Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno
O ônus da prova
Na Argentina, a Justiça do estado de Santa Fé acaba de tomar uma decisão inédita: determinou, em sentença definitiva, a proibição do uso de glifosato em fumigações agrícolas nas zonas urbanas da cidade de San Jorge. Quase todo o glifosato usado no país é produzido pela Monsanto, maior fabricante mundial de sementes transgênicas e de produtos agroquímicos.
A sentença da Justiça de Santa Fé trouxe ainda uma novidade significativa: deu ao governo estadual e à Universidade Nacional do Litoral o prazo de seis meses para que se comprove que os agroquímicos (evitou-se o uso de “agrotóxicos”) não são prejudiciais à saúde. Assim, inverteu o ônus da prova: até agora, os afetados (em sua imensa maioria pequenos camponeses de escassos recursos) é que tinham de provar que seus padecimentos estavam relacionados ao glifosato. Ao passar para os grandes impulsionadores do modelo de agronegócios a obrigação de comprovar que os efeitos do produto químico não são prejudiciais à saúde, sentou as bases para uma nova postura judicial, com maior proteção às eventuais vítimas.
Atualmente, mais da metade (cerca de 56%) de toda a terra cultivada na Argentina está ocupada pela soja. Entre 2008 e 2009 (os dados são do ministério de Agricultura argentino), de um total de 31 milhões de hectares cerca de 17 milhões e 500 mil foram cobertos por soja. Em 2010, o cultivo chegará a 19 milhões de hectares. Um dos pilares do modelo de negócio é a soja transgênica (96% da produção), que utiliza o glifosato, cuja marca mais usada é o ‘Roundup’, fabricado pela Monsanto. O efeito desse agroquímico é radical: uma vez fumigado sobre a terra, a única coisa que cresce é a soja cuja semente também é produzida pela Monsanto. Todas as outras plantas morrem. Dados oficiais indicam que em 2009 ao menos 175 milhões de litros do produto foram espalhados na Argentina. Cientistas e pesquisadores independentes asseguram que esse cálculo é conservador: na verdade, o volume total seria de 280 milhões de litros.
Nas críticas e denúncias, uma das vozes mais contundentes é a do professor Andrés Carrasco, que em abril do ano passado confirmou, por meio de estudos rigorosos, que o glifosato pode causar efeitos devastadores, provocando má-formação genética, deformação em embriões e alterações nas células. Em contato com o produto, o ser humano pode sofrer conseqüências como aborto espontâneo, ou gerar crianças com deformações que vão de acefalia e lábio leporino a mutilações de membros, além de distúrbios respiratórios. Também elevado é o risco de desenvolver diferentes tipos de câncer, especialmente linfoma e leucemia. Diretor do Laboratório de Embriologia Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, o professor Carrasco declarou que, graças ao silêncio e à omissão de diferentes governos (a começar pelo de Carlos Menem), seu país havia se transformado “no mais extenso campo de experimentação biotecnológica do mundo”.
Carrasco não foi o único cientista a denunciar esses efeitos. Ao menos outros quatro pesquisadores de prestígio indiscutível apontaram os graves riscos causados pelos agroquímicos e as sementes transgênicas. Os principais defensores da tese que esses produtos são inócuos são as federações do agronegócio e de produtores rurais, que esgrimem alguns relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO em inglês). A Justiça do estado argentino de Santa Fé ressaltou, porém, que há anos cientistas de todo o mundo criticam esses relatórios, que não se baseiam em estudos próprios ou independentes, mas nos que foram elaborados pelas empresas produtoras de agroquímicos e sementes geneticamente modificadas.
A sentença agora ditada pela Câmara de Apelações de Santa Fé significa uma profunda reviravolta nos rumos desse embate entre os críticos do uso de agrotóxicos, cujos efeitos sobre a vida foram comprovados em exames rigorosos, e os defensores de seu uso, pilar principal do modelo de agronegócio argentino. Acredita-se que o próximo passo será estender a todo o estado de Santa Fé a medida que agora se restringe à zona urbana da cidade de San Jorge, cujos 25 mil habitantes vivem a uns 140 quilômetros da capital estadual. A denúncia que deu origem ao processo partiu de um pequeno grupo de camponeses e moradores da área rural, e teve uma primeira sentença favorável em março do ano passado. De imediato os produtores de soja, a prefeitura local e o governo do Estado recorreram. O recurso foi julgado e teve sentença definitiva: fica proibida a fumigação terrestre a menos de 800 metros de moradias familiares, e a aspersão aérea a 1.500 metros.
