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Mulheres na Igreja: da suplência à titulariedade

Era o ano de 1944. O mundo ardia sob as chamas e bombas da Segunda Guerra Mundial. Enquanto na Europa a grande batalha se dava entre as forças alemãs e italianas por um lado, e as soviéticas, britânicas, francesas e americanas por outro, na longínqua Ásia, os protagonistas do conflito eram japoneses e chineses. O império japonês, em um rápido e avassalador avanço, já no ano de 1937, havia conquistado todos os territórios do Pacífico e do Índico. A China, sob a liderança de Mao Tsé-Tung, resistia como podia. O caos era generalizado. As cidades de Hong Kong e Macau, ainda sob o domínio britânico e português, tornaram-se lugar de refúgio para milhares de pessoas que fugiam da guerra. A Igreja Anglicana de Hong Kong e Macau, sob a liderança do bispo Robert Hall, buscava, dentro de suas possibilidades, ajudar a foragidos e feridos.
Entre as pessoas destacadas para a missão em Macau, estava Florence Li Tim-Oi. Nascida no enclave português, Florence fez sua formação teológica no Seminário de Cantão e, em 1938, foi para Hong Kong onde, durante dois anos, dedicou-se ao serviço aos refugiados. Em 1940 ela foi enviada por seu bispo para Macau. Seis meses depois retornou a Hong Kong para ser ordenada diaconisa. De volta a seu posto em Macau, continuou servindo à comunidade que vivia um problema inusitado: por causa da guerra, não havia presbíteros para celebrar os sacramentos para a comunidade. As crianças não eram batizadas e não havia Eucaristia para a comunidade. Diante da situação e da demanda da comunidade, o bispo Robert Hall autorizou Florence a administrar os sacramentos à comunidade. E ela o fez, mesmo sem ainda ser ordenada ao presbiterato. Foi só em 2 de janeiro de 1944 que Florence, cruzando os territórios ainda ocupados pelos japoneses, conseguiu encontrar-se com o bispo e receber oficialmente a ordenação presbiteral. Foi a primeira mulher ordenada presbítero na Igreja Anglicana.
Com o fim da guerra e a normalização da vida, a Igreja Anglicana, na Conferência de Lambeth de 1948, decidiu pela invalidade das ordens concedidas a Florence e pela impossibilidade da ordenação de mulheres ao presbiterato. A questão só foi retomada na década de 1960 e, a partir de 1968, em várias partes do mundo, inclusive Hong Kong e Macau, a Igreja Anglicana começou a ordenar mulheres. Em 1971, Florence Li Tim-Oi teve suas ordens reconhecidas.
No Brasil, foi no ano de 1985 que a Igreja Anglicana passou a ordenar mulheres ao presbiterato. Neste fim de semana, no dia 21 de abril, na Catedral Anglicana Santa Maria de Belém do Pará, a Reverenda Cônega Marinez dos Santos Bassotto foi sagrada  bispa da Igreja Anglicana. Ela é a primeira mulher da Igreja Anglicana a receber a Sagração Episcopal na América Latina. Ela foi eleita pelo Concilio Extraordinário da Diocese Anglicana da Amazônia em 20 de janeiro de 2018 e servirá no ministério episcopal da Igreja naquela região.
Marinez é casada com Paulo Antônio Bassotto, com quem tem duas filhas, Laura e Luísa. Ela foi ordenada há 23 anos e, entre outras funções, foi Deã da Catedral Anglicana de Porto Alegre e responsável pela Liturgia e Diaconato na Diocese Meridional.
Para os católicos romanos que, no próximo ano, teremos o Sínodo Extraordinário sobre a Amazônia que discutirá, entre outros temas, a possibilidade da ordenação presbiteral de homens casados para o serviço da Igreja naquela região, a história da Reverenda Florence Li Tim-Oi e da Reverendíssima Marinez dos Santos Bassotto é muito desafiadora. Ela nos mostra como o Espírito Santo vai construindo seus caminhos e conduzindo a sua Igreja em meio às dificuldades da história. E nos mostra que, nos momentos em que parece que todos as estradas se fecham, surgem então novas luzes que, mesmo se num primeiro momento parecem nos cegar com sua claridade, com o tempo se tornam faróis a iluminar novos sendeiros a trilhar.
Nessa perspectiva, é muito significativa a nomeação feita, neste mesmo dia 21 de abril, pelo Papa Francisco, de três mulheres para o Colégio de Consultores da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. São elas a italiana Linda Ghisoni, susbcertária do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé), especialista em Direito Canónico; a também italiana Michelina Tenace, professora de Teologia na Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma; e a belga Laetitia Calmeyn, professora de Teologia no Colégio dos Bernardinos, em Paris.
Elas, mulheres e leigas, passam a integrar o seleto e poderoso grupo que, historicamente, só teve homens e clérigos como seus membros e, quando ainda se chamava Santo Ofício da Inquisição, se notabilizou por condenar mulheres à fogueira sob a acusação de bruxaria.
Linda, Michelina e Laetitia vem juntar-se à irmã Carmen Ros Nortes que, em fevereiro deste ano,  foi nomeada pelo Papa Francisco como nova subsecretária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (Santa Sé). Em novembro de 2017, o Papa já havia nomeado duas mulheres como subsecretárias do novo Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé): a já referida Linda Ghisoni e e Gabriella Gambino, professora de Bioética. Desde julho de 2016, a jornalista espanhola Paloma García Ovejero é vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé. Entre outros cargos de alto escalão ocupados por mulheres no Vaticano, está Margaret Archer presidindo a Pontifícia Academia de Ciências Sociais e Barbara Jatta sendo a primeira diretora dos Museus Vaticanos desde janeiro de 2017.
São sinais que nos permitem sonhar com uma Igreja onde a diferença de gênero não seja mais vista como um fator de hierarquização, mas como uma possibilidade de mútuo engrandecimento para todos os filhos e filhas de Deus.

