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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Itália pode ter primeira mulher sacerdote

Uma professora casada pode se tornar a primeira mulher a ser ordenada sacerdote em uma igreja anglicana localizada próxima do Vaticano.
Maria Longhitano, que pertence à Igreja Vétero-Católica – um movimento católico independente não reconhecido pelo Vaticano, disse esperar que sua ordenação como sacerdotisa ajude a diminuir o preconceito em relação às mulheres na Igreja.
De acordo com o correspondente da BBC Robert Pigott, a medida deve reacender o debate sobre o papel das mulheres na Igreja Católica.
O papa Bento 16 se opõe totalmente à nomeação de mulheres sacerdotisas e seu predecessor, João Paulo 2º, inclusive proibiu que o tema seja discutido publicamente.
Em 2002, quando sete mulheres católicas romanas foram ordenadas extra-oficialmente como sacerdotisas, elas foram imediatamente excomungadas pela Igreja.
Segundo Pigott, apesar de Longhitano não se tornar uma sacerdotisa católica romana, sua ordenação na igreja anglicana é motivo de desconforto para o Vaticano.
Longhitano, que disse que sempre quis ser sacerdotisa e se lembra de brincar com hóstias quando pequena, acusou o Vaticano de impedir que as mulheres possam cumprir sua vocação.
A italiana tem esperanças de que sua ordenação como sacerdotisa incite o debate entre os católicos sobre a modernização d igreja.
Alguns católicos acreditam que a reforma é necessária para reverter a diminuição do número de fiéis e recuperar a influência da Igreja. Além disso, um bispo austríaco disse esta semana que a Igreja deve considerar a eventual ordenação de mulheres.
A Igreja Anglicana foi escolhida para a cerimônia de ordenação pela afinidade de princípios com a Igreja Vétero-Católica.
Os vétero-católicos romperam com o Vaticano no século 19 por serem contrários ao dogma da Imaculada Concepção e da Infalibilidade Papal. Eles consideram questões como as relações homossexuais e a contracepção algo pessoal e permitem a nomeação de mulheres como sacerdotisas desde 1996.

Dados mundiais preocupam; Brasil combina ações intersetoriais

Recuo de trabalho infantil de 2003 a 2008 foi de cerca de 3%. No relatório anterior (de 2000 a 2004) da OIT, houve registro de diminuição de 10%. No Brasil, mobilização da sociedade civil e órgãos públicos tem dado resultados

Por Bianca Pyl

“Acelerar a luta contra o trabalho infantil”. A escolha do título do novo relatório global da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Trabalho Infantil nada tem de aleatória: o estudo constatou que, entre 2003 e 2008, houve desaceleração no ritmo de redução do problema em nível mundial.

Lançado no dia 8 de maio, o documento releva que, durante o período, o número de crianças trabalhando no mundo recuou de 222 milhões, em 2003, para 215 milhões, em 2008. Ou seja, a diminuição foi de cerca de 3%. No relatório anterior (divulgado em 2006, com base no intervalo de 2000 a 2004) da OIT, houve registro de diminuição de 10%.

Do total de crianças submetidas à rotina de trabalho, pelo menos 115 milhõessão vítima do que o órgão ligado às Nações Unidas classifica como “piores formas de exploração do trabalho infantil”. O relatório também alerta para o risco de que a crise econômica mundial freie os avanços em direção ao objetivo de eliminar as piores formas de trabalho infantil em 2016.

Mais 10 milhões de adolescentes (de 52 para 62 milhões), com idades entre 15 e 17 anos, passaram a trabalhar. A agricultura continua sendo a principal atividade que explora mão de obra infantil – 60% das crianças e adolescentes prestam serviços na agricultura e a maior parte trabalha para sua família sem remuneração. Somente uma de cada cinco crianças recebe salário.

O maior avanço no combate ao trabalho infantil foi registrado entre meninos e meninas de 5 a 14 anos, com diminuição de 10%. Na mesma faixa de idade, o número de meninos e meninas em trabalhos perigosos diminuiu em 31%. Entre as meninas, o trabalho infantil diminuiu 15% (cerca de 15 milhões). No entanto, aumentou entre os meninos em 7% (8 milhões).

Os números relativos ao Brasil são menos preocupantes. A porcentagem de trabalho infantil entre crianças de 5 a 15 anos caiu de 13,6% para 5,8% entre 1992 e 2008. No mesmo período, o mesmo índice para crianças do grupo de 5 a 9 anos diminuiu de 3,6% para 0,9%. Segundo a OIT, as quedas no Brasil podem ser explicadas pela mobilização da sociedade, ajudada pelos meios de comunicação, além de programas de transferência de renda ligados à permanência das crianças na escola.

Veja matéria completa em http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=6670

Mães brasileiras têm menos filhos

O perfil das famílias brasileiras mudou. Se antes a fotografia da família reunida mostrava um casal rodeado por filhos, agora não mais que dois cercam os pais. Uma das consequências da diminuição no tamanho das famílias é redução da pobreza.

Esta “sinergia” entre fecundidade e pobreza foi analisada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o estudo, a taxa de fecundidade no Brasil vem caindo desde 1960, quando a mulher tinha, em média, 6,3 filhos.

