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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Eis o que queria dizer: é preciso saber pedir. Essa estratégia funcionou com a quadrilha de Brasília. As imagens divulgadas na TV mostram a bandidagem escondendo dinheiro no bolso, na cueca e nas meias, no episódio do mensalão, tudo isso prá quê? Oh, céus, pra comprar panetones e distribuí-los aos pobres. Estava lá o primeiro escalão do governo e o próprio governador José Roberto Arruda (DEM – vixe, vixe!), flagrados com a mão no cofre pela Policia Federal, na Operação Caixa de Pandora.

Sem qualquer escrúpulo, os sacripantas criaram um grupo de oração. As imagens são chocantes e patéticas. De mãos dadas e olhos fechados, três bandidos de colarinho branco rezam, agradecendo a Deus a “graça especial” alcançada. Com a versão candanga do Pai Nosso, impetraram um habeas corpus preventivo:

– O Panetone nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai a formação do Caixa 2, assim como nós perdoamos os outros partidos que antes de nós desviaram recursos.

Esse é o dado novo do mensalão do DEM (vixe, vixe!). Eles criaram um modus operandi inédito e despudorado: usar a reza como alavanca para arrombar cofres públicos, o que não foi registrado em nenhum lugar do mundo, nem com os dois mensalões operados pelo careca Marcos Valério: o do PSDB de MG, em 1998, e o do PT, em 2005. O Brasil é mesmo o país mais cristão do mundo. Até pra roubar, a gente reza. E na falta de cueca, esconde dólar dentro da bíblia, como fez a bispa Sônia.

Arruda já solicitou ao Papa Bento XVI a canonização de Judas Iscariotes – o que botou na ceroula trinta dinares – para sagrá-lo padroeiro da Pastoral da Propina. A Oração a São Judas Iscariotes, rezada em Brasília, diz:

– São Judas Iscariotes, apóstolo incompreendido de Cristo, eu te saúdo e te louvo, por haveres usados os 30 dinares para pagar a conta da Última Ceia, sendo injustamente acusado de vendilhão e traidor. Quero te imitar, comprometendo-me a usar o dinheiro desviado em obras sociais. E$pero alcançar a graça que imploro através de tua interce$ão. Amém.

No Amazonas, surgiram vários grupos de oração. Um deles, com os agentes de pastoral Amazonino Mendes, Carijó, os irmãos Souza e Orleir Messias Cameli, do Acre. O outro com Dudu Braga, Belão, Mello e Adair, todos eles rezando a versão regional do Pai Nosso:

– A Pupunha nossa de cada dia, nos dai hoje.

Todos esses agentes da Pastoral usam cuecas com seis bolsos sanfonados, três na frente e três atrás.

Com a voz embargada, Arruda disse que confia na Justiça. Todos eles confiam. Pudera! Até eu! Na reeleição para governador de Minas, no século passado, mais precisamente em 1998, Eduardo Azeredo (PSDB) montou esquema de desvio de dinheiro e só agora, no dia 3 de dezembro, é que o STF, em votação apertada, abriu ação penal para investigar as denúncias. A defesa dele vai apresentar “embargo de declaração”, e não há previsão de quando deve começar a ação penal. Eu falei começar, porque onze anos depois do crime, ela ainda não começou.

Mais chocante ainda do que a imagem da bandidagem rezando e desmoralizando a oração, é a anestesia quase geral da nação e a impunidade desse tipo de crime. Nesse sentido, o que ainda nos salva é a invasão e ocupação da Assembléia Legislativa de Brasília pelos meninos do PSOL. Quem diria: na continuidade da ação desses meninos repousa a nossa esperança e o nosso destino!

Proibição de minaretes na Suíça

A aprovação de uma medida a favor da proibição da construção de minaretes na Suíça, votada em referendo no domingo, provocou reações dentro e fora do país.

Pouco mais de 57% dos eleitores suíços se manifestaram contra a construção das pequenas torres nas mesquitas de onde se anuncia a hora das orações.

A proposta havia sido apresentada pelo Partido do Povo (SVP), de direita, que tem maioria no Parlamento e argumenta que as torres das mesquitas são um sinal de “islamização” da Suíça.

Mas o governo suíço, do Partido Social-Democrático (SPS), havia feito nos últimos dias um apelo para que a população votasse contra a proibição.

Na terça-feira, a ministra das Relações Exteriores da Suíça, Micheline Calmy-Rey, comentou que o resultado da votação é um revés para a coexistência das diferentes culturas e religiões no país, e pode se tornar uma ameaça à segurança.

Ela ponderou que a decisão do referendo não deve afetar as relações do país com nações muçulmanas, mas o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, condenou a decisão.

Erdogan afirmou que o referendo é reflexo de “ondas de racismo e nacionalismo extremo crescente na Europa”. Ele pediu ainda que o “erro” seja corrigido “o mais rapidamente possível”.

As Nações Unidas também criticaram o referendo. Segundo a chefe do setor de direitos humanos da ONU, Navi Pillay, a medida é “discriminatória” e “profundamente divisora”.

Quem polui mais?

O Burundi é um dos países com o menor índice de poluição per capita do planeta. Uma pessoa nos Estados Unidos polui o planeta quase 400 vezes mais do que um burundiano, segundo dados do governo americano.

Em média, cada americano emite 19,78 toneladas de metro cúbico de CO2 por ano, de acordo com estatísticas da agência americana de energia Energy Information Administration. No Burundi, a emissão per capita anual é de apenas 0,05 toneladas.

Alguns fatores explicam porque o índice de emissões de CO2 é tão baixo no país. Em primeiro lugar, o Burundi ainda é um país essencialmente rural, com baixa atividade industrial. Em segundo lugar, o consumo de bens e comidas no país é baixíssimo, já que o Burundi é um dos países mais pobres do planeta.

