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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Amar, verbo intransitivo

Por Matheus Pichonelli de http://www.cartacapital.com.br

O escritor mexicano David Toscana descreveu, em O Último Leitor, uma das melhores passagens que eu conheço sobre a banalização do tema “morte” na literatura. O livro conta a história de um bibliotecário de um vilarejo assolado pela fome e pela seca. Ali, diante do abandono (com carências materiais mais urgentes, os habitantes não pisavam na biblioteca havia anos), passa horas num jogo solitário e autocrático: identificar clichês nos livros disponíveis e se vingar dos autores com uma espécie de fogueira da inquisição. Quando o clichê era identificado, ele passava mel nas frases mal formuladas e jogava os livros num quarto escuro, onde as palavras eram literalmente devoradas pelas baratas.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) em cima do filme “Amor”
O personagem esbarrava com expressões do tipo “o horror dos olhos diante da morte” e se enfurecia. Para ele, não fazia sentido alguém se apoiar na expressão sem jamais ter matado ou ficado perto da morte. Certo dia ele pede ao filho que ele sacrifique uma cabra com uma facada no peito. O filho obedece e é questionado pelo pai se, em algum momento, os olhos do animal demonstravam algum tipo de horror. A experiência real leva a uma outra resposta: não, a expressão não era de horror, como descreviam os literatos, mas sim de vergonha. Era como se a cabra estivesse constrangida pela forma com que morreria e seria observada pelos vivos depois de morta. Uma vergonha, conclui, comum a qualquer ser vivo flagrado em situações supostamente indignas.
Esse constrangimento da morrer, ou de caminhar até a morte inevitável, é escancarado sem anestesia em Amor, de Michael Haneke. O filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ganhou cinco indicações ao Oscar deste ano: “Melhor Filme”, “Melhor Direção”, “Melhor Atriz”, “Melhor Roteiro Original” e “Melhor Filme Estrangeiro”. A história é simples: um casal de músicos octagenários se tranca dentro de casa para lutar contra a morte. Anne (Emmanuelle Riva) tem uma doença degenerativa e Georges (Jean-Louis Trintignant) é o marido responsável por recriar um mundo hermético no qual os desejos da mulher sejam de alguma forma garantidos – entre eles o de não permitir que naquela casa entre qualquer sinal de piedade pela enferma.

A sinopse, em si, não parece suculenta ao gosto do grande público, mas o alvoroço em torno do filme levou, na terça-feira 22, os espectadores a lotarem a sala do cinema onde eu estava. Talvez porque estivessem movidos pela expectativa de ver na tela uma história parecida com O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, ou filmes aparentemente similares sobre o envelhecimento, como o lírico Longe Dela, de Sarah Polley.
À saída, duas impressões pareciam manifestadas. Os espectadores com idade mais avançada pareciam em choque, indispostos até para as lágrimas. Os mais jovens pareciam não ver sentido no que assistiam (vi alguns com olhos inchados, pontos de interrogação na cabeça e um certo rubor, corrigido com sorrisos, por uma ou outra lágrima que escapava na sessão).
As reações eram compreensíveis: em vez de “Morte”, o filme se chama “Amor”. E “amor”, à primeira vista, não remete à dor, a não ser as superáveis. As dores desnecessárias, que não levam à transcendência, não constam do script dos amores idealizados. Por isso, quem entrou na sala esperando uma história sobre superação, sobre o lirismo restaurador, com diálogos limpos sobre os esforços que de fato importam na vida, ou mesmo sobre a morte sublime, correu um grande risco de se decepcionar. O filme é um lento exercício de desconstrução da palavra-título. Mais ou menos como fez o personagem de Toscana: é preciso tirar da realidade seu elemento mais natural para encontrar o significado mais honesto da expressão.
E Amor descarta qualquer condimento. Mais que lirismo, amar exige coragem, parece dizer o diretor. E não há romantismo latente diante da morte, que degenera, separa, desgasta, oprime, envergonha e dá vida (por ironia) aos sintomas humanos mais primitivos do orgulho, da vaidade, da teimosia, da autoproteção.
Sem malabarismos, o filme consegue subverter lógicas assentadas em lugares-comuns e que tentam  tornar a morte menos indigesta. Por exemplo: em qualquer sociedade, a morte é trágica apenas quando a juventude é interrompida; no fim da linha, ela é natural, aceitável, permitida e até desejada. Quem disse?, questiona Haneke.
Como uma sombra, a morte ganha corpo pela casa onde a vida a dois parecia bem comportada. Naquela casa, ela é tão intrusa quanto os acidentes, os furacões, os desabamentos ou qualquer tragédia imprevista. Como são intrusos todos males que advém dela, inclusive a pena e os clichês indesejáveis. Clichês que pedem a tal “superação”, serenidade, paciência, como se a morte pedisse condimentos para ser aceita.
À saída, os espectadores mais jovens se mostravam indignados pela exposição supostamente gratuita ao sofrimento. Diziam saber que as pessoas nascem e morrem e que este processo, embora inevitável, é sempre doloroso. Mas o filme, que se passa apenas numa casa de cortinas fechadas, está longe de ser só isso. Pelo contrário: há, dentro daquela casa, uma profusão de elementos a mostrar como a morte é um ruído em si. Por exemplo, a tentativa de assaltantes arrombarem, sem sucesso, a porta da casa onde o casal vive quando tudo parecia em ordem. A pia que incomoda e não para de jorrar. Ou a disposição da mesa de jantar – onde Anne dá os primeiros sinais da doença –  colada numa parede e com espaço apenas para duas cadeiras. Encurralados, os dois personagens parecem simbolicamente condenados à incompreensão. Nessa, os diálogos com a filha parecem (só parecem) surreais. Numa das cenas, a personagem leva longos minutos a falar sobre viagem e a relação tensa com o marido. Só depois, como por educação, pergunta, afinal, o que aconteceu com a mãe. É a mesma filha que, como se não percebesse que a mãe está na cama sem a menor capacidade de articular uma ideia, discorre sobre investimentos em imóveis, poupança, preocupação com aplicações financeiras e pede a ela uma opinião sobre o que fazer. Num terceiro momento, a filha enquadra o pai, pede uma explicação para o que acontece, mostra-se preocupada com a situação da mãe e é interpelada: “de que me adianta a sua preocupação?”
Adianta quase nada. Anne, quando percebe que seu quadro é inevitável, sela um acordo informal com o marido, que promete vedar todas as brechas daquela casa para evitar contato com um mundo de preocupações e pesares. Ela simplesmente não quer ser vista com piedade. Como um diálogo cravado a vida toda, a filha não entende, nem faz esforço para entender a atitude dos pais. Naquela casa, não há tempo nem disposição para dar respostas ou ouvir dos filhos conselhos sobre o que é o certo a fazer a certa altura da vida. Porque, do lado de fora, as pessoas seguem suas vidas sem a projeção do fim – ao menos no centro das preocupações diárias com contas, carreiras, relacionamentos, etc. Mas a morte, de perto, desdenha eufemismos e futiliza qualquer sentimento de apego mundano.
Naquela casa já assombrada pela morte há espaço apenas ao que resta de vida, mais ou menos como escreveu Carlos Drummond de Andrade no poema Os Ombros Suportam o Mundo: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”. É essa sobra de vida que se desgasta sem eufemismo e mistificação o ponto central em Amor. Não esperem dele suspiros gratuitos. Nem do filme, nem da velhice, nem do amor.