Mudanças sociais, como a inserção no mercado de trabalho e o aumento do nível de escolaridade das mulheres, provocaram uma queda da taxa de fecundidade para 2,6 filhos em 1996. Hoje, a mulher tem, em média, 1,9 filho.

Paralelamente às mudanças dos arranjos familiares, os dados do IBGE revelam queda também no percentual de pobres no Brasil, que, à exceção de pequenas oscilações, se manteve em torno de 40% até 1993. Entre 1995 e 2003, os níveis de pobreza estavam em 35%. Nos últimos sete anos, contudo, houve uma queda consistente que alcançou 22,7% em 2007.

Além do impacto nas mortalidades materna e neonatal, o IBGE avalia que a redução da taxa de fecundidade permite que as mães obtenham uma inserção mais produtiva no mercado de trabalho e menor carga de trabalho doméstico.

“Antigamente, os arranjos familiares consistiam no homem, sustentando a família, e uma mulher trabalhando muito, mas sem gerar renda e cuidando de muitos filhos”, explica o pesquisador do IBGE José Eustáquio Diniz. “Quando você tem uma família pequena, a mulher tem mais tempo para estudar e para se inserir no mercado de trabalho. Então você passa a ter uma família com um casal contribuindo, e não apenas o homem, e menos filhos. Isso é um fator que ajuda muito na redução da pobreza.”

O IBGE constatou que a diminuição do número de filhos por família atingiu não apenas as áreas urbanas, mas também as rurais. Em 1996, a fecundidade urbana era de 2,3 filhos e a rural de 3,5. Dez anos depois, caiu para 1,8 filho e 2 filhos, respectivamente.

Entre as mulheres com 1 a 3 anos de estudo, a taxa caiu de 3,6 filhos para 2,8 filhos entre 1996 e 2006. Já entre as mulheres com 9 a 11 anos de estudo, a fecundidade passou de 1,7 filho para 1,6 no mesmo período.

Aliado à mudança no perfil das famílias, o crescimento econômico com distribuição de renda, apoiada na política de valorização do salário mínimo e no programa Bolsa Família, acelerou a queda dos níveis de pobreza no Brasil. “Quando você junta crescimento econômico, distribuição de renda e condições demográficas favoráveis, isso tem um impacto enorme na redução da pobreza. O Brasil nunca teve uma queda tão grande da pobreza como nos últimos seis, sete anos”, diz o pesquisador do IBGE.

Diniz faz, no entanto, um alerta. As projeções do IBGE indicam que, a partir de 2025, foi deflagrado um processo mais rápido de envelhecimento da população, o que significa aumento do número de idosos e, consequentemente, impacto na Previdência Social.

“Temos de aproveitar os próximos 10, 15 anos para erradicar a pobreza, porque depois que o país envelhecer as condições vão ficar mais difíceis. As condições demográficas já não serão favoráveis. Estamos no momento certo para promover maior qualidade de vida para a população brasileira”, argumenta.

Trabalho da Igreja Católica é importante para os jovens e as comunidades carentes, afirma Dilma

05.05.2010

A pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, participou hoje da inauguração da nova sede do Centro de Multimídia do Sistema Canção Nova de Comunicação, em Brasília. A estrutura abriga a rádio, a TV e o canal web do grupo.

Em entrevista à TV Canção Nova, pouco antes do início da cerimônia, Dilma disse que considera o trabalho da Igreja Católica muito importante para dar esperança aos jovens e na ajuda das comunidades carentes.

“Para muita gente a Igreja dá um sentido na vida, principalmente para os jovens. Nós precisamos muito de pão, mas também temos que alimentar o espírito”, disse a petista.

Ordem carmelita processa padre acusado de pedofilia na Espanha

A congregação da Ordem dos Carmelitas Descalços de Valência, na Espanha, entregou nesta segunda-feira ao Ministério Público espanhol evidências contra um sacerdote acusado de pedofilia.

De acordo com a Conferência Episcopal Espanhola, este é o primeiro caso em que uma instituição católica toma a iniciativa de levar um religioso à Justiça antes que a vítima o faça.

Os frades dizem que estão seguindo os conselhos do Papa Bento 16 de denunciar à Justiça civil os abusos sexuais dentro da Igreja.

Os promotores investigarão as alegações de que o padre no centro da polêmica cometeu abusos contra um coroinha menor de idade que colaborava com ele durante os fins de semana na paróquia da cidade de Burriana.

Entre os depoimentos entregues aos promotores estão trechos em que o coroinha descreve cenas de masturbação e episódios em que o padre teria tentado tocá-lo no ano de 2007.

A suposta vítima afirmou que decidiu contar o “pesadelo” aos pais depois de ter sido trancado a cadeado em um quarto e forçado a ter relações sexuais.

Imagem

O sacerdote responsável pela Ordem dos Carmelitas Descalços, Pascual Gil, disse à BBC Brasil que “esta denúncia não prejudica a imagem da Igreja”.

“Pelo contrário, ajuda a mostrar que não estamos de olhos vendados e que pretendemos evitar que atos como este voltem a ocorrer”, disse o sacerdote.

O padre explicou que a medida só foi tomada agora porque somente há poucos dias a congregação ficou sabendo do caso.

“A família tinha se mudado para o Peru, aterrorizada pela situação, e agora no dia 26 de abril, em uma visita à Espanha, o pai decidiu abrir o coração e nos contar o drama que nos afeta a todos”, disse o religioso.

