Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Um novo mundo é possível!

Tempos difíceis os que estamos vivendo. Tão difíceis que se tornam assustadores. Você liga a televisão e, quem aparece? O Trump e seu topete! Você troca de canal e quem te sorri? O Putin. E todos conhecem o sorriso do Putin: não existe. Nunca vi o Putin sorrir. Por que será? Outro canal e agora é o eterno sorriso banqueiro do jovem recém-eleito à Presidência da França. E aí você se pergunta: por que o Macron está sempre sorrindo? Desconfie de quem nunca sorri e desconfie também de quem está sempre sorrindo. Alguma coisa ambos estão tentando disfarçar com seu eterno não-sorriso ou com seu eterno sorriso. Para não ficar só em figuras masculinas: alguém poderia me informar se já viu a Angela Merkel sorrir? Não naquelas fotos de campanha retocadas por sofisticados programas. Numa situação real, alguém lembra de um sorriso da Merkel?

Cansado de notícias internacionais? Pense nas nacionais. É ainda mais assustador. Procuradores vendendo palestras onde prometem revelar de primeira mão informações obtidas através de confissões forçadas. Juízes absolvendo ou condenando não na base de provas, mas de convicções. Deputados e senadores fazendo leilão de seu voto a favor ou contra a cassação de um Presidente ilegítimo que apresenta como principal conquista de seu efêmero governo o aumento do desemprego. E esse mesmo que se faz passar por Presidente comprando votos daqueles que não querem vê-lo cair porque a instabilidade lhes é favorável. São deputados profissionais. Eles são cascudos e sabem que, em rio que tem piranha, jacaré nada de costas. Partidos que afirmam que sua diferença consiste em roubar sem ser flagrado na ilegalidade. Sindicalistas defendendo uma reforma trabalhista que faz os trabalhadores voltarem à condição de escravos. Talvez sonhem em serem promovidos a capitão-do-mato. É um progresso prá trás. Um vereador negro da maior cidade do país furioso porque a universidade mais elitista do Brasil aderiu ao sistema de quotas econômicas e raciais. Empresários que defendem a eficácia da iniciativa privada enquanto se locupletam com o dinheiro roubado do erário público. A polícia agenciando e armando ladrões e traficantes. E, na base de tudo, eleitores que reclamam da corrupção dos políticos enquanto buscam um vereador, deputado, prefeito ou governador para conseguir uma vaga para seu filho no serviço público, na universidade, no hospital…
Em meio a tudo isso fui convidado para, num final de semana, assessorar um encontro de uma pequena congregação de Vida Religiosa no interior de São Paulo. Congregação nova, aprovada há pouco mais de 50 anos. Ostentam o sugestivo nome de “Filhos da caridade” os homens e “Filhas da caridade” as mulheres. Os religiosos e religiosas são poucos. A maioria do grupo é composta de leigos e leigas que vivem o carisma da Congregação.  Além de paulistas de várias cidades, há também cariocas e maranhenses. Há uma senhora que anda apoiada numa bengala. Homens e mulheres já de cabeça branca. Mas também um grupo significativo de jovens com toda a energia da idade. Negros e brancos. Alguns apenas alfabetizados. Outros com curso superior. Casados e solteiros. Trabalhadores e trabalhadoras de vários segmentos e micro e pequenos empresários. E, para aumentar a diversidade, argentinos vivendo no Brasil, um irmão religioso provindo da Tanzânia, outro da Itália, da Índia, das Filipinas e do Timor Leste. E aí a Língua Portuguesa se mistura com o Espanhol, o Inglês, o Italiano, o Tetum, o Suaíli, o Malaio… Pluralidade total! E todos e todas se entendem ao falar a linguagem comum da caridade  no desejo e no compromisso de servir aos mais pobres e necessitados em cada distinto lugar em que vivem. Jovens desempregados na Itália, doentes e anciãos na Tanzânia, órfãos na Índia, feridos na guerra do Timor, moradores de rua nas Filipinas, jovens em situação de risco no Brasil.