A transformação mais radical está justamente na transferência do ônus da prova. Até agora, os queixosos (indígenas, camponeses, moradores da periferia urbana) tinham que comprovar cientificamente que os agroquímicos prejudicaram sua saúde. Esse, aliás, tem sido o principal ponto de defesa tanto do fabricante dos produtos como das autoridades estaduais, pressionadas pelos grandes conglomerados do agronegócio, em todo o país. Todos afirmam, em uníssono, que as denúncias eram falhas pois, antes de decidir qualquer tipo de proibição, os queixosos deveriam levar aos tribunais provas incontestáveis de que os efeitos dos produtos agroquímicos sobre a saúde e o meio ambiente são prejudiciais. De nada adiantavam estudos rigorosos e independentes, uma vez que não haviam sido encomendados pelos autores das denúncias levadas aos tribunais.
Agora caberá às autoridades estaduais e à Universidade Nacional comprovar que o glifosato não é o responsável pelos danos apontados. O mais curioso é que o governador de Santa Fé, Hermes Binner, é médico. Será do seu governo o ônus de mostrar que todos os casos de queixas registrados no pequeno município de San Jorge, cuja área é totalmente ocupada por plantações de soja, não têm nada a ver com a quantidade do glifosato espalhada sobre campos e população.
Estudo liga 'visões antes da morte' a altos níveis de CO2 no sangue
Cientistas acreditam ter encontrado a explicação para os relatos feitos por pessoas que estiveram perto da morte, de visões como uma “luz no fim do túnel” ou de imagens dos momentos vividos desfilando como um filme diante dos olhos.
A equipe da Universidade de Maribor, na Eslovênia, examinou as informações de 52 pacientes durante o momento de uma parada cardíaca, e concluiu que esses fenômenos se devem aos altos níveis de dióxodo de carbono (CO2) presentes no sangue naquele exato momento, por conta da suspensão da respiração.
Os níveis elevados deste composto químico foram registrados em 11 pacientes que relataram ter vivido experiências do tipo, segundo um artigo na revista científica Critical Care.
Os pesquisadores não encontraram nenhum padrão associado a sexo, idade, nível de educação, credo, medo da morte, medo da recuperação ou drogas subministradas durante o ressuscitamento.
Entre as experiências relatadas por pacientes que estiveram próximos da morte estão a visão de um túnel ou uma luz forte, uma entidade mística e até a sensação de “sair do próprio corpo”. Outros relatam apenas uma sensação de paz e tranquilidade
Na cultura popular, esses fenômenos são atribuídos à religião ou às drogas. Mas, para a equipe eslovena, o estudo oferece uma explicação mais consolidada de por que tantos pacientes que sobrevivem a uma parada cardíaca relatam estas sensações.
Estima-se que entre 10% e 25% dos pacientes que sofrem de paradas cardíacas vivenciam algo semelhante.
A anoxia – a morte de células do cérebro em consequência da falta de oxigênio – é uma das principais teorias para explicar as experiências vividas em momentos de morte iminente. Mas este efeito foi estatisticamente insignificante no pequeno grupo de onze pacientes que as vivenciaram no estudo esloveno.
Em compensação, os níveis de CO2 no sangue destes pacientes foi muito mais alto que no resto dos pacientes da pesquisa.
Outros experimentos já mostraram que inalar dióxodo de carbono pode levar alucinações similares às relatadas em momentos de morte iminente.
O que a equipe ainda não sabe, porém, é se estes altos níveis de CO2 se devem à parada cardíaca ou se já eram registrados antes do fenômeno.
“Esta é potencialmente outra peça do quebra-cabeças. Precisamos de mais pesquisas”, disse a pesquisadora que coordenou o estudo, Zalika Klemenc-Ketis.
“Experiências de quase morte nos fazem questionar nossa compreensão da consciência humana, portanto, quanto mais, melhor.”
O cardiologista Pim van Lommel, que há anos estuda fenómenos semelhantes, descreveu as conclusões como “interessantes”.
