. Por isso vieram até o sepulcro trazendo os óleos aromáticos para ungir o corpo de Jesus.
Dentro da tradição judaica, tal gesto era um sinal de esperança. Ungir o corpo de um prisioneiro trucidado pelo poder imperial, era afirmar que, acima do poder do tirano facínora, está o poder de Deus que fará justiça para com o injustiçado. E império nenhum tolera tal ato de sublevação simbólica. Nem os de ontem e nem os de hoje.
Jesus apresentara-se na sinagoga de Nazara como aquele que veio libertar os aprisionados pelo poder opressor dos latifundiários da Galileia, dos sacerdotes de Jerusalém e dos ocupantes helenistas e romanos. As mulheres, indo ao túmulo para ungir Jesus, estavam afirmando que, apesar do brutal assassinato cometido contra Jesus e suas esperanças, continuavam a acreditar que a justiça para com os pobres da terra um dia será realidade. Por isso, sua vitória sobre o medo tinha que ser reafirmada e anunciada a todos os que estavam sobre a tentação de deixar-se vencer pela desesperança.
Hoje e sempre, visitar e consolar os injustamente aprisionados pelo poder opressor é um sinal revolucionário e de esperança. Recolher e cuidar dos corpos e mentes trucidadas pela sanha exploradora de um sistema econômico que vê as pessoas apenas como força mecânica e intelectual para obter mais lucro, é confirmar nossa fé no Deus que não deixa o seu justo na morte para sempre. Crer no ressuscitado, é afirmar a certeza da vitória dos aprisionados e crucificados sobre os seus algozes.

E nesse contexto que, como nos lembra o Papa Francisco, “o triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal.”

QUEM ESTIVER SEM PECADO DISPARE O PRIMEIRO TIRO

Todos os que tem uma mínima familiaridade com a Bíblia cristã lembram com facilidade o episódio apresentado pela liturgia no Quinto Domingo do Tempo da Quaresma. Trata-se da perícope de abertura do capítulo 9 do Evangelho do João.
Numa mis-en-cène típica da tradição joanina, os fariseus e doutores da Lei trazem até Jesus uma mulher flagrada em adultério. Diferentemente do que se diz em muitos sermões, não se trata de uma prostituta, mas de uma mulher, casada, que traiu seu marido com outro homem. O detalhe da acusação é que os homens que trazem a mulher até Jesus viram, com os próprios olhos, a mulher adulterando. Por consequência, viram também o homem com o qual a mulher estava a adulterar. E, assim como prenderam a mulher e a levaram até Jesus, poderiam também ter apreendido o adúltero e tê-lo trazido até Jesus para ser apedrejado. Mas não! Eles trazem só a mulher… E a Lei de Moisés, no capítulo 20 do Livro do Levítico, mandava que o homem fosse apedrejado junto com a mulher. Dentro da mentalidade patriarcal e machista, era o homem o sujeito principal do adultério e ele deveria ser apedrejado por primeiro. A mulher devia ser apedrejada junto com ele. Mas por que apedrejar a mulher pelo simples fato de ter sido vítima do adultério?
Essa interpretação é corroborada pelas leis que se seguem e tratam da zoofilia. A Lei ordena que um homem que tenha relações sexuais com um animal seja apedrejado. O mesmo para o caso de uma mulher relacionar-se sexualmente com um animal. E a Lei, em ambos os casos, manda que o animal também seja apedrejado. Pergunta-se: por que apedrejar o animal? Não tendo consciência nem liberdade, o animal é, no caso da zoofilia, vítima da perversão sexual do homem ou da mulher. Por que matá-lo, então?
A Lei não diz. Mas há uma hipótese que considero plausível e se fundamenta no modo como Jesus responde à questão a ele apresentada a respeito da mulher. A hipótese é a seguinte: as vítimas devem ser eliminadas porque elas nos recordam dos nossos crimes. “Sem corpo, não há crime”, dizia um velho princípio jurídico que vigorou por muitos anos. Felizmente, a justiça, a duras penas, conseguiu superá-lo. Mas ele continua vigente na mentalidade daqueles que procuram eliminar os corpos de suas vítimas mortas ou, de forma mais comum do que pensamos, buscam eliminar as próprias vítimas pelo ocultamento ou pela destruição física.
Jesus desmascara essa prática quando, depois de rabiscar sobre a areia num suspense sem fim para a mulher e para seus algozes, afirma calmamente: “quem não estiver em pecado, atire a primeira pedra”. Certamente passou pela cabeça dos presentes os muitos adultérios que cada um deles tinha praticado e que mereciam a morte antes mesmo da lapidação daquela mulher jogada ao chão no meio do círculo de mãos levantadas e armadas com 80 pedras. Ao assassinar aquela mulher – e Jesus com sua fala calma lhes aponta isso – eles não queriam primeiramente fazer justiça à mulher flagrada em adultério, mas apagar a memória viva de seus próprios adultérios. A vítima é perigosa porque lembra ao assassino de seu crime. É preciso eliminá-la porque sua presença fala por si mesma e é uma acusação contra os crimes daqueles que se pretendem inocentes.
Pergunto-me nesta noite do Quinto Domingo de Quaresma: qual a razão que levou a um grupo de militares a assassinar, com 80 tiros, um pai de família que se dirigia, junto com sua esposa, seu sogro e seu filho, para um chá de bebê na favela de Guadalupe. Foi apenas um engano, como alegado imediatamente pelas autoridades? Um tiro por engano, até poderia ser. Dois ou três, ainda vai… Mas 80 tiros por engano? E ainda debochar da esposa que pede para que ajudem o marido que está a morrer? O que fazia com que esse homem se tornasse um possível suspeito para a polícia? Simples: ele era preto e estava num carro que não condizia com seu “lugar social”.
No mesmo domingo, na mesma cidade do Rio de Janeiro, um jovem de 17 anos foi morto, a tiros, pelas costas, por policiais militares. E, se abrirmos os jornais e as páginas da internet, veremos isso a cada dia. E veremos mais: comandantes das polícias, governadores e até o Ministro da Justiça propondo a legalização e a despenalização dos assassinatos cometidos por policiais, mesmo quando os mortos são inocentes e em circunstâncias que não justificam tal violência. Tal “lei do abate” é apresentada como uma forma de defender os policiais e suas vidas. Se tal argumento tivesse base real, o Brasil não seria o país onde mais a polícia mata e onde mais policiais são mortos em serviço. Se a polícia matar os supostos bandidos fosse uma real solução, não haveria mais crimes no Brasil e nenhum policial mais seria morto. Infelizmente, no entanto, a realidade nos mostra que as coisas não são assim.
Fica então a pergunta: a quem interessa tantas vítimas da violência, seja entre a população, seja entre os policiais? Seguindo a lógica da fala de Jesus, surge poderosa a suspeita de que a eliminação das vítimas – homens pretos das favelas e policiais na sua maioria também pretos –  interessa apenas aos que produzem as vítimas: a pequena parcela da sociedade – os 5% que detém renda equivalente à soma dos outros 95% – que, para manter seus privilégios e requintes, precisa produzir milhões de empobrecidos e marginalizados e, para defender-se deles, necessita a força das armas e da polícia.