Um pequeno sinal, uma pequena experiência. Minúscula, ínfima, invisível na própria cidade em que acontece e que não aparecerá em nenhum noticiário. Mas um sinal, sim, de que um novo mundo é, sim, possível! Sinal de uma Vida Religiosa profética que continua a testemunhar o sonho do Reino de Deus. E sonhar, mais do que nunca hoje, é preciso! Pois sonhar, é o único caminho para sair do pesadelo mundial e nacional que estamos vivendo.

A reforma trabalhista tá na Bíblia!

Não foi o Temer que inventou a reforma trabalhista. Ele faz parte dela. Mas talvez não seja a principal. Ele é a cara visível – e risível, segundo alguns – deste projeto. Mas o projeto não é dele. É anterior a ele. Sua sorte ou azar, dependendo do ponto de vista, foi a de estar no lugar apropriado para apropriar-se de um projeto que outros tantos já costuravam nos socavões do poder que não ficam exatamente em Brasília.
Mas como ele estava no local indicado, no momento indicado e parecia ser o homem indicado, foi alçado à Presidência com a tarefa de levá-la adiante. Não fosse ele, seria outro. E, se não for ele, os verdadeiros donos dos fios que mandam e desmandam, vão tentar colocar outro.
Mas a história sempre foi assim. E falo de história longa. Aquela que no nosso imaginário ocidental parece ser a mais antiga, a história bíblica. Há poucos dias me dei conta que a primeira proposta de reforma trabalhista está no Antigo Testamento. Bem lá no início, no Livro do Êxodo, quando Moisés foi, a mando de Deus, pedir que o Faraó desse o descanso semanal para os escravos hebreus. O Faraó, no lugar de atender as reivindicações, fez uma Reforma Trabalhista: tirou todo e qualquer dia de descanso, aumentou a carga horária diária de trabalho, reduziu o pessoal e aumentou as metas de produção. E ainda tentou convencer os próprios hebreus de que eram preguiçosos e deviam trabalhar mais. Ocupados, não dariam ouvidos a loucos sindicalistas como Moisés.
Para sorte de Moisés e dos hebreus, eles tinham Deus por aliado! Ele ajudou os israelitas a fugir. Mas não foi fácil… Antes teve que usar o terror das pragas para convencer o Faraó e seus capatazes de que deveriam deixar o povo ir em paz. Rãs, mosquitos, moscas, peste nos rebanhos, doenças nos humanos, chuva de pedras que mataram animais e destruíram plantações, nuvens de gafanhotos e três dias de escuridão. A cada praga, o Faraó se arrependia, mas, em seguida, vendo o prejuízo que lhe podia acarretar a folga de três dias que os hebreus pediam, voltava atrás. Foi só com a devastadora morte dos primogênitos que o Faraó finalmente deixou os hebreus partirem. Mas depois se arrependeu, tomou seu exército e foi atrás deles para impedir que atravessassem o Mar Vermelho e saíssem de seus domínios. E dessa parte da história todos lembram o fim…

Voltando à reforma trabalhista de 2017: quantas e quais pragas do Egito serão necessárias para que os faraós neoliberais adoradores do deus-mercado se convençam a deixar o povo descansar, pelo menos uma vez por semana? Oxalá Deus não tenha endurecido seu coração a ponto de exigirem a morte dos próprios primogênitos e, num gesto de insana teimosia, deixarem-se tragar pelas revoltas águas do Mar Vermelho.