Orientação racista na PM-SP provoca indignação de grupo de Direitos Humanos

Reprodução do documento publicado nesta quarta-feira 23 pelo jornal Diário de São Paulo

Reprodução do documento publicado nesta quarta-feira 23 pelo jornal Diário de São Paulo
Um documento com teor racista, assinado pelo capitão da Polícia Militar de São Paulo Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, veio à tona nesta quarta-feira 23 e gerou revolta de organizações de Direitos Humanos e de igualdade racial. O documento, divulgado pelo jornal Diário de São Paulo, orienta policias que trabalham no bairro Taquaral, região nobre de Campinas, a abordarem com rigor pessoas “em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra”. Segundo o jornal, a determinação é adotada por policiais desde o dia 21 de dezembro do ano passado e é direcionada principalmente para jovens entre 18 e 25 anos, que estejam em grupos de três a cinco pessoas e tenham a pele escura.
Em carta, o diretor presidente da Educafro, frei David, pediu esclarecimentos sobre o caso para o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, e ao secretário de Segurança Pública, Fernando Grella. “Nos assusta saber que ainda ocorrem casos de racismo dentro da polícia”, disse o frei David a CartaCapital.
Às 11 horas desta quarta-feira 23, o secretário-adjunto de Segurança Pública, Antonio Carlos Ponte, se reuniu com frei David para assegurar a apuração da denúncia e a convocação do Comando-Geral da PM para explicar se a orientação também é dada a outros comandos e batalhões.
Motivada pelo caso, a Educafro solicitou, durante a reunião, a divulgação dos dados étnicos das vítimas de abordagens policiais registradas como “resistência seguida de morte”. O pedido foi baseado na Lei da Transparência. O secretário-adjunto se comprometeu, segundo o diretor da Educafro, a apresentar os dados até o dia 15 de fevereiro.
Em relação a Campinas, a carta requisita os dados estatísticos sobre as abordagens com e sem mortes realizadas pelo Batalhão de Campinas, com o intuito de verificar se há, de fato, uma tradição racista dentro da unidade.
Resposta da Polícia Militar
O Comando da PM nega teor racista do documento e explica que a ordem do oficial foi motivada por uma carta de dois moradores do bairro, na qual eles descreviam os criminosos “com a cor da pele negra”.
Procurada pela reportagem, a assessoria da Polícia Militar disse que o documento apenas reproduziu as características presentes na carta dos moradores. “Houve uma falta de atenção na escrita do documento, mas isso não é um caso de preconceito”, explica o capitão Araújo, da assessoria de imprensa da PM. “O próprio capitão Beneducci é pardo e quis, no documento, apenas expor as características físicas dos suspeitos”, completa.
Leia a íntegra da carta, redigida por frei David, abaixo:
Para: Governador Dr. Geraldo Alckmin
Cc para: SSP Dr. Fernando Grella
Acreditamos que neste novo Brasil que estamos construindo, que deseja ser modelo civilizatório para o mundo, especialmente a partir da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, nenhum governante opta por ser racista ou desumano haja vista a responsabilidade da garantia assegurada pelos Direitos Humanos, tão atual no reconhecimento dos crimes praticados quando da Ditadura no Brasil. A própria ONU mostra-se preocupada com a violência de vários países entre eles, o Brasil e decretou a década do Afrodescendente que vai de 2013 a 2023. No entanto, em vários setores da sociedade, especialmente órgãos públicos, vários fatos concretos deixam-nos preocupados, como por ex: cobramos do governo do Estado, na ocasião das primeiras ocorrências e até hoje o governo estadual não revelou quanto por cento das mortes pelos ataques do (PCC e da Polícia) foram de indivíduos negros.
Apesar dos protestos de boa parte da sociedade, poucas providências foram e são aplicadas para reeducar os funcionários públicos da segurança e de outros setores, autores isolados de atos discriminatórios ou vítimas do “Consciente Coletivo” que perpassa ao longo da história grande parte da corporação policial e da sociedade. O “embranquecimento” ocorre para nossa tristeza e decepção na formação de nossos policiais que inconscientemente passam a não se verem como negros e aplicam na abordagem as ordens lhes passadas ao abordarem o negro como ele. Esta falta de formação gera e faz perpetuar a “abordagem RACISTA de pressupor que o negro até que se prove em contrário é considerado um bandido, marginal!”
O novo fato, muito preocupante, refere-se à Ordem de Serviço nº 8 – BPMI – 822/20/12 da região de Campinas emitida pelo Capitão Ubiratan Beneducci, que segue anexo.
A ordem leva-nos a entender que se os policiais cruzarem de carro ou a pé, com um grupo de 3 a 5 brancos entre 18 e 25 anos, não desconfiem deles. Se forem pardos ou negros, abordem-nos imediatamente! Queremos que a Polícia se liberte da imagem do cidadão/ã Negro/a como sendo bandido/a. Quase 100% dos políticos processados e daqueles que aplicam Grandes Golpes financeiros contra a nação são indivíduos brancos. Para estes sim, a polícia deveria emitir alertas urgentes! Para nossa tristeza, neste caso são considerados inocentes até que se prove o contrário. A inversão de valores está no conceito de que são “autoridades” e não moram na periferia ou favelas.
Compreendemos que esta orientação e determinação não é governamental, mas este mesmo governo ao qual apelamos através deste ofício, pode combater com determinação e direito esta medida aplicada por este servidor policial, mal formado e não preparado para suas funções de comando.
Ao final, baseado na lei de transparência nº 12.527 de 18/11/2011, solicitamos ao governador Alckmin:
1) Que nos apresente os dados étnicos das vítimas de abordagens policiais, registradas como “resistência seguida de morte”, e quantos por cento são cidadãos/ãs brancos/as, indiodescendentes, negros/as ou orientais.
2) Apresente-nos o perfil étnico das vítimas dos ataques do PCC e da Polícia do ano de 2006 quando dos primeiros ataques.
3) Apresente-nos os dados estatísticos daquele batalhão de Campinas sobre abordagens (sem e com mortes), bem como, a percentagem de moradores negros e brancos da área desse batalhão.
4) Apresente-nos os dados estatísticos dos assassinatos de negros e brancos, no estado de São Paulo nos últimos 12 meses (janeiro de 2011 a janeiro de 2012), com perfil étnico, idade e classe econômica.
Sem mais, confiando em um retorno de nossas solicitações o mais breve possível,
Com a saudação franciscana de Paz e Bem!
Frei David Santos