É nesse contexto que a pergunta de Jesus é dirigida a cada um de nós: quem não participa ou não é conivente com essa situação de injustiça e violência da sociedade brasileira, que dê o primeiro tiro.

Há esperança

Primeiro sábado de outono. Porto Alegre ensolarada. Mas já não tão quente.  Trânsito tranquilo a caminho da Estação Rodoviária. Chego antes do tempo. Aproveito os 45 minutos que ainda me separam da partida do ônibus para ler. Me sinto um extraterrestre em meio aos não muitos outros passageiros que também aguardam as respectivas partidas. Sou o único – confiro para não estar equivocado – a ter um livro mãos. Quase todos ocupam o tempo em teclar nas redes sociais ou ouvir música. Alguns fones de ouvido se escondem no interior do pavilhão auricular. Outros, escondem a cabeça de seus ouvintes.
Na hora marcada o ônibus parte. Pontualidade brasileira com preços britânicos. Com duas passagens pagar-se-ia uma viagem em carro para o mesmo destino. É o preço do monopólio construído em tempos de governos liberais. Como de costume, durmo na primeira hora de viagem. Acordo já para lá da Estrada do Conde que leva a Guaíba. Retomo minha leitura de “Sodoma” e observo as ondas multicoloridas dos arrozais em ponto de colheita. O tema da leitura e a paisagem se complementam. O tempo passa rápido apesar da pista que teima em não ser duplicada desde o ano de 2014. Aqui e ali um pequeno sinal de obras em andamento. Aparências para enganar eleitores incautos e cultivar futuras expectativas que alimentarão novas eleições.
A platitude do terreno me remete ao ano de 1983 quando, pela primeira vez, fiz este percurso. Em meus então 17 anos, saia da terra natal e me aventurava na distante Pelotas. Tempos de abertura e de descortinamento de um novo mundo. A democracia ainda tardaria mas já vivíamos os albores das Diretas Já, da Constituinte e do fim da ditadura militar. Tantas lembranças destes tempos
Depois de duas horas e um pouco mais de viagem, o tradicional paradouro: 20 minutos! Para minha surpresa, para usar o banheiro, não há necessidade de passar pela loja e restaurante. E, surpresa maior, o banheiro masculino está surpreendentemente limpo. Algo a louvar. Passo na lojinha, compro uma água mineral e um pacotinho de torrões de arroz. Preço dobrado em relação aos mercados urbanos. Não há opção. O preço do banheiro limpo está embutido. Faz parte do jogo.
Como meus torrões e tomo a água sentado em frente ao ônibus. Ninguém conversa com ninguém. Apenas os smartphones falam. Deixo o tempo passar. Faltam poucos minutos e não vale a pena buscar meu livro. Do restaurante sai calmamente um casal de idosos. Por volta dos 70 ou um pouco mais. Não são passageiros do ônibus. Estão viajando de carro. Ao passar, o senhor – mais velho que a senhora – olha a origem e o destino do ônibus. Volta-se para mim e me diz: — Vamos ver quem chega antes! Eu sorria e desejo boa viagem. Os dois se encaminham em direção ao carro estacionado sob uma sombra. Levam nas mãos plásticos e papeis para descartar na lixeira. Mas a lixeira está virada e há papeis e plásticos espalhados pelo chão. Um olha para o outro e, com a calma de quem não tem pressa para chegar ao destino, os dois começam a recolher o lixo jogado pelo chão e acomodá-lo nas sacolas plásticas que carregavam. O senhor vai até o carro, busca mais uma sacola plástica e continua a coleta no gramado que se estende à beira da estrada.
Ao terminar o trabalho, recolocam a lixeira na vertical, depositam nela as sacolas recheadas de dejetos por outros produzidos e, sem pressa, dirigem-se ao pé da árvore. Tomam seus celulares e fazem fotos. Ele dela e, ela, dele. Em seguida, um selfie os junta na mesma imagem. Tudo acompanhado por sorrisos e gestos de carinho.
O ônibus parte. O carro vermelho de modelo popular com o casal de idosos segue o ônibus com toda calma e tranquilidade. Quem chegará antes em Rio Grande?