O terceiro fator é uma certa distorção nos dados de emissões de CO2, que não levam em conta o desmatamento, um problema cada vez mais comum no país.

País rural

Com população total de 8,7 milhões de pessoas, o Burundi ainda é essencialmente um país rural. Menos de 4% da população total do país vive em Bujumbura, a capital e maior cidade. Apenas 10% das pessoas vivem em meios urbanos, onde estão concentradas as poucas indústrias do país.

A grande maioria dos burundianos vive no campo. Mais de 90% das pessoas vivem da agricultura de subsistência, plantando os alimentos que comem e vendendo o pequeno excedente em mercados e nas ruas. Com exceção de algumas grandes plantações de chá e café no norte do país, que respondem quase que exclusivamente pelas exportações do Burundi, todo o país funciona à base da agricultura de subsistência.

O resultado disso é que os alimentos são baratos e geram pouco CO2 no ambiente. Os agricultores plantam os alimentos para consumo próprio em terras alugadas. O excedente dos alimentos é vendido para o dono da terra, em pequenos mercados de rua ou de porta em porta na capital.

Mãe e crianças vendendo comida

Durante o dia, as ruas de cidades como Bujumbura são tomadas por vendedores ambulantes de alimentos diversos como ovos, bananas e mangas. O transporte do alimento até o consumidor final também é ecológico, já que os ambulantes andam a pé ou de bicicleta.

Também não há emissão de CO2 por estocagem de alimentos em frigoríficos. Os burundianos praticamente só consomem frutas e verduras da estação a preços baixos. Uma manga vendida no outono, por exemplo, custa cerca de US$ 0,20. Nos Estados Unidos, o preço da mesma fruta – vendida o ano todo – pode ultrapassar U$ 2,00 a unidade. Parte do custo é atribuída ao transporte e estocagem do produto.

País pobre

A economia do Burundi ainda é o principal fator que faz com que o país tenha um baixo índice de emissões de CO2 per capita. Tanto na lista do FMI como do Banco Mundial, o Burundi tem a menor renda per capita nominal do planeta. A renda mensal média de cada burundiano é de pouco mais de US$ 9.

A economia do país já era uma das mais frágeis do mundo no começo dos anos 90, quando estourou a guerra civil no país. O Burundi passou por dez anos de declínio econômico, devido à guerra e a embargos comerciais de outros países da região. Nesse período, a renda per capita anual do Burundi desabou de US$ 180, em 1993, para US$ 110, em 2007, segundo dados do Banco Mundial.

Como resultado, mesmo as famílias com melhor renda no país não têm acesso a bens de consumo, como computadores e máquinas de lavar. É o caso de Willy Rwankineza e Espérance Iradukunda, uma família de classe média visitada pela BBC Brasil (assista ao vídeo).

O consumo de energia – um dos principais responsáveis por emissões de CO2 – também é baixo no Burundi, e boa parte da matriz energética do país é hidrelétrica, que gera pouco gás carbônico. A casa de Willy e Espérance, onde moram outras seis pessoas, consome cerca de 120 kWh mensais e paga menos de US$ 5 de conta de luz.

E mesmo assim, o consumo é limitado, já que não há energia no país para todos e o Burundi passa por uma grave crise energética. A luz é desligada diariamente das 22h às 6pm. A geladeira da família vive vazia e às vezes até desligada, porque não há condições de se estocar alimentos com tantas interrupções de luz.

Nos últimos meses, os apagões têm acontecido com mais frequência e sem aviso prévio. No mês passado, o ministro de Energia do país, Samuel Ndayiragije, foi demitido devido à crise energética no país.

Desmatamento

O terceiro fator que explica porque o Burundi tem uma baixa taxa de emissão de CO2 per capita é que o desmatamento de florestas não é contabilizado pelas estatísticas, o que gera uma certa distorção nos números.

Os dados de emissão de CO2 per capita disponíveis atualmente levam em consideração apenas o consumo total de combustíveis fósseis da população. Mas o desmatamento, que é uma atividade que emite muito CO2, não é calculado, já que em muitos países há poucos dados confiáveis sobre o assunto.

O Brasil sofre da mesma distorção. Cada brasileiro emite, em média, 2 toneladas de metros cúbicos de CO2 por ano, cerca de 40 vezes mais do que uma pessoa no Burundi. No entanto, esse número não leva em conta o desmatamento das florestas brasileiras. Estima-se que até 70% das emissões brasileiras são causadas por desmatamento.

No Burundi, a economia se expande com base na agricultura, gerando muito desmatamento. Estima-se que quase metade das floresta original do país foi desmatada. Além disso, a lenha é uma importante fonte de energia nas casas de muitos burundianos. Na casa de Willy e Espérance, por exemplo, não há fogão a gás ou elétrico. A comida é cozinhada com água esquentada a lenha, que é vendida por ambulantes.

Número de novas infecções por Aids diminuiu 17% desde 2000, diz ONU

HIV

No total, 2,8 milhões de pessoas contraíram o vírus em 2008

O número de novos infectados pelo vírus da Aids no mundo diminuiu 17% entre 2000 e 2008, segundo o relatório anual da Unaids, agência das Nações Unidas para o combate à Aids, publicado nesta terça-feira em Genebra, Suíça, em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com o relatório, a diminuição no número de novos casos da doença se deve, principalmente, à prevenção.

A agência da ONU ainda aponta o Brasil como um exemplo na implementação de políticas de prevenção à Aids.