“Conversamos com o sacerdote acusado e decidimos que nossa obrigação era atuar pela via canônica, de acordo com a doutrina do Vaticano, e também pelo caminho do direito civil, porque é um delito que deve ser julgado pelas autoridades competentes.”

Pascual Gil disse ainda que o acusado pediu aos seus superiores um “gesto de reconciliação, aceitando a culpa dentro do fórum religioso para evitar o escândalo”. Entretanto, a ordem insistiu em levar o caso à Justiça civil.

É verdade que o Papa Bento 16 recomendou aos religiosos recorrer à Justiça, e foi um gesto para tentar calar muitas críticas. É diferente quando uma instituição tem a coragem de dar este passo.

Fernando Vidal, sociologo

Além de ter sido afastado da congregação e da província, o padre foi proibido pelo clero de ter contato com menores de idade sem estar acompanhado por outros adultos e de celebrar sacramentos religiosos.

As medidas cautelares também lhe proíbem de manter qualquer comunicação com a vítima e seus parentes até o julgamento.

Pressões

Para o sociólogo Fernando Vidal, catedrático da Universidade de Comillas, a Ordem dos Carmelitas de Valencia deu um passo de “grande valentia”.

“É verdade que o Papa Bento 16 recomendou aos religiosos recorrer à Justiça, e foi um gesto para tentar calar muitas críticas. É diferente quando uma instituição tem a coragem de dar este passo”, disse à BBC Brasil.

Para Vidal, “ninguém negará que o silêncio provoca a impunidade e alimenta que se cometam mais delitos, mas a denúncia também tem consequencias”.

O sociólogo acredita que os denunciantes “provavelmente receberão elogios, mas também pressões e críticas.”

Os primeiros elogios surgiram do grupo católico Corrente Somos Igreja. O porta-voz da organização, Pepe Moreno, disse à BBC Brasil que atitude dos frades carmelitas é “um sopro de renovação dentro do ciclo de dupla moral do Vaticano, depois de longas etapas de acobertamento, permissividade e inexplicável tolerância com a pedofilia”.

O grupo, que mantém uma postura crítica em relação às doutrinas do Vaticano, espera que o processo seja “apenas o primeiro de muitos que devem ser abertos”, mas não acredita que tantas ordens religiosas tenham a mesma atitude.

“Enquanto a Igreja esconder seus abusos, enquanto houver gente minimizando a importância dos delitos de pedofilia e não houver uma mudança radical por parte de todo o clero, esse caso, infelizmente, será um em um milhão. E por isto deve ser aplaudido por toda a sociedade.”

Vaticano acusa padre de 'imoral' e intervirá em ordem fundada por ele

O papa Bento 16 (arquivo)

O Vaticano anunciou neste sábado que o papa Bento 16 promoverá uma “profunda revisão” no movimento católico Legionários de Cristo, cujo fundador, o padre mexicano Marcial Marcel, é acusado de ter abusado sexualmente de crianças por décadas.

Em uma nota na qual descreve como “imorais” e “verdadeiros delitos” os comportamentos do padre Marcel, a Santa Sé anunciou que Bento 16 nomeará um novo dirigente, que se encarregará de supervisionar reformas para “purificar” o movimento.

As medidas foram anunciadas após a apresentação das conclusões de uma comissão formada por cinco bispos que trabalharam por mais de oito meses recolhendo evidências junto a cerca de mil pessoas.

“Os gravíssimos e objetivamente imorais comportamentos do padre Maciel, confirmados por testemunhas inquestionáveis, configuram às vezes verdadeiros delitos e evidenciam uma vida carente de escrúpulos e autêntico sentimento religioso”, afirma a nota.

“A conduta do padre Marcel causou uma série de consequências na vida e na estrutura da legião, que requer um caminho de profunda revisão.”

Padre Marcel gozava de prestígio junto ao falecido papa João Paulo 2º.

O pároco mexicano morreu em 2008, dois anos após começarem a vir a público denúncias de que ele levava uma vida dupla, abusava sexualmente de crianças e tinha pelo menos um filho.

Segundo o Vaticano, o padre criara “em torno de si um mecanismo de defesa que o manteve intocável por muito tempo, dificultando o conhecimento da sua verdadeira vida”.

A reação da cúpula da Igreja ao caso do padre Marcel está sendo acompanhada de perto porque a alta hierarquia do clero vem sendo acusada de ignorar ou, nos piores casos, até acobertar denúncias de abusos sexuais contra menores cometidos por padres no passado.

Em um dos casos revelados recentemente, o próprio Bento 16, na época ainda cardeal Ratzinger, é acusado de ignorar as denúncias contra um religioso americano que molestou cerca de 200 jovens nos EUA entre os anos 1950 e 1974.

As acusações já foram descritas como o “grande terremoto” do pontificado de Bento 16, que completou cinco anos em abril. Muitos são os pedidos para uma espécie de “limpeza interna” dentro da Igreja.

Por outor lado, alguns vaticanistas acreditam que a instituição possa sair fortalecida das polêmicas se enfrentar os casos e retomar o controle da situação.