Em meus pensamentos desejo outra vez uma boa viagem aos dois. E, mesmo que o ônibus corra mais e eles continuem andando na vagarosa tranquilidade do bem feito, certamente eles já chegaram ao seu destino.

Vamos celebrar o Golpe?

Diferente de meus amigos democratas que se escalofriaram com a proposta do Presidente de plantão em mandar os quartéis celebrarem o Golpe de 1964, eu, decididamente, oPTtei por seguir a ordem do dia e me agregar à nova velha política da morte da democracia. Vou celebrar, sim, o 31 de março. E o faço com o texto de um poeta que, se vivo, ontem, 27 de março, estaria comemorando 59 anos. Como todos os da minha geração já adivinharam, trata-se de Renato Russo. A poesia, musicada e lançada no álbum “O Descobrimento do Brasil” de 1993, chama-se “Perfeição”. E é tão perfeita a letra que não pode ser em nada emendada na medida em que desvela o caráter profundo deste Brasil tão esquizofrenicamente injusto que, por isso, nunca chega a construir-se como nação pois isso implicaria abolir o caráter escravista de nossa sociedade. Mas, como diz o poeta, mesmo se “a esperança está dispersa”, sabemos que “só a verdade nos liberta”, e, como temos a certeza de que “o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera, nosso futuro recomeça”.
Com a palavra, o poeta:
PERFEIÇÃO (Renato Russo, 1993)
Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações, o meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões.
Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão.
Vamos celebrar nosso governo e nosso Estado que não é nação.
Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas.
Celebrar nossa desunião.
Vamos celebrar Eros e Thanatos, Persephone e Hades.
Vamos celebrar nossa tristeza.
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado, todos os mortos nas estradas, os mortos por falta de hospitais.
Vamos celebrar nossa justiça, a ganância e a difamação.
Vamos celebrar os preconceitos por volta dos analfabetos.
Comemorar a água podre e todos os impostos, queimadas, mentiras e sequestros, nosso castelo de cartas marcadas, o trabalho escravo, nosso pequeno universo, toda hipocrisia e toda ostentação, todo roubo e toda a indiferença.
Vamos celebrar epidemias, e a festa da torcida campeã,
Vamos celebrar a fome, não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar.
Vamos alimentar o que é maldade, amos machucar um coração.
Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos, tudo o que é gratuito e feio, tudo que é normal.
Vamos cantar juntos o Hino Nacional (A lágrima é verdadeira).
Vamos celebrar nossa saudade e comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja, a intolerância e a incompreensão.
Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada.
Vamos celebrar a aberração ee toda a nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação.
Vamos celebrar o horror de tudo isso com festa, velório e caixão.
Está tudo morto e enterrado agora, já que também podemos celebrar a estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa, só a verdade me liberta.
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça.
Venha, que o que vem é perfeição!

São Patrício X Antônio Conselheiro?

A modernidade é a era da “colonialidade”. O neologismo difundido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano, quer expressar as relações políticas e suas consequências econômicas, culturais, pedagógicas, étnicas, de gênero… que foram construídas no Ocidente a partir do séc. XIV e resultaram no euro-centrismo típico da modernidade. Eurocentrismo que teria sua expressão maior no atual processo de globalização capitaneado pelo capital transnacional.

A colonialidade se expressou de forma brutal no modo como as potências europeias – Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália, Rússia – invadiram, cada uma a seu turno, territórios na América, África, Ásia e Oceania subjugaram militarmente os povos nativos destes continentes, provocaram genocídios, exploraram as riquezas naturais e impuseram sua cultura. É uma história que todos conhecemos e muitos sofremos as consequências ainda hoje. A colonialidade não é algo do passado. Ela se instalou de tal modo nas mentes e corações das pessoas – tanto dos colonizadores como dos colonizados – que, muita vezes, parece ser difícil superar suas expressões tanto no macro das relações internacionais como no micro das suas manifestações culturais.