“A América Latina oferece exemplos fortes de liderança na prevenção ao vírus HIV. Em particular, o Brasil, que vem sendo apontado por ter implementado cedo medidas de prevenção ao vírus HIV que ajudaram a atenuar a gravidade da epidemia no país”, diz o documento divulgado nesta terça-feira.

No total, 2,8 milhões de pessoas contraíram o vírus HIV no ano passado, sendo 1,9 milhão na África subsaariana, região mais afetada do planeta.

A menor progressão foi registrada na região da Oceania, com 3 mil novos casos.

Longevidade

Apesar disso, a quantidade de pessoas portadoras do vírus HIV continua crescendo. Em 2008, 33,4 milhões de pessoas viviam com a doença em todo o mundo, contra 29 milhões em 2001.

A Unaids explica que o aumento no número de pessoas infectadas se deve aos novos casos, mas também à eficiência dos tratamentos antirretrovirais, “que têm permitido uma maior longevidade dos doentes”.

Segundo a agência, nos países de baixa renda ou em desenvolvimento, entre eles o Brasil, os dados também indicam que o maior acesso ao tratamento tem contribuído para aumentar a longevidade dos infectados.

“No Brasil, que tem disponibilizado tratamento gratuito desde 1996, a sobrevida depois do primeiro diagnóstico da doença passou, no Estado de São Paulo, de quatro meses, entre 1992 e 1995, para 50 meses, entre 1998 e 2001”, diz o relatório.

Ainda segundo os dados da Unaids e da OMS, desde o início da epidemia de Aids, 60 milhões de pessoas já foram infectadas pelo vírus em todo o mundo, e 25 milhões morreram em decorrência da doença.

A maior incidência continua sendo na África subsaariana, onde 22,4 milhões de pessoas são portadoras do vírus HIV. Na América Latina, o número de portadores é de 2 milhões.

Por trás das pirâmides, lixo

Visitar o Egito é um dos roteiros preferidos dos brasileiros. Geralmente, roteiro incluídos no chamado “turismo religioso”: grupos de cristãos que vão visitar a Palestina e os “lugares santos”. Como mostra a reportagem abaixo, o “turismo religioso” não inclui a visita aos lugares onde hoje moram os cristãos do Egito… Imagino que, se alguma agência de turismo incluir uma visita aos “descendentes de Cristo” que moram no Egito…

A menos de vinte minutos das pirâmides de Gizé, principal ponto turístico do Egito, está um lugar que não figura entre os cartões-postais. A Cidade do Lixo é como um canto escondido da capital, Cairo, um tanto por suas imagens chocantes e seus odores repugnantes, mas também por ser a casa da minoria cristã do país. Cerca de 30 mil habitantes vivem praticamente isolados, a coletar e transformar lixo em mercadoria. São os zabbalin, o povo que faz do lixo a sua própria identidade.

“Sou muito feliz e não penso em sair daqui. Esta é a minha vida: encontrar frutas e alimentos em bom estado nestes restos orgânicos”, explica uma das moradoras do bairro, enquanto enfia os braços num saco preto, já tomado por moscas.

O cheiro é de revirar o estômago, mas a mulher manuseia o saco com naturalidade. Os zabbalin parecem nem se importar com as montanhas de dejetos que invadem suas casas. Tudo que é descartado pela população do Cairo vai para a Cidade do Lixo e por vezes até vira brinquedo para as crianças ou objeto de decoração no lar dos zabbalin.

A cidade está localizada na base da montanha Mokattam, que significa “montanha partida”. Segundo uma lenda local, foi palco de um milagre no século X. Naquela época, os cristãos foram desafiados a provar o poder de sua religião. Caso contrário, seriam expulsos do país ou mortos. O desafio: mover a montanha ao fim de três dias apenas com a força da fé.

Centenas de bispos e arcebispos se aglomeraram ao pé da montanha para rezar, mas, diz a lenda, foi um sapateiro chamado Simão quem operou o milagre. A Mokattam se abriu e foi possível ver o sol do outro lado. Depois disso, muitos muçulmanos teriam se convertido ao cristianismo.

Para celebrar o milagre, os cristãos construíram no interior da montanha a Igreja de São Simão, com o formato semelhante ao de uma caverna. As paredes de pedra ganharam ilustrações que detalham o feito do sapateiro. A igreja é bonita e limpa, bem diferente do bairro que dorme aos seus pés.

Os zabbalin, cristãos, estão quase sempre em pé de guerra com o governo egípcio. Em abril deste ano, centenas deles se confrontaram com a polícia após o presidente Hosni Mubarak ter ordenado o sacrifício de todos os porcos do país (cerca de 350 mil) com a justificativa de evitar a disseminação da gripe suína. A Organização Mundial da Saúde afirmou que os animais não transmitem a doença, mas o Egito não interrompeu a matança, mesmo sob protestos internos e externos. O jornal egípcio Al-Masri Al-Youm contou que os funcionários do governo usavam uma pá para jogar os animais vivos em grandes caminhões de lixo, depois os esfaqueavam e os empilhavam.

A polêmica cresceu porque a carne de porco é proibida na dieta dos mulçumanos, cerca de 90% da população egípcia. Por isso, a medida foi encarada como uma provocação aos cristãos. Os porcos tinham papel importante na Cidade do Lixo: comiam os restos orgânicos recolhidos pela comunidade. Sem eles, os zabbalin não conseguem eliminar todo o lixo orgânico.

O governo disse ter agido não apenas no combate à gripe suína, mas para levar mais higiene à região. Há muito os moradores esperam, em vão, melhorias neste quesito. Em outras ocasiões, companhias particulares foram contratadas para fazer a limpeza no Cairo. Mas nunca deram conta do montante produzido pelos quase 8 milhões de habitantes da maior cidade do país e pouco mudou para os zabbalin, que permaneceram como principais coletores.