Não deu no Jornal Nacional I

Bird vê ‘avanços dramáticos’ em redução da pobreza no Brasil

Menina segura bebê no colo em favela no Rio de Janeiro

A taxa de pobreza está caindo desde 2003 no Brasil

Apesar de ainda ter uma das mais altas taxas de desigualdade do mundo, o Brasil conseguiu avanços “dramáticos” em redução da pobreza e distribuição de renda, diz um relatório com indicadores de desenvolvimento divulgado nesta terça-feira pelo Banco Mundial (Bird).

“Enquanto as desigualdades de renda se agravaram na maioria dos países de renda média, o Brasil assistiu a avanços dramáticos tanto em redução da pobreza quanto em distribuição de renda”, diz um trecho do documento.

“A desigualdade permanece entre as mais altas do mundo, mas os avanços recentes mostram que nem sempre o desenvolvimento precisa vir acompanhado de desigualdade”, diz o texto sobre o Brasil.

Segundo os indicadores do Bird, a taxa de pobreza do Brasil caiu de 41% no início da década de 90 para entre 33% e 34% em 1995. Depois de se manter nesse nível até 2003, a taxa de pobreza apresentou declínio constante, caindo para 25,6% em 2006.

O documento diz que as taxas de pobreza extrema seguiram padrão semelhante, caindo de 14,5% em 2003 para 9,1% em 2006.

“A redução do número de pessoas vivendo na pobreza foi acompanhada por um declínio na desigualdade de renda”, diz o relatório.

De acordo com o Bird, fatores como inflação baixa e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, tiveram papel importante nesse desempenho.

Outros indicadores

O relatório também destaca os avanços registrados pelo Brasil em outros indicadores sociais, como a redução da taxa de mortalidade infantil, que passou de 56 para 22 em cada mil no período entre 1990 e 2008, em parte devido a melhores índices de vacinação.

Segundo o documento, o Brasil registrou ainda uma rápida redução nos índices de trabalho infantil e aumentou os níveis de frequência escolar.

O relatório traz dados sobre o cumprimento das Metas do Milênio, estabelecidas pelas Nações Unidas em 2000. Elas preveem melhoras em vários indicadores até 2015.

De acordo com o Bird, dez anos depois do lançamento da iniciativa, o progresso tem sido desigual e somente pouco mais da metade dos países com dados disponíveis está no caminho para atingir as metas.

“Cerca de 41% das pessoas em nações de baixa e média renda vivem em países que não devem atingir as metas. E 12% vivem nos 60 países sobre os quais não há dados suficientes para medir o progresso”, diz o relatório.

No entanto, segundo o Bird, houve progressos consideráveis nesses 10 anos e, apesar da crise econômica e financeira, “a meta de reduzir pela metade a proporção de pessoas vivendo na extrema pobreza ainda pode ser alcançada em diversas regiões em desenvolvimento”.

Muito mais que pedofilia

Palavra do Pastor

Muito mais que pedofilia

POR CARDEAL ODILO PEDRO SCHERER

As notícias sobre pedofilia, envolvendo membros do clero, difundiram-se de modo insistente. Tristes fatos, infelizmente, existiram no passado e existem no presente; não preciso discorrer sobre as cenas escabrosas de Arapiraca… A Igreja vive dias difíceis, em que aparece exposto o seu lado humano mais frágil e necessitado de conversão. De Jesus aprendemos: “Ai daqueles que escandalizam um desses pequeninos!” E de São Paulo ouvimos: “Não foi isso que aprendestes de Cristo”.

As palavras dirigidas pelo papa Bento XVI aos católicos da Irlanda servem também para os católicos do Brasil e de qualquer outro país, especialmente aquelas dirigidas às vítimas de abusos e aos seus abusadores. Dizer que é lamentável, deplorável, vergonhoso, é pouco! Em nenhum catecismo, livro de orientação religiosa, moral ou comportamental da Igreja isso jamais foi aprovado ou ensinado! Além do dano causado às vítimas, é imenso o dano à própria Igreja.

O mundo tem razão de esperar da Igreja notícias melhores: Dos padres, religiosos e de todos os cristãos, conforme a recomendação de Jesus a seus discípulos: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles, vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus!” Inútil, divagar com teorias doutas sobre as influências da mentalidade moral permissiva sobre os comportamentos individuais, até em ambientes eclesiásticos; talvez conseguiríamos compreender melhor por que as coisas acontecem, mas ainda nada teríamos mudado.

Há quem logo tem a solução, sempre pronta à espera de aplicação: É só acabar com o celibato dos padres, que tudo se resolve! Ora, será que o problema tem a ver somente com celibatários? E ficaria bem jogar nos braços da mulher um homem com taras desenfreadas, que também para os casados fazem desonra? Mulher nenhuma merece isso! E ninguém creia que esse seja um problema somente de padres: A maioria absoluta dos abusos sexuais de crianças acontece debaixo do teto familiar e no círculo do parentesco. O problema é bem mais amplo!

Ouso recordar algo que pode escandalizar a alguns até mais que a própria pedofilia: É preciso valorizar novamente os mandamentos da Lei de Deus, que recomendam atitudes e comportamentos castos, de acordo com o próprio estado de vida. Não me refiro a tabus ou repressões “castradoras”, mas apenas a comportamentos dignos e respeitosos em relação à sexualidade. Tanto em relação aos outros, como a si próprio. Que outra solução teríamos? Talvez o vale tudo e o “libera geral”, aceitando e até recomendando como “normais” comportamentos aberrantes e inomináveis, como esses que agora se condenam?