Dentro do histórico da expansão colonial europeia há um fato muito particular que poucos conhecem. A Inglaterra foi a nação que conseguiu manter pelo tempo mais prolongado uma colônia dentro da própria Europa. Trata-se da Irlanda. A partir do séc. XX, a dominação inglesa sobre a Irlanda sendo imposta de forma cada vez mais rígida. A propriedade das terras passou a ser um direito exclusivo dos ingleses e só eles tinham representação política. A língua nativa – o gaeilge– foi substituído pelo inglês e as profissões liberais foram proibidas aos nativos.

Dominados por todos os lados, os irlandeses encontraram na religião o refúgio pra manter a identidade cultural. Por oposição aos ingleses anglicanos, ser irlandês tornou-se sinônimo de ser católico romano. E, dentro do catolicismo, a figura de São Patrício – o escravo do séc. V que evangelizou a ilha verde – a grande referência de vida para os que resistiam ao colonialismo.
A grande fome do séc. XIX – provocada pela exploração inglesa e por um fungo importado do México – provocou a morte de mais de um milhão de irlandeses e fez com que mais de outros dois milhões deixassem a ilha em busca da sobrevivência. A maioria cruzou o Atlântico e se instalou na então conflituosa e próspera nação dos Estados Unidos da América. Antes do afluxo de latinos aos Estados Unidos, ser católico nos Estados Unidos equivalia quase que normalmente a ser descendente de irlandeses.

Junto com a fome e os poucos pertences, levaram para lá a tradição católica e a devoção a São Patrício expressa no nome de incontáveis paróquias, instituições religiosas e sociais. Para um descendente irlandês nos Estados Unidos, festejar São Patrícia é fazer memória do passado de dominação colonial da Inglaterra sobre a Irlanda e, ao mesmo tempo, afirmar a identidade cultural e a resistência de tantos homens e mulheres que deram a vida para que, no início do séc. XX, a pequena ilha pudesse proclamar sua independência e afastar definitivamente o sombrio passado colonialista inglês.

Há alguns anos, em Porto Alegre, assim como em outras cidades brasileiras, começaram a pipocar, especialmente nos bairros nobres, as “Saint Patrick’s Day”. Neste ano, em Porto Alegre, a Prefeitura autorizou a realização de onze eventos ao ar livre com ocupação de praças e interrupção de ruas. Todos eles acontecem nos bairros nobres de Porto Alegre. Decoração verde, trevos, cerveja verde, música típica… fazem parte do menu disponibilizado.

Enquanto dirijo lentamente ao som de uma música tradicional irlandesa à base de foles e violinos, pergunto às palhetas de meu Peugeot 208 que bailam de um lado para outro em um ritmo que não combina com a música se os organizadores da festa sabem quem foi São Patrício e a história colonial da Irlanda e sua luta pela afirmação da independência econômica, política e cultura. Como bom francês, meu Peugeot 208 responde um suave “penso que não”. Concordo com ele. Lembro do Halloween, do Black Friday e da gravata do Pelé na final do Copa de 1994. “Yes, nós temos banana, banana prá dar e vender”, como dizia o samba de antigamente. E junto vai a Petrobrás, a Embraer e a Base de Alcântara.

Enquanto deixo a Avenida Goethe e começo a descer a Doutor Timóteo, a sanfona, acompanhada da zabumba, do triângulo e da inigualável voz de Luiz Gonzaga me lembra que “Minha vida é andar por este país, pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações, das terras onde passei, andando pelos sertões, e dos amigos que lá deixei…” Sigo meu caminhando esperando encontrar, na esquina com a Cristóvão Colombo, uma festa em homenagem a Antônio Conselheiro. Não custa sonhar!

NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, O CARNAVAL ACABAVA…

“Cadê as marchas bonitas dos tempos de antigamente? Dos carnavais que passaram, que pena, hoje é tão diferente.” Com um início assim de saudosista, iniciava o agauchado e melancólico samba cantado por Teixeirinha sob o título de “A saudade que ficou”.

Segundo o autor do samba – não consegui informações exatas se era do próprio Teixeirinha ou de outra pessoa – duas razões há para que os carnavais de hoje não sejam mais como os de antigamente. A primeira é a da relação entre o fim do carnaval e a permanência, na memória das pessoas, das marchinhas nele cantadas. Segundo o autor, antigamente, o carnaval terminava na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas seguiam sendo cantadas o ano inteiro. Hoje, o carnaval continua terminando na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas “morrem ao baixar a poeira”. Isso se deve, sempre segundo o autor do samba, a que os compositores de hoje não são mais como os de antigamente: “O Noel Rosa morreu, Francisco Alves também. A velha guarda inteirinha partiu, subiu o céu e não vem. Oh! Velha guarda querida dos carnavais que passou, pra cantar e compor como eles, meu bem, nenhum herdeiro ficou.”