“O governo diz querer limpar a Cidade do Lixo, mas não entende as consequências na vida desses catadores. Acabar com o lugar trará problemas econômicos e sociais para o Cairo”, afirma Syada Greiss, diretora da Associação de Proteção do Meio Ambiente, organização não-governamental que realiza oficinas de reciclagem no local.

Os zabbalin são responsáveis pela coleta de quase 60% do lixo da cidade e não recebem nada do governo. A comunidade sobrevive da venda, principalmente, de plástico e papelão para fábricas de reciclagem. Cerca de 90% das 7 toneladas de lixo levadas pelos caminhões diariamente são reaproveitadas. Todos participam do processo, de crianças a idosos. Normalmente, os homens fazem a coleta e as mulheres cuidam da seleção. Na maioria das famílias, apenas o filho mais velho frequenta a escola. O sistema é o mesmo desde o fim da década de 40, quando camponeses migraram para o Cairo à procura de trabalho e passaram a catar lixo.

As famílias que não sobrevivem dessa atividade são exceção. Marian Rifaat e seus quatros filhos fazem parte dessa minoria. Ela é dona de uma venda de frutas e faz questão de que seus filhos frequentem a escola. “Não trabalho com lixo, não gosto. Quero uma vida melhor para os meninos. Mesmo assim, não penso em me mudar, estou aqui há 30 anos, pertenço a este lugar.”

Separada dos centros mais movimentados do Cairo pela montanha Mokattam, a população da Cidade do Lixo parece mesmo viver uma realidade à parte. Animais dividem espaço com as pessoas nas ruas estreitas, mulheres e crianças andam descalças e maltrapilhas, mas ninguém parece se importar. A maioria não gosta de ser fotografada ou de dar entrevista. Preferem permanecer quase invisíveis, independentes de um governo no qual não confiam, e isolados de uma cidade da qual não se sentem parte.

Rio Grande do Sul: um Estado sem norte

Abaixo mais um excelente artigo-análise da situação política do Rio Grande do Sul. A autoria é de

O atual cenário político no Rio Grande do Sul é de incertezas. Incertezas e confusão. Se até alguns meses se podia trabalhar com a idéia de um confronto entre o PT e o PSDB, entre Tarso Genro e Yeda Crusius, hoje há inúmeras possibilidades. Neste momento, a mais provável é o lançamento de várias alternativas, cada uma delas se apresentando aos eleitores gaúchos como a verdadeira portadora da ética, da justiça e do desenvolvimento.

Esta semana, foi a vez dos trabalhistas (PDT e PTB, mais o DEM) lançarem um balão de ensaio afirmando a possibilidade de candidatura própria por uma terceira via. Semana passada foi o PSB, com o deputado Beto Albuquerque, quem tentou colocar-se no partidor como alternativa.

No campo governista, a crise é tão grande que a agenda mínima possível é simplesmente não permitir que a governadora caia. Para isso, fez-se necessário um pacto de silêncio e proteção que faria inveja a máfia siciliana. Tal grau de proteção para Yeda Crusius só é possível porque existe um ambiente social que o permite. Ou seja, do ponto de vista eleitoral, Yeda não é carta fora do baralho e, se é provável que fique fora do segundo turno em 2010, também é possível que venha a ser decisiva no processo.

Se há conflitos intransponíveis na situação, por exemplo, entre a governadora e seu vice, na oposição o quadro não é muito diferente. Tarso Genro até agora conseguiu unificar o seu partido, mas convencer o PT gaúcho de que ele precisa abrir mão de posições para outras forças já são outros quinhentos. O resultado é que hoje o mais provável é que Tarso concorra sozinho no primeiro turno, e tenha de enfrentar antigos aliados, como o socialista Beto Albuquerque, o PCdoB e possíveis aliados mais recentes, como petebista Luis Augusto Lara, lançado candidato a governador pela sigla. Mas, claro, nada disso impede Tarso de sonhar em ser o próximo governador.

Análises mais rigorosas colocam o PMDB gaúcho no campo da direita. O eleitor, contudo, tem a memória do compromisso do MDB com a luta democrática e ainda hoje compreende os candidatos peemedebistas como alternativas de centro. Hoje, o velho MDB é o responsável pelo círculo de silêncio que garante a possibilidade de Yeda continuar governadora. Conudo, o PMDB, com José Fogaça, prefeito de Porto Alegre, ou Germano Rigotto, ex-governador, trabalha intensamente para retornar ao Palácio Piratini. No momento, tudo indica que Fogaça, numa inflexão pró-Serra, seja o candidato de centro “para derrotar o PT”.

Socialistas, capitalistas, petistas, pepistas, trabalhistas, liberais, comunistas, social-democratas e democratas – todos, todos no Rio Grande do Sul têm uma coisa em comum: estão sem norte.

Vamos ver o que povo diz
Caetano Veloso, entre seus arroubos de genialidade, tem um verso que considero chave para entender o país: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Escrito antes do desastre neoliberal, e muito antes do analfabetismo político confesso criticando nosso presidente (meu e dele, também), o verso faz parte de uma música que anuncia o novo/velho Brasil fora da ordem, “fora da nova ordem mundial”.

Fui entender de onde Caetano tirou essa idéia quando viajei pelo sul da Bahia há uns quinze anos. Na época, fiquei impressionado com a quantidade de construções populares abandonadas pela metade. Passando de cidade em cidade num ônibus pinga-pinga pude ver que na Bahia tudo era construção e já era ruína. Parecia que o povo fazia um enorme esforço, investia suas economias e sua energia num projeto, mas era obrigado a abandonar antes de chegar ao fim. Também lembro que o número de homens parados, conversando de manhã, de tarde ou de noite me impressionou. Nunca havia visto tanta gente reunida em grupos dispersos sem nada para fazer.