As notícias tristes desses dias ajudarão a Igreja a se purificar e a ficar muito mais atenta à formação do seu clero. Esta orientação foi dada há mais tempo pelo papa Bento XVI, quando ainda era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso mesmo, considero inaceitável e injusto que se pretenda agora responsabilizar pessoalmente o papa pelo que acontece. Além de ser ridículo e fora da realidade, é uma forma oportunista de jogar no descrédito toda a Igreja católica. Deve responder pelos seus atos perante Deus e a sociedade quem os praticou. Como disse São Paulo: Examine-se cada um a si mesmo. E quem estiver de pé, cuide para não cair!

A Igreja é como um grande corpo; quando um membro está doente, todo o corpo sofre. O bom é que os membros sadios, graças a Deus, são a imensa maioria! Também do clero! Por isso, ela será capaz de se refazer dos seus males, para dedicar o melhor de suas energias à Boa Notícia: para confortar os doentes, visitar os presos nas cadeias, dar atenção aos abandonados nas ruas e debaixo dos viadutos; para ser solidária com os pobres das periferias urbanas, das favelas e cortiços; ela continuará ao lado dos drogados e das vítimas do comércio de morte, dos aidéticos e de todo tipo de chagados; e continuará a acolher nos Cotolengos criaturas rejeitadas pelos “controles de qualidade” estéticos aplicados ao ser humano; a suscitar pessoas, como Dom Luciano e Dra. Zilda Arns, para dedicarem a vida ao cuidado de crianças e adolescentes em situação de risco; e, a exemplo de Madre Teresa de Calcutá, ainda irá recolher nos lixões pessoas caídas e rejeitadas, para lavar suas feridas e permitir-lhes morrer com dignidade, sobre um lençol limpo, cercadas de carinho. Continuará a mover milhares de iniciativas de solidariedade em momentos de catástrofes, como no Haiti; a estar com os índios e camponeses desprotegidos, mesmo quando também seus padres e freiras acabam assassinados.

E continuará a clamar por justiça social, a denunciar o egoísmo que se fecha às necessidades do próximo; ainda defenderá a dignidade do ser humano contra toda forma de desrespeito e agressão; e não deixará de afirmar que o aborto intencional é um ato imoral, como o assassinato, a matança nas guerras, os atentados e genocídios. E sempre anunciará que a dignidade humana também requer comportamentos dignos e conformes à natureza, também na esfera sexual; e que a Lei de Deus não foi abolida, pois está gravada de maneira indelével na coração e na consciência de cada um.

Mas ela o fará com toda humildade, falando em primeiro lugar para si mesma, bem sabendo que é santa pelo Santo que a habita, e pecadora em cada um de seus membros; todos são chamados à conversão constante e à santidade de vida. Não falará a partir de seus próprios méritos, consciente de trazer um tesouro em vasos de barro; mas, consciente também de que, apesar do barro, o tesouro é precioso; e quer compartilhá-lo com toda a humanidade. Esta é sua fraqueza e sua grandeza!

Cardeal Odilo Pedro Scherer é Arcebispo da Arquidiocese de São Paulo/SP.

Carta aberta de Hans Küng aos bispos católicos de todo o mundo

Em carta aberta aos bispos católicos de todo o mundo, o teólogo suíço Hans Küng qualifica o pontificado de Bento XVI como o das oportunidades perdidas. No quinto aniversário do pontificado de Bento XVI, Küng pede ao clero que reaja diante da crise da Igreja, aprofundada pelos abusos a menores.

Hans Küng é professor emérito de Teologia Ecumênica na Universidade de Tübingen (Alemanha) e presidente do Projeto Ética Mundial. O artigo de Hans Küng está publicado no El País, 15-04-2010. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Joseph Ratzinger, atual Bento XVI, e eu, éramos, entre 1962 e 1965, os dois teólogos mais jovens do Concílio. Agora já somos os mais idosos e os únicos que seguem plenamente na ativa. Eu sempre entendi o meu trabalho teológico também como um serviço à Igreja. Por isso, preocupado com esta nossa Igreja, atolada na crise de confiança mais profunda desde a Reforma, dirijo-lhes uma carta aberta no quinto aniversário do pontificado de Bento XVI. Não tenho outra possibilidade de chegar até vocês.

Apreciei muito que o papa Bento, logo depois de sua eleição, convidasse a mim, seu crítico, para uma conversa de quatro horas, que transcorreu num clima muito amistoso. Naquele momento, isso me fez ter a esperança de que Joseph Ratzinger, meu ex-colega na Universidade de Tübingen, encontrasse apesar de tudo o caminho para uma maior renovação da Igreja e o entendimento ecumênico no espírito do Concílio Vaticano II.