Não sei em que ano este samba foi composto. Na minha memória musical ele está presente deste a minha longínqua infância quando lá, no interior de Vila Flores, sintonizávamos, num rádio de pilha, as emissoras de Porto Alegre, e a Rádio Tupi de São Paulo e a Rádio Globo do Rio de Janeiro. É um samba antigo e que grudou no meu ouvido. Lembrando dele, perguntei-me: será que ele continua atual? Não! Definitivamente, não. Se a letra do samba fosse recomposta, hoje, ela teria que ser mudada. Em primeiro lugar, porque, hoje, o carnaval não termina na Quarta-feira de Cinzas. Movido pela lei do mercado que explora ao máximo um produto, até o limite da possibilidade de produzir lucro, o “produto carnaval” não respeita mais os princípios cristãos da Quaresma e, cruzando a Quarta-feira de Cinzas, se estende, no mínimo, até o fim de semana seguinte. E isso não só apenas um Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo em Porto Alegre e cidades do interior gaúcho, o carnaval vai se aproximando cada vez mais da Semana Santa. Não me admira se, daqui a alguns anos, não acabaremos tendo um Carnaval de Semana Santa. Se der lucro, o deus-mercado vai justificar…

Uma outra razão pela qual podemos discordar da letra do samba cantado por Teixeirinha, é de que as letras das marchinhas sejam esquecidas imediatamente após a Quarta-feira de Cinzas. Isso aconteceu até recentemente. Mas, nos últimos anos, há letras de sambas que vão ficar para sempre na memória das pessoas. Como esquecer, por exemplo, do Samba Enredo da Mangueira, campeã do Carnaval carioca de 2019 que teve a coragem de “contar histórias que a história não conta” e concluir com a desafiadora memória de tantos heróis do povo que não cabem nas molduras oficiais?

É uma “história para ninar gente grande” e que permanecerá, muito depois da Quarta-feira de Cinzas, lembrando ao Brasil que “teu nome é Dandara e a tua cara é de cariri. Não veio do céu, nem das mãos de Isabel, a liberdade é um dragão no mar de Aracati. Salve os caboclos de julho, quem foi de aço nos anos de chumbo. Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Sambas como este, ultrapassam não apenas a Quarta-feira de Cinzas, mas cruzam o ano todo e certamente continuarão na memória do povo brasileiro por muito tempo, passando pela cruz da Sexta-feira Santa até chegar no Domingo da Eterna Ressurreição.

DA “TORMENTA NO DESERTO” À “TORMENTA NO CARIBE”

Os fatos que lembramos e aos quais fazemos referência em nossos discursos revelam a idade que temos. Saber o que foi a “Tormenta no Deserto” revela que a pessoa – fora os apaixonados por história – tem mais de cinquenta anos… É o meu caso. Estou iniciando a segunda parte daquilo que espera seja o século que me cabe viver e por isso lembro o que foi a “Tormenta no Deserto”.

A “Tormenta no Deserto” também marca um tempo na minha vida e ganha com isso um significado especial. No dia 24 de fevereiro de 1991 eu deixava o Brasil para iniciar um período de trabalho na Nicarágua pós-sandinista. Naquele exato dia, enquanto juntamente com o agora falecido Vitor Poloni, deixava Porto Alegre nas asas da Varig e, depois de uma escala no Equador e outra na Costa Rica, chegávamos em Manágua, as areias do deserto do Golfo Pérsico e os céus do Oriente Médio sacudiam sob o peso da maior operação militar desencadeada depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Em uma única noite, as forças de uma coalização internacional liderada pelos Estados Unidos despejaram sobre o Kuwait e o Iraque, apenas através de bombardeios aéreos, nada mais nada menos que oitenta e oito mil e quinhentas toneladas de explosivos.

Foi a primeira guerra televisionada ao vivo. A CNN, então uma emergente cadeia de televisão, foi encarregada de divulgar ao mundo o espetáculo do bombardeio. A Tormenta no Deserto foi transformada em espetáculo e videogame. Os soldados, nos aviões ou nos bunkers de comando, apertavam botões e os céus e cidades do Iraque explodiam num espetáculo de cores que ocultava a morte de em torno de um milhão de pessoas.

No dia seguinte, 25 de fevereiro, por terra, a coalização militar ocidental entrou no Kuwait e, em menos de 24 horas, já fazia as tropas iraquianas comandadas por Saddam Hussein recuarem ao norte da fronteira. No dia 26 o Iraque é invadido e no dia 27 um armistício é assinado. Na retirada, as forças iraquianas incendiaram os poços de petróleo que não haviam sido destruídos pelo bombardeio norte-americano.

Qual a causa dessa guerra? Muitas podem ser elencadas… Cada historiador escolhe as suas e dá destaque a esta ou aquela. Mas a causa imediata é clara: o preço do petróleo. Para poder manter a dinâmica de sua economia, os Estados Unidos obrigavam a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Kuwait a uma superprodução para além dos limites estabelecidos pela OPEP. Com isso, o preço do petróleo baixou de dezesseis a dez dólares o barril. O Iraque, maior produtor da época e necessitado de divisas para reconstruir o país após a guerra contra o Irã – guerra patrocinada do lado iraquiano pelos norte-americanos, há de se lembrar – era o maior prejudicado com essa política. Impossibilitado de resolver diplomaticamente seu problema, invadiu o Kuwait como uma forma de regular o mercado petroleiro.