O terno não faz o treinador

Falar de futebol é sempre arriscado. Principalmente no Brasil. Aqui, as rígidas regras do esporte bretão foram dribladas pela ginga e criatividade típicas do brasileiro. Com vantagens e desvantagens. O lado bom da flexibilização é que proporcionou o surgimento dos Garrinchas, Romários e Túlios que encantaram o mundo e nos deram tantos títulos. Por outro, nunca tivemos em nenhuma equipe brasileira um Alex Ferguson e suas duas décadas e meia à frente do Manchester. Nos campeonatos brasileiros, o normal é que nenhum time inicie a temporada e vá até seu fim com o mesmo elenco e o mesmo treinador.
Por falar em treinador, é sabido por todos que nenhum brasileiro conseguiu se firmar à frente de uma equipe europeia. Não por incompetência. A causa é cultural. Na última final da Champions League em que o Real Madrid massacrou a Juventus, era interessante a figura dos dois treinadores, Zinedine Zidane na esquadra espanhola e Massimiliano Allegri na turinesa. Os dois foram jogadores de futebol e agora estavam à beira do campo. Os dois de terno. Meio desalinhado o de Zidane, é certo. Mas sempre um terno, clássico, elegante. O de Allegri, então, perfeito, italiano. Só isso diz tudo. Os dois com gestos comedidos como cabe a um treinador… europeu. Emoção mínima. Eficiência máxima.
Quanta diferença com um Abel Braga, Joel Santana, Murici Ramalho, Renato Gaúcho… só para falar em alguns da atualidade. Estes não cabem dentro de um terno. O Renato até que tenta usar camisas sociais, mas a calça é jeans e, no pé, os tênis. De marca, óbvio. Mas não são sapatos italianos! São tênis. Roupa esportiva e não executiva.
No auge da carreia, o Wanderlei Luxemburgo foi treinar o Real Madrid. Fracassou. Não tinha o perfil europeu. Mas voltou de lá vestindo terno à beira do gramado. Dunga, talvez pela longa experiência como jogador na Itália, ao assumir como treinador no Brasil, também primava pela roupa social. De elegância duvidosa em certas ocasiões, como todos pudemos notar. Também não deu certo. Mais recentemente, aqui na Província de São Pedro de Rio Grande, outro treinador com passagem pela Europa como jogador, passou a dirigir uma da Série B, fardado com elegantes ternos italianos. Fracassou rotundamente… Ele vestia terno italiano. Mas não tinha jogadores italianos. Nem treinava um time italiano. E nem participava de um campeonato italiano. A realidade que estava à sua frente não se transformava pelo fato de ele usar um terno italiano.
Lembro disso tudo ao reparar o cenário político brasileiro e seu messianismo mágico. Personagens que vestem um traje – de presidente, de juiz, procurador, ministro, senador, deputado, prefeito… – e acham que isso é suficiente para que todos os considerem como tal e submetam-se a seus ditames. Pelo simples fato de usarem um terno, uma faixa, uma toga, acham que tem autoridade. Mas para ser autoridade, é preciso muito mais. É preciso o respaldo do povo, da nação, da urna, da democracia.

Por isso, mesmo admirando a eficácia do futebol europeu, ainda prefiro nossos Garrinchas, Romários, Abeis, Joeis, Muricis, Renatos… que não vestem ternos e togas, mas tem o jeito e a ginga do povo brasileiro, falam a linguagem do povo brasileiro e, sem sonhar em ser espelhos cacofônicos da Europa, ganham títulos com o povo brasileiro.