Recentemente voltei à Bahia. Vi muitas construções novas e não encontrei mais a paisagem da desocupação de quinze anos atrás. Encontrei uma Bahia “fora da nova ordem mundial” que soube, como o Brasil, fortalecer-se e superar-se diante da crise. Sinceramente, não sei se isso é corroborado pelos números frios da economia e das taxas de crescimento, mas a impressão que me ficou foi essa.

A ordem e a desordem em comum
Tudo muito diferente do Rio Grande do Sul. Quando o povo baiano lutava há quinze anos contra as ruínas, no Rio Grande do Sul montávamos sonhos de poder à esquerda, à direita e ao centro. O Rio Grande do Sul, em geral, prosperava fora da ordem brasileira. A cada período de quatro anos vínhamos e seguimos perseguindo a ordem e a contra-ordem mundial. Oscilamos entre alternativas neoliberais, socialistas e centristas com grande radicalidade, todas muito bem ordenadas ou contrárias à ordem.

Fizemos muito no Rio Grande. Mas não tivemos a capacidade que o Brasil teve de construir o novo, de superar padrões e conceitos. Ficamos aprisionados no pampa gaúcho aos velhos dogmas. A arrogância gaúcha – “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”, afirma o hino do Estado – norteou todas as construções políticas do pampa. Quem não lembra de Leonel Brizola dando lições de política? De Pedro Simon ensinando ética? De Antônio Britto, defensor da cartilha privatista? Do PT de Porto Alegre, demiurgo do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial?

Hoje, a desordem gaúcha, a falta de projeto e de comando, produz o mesmo que a ordem baiana sob ACM: confusão e atraso. Ainda não se vê grupos de “gaúchos a pé” na beira das estradas conversando, mas as rodas de chimarrão que ainda existem já são cada vez mais longas. E lentas.

O convencimento do povo gaúcho hoje é de que sua elite de direita, de centro ou de esquerda não possui ética. Que suas estruturas de poder – Estado, Detran, Tribunal de Contas, Prefeituras, etc, etc – estão corrompidas. E pari passo com o conjunto do povo brasileiro, o povo gaúcho não chega a ver grande problema nisso. O problema que o povo vê é que hoje o Rio Grande está tomado pela mediocridade, pela falta de iniciativa, pela ausência de projetos, pelo pensar rasteiro, pela política miúda.

O Rio Grande do Sul hoje é um Estado sem norte e suas lideranças batem cabeça tentando entender o que se passa, mas têm enorme dificuldade.

É neste cenário de incertezas em que a democracia (ou a falta dela) demonstra o seu valor. Por sorte, neste país que venceu a crise com a força do trabalho, hoje temos uma democracia razoavelmente sólida. E ano que vem, 2010, o povo gaúcho vai decidir o rumo que quer tomar. Eu, de minha parte, como Caetano, apenas digo que “não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

Cardeal Walter Kasper: “Não se trata de proselitismo, não roubamos os fiéis da outra Igreja”.

Durante a semana passada, celebrou-se em Chipre a reunião da Comissão mista internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa em seu conjunto, que discutiu a questão do primado do Bispo de Roma no primeiro milênio. Sobre esta reunião, apresentamos uma entrevista com o cardeal Walter Kasper, co-presidente da Comissão mista e presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.

* * *

Cardeal Walter KasperEminência, nestes dias o senhor abordou a questão do primado do Papa com os ortodoxos. Há resultados?

Posso dizer que temos dado pequenos passos avante. Não há grandes resultados, mas devemos ter em mente que estava em discussão um argumento difícil e delicado, cuja simples menção, até há pouco tempo, era suficiente para desencadear polêmicas nos ambientes ortodoxos. O mais importante é que todos os membros da Comissão mista, formada tanto por católicos como por ortodoxos, reiteraram sua firme resolução de continuar o diálogo e buscar um acordo sobre a doutrina do primado. Certamente, isso demandará tempo, mas o caminho está assinalado e ninguém quer voltar atrás.

Tratemos de explicar, também para quem não é teólogo, em que ponto se encontra a discussão…

Nestas reuniões temos examinado a questão do primado do Bispo de Roma no primeiro milênio. Parece-me que surgiu um acordo unânime sobre o fato de que não se tratava simplesmente de um primado honorífico. É algo mais. No momento, sem dúvida, não há acordo sobre como definir exatamente esta forma de autoridade. Devemos continuar discutindo.

Um membro autorizado da Comissão, o bispo ortodoxo Gennadios, disse que os trabalhos procedem muito lentamente…

E eu estou totalmente de acordo com ele! Porém, devemos nos perguntar o porquê. Nosso método de trabalho remonta há trinta anos atrás, quando foi constituída a Comissão mista para o diálogo teológico com os ortodoxos em seu conjunto, o que implica a participação de todas as Iglesias autocéfalas, cada uma com seus delegados e com suas posições. Se houver uma proposta para agilizar os trabalhos, esta será bem aceita.

Recentemente o senhor afirmou que terminou a estação de frio intenso entre católicos e ortodoxos. Isso quer dizer que as relações se fizeram muito calorosas?

Estamos em alta temporada com os ortodoxos. Porém, até mesmo no verão às vezes há grandes temporais. Aqui0 em Chipre vimos um temporal repentino, mas, felizmente, passageiro. A contestação pública de um grupo de fanáticos contrários ao diálogo com a Igreja Católica foi condenada imediatamente pelo arcebispo Chrysostomos II (número um da Igreja ortodoxa do Chipre) e também pelo Santo Sínodo da Igreja de Grécia.

As contestações perturbaram os seus trabalhos?