O Iraque pagou e continua pagando até hoje um alto preço por essa aventura. Em 2003 sofreu outra invasão por parte dos Estados Unidos que, desta vez, depôs Saddam Hussein sob o pretexto de armas químicas e nucleares nunca encontradas. O território do país do Tigre e do Eufrates foi dividido em três zonas e hoje é um dos abrigos do chamado “Estado Islâmico” que continua a convulsionar aquela região.

Quase trinta anos depois, o mapa do petróleo mudou. As maiores reservas conhecidas não estão mais no Oriente Médio. Novas descobertas revelaram que o maior volume de ouro negro ainda disponível é o que se esconde no Golfo de Maracaibo. E é o tipo de petróleo – o “petróleo pesado” – que mais faz falta à indústria americana. E que com o embargo dos Estados Unidos ao Irã, este petróleo, no mercado internacional, tornou-se extremamente caro. E o disponível na Venezuela está a apenas três dias de viagem das refinarias do Texas. Enquanto que, o importado do Oriente Médio leva quase três meses para fazer o percurso.

O único problema é que os venezuelanos não estão mais dispostos – como o estiveram no passado – a entregar o petróleo de graça. A solução: uma Tormenta no Caribe. É o que talvez se aproxime. Outra vez, o problema é o petróleo.

A Tormenta no Deserto custou mais de um milhão de vidas e aproximadamente 150 bilhões de dólares. Um investimento humano e monetário fantástico que certamente deve ter dado um significativo retorno para os que o sustentaram. Quanto custará – em vidas humanas e em recursos materiais – uma invasão à Venezuela? A indústria petroleira e a de armamentos devem estar fazendo seus cálculos. Se a opção bélica for vantajosa, certamente acontecerá. A diferença é que não será mais transmitida pela CNN, via televisão a cabo. Ela será transmitida pela internet e um megaespectáculo de luzes, cores e sons que, mais uma vez, abafarão o sofrimento humano que ela comporta. É difícil ser humano num mundo dominado pela máquina do petróleo. É doloroso pensar…

VOCÊ SABE QUEM É BERRY BENNELL?

A maioria de meus parcos leitores, com certeza, nunca ouviu falar de Berry Bennel. Tranquilos! Não há nenhum culpa nisso… Afinal, só mesmo um brasileiro maluco por futebol poderia saber quem é esse misterioso personagem. Eu não sou maluco por futebol. Falo dele por outro motivo que logo vocês verão, interessa a mim e a todos.

Mas qualquer inglês que tenha mínimas noções do esporte bretão que se joga com os pés, sabe quem é ele. De 1982 a 1994, Berry Bennel foi coordenador e treinador do Crewe Alexandra, clube da Quarta Divisão do Futebol Inglês. Não seria grande coisa, mas, além disso – e o que o tornou famoso – ele também era “olheiro” do Manchester City, do Chelsea e do Stoke City, clubes de primeira grandeza e “sonho de consumo” de qualquer iniciante no futebol. O faro futebolístico de Bennel em descobrir novos talentos fez com que fosse considerado o melhor olheiro das categorias de base de toda a Grã-Bretanha. E, nessa função e com tal fama, ele tinha acesso irrestrito a todos os garotos – a maioria de origem pobre – que sonhavam com um futuro melhor para eles e suas famílias graças ao talento futebolístico.

E aí se revelou o “lado monstro” de Bennel. Aproveitando-se do acesso aos garotos e a seus alojamentos, o treinador e olheiro construiu uma sórdida carreira de predador sexual que tem no currículo o registro de mais de cem meninos, entre 8 e 15 anos, abusados por ele. Sua carreira de pedófilo só foi interrompida por ocasião de uma excursão de seu time de crianças aos Estados Unidos. Longe da proteção que os grandes times poderiam lhe dar, foi preso pela justiça americana e condenado. Com a publicitação do fato, outras denúncias surgiram e ele foi deportado para a Inglaterra onde foi condenado a 30 anos de prisão.

Uma de suas vítimas, o ex-zagueiro Andy Woodward, esteve no Brasil no início de 2018 e, em várias cidades, proferiu uma séria de palestras sobre sua experiência e a necessidade de livrar o futebol deste tipo de predador. Sua visita estava relacionada ao escândalo que veio à tona nas categorias de base do Santos Futebol Clube onde o também “olheiro” Ricardo Marco Crivelli, conhecido como “Lica”, foi denunciado pelo jogador Ruan Pétrick Aguiar de ter abusado dele e de outros dos meninos da Vila Belmiro.

Na mesma época, na Argentina, o Independiente foi palco de outro escândalo que envolvia não apenas pedofilia, mas também prostituição de menores. Um jogador maior de idade e um árbitro de futebol agenciavam os atletas de base da equipe como “garotos de programa”.