A renda dos 100 mais ricos poderia acabar com a pobreza no mundo | Carta Capital

A renda líquida obtida em 2012 pelas 100 pessoas mais ricas do mundo, 240 bilhões de dólares, poderia acabar quatro vezes com a extrema pobreza no planeta. A conclusão está num relatório publicado no fim de semana pela ONG britânica Oxfam. A entidade não entra em detalhes a respeito das contas que fez para chegar ao dado, mas os números servem como alerta para a intensa e crescente desigualdade social no mundo. O documento serve para chamar a atenção para os debates do Fórum Econômico Mundial, que começa nesta terça-feira 22 em Davos, na Suíça. A desigualdade ganhou um painel próprio no encontro, marcado para sexta-feira 25, mas tanto suas conclusões quanto os avisos da Oxfam devem cair em ouvidos moucos. O mundo hoje está construído para ampliar a desigualdade e não há sinais de mudança.
O relatório da Oxfam ecoa estudos e análises econômicas recentes sobre a desigualdade. Hoje, as diferenças entre os países estão diminuindo, mas a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres dentro de cada nação está crescendo. Essa é a regra na maior parte das nações em desenvolvimento e também nas desenvolvidas.
Nos Estados Unidos, a desigualdade social é tão grande hoje em dia que, nas palavras da revista The Economist, supera a das últimas décadas do século XIX, a chamada “Era Dourada” do capitalismo norte-americano. A porcentagem da renda nacional que vai para o 1% mais rico da população dobrou desde 1980, de 10% para 20%. Para o 0,01% mais rico, a bonança foi maior: sua renda quadruplicou.
Na União Europeia, a situação também é ruim. No livro Inequality and Instability (Desigualdade e Instabilidade, em tradução livre), o economista James Galbraith mostrou que, se tomada como um conjunto, a UE supera os Estados Unidos em desigualdade. Isso se explica, em parte, pelas diferenças entre os diversos países do bloco. Ainda assim, se tomadas separadamente, as nações europeias também têm observado aumento da desigualdade. Um estudo sobre o tema publicado em 2012 pela OCDE, concluiu que “desde a metade dos anos 1980″, os 10% mais ricos de cada país “capturam uma crescente parte da renda gerada pela economia, enquanto os 10% mais pobres estão perdendo terreno”. No Japão, onde 100 milhões de pessoas se diziam de classe média, estudos mostram, desde o fim da década de 1990, o aumento da desigualdade a partir da metade dos anos 1980.
A política sequestrada
Não é uma coincidência o aumento da desigualdade no mundo desenvolvido desde os anos 1980. Foi nesta época que começaram a ter efeito as políticas lideradas pelos governos de Ronald Reagan nos Estados Unidos (1981-1989) e Margaret Thatcher (1979-1990) no Reino Unido, mas adotadas em boa parte do mundo por outros governantes, como Helmut Kohl (Alemanha), Ruud Lubbers (Holanda) e Bob Hawke (Austrália): impostos mais baixos, desregulamentação do sistema financeiro, redução do papel do governo e outras medidas integrantes do receituário neoliberal. Essa política, arrimo da globalização, teve alguns efeitos positivos, mas foi levada a extremos por quem se beneficia delas. Para manter as políticas desejadas, que aumentavam sua riqueza (e também a desigualdade) esses grupos de interesse se encrustaram nos círculos de poder. Eles sequestraram a política.