Harakiri


 Em japonês, seu nome é Seppuku. No Ocidente, tornou-se conhecido como haraquiri. Em qualquer uma das versões, literalmente, significa “cortar o ventre”. As primeiras informações de sua existência remontam ao século XII. No século XIX, foi proibido. Reservado aos samurais, o ritual surgiu primeiramente como prova de lealdade, mesmo na morte, do samurai ao seu senhor. Com o tempo, passou a ser executado como forma de resgatar a nobreza de um samurai que traíra ao seu senhor ou infringira o código de honra dos guerreiros.
O harikiri era uma cerimônia pública. Após ter obtido autorização de seu senhor, o samurai, devidamente trajado, ajoelhava e, tomando sua espada ou punhal, realiza primeiro o kiru, um corte horizonte, abaixo do umbigo (em japonês, hara), da esquerda para a direita. Em seguida, se lhe restavam foças, fazia outro corte no sentido vertical, de baixo para cima. As vísceras deviam ser versadas para fora para provar a honradez. Feito isso, entrava em ação o kaishakinin que, num golpe de misericórdia, realizava a decapitação final.
Mesmo identificada com a cultura oriental, a prática de tirar a própria vida como um modo de ter morte digna, foi comum também na Roma antiga. Chefes militares e soldados, na iminência de serem aprisionados pelos inimigos, optavam por cravar a espada em si mesmos. Como nos atesta a Bíblia no livro dos Atos dos Apóstolos, qualquer funcionário público que falhasse no cumprimento do seu dever, salvava sua honra tirando a própria vida (At 16, 25-28). Mas o ato era mais habitual entre os funcionários mais graduados. Foi o caso do general Quintílio Varo ao ser derrotado pelos germanos. Sentindo-se culpado por não ter sabido conduzir seus soldados, cravou a espada no peito. O mesmo foi feito por Marco Antônio, aquele que se tornou famoso por ser amante de Cleópatra. Nero, sem coragem para tal ato, pediu a um soldado que lhe cravasse a espada no coração.
Mas o método mais utilizado em Roma para morrer com dignidade era o corte nos pulsos. A história nos atesta que foi grande o número de políticos romanos que, metidos em intrigas e falcatruas, recorriam a esta prática. No fim do período de Tibério, parte significativa do Senado romano fez correr o sangue das próprias veias. Estavam todos com a honra comprometida e, para fugir à prisão e castigo, preferiram sair desta vida por própria iniciativa e assim resgatar a dignidade, mesmo que fosse depois da morte. Segundo o historiador Tácito, “por medo do carrasco preferiam morrer assim, e também porque, aos condenados, recusava-se sepultura e os bens eram confiscados, enquanto que aos que tiravam a própria vida respeitava-se o testamento e dava-se sepultura ao corpo, como recompensa”. Entre os que optaram por essa saída encontram-se os famosos Sêneca, professor de Nero, e o escritor Petrônio.

Tripas saltando para fora do ventre, espada cravada no coração, sangue jorrando dos pulsos… Cenas que, certamente, não são mais necessárias e nem desejáveis na nossa sociedade moderna e civilizada que rejeita a violência. No lugar delas, sugerimos o simples, singelo e incruento sincericídio. Se alguma noção de honra resta aos homens públicos neste momento de crise nacional, poder-se-ia apenas exigir-lhes que admitam seus crimes, deixem a vida pública, devolvam o dinheiro roubado e, num gesto de grandeza, nunca mais a ela voltem. E isso, de livre e espontânea vontade para que as mãos das vítimas não se sintam tentadas a sujar-se para fazer justiça.

"Nós não caminhamos sós!"