Absolutamente não. Bom, elas criaram um pouco de incômodo naqueles que nos hospedaram. Porém, eu lhes disse que no Ocidente estamos acostumados às minorias barulhentas. Fui decano da universidade depois dos anos 68 e me recordo que as contestações estavam na ordem do dia.

Eminência, a Igreja Católica abre as portas ao regresso dos anglicanos. Que impacto essa decisão histórica terá sobre o diálogo ecumênico?

O assunto não foi conduzido pelo Conselho para a Unidade dos Cristãos, mas sim pela Congregação para a Doutrina da Fé. Obviamente, não estávamos informados. Devo limpar o terreno das interpretações falsas: não se trata de proselitismo, não roubamos os fiéis da outra Igreja. O Papa respondeu a um pedido premente de alguns setores da Igreja anglicana. Um gesto de grande apertura e acolhida realizado em espírito de diálogo. Neste sentido, terá um reflexo positivo sobre o ecumenismo.

Crise econômica e desemprego

Um relatório divulgado nesta quinta-feira pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) indica que a crise financeira internacional fará neste ano com que nove milhões de pessoas passem a viver em situação de pobreza na região.

O estudo, intitulado Panorama Social da América Latina 2009, diz que a pobreza na área aumentará neste ano 1,1% e a indigência, em 0,8%, em relação a dados de 2008.

Com isso, de acordo com as projeções da Cepal, o total de pobres na região saltaria de 180 milhões para 189 milhões, equivalente a 34,1% da população da América Latina ou a um Brasil inteiro.

Já as pessoas em situação de indigência passariam de 71 milhões para 76 milhões (13,7% da população do continente).

No relatório, a Cepal considerou em situação de pobreza pessoas que não têm renda familiar mensal suficiente para comprar uma cesta básica e também pagar por serviços básicos, e em situação de indigência quem sequer tem renda familiar mensal para comprar a cesta básica de alimentos.

Meta do Milênio

A Cepal alerta que estes dados mostram “uma mudança na tendência de redução da pobreza que vinha sendo registrada na região” nos últimos anos.

A secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, disse que tal tendência de redução só foi possível devido ao maior crescimento econômico regional, o incremento do gasto social e melhorias distributivas.

Bárcena ressaltou a “urgência de que a região (América Latina e Caribe) trabalhe num novo sistema de proteção social de longo prazo”.

“Não podemos dizer que deixamos perder as conquistas alcançadas entre 2002 e 2008. No entanto, este aumento da pobreza nos obriga a agir. Devemos repensar os programas de proteção social, com uma visão estratégica de longo prazo e medidas que possam aproveitar o capital humano e protejam o ingresso das famílias e grupos vulneráveis.”

Bárcena observou ainda que o aumento da pobreza atrasará na região o cumprimento da primeira Meta de Desenvolvimento do Milênio da ONU – erradicar a pobreza extrema e a fome até 2015.

O comunicado da Cepal não cita o Brasil, especificamente, mas diz que países que tiveram redução do Produto Interno Bruto (PIB) e aumento do desemprego, como o México, sofrerão maior incremento dos seus níveis de pobreza e indigência do que os demais países da região.

No caso do Brasil, este efeito seria menor, já que o impacto da crise internacional no PIB brasileiro foi menor do que o temido inicialmente.

Componente químico de plásticos 'afemina' meninos, diz estudo

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos indica que a exposição de gestantes a certas substâncias presentes na composição de plásticos pode mudar o comportamento de seus filhos do sexo masculino, fazendo com que eles fiquem “mais femininos”.

De acordo com o estudo, de pesquisadores da University of Rochester, alguns tipos de compostos químicos conhecidos como ftalatos interferem no desenvolvimento do cérebro, bloqueando a ação do hormônio masculino testosterona nos bebês.

Os ftalatos são encontrados em embalagens para alimentos, certos tipos de pisos e cortinas plásticas, colas, corantes e artigos têxteis, entre outros itens. Há vários tipos dessa substância, e alguns simulam o efeito do hormônio feminino estrogênio.

A equipe de pesquisadores, liderada por Shanna Swan, testou amostras de urina de gestantes a partir da metade da gravidez procurando por traços de ftalatos.

As mulheres deram à luz 74 meninos e 71 meninas. Quando os meninos tinham entre quatro e sete anos, os pesquisadores perguntaram às mães sobre seus brinquedos e brincadeiras preferidos.

Eles verificaram que a presença de dois tipos de ftalatos, o DEHP e o DBP, tinha relação com a forma de brincar das crianças.

Ftalatos

  • Há vários tipos de ftalatos e os mais usados são tidos como totalmente seguros por órgãos reguladores
  • DEHP: Usado para amaciar PVC e em produtos como pisos
  • DBP: Usado como plastificante em colas, corantes e tecidos

Os meninos expostos a altas doses desses compostos apresentaram menor tendência a brincar com carros, trens ou armas de brinquedo e a participar de brincadeiras mais agressivas, como lutas.

Banidos na UE

Já se sabia que as substâncias interferem na ação de hormônios no organismo e, por isso, elas foram banidas de brinquedos na União Europeia há alguns anos.

A equipe responsável pelo novo estudo também já havia provado a associação entre a substância e meninos nascidos com anomalias nos genitais.

“Nossos resultados precisam ser confirmados, mas são intrigantes em muitos aspectos”, disse Swan.

“Não apenas são consistentes com descobertas anteriores, associando os ftalatos a alterações no desenvolvimento dos genitais, mas também são compatíveis com conhecimentos atuais sobre como os hormônios moldam as diferenças sexuais no cérebro e, portanto, o comportamento.”

A pesquisa foi divulgada na publicação científica International Journal of Andrology.