Idoso pede esmola no chão de uma rua de Kandahar, no Afeganistão, na segunda-feira 14. Um relatório da ONU apontou que um terço da população do país vive “na mais abjeta pobreza porque os governantes estão mais interessados em proteger seus interesses escusos”. Foto: Mamoon Durrani / AFP
Este fenômeno é analisado no livro Winner-Take-All Politics (Política do vencedor leva tudo, em tradução livre), dos professores Jacob S. Hacker, de Yale, e Paul Pierson, da Universidade da Califórnia. Em artigo de capa da revista Foreign Affairs em dezembro de 2011, o jornalista George Packer resume o argumento do livro em duas palavras: dinheiro organizado. Foi no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 que as grandes corporações de diversos setores da economia passaram a financiar as campanhas eleitorais, dando início a uma “maciça transferência de riqueza para os americanos mais ricos”.
Este modelo de política, e de fazer política, grassou no mundo desenvolvido e foi transplantado para os países em desenvolvimento, onde foi emulado com maestria pelas elites econômicas locais. Não é uma surpresa, então, que a desigualdade esteja aumentando também nesta região. A Índia acumula diversos bilionários, mas continua sendo o país com mais pobres no mundo. A África do Sul é mais desigual hoje do que era no fim do regime segregacionista do Apartheid. Na China, onde não é preciso sequestrar a política, apenas pertencer ou ter um bom relacionamento com o Partido Comunista, a desigualdade é semelhante à sul-africana: os 10% mais ricos ficam com 60% da renda.
A América Latina e o caso do Brasil
O único lugar do mundo onde a desigualdade está caindo de forma sistemática é a América Latina, justamente a região mais desigual do mundo. Isso ocorreu nos últimos anos por dois motivos. O modelo neoliberal, e a ascensão do “dinheiro organizado”, também chegaram aos países latino-americanos, mas em alguma medida entraram em choque com forças políticas contrárias a uma parte importante do receituário, a não-intervenção do Estado na economia. Assim, os governos da região, entre eles o de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, conseguiram estabelecer a redução da desigualdade social como uma prioridade. Em segundo lugar, os países da região, também incluindo o Brasil, foram muito beneficiados pelo rápido crescimento econômico provocado pela existência de um mundo faminto por commodities.
Imagem mostra a favela de Kataanga, em Kampala, a capital de Uganda. Foto: Michele Sibiloni / AFP

Imagem mostra a favela de Kataanga, em Kampala, a capital de Uganda. Foto: Michele Sibiloni / AFP
Há, entretanto, inúmeras dúvidas a respeito da sustentabilidade do modelo latino-americano de redução da desigualdade, especialmente quando a economia começar a desacelerar, situação em que o Brasil já se encontra. Como notou o colunista Vladimir Safatle em edição de dezembro de CartaCapital, o capitalismo de Estado do governo Lula promoveu um processo de oligopolização e cartelização da economia, o que favorece a concentração de renda nas mãos de pequenos grupos. Ao mesmo tempo, Lula não fez, e Dilma Rousseff não dá indícios de que promoverá, a universalização e qualificação dos sistemas públicos de educação de saúde. Sem essas reformas, a classe média seguirá gastando metade de sua renda com esses dois serviços básicos e os pobres continuarão com acesso a escolas e hospitais precários. Os ricos, por sua vez, não terão problemas. A desigualdade de renda poderá cair ainda mais, mas a desigualdade de oportunidades vai perseverar, e a imensa maioria dos pobres continuará pobre.
Para fazer essas reformas, e outras potencialmente capazes de reduzir a desigualdade, como a taxação de grandes fortunas e de heranças e reformas estruturais, o Brasil e outros países latino-americanos enfrentarão as mesmas questões do mundo desenvolvido. Em grande medida, a política latina foi sequestrada pelo “dinheiro organizado”. Levantamento do repórter Piero Locatelli mostra que, em 2010, 47,8% das doações eleitorais no Brasil foram feitas por empresas e que apenas 1% dos doadores foram responsáveis por 73,6% do financiamento da campanha.
O resultado disso, seja nos Estados Unidos, na Europa, na Índia ou no Brasil, é uma grave crise de representação. O cidadão não consegue participar da vida pública e ter seus anseios ouvidos pelo governantes. Os partidos, à esquerda e à direita, caminham cada vez mais para o centro e, como diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek, fica cada vez mais difícil diferenciá-los. A esquerda, supostamente contrária aos absurdos do liberalismo econômico, ou aderiu a ele e também tem suas campanhas financiadas por grandes corporações ou não tem um modelo alternativo e crível a apresentar.
Em seu relatório, a Oxfam pede aos governos para tomar medidas que, ao menos, reduzam os níveis atuais de desigualdade social aos de 1990. É bastante improvável que os política e economicamente poderosos resolvam fazer isso do dia para a noite. Estão aí os brasileiros que chamam o Bolsa Família de bolsa-esmola e o ator francês Gerard Depardieu, que preferiu dar apoio a um ditador a correr o risco de pagar impostos de 75%, para provar isso. Talvez apenas o entendimento de que, como diz a ONG britânica, a desigualdade social é economicamente ineficiente, politicamente corrosiva e socialmente divisiva, provoque mudanças. Para isso, no entanto, é preciso que os poderosos entendam os riscos da desigualdade.