Do inferno não há volta. Sua entrada não tem portão, nem cadeado, nem chave. Mas uma vez passado o limiar, não há como retroceder. A frase no alto, adverte: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” É a entrada do inferno descrita por Dante Aleghieri em sua Divina Comédia. O sentido da frase é claro: depois da morte, não há mais possibilidade de mudança no nosso destino. Ou estaremos no céu, ou no inferno.
Menos óbvia era a frase colocada no portal de entrada de vários campos de concentração na Europa do séc. XX: “Arbeit macht frei“. O trabalho liberta. Ela podia soar como uma advertência: quem foi trazido para cá é porque é vagabundo, não sabe se organizar na vida, precisa ser forçado a aprender e, numa sociedade industrial, o trabalho é a melhor forma de disciplinar os desviados e rebeldes da sociedade. Parece que foi esse o sentido primeiro do uso da frase pelos nazistas. Judeus, ciganos, homossexuais e comunistas eram pessoas vagabundas que precisavam ser reeducadas e assim contribuir para a construção do Terceiro Reich. Frei Joseph-Marie, com quem convivi durante dois anos em Lyon, foi prisioneiro durante três anos em um desses campos. Para ele, a frase era uma sádica ironia. Em Dachau, Auschwitz, Buchenwald e tantos outros, a única libertação que um prisioneiro podia esperar, era a morte. Ela era a esperança de libertação daquele inferno de trabalho, fome e vexações.
As duas frases me vieram à mente na segunda-feira passada quando, ao chegar no Hospital Colônia Itapuã, me deparei com o portal que separava a “área limpa” da “área suja” do leprosário. Era um portal que, diferentemente do inferno de Dante, tinha portão, cadeado e, ao seu lado, muros e arame farpado que impediam qualquer um dos internos de sair. Mas assim como o portal do inferno de Dante, este também só tinha entrada. Uma vez ultrapassado o limiar, não havia qualquer possibilidade de saída. Nem depois da morte. Do lado de dentro estava o cemitério para onde eram levados os ali falecidos. Até hoje seus restos lá estão. Nem um único sequer foi reclamado pelos familiares.
No alto do portal do leprosário, uma enigmática frase: “Nós não estamos sós”. Rita, a enfermeira que nos guiou pelas histórias passadas e presentes do Leprosário de Itapuã onde os freis capuchinhos trabalharam de 1940 até o início do presente século, nos contou que a frase foi escolhida em um concurso entre os internos. Das muitas sugeridas, esta foi a escolhida. Me pus a pensar: qual seu sentido? Qual a intenção do interno, que sabia que nunca mais sairia de lá, ao pronunciar aquela frase? E qual a intenção daqueles – o diretor do hospital, as irmãs da Penitência e Caridade Cristã que ali trabalhavam, Frei Pacífico de Bellevaux, capelão do Hospital Colônia Itapuã de 1940 a 1954 – ao escolher esta frase? Não sei. Não sabemos. Não há, até agora, nenhum documento que o diga…
Rita, a gentil enfermeira de tantas experiências com os remanescentes do leprosário e com os doentes mentais que hoje ocupam o espaço, foi a que me deu a chave para o enigma da frase. Num tempo em que não havia medicação para a hanseníase, eles foram retirados do convívio social, sepultados ainda em vida, ocultados dos olhos de todos, para que a sociedade não fosse contaminada pela lepra. Eles deram sua vida para que o resto da sociedade não tivesse sua vida ameaçada. Segregados da sociedade, trancafiados nos pavilhões Carville, seus filhos arrancados – literalmente – do seio materno e enviados para o Abrigo Santa Cruz, eles e elas, não estavam sós naquele vilarejo a 60 quilômetros de Porto Alegre. Toda a sociedade estava com eles. Eles carregavam sobre si a doença da sociedade para que esta pudesse estar sã. Verdadeiramente, eles não estavam sós! Nós estávamos com eles e, isso, não pode ser esquecido.

Melhor assim!