Minhas esperanças, e as de tantos católicos e católicas comprometidos, infelizmente, não se realizaram, coisa que fiz saber ao papa Bento de diversas formas em nossa correspondência. Sem dúvida, cumpriu conscienciosamente suas obrigações papais cotidianas e nos brindou com três Encíclicas úteis sobre a fé, a esperança e o amor. Mas, no tocante aos grandes desafios de nosso tempo, seu pontificado se apresenta cada vez mais como o das oportunidades desperdiçadas, não como o das ocasiões aproveitadas:

– Desperdiçou-se a oportunidade de um entendimento duradouro com os judeus: o Papa reintroduziu a oração pré-conciliar em que se pede pela iluminação dos judeus e readmitiu na Igreja os bispos cismáticos notoriamente antissemitas, impulsionou a beatificação de Pio XII e só leva a sério o judaísmo como raiz histórica do cristianismo, não como uma comunidade de fé que perdura e que tem um caminho próprio para a salvação. Os judeus de todo o mundo se indignaram com o pregador pontifício na liturgia papal da Sexta-feira Santa, na qual comparou as críticas ao Papa com a perseguição antissemita.

– Desperdiçou-se a oportunidade de um diálogo assentado na confiança com os muçulmanos; é sintomático o discurso de Bento XVI em Regensburg, no qual, mal aconselhado, caricaturizou o Islã como a religião da violência e da desumanidade, atraindo assim a permanente desconfiança dos muçulmanos.

– Desperdiçou-se a oportunidade da reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o Papa afirma com toda seriedade que estes “desejavam” a religião de seus conquistadores europeus.

– Desperdiçou-se a oportunidade de ajudar os povos africanos na luta contra a superpopulação, aprovando os métodos anticoncepcionais, e na luta contra a Aids, admitindo o uso de preservativos.

– Desperdiçou-se a oportunidade de concluir a paz com as ciências modernas: reconhecendo inequivocamente a teoria da evolução e aprovando de forma diferenciada novos campos de pesquisa, como o das células-tronco.

– Desperdiçou-se a oportunidade de que também o Vaticano faça, finalmente, do espírito do Concílio Vaticano II a bússola da Igreja católica, impulsionando suas reformas.

Este último ponto, estimados bispos, é especialmente grave. Uma e outra vez, este Papa relativiza os textos conciliares e os interpreta de forma retrógrada contra o espírito dos Padres do Concílio. Inclusive se situa expressamente contra o Concílio ecumênico, que, segundo o Direito Canônico, representa a autoridade suprema da Igreja católica:

– Readmitiu incondicionalmente na Igreja os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenados ilegalmente fora da Igreja católica e que não aceitam o Concílio em aspectos fundamentais.

– Apóia com todos os meios a missa medieval tridentina e ele mesmo celebra ocasionalmente a eucaristia em latim e de costas para os fiéis.

– Não leva a cabo o entendimento com a Igreja anglicana, assinado em documentos ecumênicos oficiais (ARCIC). Ao contrário, procura atrair para a Igreja católico-romana sacerdotes anglicanos casados renunciando a aplicar a eles o voto do celibato.

– Reforçou os poderes eclesiais contrários ao Concílio com a nomeação de altos cargos anticonciliares (na Secretaria de Estado e na Congregação para a Liturgia, entre outros) e bispos reacionários em todo o mundo.

O Papa Bento XVI parece afastar-se cada vez mais da grande maioria do povo da Igreja, que de todas as formas se ocupa cada vez menos de Roma e que, no melhor dos casos, ainda se identifica com sua paróquia e seus bispos locais.

Sei que alguns de vocês sofrem com o fato de que o Papa se veja plenamente respaldado pela cúria romana em sua política anticonciliar. Esta procura sufocar a crítica no episcopado e na Igreja e desacreditar por todos os meios os críticos. Com uma renovada exibição de pompa barroca e manifestações de efeito caras aos meios de comunicação, Roma trata de exibir uma Igreja forte com um “representante de Cristo” absolutista, que reúne em suas mãos os poderes legislativo, executivo e judiciário. Entretanto, a política de restauração de Bento fracassou. Todas as suas aparições públicas, viagens e documentos não são capazes de modificar, no sentido da doutrina romana, a postura da maioria dos católicos em questões controversas, especialmente em matéria de moral sexual. Nem sequer os encontros do Papa com a juventude, de que participam sobretudo agrupações conservadoras carismáticas, conseguem frear os abandonos da Igreja nem despertar mais vocações sacerdotais.

Exatamente vocês, como bispos, lamentam profundamente: desde o Concílio, dezenas de milhares de sacerdotes abandonaram sua vocação, sobretudo devido à lei do celibato. A renovação sacerdotal, assim como também a de membros de ordens, de irmãs e irmãos leigos, decaiu tanto quantitativa como qualitativamente. A resignação e a frustração se estendem no clero, precisamente entre os membros mais ativos da Igreja. Muitos se sentem abandonados em suas necessidades e sofrem pela Igreja. Pode ser que esse seja o caso em muitas de suas dioceses: cada vez mais igrejas, seminários e paróquias vazios. Em alguns países, devido à falta
de sacerdotes, finge-se uma reforma eclesial e as paróquias são obrigadas a se fundirem, muitas vezes contra a sua vontade, constituindo gigantescas “unidades pastorais” nas quais os poucos sacerdotes estão completamente assoberbados de tarefas.