Uma rápida busca na internet mostra inúmeros outros casos, tantos nos grandes clubes como nos pequenos clubes e escolinhas de futebol do interior onde o abuso sexual é moeda de troca para a possibilidade de inserção e ascensão no mundo da bola.

Apesar disso tudo, não tenho notícia, até hoje, de que a todo poderosa Sra. FIFA tenha convocado uma Assembleia Geral com os Presidentes de todas as Confederações Nacionais de Futebol para discutir um modo de punir os “olheiros”, treinadores, pessoal técnico e dirigentes que abusam – ou são coniventes – dos meninos que, supostamente, estariam sob sua guarda e proteção. E assim, pelo que parece, tais episódios continuarão a se reproduzir para a triste sorte de nossos meninos…

O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA E O ESTADO LAICO

Causou espécie nas últimas semanas a informação divulgada por membros do alto escalão das Forças Armadas de que o Governo brasileiro estaria preocupado com o Sínodo sobre a Amazônia a ser realizado pela Igreja Católica mês de outubro de 2019. Mais espantosa foi a afirmação – primeiro confirmada e depois desmentida – de que bispos estariam sendo espionados e que haveria a intenção de setores do governo em interferir no Sínodo para que este não abordasse temáticas tidas como sensíveis tanto do ponto de vista econômico, político, ecológico e de segurança nacional.
Tal atitude por parte do Governo não era vista desde a redemocratização e fazia lembrar os tempos da recente ditadura militar em que, não só a Igreja, mas toda a sociedade, era mantida sob a vigilância e, se necessário, controle, pela persuasão ou pela força. Se há a vontade de controlar a Igreja Católica, quem poderá sentir-se livre? Imediatamente levantaram-se vozes, tanto na Igreja como na sociedade, contra esta suposta pretensão. Houve, como dissemos, também os desmentidos. Mas, como diz o ditado, “onde há fumaça, há fogo”.
Olhada no curto prazo, este episódio é, pela maioria dos analistas, situado dentro do quadro político resultante das eleições de 2018 onde venceu, em nível federal e na maioria dos Estados, um aglomerado de forças de corte neo-liberal no que tange ao econômico e marcadamente neo-fascista na sua proposta política e social. O Sínodo, por abordar temáticas sociais, culturais e ambientais, se coloca nos antípodas dessa corrente hoje hegemônica no Brasil e poderia soar como uma nota fora do tom no discurso monocórdico da propaganda governista e de sua mídia oficialista. E, como soe acontecer em governos de caráter fascista, toda voz discordante tem que ser calada e, se for o caso, eliminada.
Sem desmerecer este contexto próximo, a polêmica necessita ser situada no longo prazo e na tradição que remonta ao Brasil Colonial e ainda está muito presente na cabeça e nos corações de muitos brasileiros de que o Estado e a Igreja devem estar unidos para a manutenção da ordem social. Este modo de pensar, nascido com
Constantino e consolidado na Cristandade Medieval, foi institucionalizado no Padroado Colonial Português e em seu sucedâneo, o Padroado Imperial através do qual Dom Pedro I e Dom Pedro II outorgavam-se o direito de governar a Igreja Católica através do Ministério da Justiça. Até mesmo os revoltosos farrapos, aqui no Rio Grande do Sul, ao criar a fantasmagórica República de Piratini, nomearam ao Padre Chagas como Vigário Apostólico e chefe da Igreja Católica no Rio Grande do Sul. Em outras palavras, um “Papa” farroupilha para o Estado Farroupilha.
Verdade que a primeira Constituição Republicana de 1891 estabeleceu a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e Estado. Mas uma união tão longa deixa marcas profundas nas duas partes que a compõem. E, depois de três curtas décadas de separação litigiosa, Igreja e Estado, através do Cardeal Leme e de Getúlio Vargas respectivamente, reataram, não legal, mas factualmente, a união entre os dois poderes naquilo que é conhecido como “neo-cristandade”.
Esse arranjo só foi colocado em crise pelo Golpe Civil-Militar de 1964 e a cruenta ditadura que se seguiu e que, em sua sanha persecutória a toda e qualquer fora de resistência, não titubeou em prender, torturar e matar a dezenas e dezenas de leigos, leigas, religiosos, religiosas e sacerdotes católicos. Contra estas ações, bispos formados dentro do espírito do Vaticano II, com coragem e valentia, se opuseram e constituíram um dos focos de denúncia contra o que vinha acontecendo no Brasil.
Se, nestes episódios das décadas de 1970/80, parte da Igreja Católica aprendeu que Igreja e Estado devem manter-se cada qual com sua identidade e missão própria e que, se em algumas circunstâncias podem operar cooperativamente, nenhuma das duas instituições pode querer utilizar a outra como instrumento para seus fins próprios. É, em outras palavras, o princípio do Estado Laico que faz bem tanto para o Estado como para a Igreja.
Mas, infelizmente, nem todos aprenderam com as lições da história e hoje vemos, no Brasil, renascer o desejo de um Estado teocrático ou de uma Igreja Imperial. E isso não só no mundo católico, mas com mais força e ressonância no campo das Igrejas pentecostais.
Isto posto, voltamos a afirmar que é importante, sim, denunciar a pretensa intenção do governo de imiscuir-se nos assuntos eclesiais. Mas é importante também, no quotidiano do agir eclesial e político, vencer a tentação da neo-cristandade e trabalhar para que o caráter laico do Estado – tanto no âmbito federal, como no estadual e municipal – seja respeitado e que as Igrejas tenham a liberdade para cumprir sua missão evangelizadora.