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, disse nesta segunda-feira que os ataques às religiões de matriz africana chegaram a um nível insuportável. ‘O pior não é apenas o grande número, mas a gravidade dos casos que têm acontecido. São agressões físicas, ameaças de depredação de casas e comunidades. Nós consideramos que isso chegou em um ponto insuportável e que não se trata apenas de uma disputa religiosa, mas, evidentemente, uma disputa por valores civilizatórios’, disse ao chegar ao ato lembrando o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. O número denúncias de intolerância religiosa recebidas pelo Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência cresceu mais de sete vezes em 2012, quando comparada com a estatística de 2011, saindo de 15 para 109 casos registrados. Para a ministra, os ataques são motivados principalmente por alguns grupos evangélicos. ‘Alguns setores, especialmente evangélicos pentecostais, gostariam que essas manifestações africanas desaparecessem totalmente da sociedade brasileira, o que certamente não ocorrerá’, disse Luíza, que acrescentou que esta semana deverá ser anunciado um plano de apoio às comunidades de matriz africana. ‘Nós queremos fazer com que essas comunidades também sejam beneficiadas pelas políticas públicas’, completou. No ato promovido pela prefeitura paulistana foi lançada a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial. Segundo o prefeito, Fernando Haddad, a celebração é uma forma de fazer com que as pessoas que ainda têm preconceito contra as religiões afrobrasileiras reflitam sobre a importância da tolerância. ‘Eu penso que a expressiva maioria dos moradores de São Paulo abraça essa causa de convivência pacífica, tranquila, com respeito e a tolerância devida ao semelhante. Agora, existe uma pequena minoria para qual o recado aqui é dado: que há uma grande maioria que quer viver tranquilamente’, disse. O recado da tolerância também está sendo promovido pelo grupo multirreligioso Paulistanos pela Paz, que há 8 anos atua para conscientizar principalmente a juventude. ‘Nós estamos coordenando visitas a escolas, faculdades para dar palestras, seminários, para trazer esse questionamento à tona. Porque a intolerância brota da incapacidade de conviver com o diferente’, disse o Reverendo Mahesh, coordenador do grupo e representante do Hinduísmo Hare Krishna. Membro do Centro Cultural Ilê-Ifa, o maestro Roberto Casemiro, também defendeu a atuação com a juventude como forma de combater o preconceito. Na opinião de Casemiro, para muitos jovens, em especial os envolvidos em grupos que promovem o ódio, como os skinheads, falta conhecimento e falta cultura. ‘E quem não tem nem conhecimento, nem cultura, não tem respeito’. Evangélico de confissão luterana, o pastor Carlos Mussukopf, acredita que a melhor maneira de evitar o preconceito é unindo as diferentes religiões entorno de objetivos e ideias comuns. ‘Devemos procurar o que nos une, o que nos unifique, o que nós temos em comum. E que a gente também saia da teoria, dos encontros de diálogo e passe para a prática. Existem tantos desafios na sociedade que nós vivemos que exigem uma ação unificada também das religiões. Vamos ver questão da população de rua, da natureza’, disse.