Porto Alegre. Rua da Conceição, Centro. João acordou cedo. O movimento já começara no entorno da Rodoviária. O velho viaduto range sob o peso dos carros, ônibus e caminhões que levavam e traziam mercadorias, pessoas, sonhos e esperanças no novo dia.
João olha para o lado. Aí está a caneca do café. No fundo do recipiente de metal, ainda um pouco do líquido negro, frio, depois da noite fria do início de maio. Ao lado, a garrafa de cachaça. Vazia. O pouco que sobrara na noite anterior, seu vizinho de rua e de abrigo havia sorvido para acalentar a noite. João estende a mão esquerda e, mesmo sem olhar, localiza o corpo quente e enrolado de sua companheira Kaká. Ela o acompanha há muito tempo. Encontrou-a solitária numa pracinha pros lados da Redenção. Abandonada, na rua, sem dono. Foi paixão à primeira vista. Desde aquele dia a cadelinha vira-lata segue João no seu roteiro diário em busca do pão de cada dia. Pode ser pão de ontem conseguido na porta da Padaria Soledade. Mas também serve uma fruta meio estragada no latão em frente ao mercadinho Boa Esperança. Ou um pedaço de xis abandonado por alguém num banco da Praça da Alfândega. Quem tem fome não escolhe. Isso bem sabe João. E Kaká também aprendeu a regra. Tanto que ela agora já come frutas e outros legumes. Afinal, como a carne tá difícil até prá quem tem casa e trabalho, prá cachorro de morador de rua, nem osso sobra.
Apoiando-se no braço direito e jogando o peso da cabeça para a frente, João volta-se para o lado esquerdo onde está Kaká. Entre ela e ele, o saco com aquilo que ele chama “minhas tralhas”. É pequeno, quase vazio, mas guarda quase tudo que João tem hoje: um par de calças conseguido ontem num Centro Espírito, duas camisas que ele encontrara abandonadas em frente a uma casa no Bom Fim e um tênis dado por Clécio, seu companheiro de abrigo noturno embaixo do elevado da Conceição. E, como não podia deixar de ser, o bem mais precioso: uma afiada faca com cabo de madeira para qualquer eventualidade. Afinal, a rua é cheia de perigos e o melhor é estar aprevenido*.
Clécio e João tinham se tornado amigos depois que os dois fugiram juntos da polícia que queria limpar a frente de um supermercado da Cristóvão Colombo. Clécio tinha vindo de São Paulo. De carona em carona chegara em Porto Alegre. A razão da fuga? “Em São Paulo a Guarda passa e tira os cobertor e as tralhas de morador de rua.” João, ainda sonolento, passa a mão na cabeça de Kaká que, reconhecendo a mão do dono, apenas grunhe. Sorrindo, João lembra daquela correria pela Cristóvão ao lado de Clécio. Cuspindo como se fosse na cara dos policiais, solta um sonora palavra e uma gargalhada. Passa a mão por sobre o corpo. Aí está seu cobertor que ele ganhou na Igreja São Carlos. Aqui não tem perigo. Não tem guarda prá tirar os cobertores e as tralhas dos moradores de rua.
Clécio, que acordara com o palavrão e a gargalhada de João, olha assustado e, como que saindo de um pesadelo e adivinhando os pensamentos de João, pergunta com voz pastosa: “João, quem é o prefeito de Porto Alegre?” “Sei lá eu e nem me interessa…” Enquanto João solta mais um sonoro palavrão, Clécio vira pro lado e murmura prá si mesmo um reconfortante “Melhor assim!”

Barbárie Civilizada

Em que anos estamos? Em 2017 ou em 1500? Em pleno 30 de abril, véspera do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, um grupo de pistoleiros arregimentados pelos fazendeiros da região, depois de uma churrascada regada a muita bebida, armados com pistolas, facões, facas, paus, invadem a aldeia indígena Povoado das Bahias, no município de Viana, no Maranhão, e semeiam o terror esfaqueando homens e mulheres de todas as idades, aí incluídos velhos e crianças. Para deixar sua marca indelével, decepam as mãos de dois membros da comunidade Gamela.