Sobre suicídios e suicidas: uma velha história sempre atual

Meu pai era um ótimo contador de histórias. Sabia por onde começar, dar os volteios, fazer o suspense, apresentar as diversas alternativas de sequência e aí arrematar com um bom final. E, mesmo tendo por língua materna e habitual o vêneto, as histórias eram sempre contadas em bom português. Até hoje eu me pergunto o por quê de seu Avelino escolher a segunda língua para contar as  melhores histórias. Claro que, no meio de cada conto, sempre deslizava sorrateiramente palavras e expressões em vêneto que davam à história um colorido todo especial. 
Algumas destas histórias as tenho até hoje na memória. Uma das mais interessantes era a do rapaz que queria se suicidar. O tema era difícil, pois o suicídio, no meio dos descendentes de italianos, tinha muito de tabu. Quem se suicidava, entre outras coisas, além de não ter velório público, era enterrado fora do cemitério. Na Linha Aimoré, lá onde eu me criei, no interior de Vila Flores, antes que se fizesse a atual ampliação do cemitério, havia um “anexo” em que eram sepultadas as crianças que morriam antes de serem batizadas, os que não eram católicos e os que se suicidavam. Ainda hoje lembro das três cruzes que havia naquele cercadinho ao lado do Campo Santo e da certeza que todos tinham de que as almas daquelas três pessoas estavam condenadas eternamente ao fogo do inferno. Era assim que se pensava… por isso, fazer piada de suicida, exigia uma boa dose de arte.
Sem a arte de meu pai e por ter que fazê-lo por escrito, reproduzo apenas o script da história do rapaz que, por razões que seu Avelino sempre deixava no entredito, queria se suicidar. A decisão dele era definitiva: não queria mais morrer e, sabendo de outros que haviam intentado tal desdita e haviam fracassado e se amostravam como mais confiáveis: um tiro na cabeça, o enforcamento em uma alta árvore e uma boa dose de veneno. Para não fracassar, o rapaz resolveu combinar as três possibilidades: corrependido de não terem morrido, buscava um meio seguro de alcançar seu objetivo. Depois de muito pesquisar e eliminar métodos de suicídio que não lhe pareciam seguros, chegou a três que se lhe nseguiu clandestinamente uma boa dose de estricnina, comprou um revólver novo carregadinho com sete balas para que não pudesse haver erro e uma corda soga novinha.
Tudo meticulosamente planejado, colocou a estricnina numa garrafa de água meticulosamente armazenada no bolso, fez a forca com a corda e molhou-a para dar-lhe mais resistência. Com a ajuda de uma escada, subiu em uma árvore, sentou-se no galho, empurrou a escada para o chão para não haver nenhuma tentação de retorno. Com todo cuidado, prendeu a corda firmemente ao galho e passou a forca no pescoço. Tudo pronto como no

passo-a-passo planejado. Agora, só faltava o ato final que envolvia os três componentes: a estricnina, a forca e revólver. Sorveu a garrafa de água envenenada em rápidos goles, deslizou do galho até a corda esticar e começar a apertar violentamente o pescoço e, antes que a falta de ar o impedisse de movimentos, sacou o revólver e desferiu um tiro contra a cabeça. E aí entrou em cena a fatalidade: A mão trêmula pelo sufocamento fez com que o tiro, ao invés de atingir a cabeça como o planejado, desviou para cima e acertou a corda soga que, esticada pelo peso do corpo, se rompesse fazendo com que o pobre infeliz tombasse rotundamente no chão e, com o golpe, vomitasse o veneno que ainda estava se acomodando no estômago. Resultado: o rapaz fracassou em seu intento de deixar esta vida de forma voluntária e, como a grande maioria dos suicidas, arrependeu-se e nunca mais tentou se matar.

Lembro desta história neste final de ano em que começamos a olhar para trás e tentar compreender a tentativa de suicídio que, como nação brasileira ensaiamos neste último ano utilizando os três métodos mais confiáveis para se acabar com uma democracia: a deslegitimação da representatividade política, a eleição de pessoas assumidamente autoritárias e a reabilitação dos militares como condutores da vida pública. Oxalá tenhamos a mesma sorte que o rapaz e a combinação dos três fatores leva a que um anule o outro.
Ah! A árvore da história que meu pai contava não era uma goiabeira. Lá na serra não havia goiabeiras. A árvores da história era uma araucária. E Jesus não subia nela…