Argentina: o Leviatã midiático

Fala-se muito, e com razão, da guerra declarada por Cristina Kirchner ao grupo Clarín, que além de ter o jornal de maior circulação na Argentina detém o controle de mais da metade do mercado de televisão e rádio. Pouco ou nada se diz da guerra do grupo contra o governo. É como se fosse a batalha de um lado só.
Há um terceiro ator nesse confuso enredo, a Justiça. O desenlace final não oferece muitas opções: a Lei de Serviços de Comunicação -Audiovisual, conhecida por Lei de Meios ou Lei de Mídia, entrará em vigor. O problema é saber quando. Entre idas e vindas, diferentes instâncias da Justiça ora prorrogam, ora dão por suspensa uma medida liminar conseguida pelo grupo. Seja como for, o juiz Horacio Alfonso determinou que a lei é constitucional. O grupo recorreu, o recurso foi aceito, mas isso significa apenas, na opinião da maioria dos juristas argentinos, mais tempo até que se chegue à aplicação da legislação aprovada, em 2009, pela maioria do Congresso, contando com nutridos votos da oposição.
Não era exatamente o que esperava o governo. A data, inicialmente determinada pela Corte Suprema, era a sexta-feira 7. O governo apostou alto. No domingo 9 estava programada uma imensa festa popular, para celebrar, de uma vez só, o dia dos Direitos Humanos (10 de dezembro) e o primeiro ano do segundo mandato de Cristina Kirchner – além, claro, da entrada em vigor da lei. Mais de meio milhão de argentinos cobriram a Plaza de Mayo e seus arredores. Uma espécie de resposta dos apoiadores de Cristina Kirchner às manifestações convocadas pela oposição. Em outras cidades do país, a mesma data reuniu outro tanto de gente.
Faltou, porém, o prêmio ansiado: na mesma sexta-feira em que deveria entrar em vigor, a lei acabou adiada novamente. A Câmara Civil e Comercial, uma espécie de vara da Justiça destinada a assuntos comerciais, tornou a prorrogar a liminar pedida pelo Clarín. O governo reagiu mal, com a habilidade de um dromedário embriagado, ao criticar duramente a decisão. Ou seja, uma vez mais abriu flancos para receber ataques furibundos dos grupos hegemônicos de comunicação, agora sob o argumento de pressão sobre juízes.
Vale anotar que parte das críticas duras do governo aos integrantes da Câmara Civil e Comercial se deveu ao fato de um de seus três juízes ter viajado a Miami à custa do Clarín.
Enroscos judiciais à parte, a faceta mais visível da briga entre o governo e o Clarín gira ao redor de um mesmo eixo, a formidável concentração de meios nas mãos do grupo. Nunca é demais repetir sua participação no mercado: 42% das licenças de rádio, 59% da televisão fechada (a cabo), 39% da televisão aberta. São 254 canais de televisão a cabo (algumas fontes mencionam apenas 237, o grupo diz que na verdade são 158, a nova lei diz que não podem ser mais do que 24 licenças), duas dúzias de televisões abertas (o limite permitido é dez). Promover a desconcentração caberá a Martín Sabatella, diretor da Autoridade de Serviços de Comunicação Audiovisual.
Há outros 20 grupos que acumulam licenças em volume muito superior ao permitido pela lei. Todos eles, inclusive gigantes como a Telefónica espanhola e o grupo, também espanhol, Prisa, concordaram em cumprir a lei e vivem agora um período de adequação. O fundo de investimentos -Fintech -Advisory, sócio do grupo Clarín na operadora de televisão a cabo Cablevisión, concordou em acatar a lei. O Clarín disse tratar-se de um sócio minoritário, sem poder de decisão. Detalhe: o fundo detém 40% das ações da Cablevisión. Não é um minoritário qualquer.
Essa história ainda vai se arrastar. Por quanto tempo, ninguém sabe. A distorção do noticiário dos meios do grupo Clarín não tem limites. Denunciam graves atentados à liberdade de expressão, e encontram amplo eco em seus congêneres em outros países, a começar, claro, pelo Brasil, onde cinco grupos dão as cartas.
Evidentemente, não é de liberdade de expressão que se trata, e sim da liberdade de acumular concessões. O objetivo da lei é criar mecanismos que impeçam semelhante concentração, principalmente de televisão fechada, que na Argentina tem um alcance muito maior que no Brasil (perto de 86% dos domicílios têm televisão a cabo ou via satélite). Isso, claro, para não mencionar a convergência com a internet de banda larga, que abocanha quase a metade do mercado argentino.
Cabe registrar que o governo de Cristina Kirchner não é, nem de longe, pioneiro nessa batalha contra a concentração e, muito especialmente, contra o Clarín. O primeiro presidente pós-ditadura, Raúl Alfonsín, tentou a mesma coisa. Chegou a mandar fiscais da Receita invadirem a empresa e durante meses virar pelo avesso sua contabilidade. Carlos Menem, por sua vez, pretendeu podar as asas famintas do grupo. Optou depois pela conciliação. Nestor Kirchner preferiu o caminho da cooptação: no fim de seu governo permitiu a fusão entre os canais Globovisión e Multicanal, o que consolidou de vez a hegemonia do grupo. A boa relação foi rompida em 2008, quando o Clarín se opôs com ferocidade à nova legislação fiscal sobre exportações agrícolas. Ninguém parece lembrar que os acionistas do grupo são acionistas de grandes companhias do agronegócio. Enfim, de onde quer que se olhe há razões de sobra para que todos os presidentes argentinos desde a redemocratização de 1983 – Alfonsín, Menem, Kirchner e agora sua viúva e sucessora, Cristina – tenham tentado conter semelhante poder, semelhante avidez. Nenhum deles, porém, bateu tanto quando a atual presidente.
Por trás desse conglomerado gigantesco, além do mais, há histórias escabrosas. O jornal Clarín surgiu em 1945, de forma relativamente modesta. Seu fundador, Roberto Noble, era um fervoroso admirador de duas figuras que haviam marcado época e deixado um rastro de barbaridades: um italiano chamado Benito Mussolini e um austríaco chamado Adolf Hitler.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, vencidos e mortos os dois, Noble achava que parte de suas ideias merecia ser resgatada. Quando Juan Domingo Perón foi derrubado por um golpe militar em 1955, o Clarín demonstrou claras simpatias pelo novo regime. E assim foi. Havia outros grandes jornais que faziam pesada sombra. E se hoje é um dos diários de maior circulação na América Latina, até a última ditadura militar argentina (1976-1983) nunca deixou de ser um jornal de segunda linha, sem a tradição do conservador La Nación ou a ousadia de publicações que inovaram a imprensa do país, como a revista Primera Plana dos anos 60 ou o jornal La -Opinión dos primeiros anos 70.
Na ditadura, o jornal ganhou corpo e voz. E tornou-se um grupo importante, graças às manobras de seu executivo, Héctor Magnetto, que começou como contador e hoje é o segundo maior acionista da empresa. Além da cumplicidade aberta com o regime genocida, o jornal – ao lado do vetusto La Nación e o popularesco (hoje desaparecido) La Razón – conseguiu um maná a preço de banana: apoderar-se da Papel Prensa, única fábrica papeleira da Argentina. A apropriação é uma das tantas histórias de horror absoluto da ditadura iniciada pelo general Jorge Rafael Videla e continuada por outros adeptos da barbárie como meio de vida.
A Papel Prensa era, por certo, um negócio confuso. Foi fundada durante os efêmeros governos peronistas por um jovem e ousado financista, David Graiver, que contava com o apoio de José Gelbard, ministro de Economia de Héctor Cámpora e do próprio Perón. Graiver morreu num misterioso desastre aéreo no México, em agosto de 1976, quando a ditadura encabeçada por Videla cumpria cinco meses de horror. Sua viúva, Lidia Papaleo de Graiver, e a filha eram as herdeiras majoritárias, além de outros familiares do marido.
Naquele período, além de torturar, assassinar, desaparecer e mandar para o exílio dezenas de milhares de argentinos, os militares se distraiam apoderando-se dos bens de suas vítimas. Graiver era especialmente odiado. Além de judeu, era considerado (e muito, possivelmente com razão) o administrador da fortuna do grupo guerrilheiro peronista Montoneros, criada a partir de resgates milionários obtidos em sequestros. A Papel Prensa era um butim muito ambicionado.
Logo depois da morte de Graiver, sua viúva voltou para a Argentina. Queria cuidar das propriedades do marido morto. Foi quando conheceu a face cruel da ditadura e o rosto macabro de Magnetto. Presa, foi pressionada a vender as ações da Papel Prensa para um trio formado pelo Clarín, o La Prensa e o La Razón, além de uma participação que permanecia nas mãos do Estado.
Fragilizada, sob todo tipo de pressão – ameaçavam matá-la e desaparecer com sua filha, na época um bebê de 1 ano de vida –, capitulou. Vendeu suas ações e recebeu como sinal cerca de 8 mil dólares. O resto – outros 2 milhões, preço insignificante diante do que a Papel Prensa realmente valia – nunca foi pago. Até hoje ela move, na Justiça argentina, um processo na tentativa de receber o combinado. Neste ano, diante de um tribunal, ela contou como foi a venda e, principalmente, o que aconteceu em seguida.
Disse que pouco depois de ter assinado a papelada, foi presa. Há razões para que a prisão acontecesse depois da venda da Papel Prensa. Uma lei determinava que os bens dos subversivos presos ou mortos passassem diretamente às mãos do Estado. A ditadura queria compensar seus aliados da mídia. Prender Lidia Papaleo significaria passar a única fábrica de papel do país para o Estado. Feita a transação, sobrava uma viúva jovem, atraente, e certamente dona do segredo de outros milhões de dólares. Seus algozes queriam encontrar o dinheiro deixado por Graiver.
Diante do tribunal, Lidia Papaleo contou como foi violada, agredida, vexada. Teve o tímpano arrebentado a golpes de mão aberta contra o ouvido. Muitas vezes, depois de estuprada, era levada de volta para a cela e jogada, nua, no chão. “E então, contou ela ao juiz, ‘eles vinham e cuspiam, urinavam e ejaculavam em cima de mim’.”
Contou que até hoje, em seus pesadelos, revê o rosto de seus torturadores. E disse que nenhum desses rostos a amedronta mais que o do homem que a pressionou para assinar os documentos da venda da Papel Prensa. Os olhos do homem que dizia, com uma voz serena e calma, que ou ela assinava, ou veria sua filha ser morta, antes de ela mesma ser assassinada.
Esse homem chama-se Héctor Magnetto e é o presidente do Clarín, do qual detém 33% das ações.
Graças a ele e aos seus métodos, o grupo tornou-se o que é hoje. É ele o patrão dos paladinos que dizem e asseguram que a Lei de Meios é um atentado à liberdade de expressão. É à sua voz que fazem eco os conglomerados de comunicação do Brasil.
Cristina Kirchner acaba de cumprir o primeiro ano de seu segundo mandato, envolvida numa briga tremenda com o grupo capitaneado por semelhante personagem.
O país enfrenta, seu governo também enfrenta, é verdade, um amontoado de problemas significativos. A inflação está em níveis elevadíssimos (deve rondar ou superar a marca dos 25%, em 2012), a economia apenas engatinha após anos de forte impulso, a classe média concentrada, principalmente, em Buenos Aires, e que sempre expressou contra o peronismo algo muito parecido ao preconceito (quando não ao ódio) de classe, se opõe de maneira cada vez mais radical a tudo o que seu governo faz.
Há acusações de corrupção, e, certamente, uma parte consistente delas tem fundamento. Os investidores desconfiam de suas ações, algumas multinacionais abandonam o país, há sérias dificuldades para obter divisas e honrar os compromissos internacionais.
Nada disso parece insolúvel. Se ela conseguir, e tudo indica que conseguirá, desmontar um conglomerado ávido e feroz, que nasce a partir de uma história de horror e indecência, terá deixado uma significativa marca. E um exemplo – outro – para os vizinhos: da mesma forma que é possível resgatar o passado e fulminar a impunidade de quem cometeu crimes de lesa-humanidade, é possível desmontar os monopólios e democratizar a informação.