Igreja Católica Romana no Peru

A situação da Igreja Católica Romana no Peru é uma das mais complexas e difíceis da América Latina. Berço simbólico do nascimento da Teologia da Libertação graças à figura de Gustavo Gutierrez, o Peru também se converteu num lugar de reação exemplar dos setores mais reacionários da Igreja Católica. Na atualidade, metade do episcopado peruano pertence a grupos ultra-conservadores do catolicismo tais como Opus Dei e Comunione et Liberatione.

O texto abaixo é da autoria de Irmão Hugo Caceres Guinet, da Congregação dos Irmãos de Jesus. Teólogo conhecido no Peru e ampla parte da América Latina, Ir. Hugo enviou esta carta pessoal pedindo seja divulgada para que se torne conhecida a situação da Igreja e a perseguição movida pelo Cardeal de Lima a teólogos e teólogas daquele país, no caso específico, ao conhecido biblista Eduardo Arens.





Carta de apoyo al padre Eduardo Arens, S.M.

y de rechazo a la actitud intolerante del cardenal de Lima Juan Luis Cipriani

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La hostilidad que provoca en Mons. Juan Luis Cipriani cualquier situación que escapa de su control o que desafía su limitada comprensión de la realidad peruana y eclesial, es suficientemente conocida como para recurrir a ella y argumentar en favor de mi profesor, amigo y colega Eduardo Arens. Además de sus conocidas rabietas, rociadas de lenguaje grosero que ponen en situación embarazosa a la Iglesia peruana y a sus propios cofrades del Opus Dei, son también ampliamente reconocidas las ambiciones de poder que conducen a Cipriani a actuar de modo arbitrario, arrogante y caprichoso, como lo prueban multitud de sacerdotes y religiosos que se han visto obligados a emigrar de la Arquidiócesis de Lima, porque los ha despojado de casas de retiro y parroquias. Está de más recordar que la ambición máxima del purpurado es asumir el control absoluto de la Universidad Católica, deseo que se ha visto frustrado por la acción eficaz de nuestra primera casa de estudios. Pero todo esto no sería más que fruto de un dudoso exceso de celo, comprensible en un arzobispo de escasos recursos teológicos y torpeza pastoral si es que además Cipriani no hubiera sido un permanente obstáculo de las investigaciones al régimen dictatorial y corrupto de Fujimori, un decidido enemigo de la Comisión de la Verdad y Reconciliación y un obcecado enemigo de la defensa de los derechos humanos[1].

Destruye lo que no comprendes, parece ser el lema pastoral del cardenal Juan Luis. Sus berrinches acompañados de improperios, que son bastante conocidos y divulgados sotto voce por los temerosos clérigos que lo rodean, se han dirigido de modo sistemático contra cualquier teología que exija un mínimo de esfuerzo intelectual. Un razonamiento complejo que requiera comprender dos proposiciones antes de arribar a una conclusión parece que desafía la simple fe del pastor y pone en figurillas a sus asesores teológicos. Cipriani se ha convertido en la Iglesia peruana en un alma gemela del general Artola de los años de la dictadura militar; prueba de esto es que en los corredores del palacio arzobispal y la Facultad de Teología circulan varios chistes sobre el escaso cacumen del mitrado. Por otro lado esto no tuviera nada de objetable si sólo se tratara de desinformación teológica o una simple deficiencia de formación, después de todo el razonamiento teológico es deseable pero no es causa eficiente para lograr la santidad ni para el ejercicio de pastor. Sin embargo, incapacidad teológica y ausencia de humildad, sí son una combinación fatal, deplorable en los llamados príncipes de la Iglesia.

Ya que la situación actual de la exégesis católica exige comprensión de la complejidad de la Sagrada Escritura, espíritu orante para estar en sintonía con la Palabra y una vasta información respecto de los documentos que emanan de la Pontificia Comisión Bíblica, requisitos que no están al alcance de monseñor Cipriani, no es de extrañar que sus temores y ansiedades se hayan dirigido desde hace más de una década al primer biblista del Perú, el padre Eduardo Arens, sacerdote religioso marianista, doctor en teología bíblica en la Universidad de Friburgo y destacado miembro de diversas asociaciones internacionales de biblistas. El recorrido intelectual y la integridad moral del padre Eduardo son tan reconocidas en el mundo eclesial peruano y más allá de nuestras fronteras, entre los religiosos y laicos estudiosos de la Biblia como la dureza de mente y corazón del cardenal de Lima. Eduardo Arens ha influido positivamente en la formación teológica de numerosas generaciones de religiosos y sacerdotes que hoy día ejercemos la docencia y diversidad de ministerios en la Iglesia peruana, que ha encendido los celos cardenalicios al punto de despojar a Eduardo de la missio canonica, es decir del permiso para enseñar. Una comunicación de agosto del presente año al Instituto Teológico Juan XXIII de Lima, donde Eduardo Arens es profesor principal de Biblia, ha sido el manotazo que Cipriani ha lanzado al religioso marianista, afirmando que no le concederá el permiso de enseñar de forma tajante y definitiva. Esta orden cuidadosamente protegida por las discretas autoridades de esa institución, no podía mantenerse más tiempo en secreto porque el Instituto Teológico Juan XXIII es una institución dependiente de los superiores religiosos que envían a estudiar a sus jóvenes a tal centro teológico y por medio de estos provinciales conozco no sólo la inminente prohibición de enseñar a Eduardo sino además a otros dos expertos profesores.