“Mas eles não encontraram a causa, apenas uma associação. Acho que isto permanecerá um dos grandes mistérios da humanidade”, disse.
“As ferramentas que os cientistas possuem simplesmente não são suficientes para explicá-los.”
OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE
OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE
Longa-metragem de Esmir Filho
Nada se mostra muito definido em Os Famosos e os Duendes da Morte, a começar pelo título enigmático do primeiro longa de Esmir Filho, em cartaz a partir da sexta-feira 2. Seu protagonista “sem nome” (Henrique Larré), garoto órfão de pai e arredio, redige um diário na internet e conta com uma interlocutora misteriosa. Parece o modelo urbano atual de convivência entre os jovens nas grandes cidades, mas o cenário é um vilarejo do Rio Grande do Sul povoado por alemães, onde todos se conhecem. Eles encaram como acidente os seguidos suicídios na ponte local.
É dessa realidade que o adolescente de 17 anos procurará fugir, sem empenhar-se. Da mesma forma anuncia a um dos poucos amigos a intenção de assistir a um show do ídolo Bob Dylan. Assim como a bruma que cobre a cidadezinha, os personagens seguem tomados por uma imobilidade estranha. O tom de estranhamento encerra boa parte do estímulo pela história contada a partir do romance autobiográfico de Ismael Caneppele. No mais, trata-se de abordar as descobertas naturais de um período da vida de transformações. Esmir disse ter feito um filme sobre jovens e para jovens. A opção pelo universo virtual no filme firma esse contrato. Seu talento, embrulhado no figurino “emo” do movimento emotional hardcore, parece ser mais do que um arroubo juvenil.
Pedofilia X Antisemitismo

Comparar as críticas ao papa Bento XVI pelos casos de padres pedófilos com o antissemitismo “não é a linha do Vaticano”, afirmou o porta-voz Federico Lombardi, em relação às palavras do Predicador da Casa Pontifícia, o franciscano Raniero Cantalamessa, durante a celebração da Paixão do Senhor na Sexta-Feira Santa.
Lombardi, em uma declaração publicada neste sábado pela Rádio Vaticano, afirmou que “assemelhar os ataques a Bento XVI pelos escândalos de abusos sexuais de sacerdotes a crianças com o antissemitismo não é a linha mantida pela Santa Sé”.
O porta-voz acrescentou que o predicador da Casa Pontifícia só quis tornar pública a solidariedade ao pontífice expressada por um judeu, tendo em conta “a experiência de dor sofrida por eles”. “Foi uma citação que pode dar pé a más interpretações”, reconheceu Lombardi.
Os talebans cristãos
Em 29 de março, nove integrantes da milícia fundamentalista cristã Hutaree, de Michigan, foram acusados e oito presos (um, filho do líder, está foragido) por conspirar para provocar um “conflito armado” com o governo. Seus planos incluíam assassinar um policial e matar vários de seus colegas no funeral, usando explosivos.
É uma das “milícias patrióticas”, cujo número saltou de 42 em 2008 para 127 em 2009, pontas de lança dos grupos radicais de direita, cujo total cresceu de 1.248 para 1.753 no mesmo perío-do. Sua página na internet cita a Bíblia para justificar o levantamento armado como preparação para o fim do mundo e prega uma “República Colonial Cristã”. Formações menos violentas incluem o grupo extremista cristão “Arrependa-se Amarillo”, apelidado “Taleban do Texas”, que assedia gays, pagãos, quiromantes, metaleiros e “swingers” com a cumplicidade da polícia local.
Tais movimentos são instigados por políticos como Sarah Palin, que recomendou “não recuar, mas recarregar e mirar” nos democratas, e comunicadores como Glenn Beck, da Fox News, que aterroriza os ingênuos fantasiando sobre socialismo e campos de concentração de Obama e promete para junho um romance sobre um grupo chamado “Guardiães dos Fundadores (dos EUA)”, que lidera uma guerra civil nos EUA e “vira o mundo de cabeça para baixo”.
Humanidade não pode salvar o planeta, afirma criador da Teoria de Gaia
Mudar os hábitos para tentar salvar o planeta é “uma bobagem”, na opinião de um dos mais conceituados especialistas em meio ambiente no mundo, o britânico James Lovelock, para quem a Terra, se for salva, será salva por ela mesma.