E agora, às muitas tendências de crise ainda são adicionados escândalos que clamam aos céus: sobretudo o abuso de milhares de meninos e jovens por clérigos – nos Estados Unidos, Irlanda, Alemanha e outros países –, relacionado a uma crise de liderança e confiança sem precedentes. Não se pode silenciar que o sistema de ocultamento posto em prática em todo o mundo diante dos crimes sexuais dos clérigos foi dirigido pela Congregação para a Fé romana do cardeal Ratzinger (1981-2005), na qual, já sob João Paulo II, foram reunidos os casos sob o mais estrito segredo. Ainda em 18 de maio de 2001, Ratzinger enviava um escrito solene sobre os crimes mais graves (Epistula de delitos gravioribus) a todos os bispos. Nela, os casos de abusos se situavam sob o secretum pontificium, cuja revelação pode atrair severas penas canônicas. Com razão, pois, são muitos os que pedem um mea culpa pessoal do então prefeito e atual Papa. Entretanto, na Semana Santa perdeu a ocasião de fazê-lo. Em vez disso, no Domingo de Ramos moveu o decano do colégio cardinalício a levantar urbi et orbe testemunho de sua inocência.

As consequências de todos estes escândalos para a reputação da Igreja católica são devastadoras. Isto é algo que também já foi confirmado por dignitários de alto escalão. Inúmeros padres e educadores de jovens irrepreensíveis e sumamente comprometidos sofrem sob uma suspeita generalizada. Vocês, estimados bispos, devem colocar-se a pergunta de como serão as coisas no futuro em nossa Igreja e em suas dioceses. Contudo, não queria esboçar um programa de reforma; já fiz isso em repetidas ocasiões, antes e depois do Concílio. Apenas queria colocar-lhes seis propostas que, na minha convicção, serão respaldadas por milhões de católicos que carecem de voz.

1. Não calar: em vista de tantas e tão graves irregularidades, o silêncio torna vocês cúmplices. Ali onde consideram que determinadas leis, disposições e medidas são contraproducentes, deveriam, ao contrário, expressá-lo com a maior franqueza. Não enviem a Roma declarações de submissão, mas demandas de reforma!

2. Acometer reformas: na Igreja e no episcopado são muitos os que se queixam de Roma, sem que eles mesmos façam alguma coisa. Mas hoje, quando numa diocese ou paróquia não se vai à missa, quando o trabalho pastoral é ineficaz, quando a abertura às necessidades do mundo limitada, ou quando a cooperação é mínima, não se pode culpar sem mais Roma. Bispo, sacerdote ou leigo, todos e cada um devem fazer algo para a renovação da Igreja em seu âmbito vital, seja maior ou menor. Muitas grandes coisas nas paróquias e na Igreja inteira aconteceram graças à iniciativa de indivíduos ou de pequenos grupos. Como bispos, vocês devem apoiar e alentar tais iniciativas e atender, agora mesmo, as queixas justificadas dos fiéis.

3. Agir colegiadamente: depois de um debate vivo e contra a sustentada oposição da cúria, o Concílio decretou a colegialidade do Papa e dos bispos no sentido dos Atos dos Apóstolos, onde Pedro também não agia sem o colégio apostólico. No entanto, na época pós-conciliar os papas e a cúria ignoraram esta decisão central do Concílio. Desde que o Papa Paulo VI, já no segundo ano do Concílio, publicara uma Encíclica em defesa da discutida lei do celibato, voltou a se exercer a doutrina e a política papal ao estilo antigo, não colegiado. Inclusive na liturgia o Papa é apresentado como autocrata, em relação a quem os bispos, dos quais gosta de se rodear, aparecem como comparsas sem voz nem voto. Portanto, vocês não deveriam, estimados bispos, agir só como indivíduos, mas em comunidade com os demais bispos, com os sacerdotes e com o povo da Igreja, homens e mulheres.

4. A obediência ilimitada só se deve a Deus: todos vocês, ao serem consagrados como bispos, juraram obedecer incondicionalmente ao Papa. Mas vocês sabem igualmente que nunca se deve obediência ilimitada a uma autoridade humana, só a Deus. Por isso, o voto de vocês não deve impedi-los de dizer a verdade sobre a atual crise da Igreja, de suas dioceses e de seus países. Seguindo em tudo o exemplo do apóstolo Paulo, que enfrentou Pedro e teve que se opor “a ele abertamente, pois assumira uma atitude errada” (Gl 2, 11)! Uma pressão sobre as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser legítima quando estas não concordam com o espírito do Evangelho e sua mensagem. A utilização da linguagem vernacular na liturgia, a modificação das disposições sobre os matrimônios mistos, a afirmação da tolerância, a democracia, os direitos humanos, o entendimento ecumênico e tantas outras coisas só serão alcançados pela tenaz pressão vinda de baixo.