A polícia da região, sabedora do planejado, nada fez para evitá-lo. O Ministro da Justiça, informado do ocorrido, desqualificou a gravidade do ato através do argumento de que os atacados seriam “supostos indígenas” e não verdadeiros indígenas. Pergunto: se não fossem verdadeiros indígenas, a violência seria justificável?
Esse não é o primeiro ataque que o povo Gamela sofre. Já havia sido vítima da violência dos fazendeiros em 2015 e 2016. Apesar de ser território tradicional indígena e de terem sido cumpridas todas as exigências, o território ainda não foi demarcado…
Também não foi o ataque contra os Gamelas a única barbárie no campo a estarrecer o Brasil nos últimos dias. Em 19 de abril passado (Dia do Índio), um grupo de encapuzados invadiu o assentamento de Taquaruçu do Norte, no Município de Colniza, no Mato Grosso e, após torturar barbaramente, assassinou nove pessoas. Para deixar marca, os assassinos decapitaram os corpos.
Nas cidades, a barbárie não é menor. Alguém ainda lembra e fala dos 67 presos assassinados nos presídios de Manaus? Alguém ainda lembra ou fala dos 33 presos assassinados na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista? Alguém ainda lembra ou fala dos 26 presos assassinados no presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte? Sem falar das “micro” matanças que acontecem a cada dia nos presídios espalhados pelo país. Em média, uma a cada dia.
E as inúmeras cenas de policiais executando supostos traficantes que, depois, constata-se, nada tinham a ver com tráfico ou crime? As vítimas, em sua maioria, são jovens e negros que apenas estavam no lugar errado e na hora errada e foram vítimas da sanha de punir, não importa, se a pessoa errada.
De quem é a culpa? Os índios Gamela do Maranhão e os camponeses de Colniza não são tech, nem pop, nem tudo. Pelo contrário: para quem se importa apenas com resultados econômicos, eles são atrasados e nada midiáticos. Eles são nada! Sua morte talvez nunca encontre justiça. Muito menos encontrará justiça a morte de centenas de homens detidos em presídios que não fazem jus sequer aos calabouços medievais e se aproximam, muitas vezes, aos campos de extermínio dos regimes totalitários.
Talvez os que alugaram suas mãos para executar estes crimes inomináveis sejam tão merecedores de compaixão quanto suas vítimas. Foram munidos e nutridos pelo ódio daqueles que mantém suas próprias vidas na miséria e do alto de suas tribunas clamam que “tem de ter fumo, tem de ter soja, tem de ter boi, tem de ter leite, tem de ter tudo, produção”, mas, se tiver algum indígena ou camponês por perto, é preciso expulsá-los “do jeito que for necessário”. E tão sujas quanto as vozes que clamam que “índios, gays, lésbicas e quilombolas são tudo que não presta”, são as mãos daqueles e daquelas que, no dia das eleições, movem seus dedos para digitar seus nomes e assim recolocá-los no poder, uma, duas três, muitas vezes.
A barbárie, muitas vezes, também se constrói por caminhos aparentemente democráticos e civilizados. Quando os mortos estão distantes, é claro. E o cheiro da pólvora e do sangue não fere nossos delicados sentidos.

Paz e Bem!


Estimados e estimadas.
Nasci em Vila Flores (RS), no ano de 1965, filho de Olgemina Catharina Criveletto e Avelino Zugno. Sou membro da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos desde o ano de 1985.
Depois de concluir a Licenciatura em Filosofia (UCPEL – 1987) e o Bacharelado em Teologia (ESTEF – 1990), atuei como missionário na Nicarágua de 1991 a 1996. Em 1998 conclui o Mestrado em Teologia na Université Catholique de Lyon (França). No mesmo ano iniciei minhas atividades como professor de Teologia na ESTEF (Porto Alegre) e, a partir de 1999, no Centro Universitário La Salle (Canoas-RS) onde atuo até hoje.
De 2006 a 2012 foi membro da Equipe de Assessoria Teológica da Conferência Latino-americana de Religiosos (CLAR). Em 2012 iniciei o doutorado em Teologia na Faculdades EST de São Leopoldo (EST) tendo concluído e apresentado a pesquisa em agosto de 2016.
Além da atividade acadêmica, dedica-se à assessoria na formação de lideranças leigas e da Vida Religiosa Consagrada.
Neste blog disponibilizo textos por mim produzidos no decorrer do percurso acadêmico. Façam tod@s bom proveito.

Formação – Paróquia Santo Antônio

santo antonioNos dias 13 e 20 de agosto estarei acompanhando a turma do segundo ano do Curso de Formação e Experiência cristã na Paróquia Santo Antônio em Porto Alegre.
Teremos como temas dois assuntos muito importantes.
Na primeira noite falaremos sobre “Igreja e Política”. Como subsídio utilizaremos o documento da CNBB “Pensando o Brasil” relacionado às eleições de 2014.
No dia 20 abordaremos a relação entre “Religião e Cultura” dando especial destaque à questão das ciências.
Para os participantes do curso disponibilizamos três pequenos documentos que nos ajudarão a aprofundar as temáticas. Nos links abaixo podem ser acessados e impressos:
Pensando o Brasil: Documento da CNBB sobre as eleições 2014.
As diferentes formas de conhecimento: um pequeno subsídio para ajudar a perceber as diferenças e aproximações entre o conhecimento científico, o conhecimento religioso e outras formas de conhecimento.

Modelos para Relacionar Ciência e Religião: um interessante esquema dos diferentes modos como pode ser compreendida a relação entre ciência e religião.