“Tentar salvar o planeta é bobagem, porque não podemos fazer isso. Se for salva, a Terra vai se salvar sozinha, que é o que sempre fez. A coisa mais sensível a se fazer é aproveitar a vida enquanto podemos”, afirmou Lovelock em entrevista à BBC.
O cientista de 90 anos é autor da Teoria de Gaia, que considera o planeta como um superorganismo, no qual todas as reações químicas, físicas e biológicas estão interligadas e não podem ser analisadas separadamente.
Considerado um dos “mentores” do movimento ambientalista em todo o mundo a partir dos anos 1970, Lovelock é também autor de ideias polêmicas como a defesa do uso da energia nuclear como forma de restringir as emissões de carbono na atmosfera e combater as mudanças climáticas.
Gatilho
Para Lovelock, a humanidade não “decidiu aquecer o mundo deliberadamente”, mas “puxou o gatilho”, inadvertidamente, ao desenvolver sua civilização da maneira como conhecemos hoje.
“Com isso, colocamos as coisas em movimento”, diz ele, acrescentando que as reações que ocorrem na Terra em consequência do aquecimento, entre elas a liberação de gases como dióxido de carbono e metano, são mais poderosas para produzir ainda mais aquecimento do que as próprias ações humanas.
Segundo ele, no entanto, o comportamento do clima é mais imprevisível do que pensamos e não segue necessariamente os modelos de previsão formulados pelos cientistas.
“O mundo não muda seu clima convenientemente de acordo com os modelos de previsões. Ele muda em saltos, como vemos. Não houve aumento das temperaturas em nenhum momento neste século. E tivemos agora um dos invernos mais frios em muito tempo em todo o hemisfério norte”, diz Lovelock.
Energias renováveis
Durante a entrevista à BBC, o cientista britânico afirmou ainda não ver sentido na busca de alguns hábitos de consumo diferentes ou no desenvolvimento de energias renováveis como forma de conter as mudanças climáticas.
“Comprar um carro que consome muita gasolina não é bom porque custa muito dinheiro para manter, mas essa motivação é provavelmente mais sensata do que a de tentar salvar o planeta, que é uma bobagem”, diz.
Para Lovelock, a busca por formas de energia renováveis é “uma mistura de ideologia e negócios”, mas sem “uma boa engenharia prática por trás”.
“A Europa tem essas enormes exigências sobre energias renováveis e subsídios para energia renovável. É um bom negócio, e não vai ser fácil parar com isso, mas não funciona de verdade”, afirma.
Futebol filosófico

Gosto de futebol. Gostava de jogar… Coisa que, infelizmente, não posso mais fazer por problemas físicos. E até que não era tão ruim em campo. Fui “centroavante” (os mais novos talvez nem saibam o que é isso!) do Aimoré – não o de São Leopoldo, mas o de Vila Flores – durante vários anos. Bons tempos…
Agora, o que me resta, é assistir os jogos, de preferência os de campeonatos europeus, onde estão os melhores jogadores brasileiros. O Campeonato Brasileiro até que está resgatando um pouco de sua dignidade na medida em que vai se consolidando o sistema de pontos corridos e alguns clubes começam a ter um planejamento a longo prazo, tipo São Caetano, o ex-Grêmio Barueri e o São Paulo.
Aqui no Rio Grande do Sul, o que resta é o futebol de várzea. Ir a um campinho – os que ainda existem – na periferia de Porto Alegre ou de qualquer outra cidade do interior, é a única possibilidade de se ver um futebol agradável, divertido e de paixão.
Mas o que queria comentar aqui são frases pronunciadas nestes últimos dias por dois jogadores do Internacional.
Uma, a do atacante (ia escrever “centroavante”, mas isso já não existe mais…) Walter, do Internacional. Tentando explicar o seu sumiço, disse que foi por não estar sendo valorizado. Estava ganhando “só” quinze mil reais por mês… Indagado pelo repórter sobre se esta quantia não era suficiente, ele respondeu que “quanto mais se ganha, mais se precisa”!