La campaña de Cipriani contra Eduardo no tiene sólo carácter doctrinal. ¡Qué saludable sería para el mundo teológico limeño un diálogo de un arzobispo preocupado por la ortodoxia y de un biblista que desgrana las riquezas de la Palabra de Dios, esto llenaría los balcones de la Plaza Mayor de Lima! Pero es imposible de esperar esta actitud dialogal en Cipriani cuya única herramienta pastoral es la amenaza y que jamás se atrevería ni siquiera a poner por escrito las razones teológicas por las que se opone con tanta saña a un teólogo. En el fondo la enemistad del cardenal con Eduardo hunde sus raíces en la ambición. Se debe a que, como sacerdote marianista, Arens predica en la parroquia de Santa María Reina, cuya audiencia incluye a un poderoso sector económico y político de la ciudad y a muchas otras personas que, aunque ya no viven entre San Isidro y Miraflores, acuden a la misa de Eduardo desde otros barrios igualmente ricos, porque prefieren el estilo directo, franco y agudo de Eduardo que dista mucho de los aburridos sermones de corte moralista y reprochador, que cada vez son más frecuentes en Lima, incluidos los del señor cardenal. La predicación de Eduardo es sobre todo humana y recurre al Evangelio para iluminar la vida común de los fieles y animarlos a practicar la fe más allá de los reclinatorios de la iglesia ¿Qué podría incomodar más a Juan Luis que el padre Arens tenga como auditorio a la clase social que más apetecen controlar el Opus Dei y otros grupos afines por medio de su jerarca? ¿Enrojecerán las mejillas del cardenal, como su vistoso traje, cuando escucha los sermones que hace grabar por sus espías en Santa María Reina, al comprobar
la integridad de Eduardo quien se dirige a los poderosos de la ciudad después de ejercer una labor ministerial en los pueblos jóvenes de Lima? Algunos allegados me han comentado que el retiro de la missio canonica a Eduardo Arens fue un viejo anhelo del cardenal quien ha afirmado que no le permitirá enseñar “mientras sea arzobispo de Lima”. Es obvio que Juan Luis no conoce lo que es la conversión, porque si actuara pastoralmente dejaría por lo menos la oportunidad de una futura corrección y reconciliación. Pero es obvio que aquí se trata de iras no santas.

He comentado con muchos amigos y amigas que tienen autoridad en la Iglesia peruana de la triste situación que los jóvenes religiosos y seminaristas van a experimentar el próximo año si se le cierran las puertas de las aulas a nuestro más ilustre biblista. Eduardo ama la enseñanza pero sobre todo detesta la mediocridad y nunca va a dejar de ser una presencia incómoda para todos los que se contentan con verdades de conveniencia y prefieren no enojar a los jerarcas de turno. Mis amigos y colegas han demostrado simpatía por Eduardo y vergüenza por las herramientas a las que recurre la máxima autoridad de la arquidiócesis de Lima. Pero también ellos me han explicado que si se oponen públicamente a las medidas autoritarias del cardenal, se exponen a sufrir las mismas consecuencias y poner en peligro su permanencia en el territorio de la arquidiócesis de Lima lo que pondría también en vilo las numerosas obras sociales, en particular la educación, salud y alimentación de los más pobres. ¡Qué lástima que el temor sea el único sentimiento que provoca un pastor sobre su grey!

Si Cipriani estuviese convencido que Eduardo está equivocado teológicamente se preocuparía por ayudarlo a corregir sus errores, pero esta jamás ha sido su actitud, a pesar de que Eduardo solicitó por diversos canales la posibilidad del diálogo. Más bien ha planificado destruir a la persona y no combatir con razones la incómoda predicación en el templo o en las aulas. Así se ha hecho merecedor del reproche del profeta Ezequiel a los pastores perversos: “No fortalecen a las ovejas débiles, no curan a las que están enfermas, no vendan a las que están heridas, no traen a las descarriadas, ni buscan a las perdidas, sino que las dominan con dureza y crueldad” (Ez 34,4). Ya no vivo en Lima, si no pegaría con cinta adhesiva esta carta en la puerta de la catedral. Para mí, como religioso peruano, una prohibición a otro religioso sin mediaciones dialogales no es sólo un insulto a la inteligencia, también es un acto contrario a la dignidad de la vida religiosa.

Convoco a la multitud de exalumnos de Eduardo, muchos de ellos en posición de importancia en la Iglesia peruana, que expresemos de todos los modos posibles nuestro rechazo a las actitudes intransigentes e infantiles de quien anhela con tantas ganas llegar a ser el Presidente de la Conferencia Episcopal Peruana, cargo que sus hermanos obispos han visto imprudente dejar en manos de tan irascible prelado. Cipriani suele esgrimir el argumento que si se le critica a él, se critica a la Iglesia. No. Esta carta no es de crítica a la Iglesia, es de crítica a un pastor con nombre propio y sólo está en esa posición por un fatal error.

Hugo Cáceres Guinet, cfc




[1] Obviamente no soy el primero en señalar estos pecados de omisión respecto de la Doctrina Social de la Iglesia. Ante el reciente evento en la Universidad Católica sobre un panel sobre Universidad y Doctrina Social, el purpurado ha desafiado a sus colegas obispos y a todos los que participaran con fuertes amenazas que ninguno tomó en serio. Por otro lado, Cipriani ha querido borrar esa nefasta imagen que demostró cuando fue arzobispo de Ayacucho y ha asumido la posición de abanderado de la lucha antiabortista (pero guardó cómplice silencio cuando Fujimori ordenó a través del Ministerio de Salud las ligaduras de trompas aprovechando de la ignorancia de madres jóvenes del pueblo). Sus esfuerzos antiabortistas son muy loables por cierto, pero practicados de modo desarticulado de un interés práctico por la niñez desamparada y los niños de la calle, como lo demostró con sus arrebatos de celos frente a la obra del Hogar de Cristo.