A secularização da Polônia

Gianni Carta

Sentada em um café na Rynek Mariacki, em Cracóvia, Agnieszka Kostecka, uma publisher de 38 anos, diz: “O mundo está em evolução, mas a Igreja Católica não acompanha suas mudanças, e, assim, não está em sintonia com a realidade”.
Católica praticante, Kostecka cita exemplos dessas mudanças a ocorrer principalmente nas grandes cidades polonesas (e europeias): casais, inclusive aqueles formados por pessoas do mesmo sexo, coabitam sem a benção da igreja; questiona-se, entre outras críticas, a proibição do uso de anticoncepcionais; diante de centenas de milhares de abortos, numerosos cidadãos são favoráveis à legalização do aborto; jovens e menos jovens com inclinações liberais não aprovam a interferência da igreja na política.
Segundo uma recente enquete, 95% dos poloneses ainda se dizem católicos – mas destes menos de 30% se julgam profundamente religiosos. Mais: pouco mais de 40% dos jovens vão à missa aos domingos, ante mais de 60% no início da década de 1990. Ainda assim, a Polônia continua a ser o país mais católico da Europa.
“A Igreja Católica é um dos últimos enclaves da era comunista”, argumenta o Grzegorz Makowski, professor de Ciências Sociais do Collegium Civitas, braço do Instytut Spraw Publicznych (Estudos de Políticas Públicas), um think tank em Varsóvia.
Como assim?
Segundo Makowski, durante a era comunista (1945-89) as pessoas engajadas em práticas religiosas neste país não o faziam “somente para satisfazer buscas espirituais”, mas também porque queriam ter mais liberdade em um regime ditatorial. E, de fato, o papel da Igreja Católica, e de João Paulo II, o papa polonês, foi fundamental para fazer naufragar o comunismo.
No entanto, com o fim do comunismo o inimigo da Igreja Católica passou a ser o Estado secular e democrático. “A igreja mostrou-se
O sociólogo Michal Nowosielski, diretor do Institytut Zachodni (Estudos Ocidentais) concorda com Makowski. “Após mais de 40 anos de comunismo, o papel da igreja mudou”, pondera. Ademais, “a modernização provocou uma maior laicidade”. Nesse contexto, a Igreja Católica tenta “preservar” seu papel na sociedade e na política. No entanto, essa é uma batalha perdida porque existem diferentes facções entre aqueles a liderar a igreja, argumenta Nowosielski
Os ultraconservadores da igreja, comparáveis aos evangélicos no Brasil, usam todos os meios para exprimir seus ideais. A Radio Maryia, por exemplo, argumentava que o ingresso da Polônia na União Europeia traria males da Europa Ocidental para este país. E agora faz campanha contra os “males” – coabitação, casais do mesmo sexo, etc.
Na mesma linha, párocos da velha guarda continuam a influenciar aqueles que ainda frequentam a igreja. Seus poderes são maiores em pequenas cidades como Sanok, no sudeste do país. Eles orientam os fiéis cristãos, por exemplo, em quem votar.
Algo que nas grandes cidades não funciona.
Até em Cracóvia, considerada a grande cidade (1 milhão de habitantes) mais conservadora da Polônia. Quando, nas últimas legislativas, um padre opinou quem era o melhor candidato, a mãe de Kostecka, também ela católica praticante, levantou-se da primeira fila, e, diante de olhares perplexos, foi embora.
Kostecka, a filha, também não vai mais a igreja com frequência. “Os padres não sabem mais se comunicar com os fiéis”, diz. Mas, claro, há exceções. Ela cita o exemplo de Mieczyslaw Malinski, um padre que sempre incluía no seu sermão algumas breves opiniões sobre fatos da atualidade. “Malinski nos fazia refletir.” No entanto, ele foi acusado de ter colaborado com os comunistas, e, já idoso, sua saúde se deteriorou e hoje ele não sai mais de casa.
Outro problema a afastar as novas gerações da igreja, diz Makowski, do Collegium Civitas, “é a falta de uma educação religiosa nas escolas em sintonia com os novos tempos”. Nas escolas públicas, ninguém é obrigado a frequentar essas aulas. No entanto, quem não as cursa, especialmente nas pequenas cidades, não é bem conceituado.