Não sei se o Walter – que, diga-se de passagem, é um excelente jogador – fez a afirmação pensando em toda a sua consistência. Consciente ou não, ele desvelou o coração do sistema capitalistan que reside em acumular infinitamente tudo o que é possível acumular. E até o que é impossível acumular, como alegria, prazer, amizade e felicidade. E, como o sistema nos faz pensar que tudo pode ser comprado com dinheiro, precisamos dele sempre mais para comprar o incomprável…
A outra frase é do Andrezinho, também jogador do Internacional. Não é um jogador ruim. Nem um craque. Um mediano jogador… Excelente cobrador de faltas. O que não gosto no estilo dele é a enrolação. Falta a objetividade que tinha um Falcão, Zico ou Sócrates (dos grandes que eu vi jogar). No retorno do intervalo do jogo contra o Caxia em que o Inter perdir por 1 X 0, Andrezinho disse a um repórter que era possível virar o jogo mas que, “antes de fazer o segundo, o Inter tinha que fazer o primeiro”. A frase até hoje me intriga. Pensei muito nela e não consegui entender o que ele queria dizer. Ou temos aí um novo Aristóteles ou temos a explicação para uma das causas das dificuldades do futebol brasileiro. Me ajude o leitor a entender!…
Ex-candidato a papa defende discussão do celibato

O cardeal italiano Carlo Maria Martini, tido como uma das figuras mais carismáticas da Igreja Católica, disse em entrevista a um jornal alemão que a Igreja Católica deveria rever a obrigatoriedade do celibato para os sacerdotes.
Ao comentar os casos de abusos sexuais cometidos por padres contra menores, o cardeal Carlo Maria Martini, de 83 anos, disse que o celibato é um problema e sugere uma profunda discussão interna na Igreja Católica para reconquistar os fiéis e recuperar a credibilidade.
“Devem ser colocadas questões fundamentais, como a reavaliação da obrigatoriedade do celibato dos sacerdotes como forma de vida”, afirmou o cardeal arcebispo emérito de Milão, tido como um dos maiores especialistas da Igreja em Bíblia, na entrevista publicada no domingo no jornal Presse am Sonntag.
Carlo Maria Martini é um dos líderes da ala progressista da Igreja Católica e chegou a ser candidato a papa no conclave que elegeu Bento 16. O clérigo, que sofre há anos de Mal de Parkinson, defende a ordenação de homens casados, maior participação das mulheres na Igreja Católica e a comunhão para divorciados.
Na entrevista ao jornal alemão, Martini afirmou que a Igreja Católica deve abrir um debate interno sobretudo em relação às questões sexuais.
Martini defendeu que “questões centrais da sexualidade”, fossem colocadas em sintonia “com as gerações de hoje, com as ciências humanas e com os ensinamentos da Bíblia porque somente uma discussão aberta pode dar novamente autoridade à Igreja, levar a correções dos erros e reforçar os serviços que ela oferece aos homens.”
‘Problemas psicológicos’
A polêmica em torno do abuso de menores por padres católicos voltou à tona na semana passada, depois que o jornal americano The New York Times publicou uma reportagem dizendo que, em 1996, o cardeal Joseph Ratzinger, que veio a se tornar o papa Bento 16 em 2005, não respondeu a cartas vindas de clérigos americanos acusando um padre do Estado do Winsconsin de abusar sexualmente de até 200 menores deficientes auditivos.
Após a denúncia do The New York Times, os principais órgãos de informação da Santa Sé denunciaram a existência de um ataque maciço da imprensa que teria a intenção de atingir o papa e a Igreja Católica.
As denúncias também reacenderam as discussões sobre o celibato, que seria, segundo alguns especialistas e religiosos, uma das causas dos abusos que os padres cometem contra crianças.
O estilo de vida fechado e celibatário da Igreja Católica poderia atrair pessoas com problemas psicológicos na área da sexualidade, por isso, eles sugerem como uma das soluções para evitar abusos, que seja admitida a ordenação de homens casados.
Na opinião do presidente da Conferência Episcopal Alemã, Monsenhor Robert Zollitsch, não há relação entre pedofilia e celibato.
“De acordo com especialistas, os abusos nada têm a ver com o celibato”, afirmou o clérigo, após um recente encontro com o papa no Vaticano, para tratar das denúncias de abusos nas dioceses alemãs.