5. Buscar soluções regionais: é frequente que o Vaticano faça ouvidos moucos a demandas justificadas do episcopado, dos sacerdotes e dos leigos. Com tanto maior razão se deve buscar de forma inteligente soluções regionais. Um problema especialmente espinhoso, como vocês sabem, é a lei do celibato, proveniente da Idade Média e que está sendo questionado com razão em todo o mundo precisamente no contexto dos escândalos por abusos sexuais. Uma modificação contra a vontade de Roma parece praticamente impossível. Contudo, isto não nos condena à passividade: um sacerdote que depois de madura reflexão pensa em se casar não tem que renunciar automaticamente ao seu estado se o bispo e a comunidade o apoiarem. Algumas conferências episcopais poderiam proceder a uma solução regional, mesmo que fosse melhor chegar a uma solução para a Igreja em seu conjunto. Portanto:

6. Exigir um Concílio: assim como se requereu um Concílio ecumênico para a realização da reforma litúrgica, da liberdade religiosa, do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, o mesmo acontece com o problema da reforma, que irrompeu agora de forma dramática. O Concílio reformista de Constança, no século anterior à Reforma, aprovou a realização de Concílios a cada cinco anos, disposição que, contudo, foi ignorada pela cúria romana. Sem dúvida, esta fará agora quanto estiver ao seu alcance para impedir um Concílio do qual deve temer uma limitação de seu poder. Em todos vocês está a responsabilidade de impor um Concílio ou ao menos um sínodo episcopal representativo.

A convocação que lhes dirijo em vista desta Igreja em crise, estimados bispos, é que vocês coloquem na balança a autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta situação de necessidade, os olhos do mundo estão postos em vocês. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja católica. A recuperação só valerá a pena se os problemas e as consequentes reformas forem abordados de forma franca e honrada. Peço-lhes, com todo o respeito, que contribuam com o que estiver ao seu alcance, quando for possível em cooperação com o resto dos bispos; mas, se for necessário, também individualmente, com “coragem” apostólica (At 4, 29-31). Deem aos seus fiéis sinais de esperança e alento e à nossa Igreja uma perspectiva.

Saúdo vocês na comunhão da fé cristã, Hans Küng.

Confrontos por terra tornaram-se mais frequentes no governo Lula

De acordo com estudo divulgado ontem pela Comissão Pastoral da Terra, foi de 929 a média anual de conflitos registrados entre os anos de 2003, quando presidente assumiu o primeiro mandato, e 2009. Era FHC registrou índice de 800

Nos últimos 25 anos, o período com o maior número de conflitos agrários no País foi o do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com estudo divulgado ontem pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), a média anual de conflitos registrados entre 2003, quando Lula assumiu, e 2009 chegou a 929.

O recorde anterior havia sido observado no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, com a média de 800 conflitos por ano. “O período entre 2003 e 2009 é claramente o de maior conflitividade desde o início da redemocratização do País, em 1985”, disse o geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves, pesquisador da Universidade Federal Fluminense e autor do estudo que aponta o grau de tensão no campo em diferentes fases da história recente do País.

Assessor do setor de documentação da CPT, Porto-Gonçalves lastreou seu trabalho em séries estatísticas produzidas pela instituição. Para fazer sua análise, ele dividiu a história recente do País em cinco períodos – de acordo com ciclos de ações dos movimentos sociais e da vida democrática. O primeiro, de 1985 a 1990, é o período imediatamente após a ditadura militar, quando a violência no campo atinge o maior volume de assassinatos já registrado na história recente. Foram quase 130 mortes por ano naquela época, quando existia uma grande expectativa de mudança, em meio aos debates da Assembleia Constituinte.

No segundo período, de 1991 a 1995, a democracia se consolida e os movimentos de sem-terra ganham força. O terceiro período dura de 1996 a 2000. É quando, sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, os sem-terra se tornam mais ousados e promovem a maior onda de invasões de terras já registrada.

O quarto período envolve os dois últimos anos do mandato de Fernando Henrique, que, para conter a onda de invasões, baixou uma medida provisória que tornava indisponíveis para a reforma agrária as propriedades rurais invadidas pelos sem-terra. O ato provocou um refluxo nas invasões e fez a média anual de conflitos cair de 800 para 536.

O último período é o que trata do governo Lula, quando a medida provisória do governo anterior é praticamente ignorada e as invasões aumentam – assim como as reações dos proprietários rurais e da máquina do Estado, especialmente o Judiciário. A média anual de famílias despejadas quase dobrou, passando de 11.781 nos dois últimos anos do governo Fernando Henrique para 22 mil nos 7 anos do governo Lula.

Na avaliação de Porto-Gonçalves, esse aumento das tensões na zona agrária nos últimos sete anos tem uma correlação direta com o avanço da democracia.

Despejo. “A eleição de Lula, um operário ligado ao Partido dos Trabalhadores, significou a afirmação do processo de redemocratização, criou enormes expectativas de mudanças e, ao mesmo tempo, açulou o medo das oligarquias rurais, que passaram a reagir com maior intensidade e mais violência”, disse o pesquisador. “Mas não foi só a violência do poder privado que aumentou. No período recente houve um crescimento notável no número de famílias despejadas de áreas ocupadas, o que significa que a violência do poder público também aumentou.”

Os números da pesquisa foram apresentados em São Paulo, durante evento organizado para marcar os 25 anos de séries estatísticas da CPT sobre conflitos no campo. Na ocasião, o presidente da comissão, bispo Ladislau Biernaski, também divulgou o relatório de 2009 – indicando que a tensão aumentou em relação a 2008. O número de conflitos, envolvendo invasões, mortes, despejos e outros acontecimentos, subiu de 1.170 para 1.184.

O bispo anunciou ainda que a CPT vai apoiar em setembro a realização de plebiscito para saber se a população aprova ou não a ideia de impor um limite ao tamanho da propriedade rural no País.