Quando o filho mais jovem de Kostecka, de 10 anos, encontrou um preservativo ainda na sua embalagem no banheiro de sua escola católica, a direção, conta a mãe, tratou o assunto “como se fosse o fim do mundo”. “Era o momento de explicar para os alunos para que serve um preservativo”, pondera Kostecka. Por outro lado, na escola pública de seu filho mais velho, de 13 anos, a professora de religião ensina a história das principais crenças. O jovem está fascinado com o Islã. “Isso é sinal que a professora ensina seus alunos a tolerância, pilar da religião católica.”
A professora em questão é, contudo, uma exceção.
Por essas e outras, o ateu Tomek Szkodzinski, um artista gráfico, de 31 anos, diz que não batizará o filho que está por nascer. Isso porque se 95% dos poloneses se dizem católicos é porque são, por tradição, batizados.
Indago a Szkodzinski se os fatos de ele ser ateu e não batizar seu filho não chocam seus interlocutores. “Eu não diria nada disso aos meus avós, mas meus pais e amigos não têm reações radicais.”
E se seu filho um dia optar pelo catolicismo? “Respeitarei sua decisão, mas explicarei a ele que na maioria dos casos aqui na Polônia os arautos da religião ensinam a intolerância.”

Lula diz que vai para as ruas em 2013

Lula durante seu discurso. Foto: Paulo de Souza/SMABC
Durante quase 50 minutos, a plateia formada por trabalhadores, sindicalistas, políticos, militantes dos movimentos social e estudantil, ficou em absoluto silêncio para ouvir o discurso do ex-presidente Lula, convidado de honra do evento de posse do novo presidente do Sindicato Rafael Marques.
Em sua fala, Lula recomendou aos trabalhadores que não aceitem as provocações dos opositores contra o legado de seu governo e afirmou que voltará a andar pelo Brasil no ano que vem.
“Para alegria de muitos e tristeza de alguns vou voltar a andar pelo Brasil, pois ainda acho que tem muita coisa a se fazer por esse País, tem muito candidato nas prefeituras e nos Estados para serem eleitos”, disse. E prosseguiu.
“O que mais machuca os adversários é o meu sucesso. Como eles podem suportar que um metalúrgico, quase analfabeto, saia do chão de fábrica e faça o que eles nunca fizeram quando governaram”, disse Lula, arrancando aplausos dos espectadores, que gritaram em côro: “O Lula é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”.

Rafael Marques, Lula e Sérgio Nobre. Foto: Paulo de Souza/SMABC
Evolução
O ex-presidente da República contou histórias de seu período à frente da presidência do Sindicato, nas décadas de 1970 e 1980, destacando o amadurecimento da categoria até os dias de hoje.
“Aqui, se não tiver votos no chão de fábrica, não se elege. O processo eleitoral dos Metalúrgicos do ABC é uma prova de democracia para toda a classe trabalhadora”, enfatizou. Em seguida, Lula parabenizou Rafael Marques pelo novo cargo.
“Fico feliz de ver o Rafael assumir a presidência do Sindicato pois ele é fruto dessa evolução da Categoria”, afirmou.
Transição
Rafael a assumiu a função neste mês, por conta das responsabilidades assumidas pelo antecessor Sérgio Nobre, que em julho foi eleito secretário-geral da CUT.
Em sua fala, o novo presidente do Sindicato destacou a luta histórica dos Metalúrgicos do ABC em promover a democracia no País. “Democracia não é só a eleição, mas é a organização no local de trabalho, é a pluralidade nos meios de comunicação. Nós temos que ter gente que divulgue a história e a conquista dos trabalhadores, que foi feita através de muita luta”, disse o novo presidente do Sindicato.
Sérgio Nobre, seu antecessor, agradeceu à toda militância e aos trabalhadores do Sindicato que estiveram junto com ele durante o período do seu mandato.
“Agora vou cumprir outra etapa da minha vida, outro desafio que é a Secretaria Geral da CUT e esse tempo todo aqui no Sindicato me preparou para isso”, declarou.