Segundo a imprensa alemã, o clero da terra natal de Bento 16 seria favorável à abolição do celibato obrigatório e pretende levantar a questão no Vaticano.
O cardeal arcebispo de Viena, Christoph Schoenborn, amigo pessoal de Bento 16, chegou a afirmar que o celibato seria uma das causas dos casos de pedofilia. Ele sugeriu que a Igreja promova uma discussão sobre a formação dos sacerdotes, o desenvolvimento da personalidade deles e também sobre o celibato.
Mas o porta-voz do cardeal desmentiu logo em seguida que fosse favorável à abolição do celibato.
O próprio papa ainda não se manifestou sobre assunto após as revelações do New York Times. Mas em um encontro com cardeais no começo de março, Bento 16 reafirmou o “valor sagrado” do celibato.
Investigação na Áustria
Schoenborn anunciou no domingo que vai criar uma comissão especial para investigar casos de abusos sexuais de menores por padres na Áustria.
A comissão será dirigida por uma mulher, a católica Waltraud Klasnic, 64 anos, e será independente e leiga. O organismo não vai atuar em contraposição ao trabalho da magistratura civil, informou o arcebispo.
O escândalo de pedofilia entre padres deve estar no centro das reflexões da Igreja Católica nos ritos da Semana Santa, que começou no domingo, com a cerimônia de Ramos.
Durante a cerimônia, o papa Bento 16 não se referiu diretamente ao escândalo mas as palavras que pronunciou na homilia aos fiéis na praça de São Pedro, no Vaticano, foram interpretadas como uma crítica velada à imprensa.
“O homem pode escolher um caminho fácil e evitar qualquer esforço. Pode ir para baixo, para o vulgar, afundar no pântano da mentira e da desonestidade”, disse o papa em seu discurso.
“Jesus caminha em nossa frente para o alto. Ele nos conduz para o que é grande e puro, para a verdade e a coragem que não se deixa intimidar pelos falatórios das opiniões dominantes, rumo à paciência que apóia e ajuda o próximo, à disponibilidade para com os sofredores e abandonados e a bondade que não se deixa desarmar nem mesmo pela ingratidão”, afirmou Bento 16.
Legionários de Cristo: desculpa pelos abusos do fundador
A congregação religiosa dos Legionários de Cristo pediu hoje perdão pelos “actos repreensíveis” do seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel, acusado de abusos sexuais e que morreu em Janeiro de 2008 com 87 anos.
“Queremos dirigir-nos a todos os que foram lesados, feridos ou chocados pelos actos repreensíveis do nosso fundador. Precisámos de tempo para assimilar os acontecimentos da sua vida. Para muitos, sobretudo para as vítimas, esse tempo foi demasiado longo e doloroso”, lê-se num comunicado desta congregação católica ultra conservadora divulgado na Internet.
“Exprimimos uma vez mais a nossa dor e o nosso pesar a todas as pessoas atingidas pelas acções do nosso fundador. Queremos pedir perdão a todas as pessoas que o acusaram no passado e em quem não acreditámos ou que não soubemos ouvir”, acrescenta.
“Condenamos os seus actos, contrários ao dever cristão, religioso e sacerdotal do padre Maciel e afirmamos que não correspondem ao modo como nos esforçamos por viver na Legião e no Regnum Christi (os legionários laicos)”, afirmam.
Este comunicado é divulgado dez dias depois de a congregação ter anunciado o fim da inspecção feita pelo Vaticano à instituição. Com base no relatório, Bento XVI decidirá as medidas a tomar.
O papa condenou em 2006 Marcial Maciel a renunciar a todas as suas responsabilidades e a “viver uma vida discreta de oração e penitência”.
A 4 de Março a congregação já tinha pedido perdão aos alegados filhos do fundador, que afirmaram ter sido também vítimas do religioso mexicano. Marcial Maciel, que foi acusado de abuso sexual de seminaristas, teve uma filha de uma relação prolongada com uma mulher e dois filhos com outra.
A congregação está estabelecida em 22 países, nomeadamente no México e em Espanha, e conta 800 padres, 2500 seminaristas e 70 000 membros laicos.
Ver video em: http://www.youtube.com/watch?v=BSfm8PRaSxc