Por que os padres não casam?

Para quem trabalha com formação teológica em meio popular, esta pergunta, inevitável e reiteradamente, aparece: por quê os padres não casam?
Normalmente, quando interpelado sobre o tema, não dou uma resposta direta. Respondo quase sempre com uma outra pergunta: “Você iria se confessar com um padre casado?” Ou então, com essa outra pergunta: “Na sua comunidade, um padre casado seria bem aceito?” Diante destas perguntas, as respostas começam a variar… É que a pergunta em abstrato é fácil de responder. Mas quando situada e feita concretamente a alguém ou a alguma comunidade, a coisa começa a mudar de figura.
Com efeito, a manutenção ou a extinção da obrigatoriedade do celibato como condicionante para a ordenação presbiteral e episcopal, não é uma verdade de fé. Se o fosse, a resposta seria fácil: “Deus quer assim e ponto!” O celibato obrigatório foi instituído pela Igreja Católica Apostólica Romana em um determinado contexto histórico em que se fazia necessária um alinhamento absoluto de todo o clero com as determinações da Cúria Romana. Para isso o caminho escolhido foi a criação de um estamento eclesiástico totalmente separado do contato com o mundo. Assim foram criados os seminários onde os meninos, ainda crianças, eram enviados e ali recebiam uma educação, tanto humana como religiosa, totalmente em acordo com as determinações da hierarquia eclesiástica e aprendiam a exercer os ofícios relacionados à ação sacerdotal. Tal modelo foi implementado na sequência do Concílio de Trento (1545-1563) que tinha como objetivo a uniformização do catolicismo tornando-o assim romano.
E antes, como era? O que podemos dizer, de forma sintética, é que antes do Concílio de Trento a formação para o exercício do ministério ordenado na Igreja era muito variada. Não havia seminários para a formação do clero. Para que alguém fosse ordenado, bastava que tivesse algumas noções fundamentais de direito eclesiástico e fosse desenvolto na execução das tarefas litúrgicas. A designação para as funções presbiterais e episcopais dependia da eleição da comunidade ou da determinação por parte das autoridades civis e das autoridades eclesiásticas. E é bom lembrar que as duas autoridades em muitos casos coincidiam na mesma pessoa. O celibato, por sua vez, apesar de recomendado pelas autoridades eclesiásticas desde o século XII, não era uma realidade muito usual. Boa parte do clero era, formal ou informalmente, casada.
Mas por quê trago tudo isso à reflexão nesse momento? É que no próximo ano teremos o Sínodo para Amazônia. E neste Sínodo, uma das questões já em pauta é a possibilidade de ordenação de homens casados. Ou seja, muda-se a pergunta com a qual iniciamos nosso texto. Não se trata de “por quê os padres não casam”, mas de “por quê não ordenar homens casados”?
Digo de antemão que sou totalmente favorável à ordenação de homens casados. Assim como sou favorável à ordenação de mulheres. Não é o celibato ou a pertença ao gênero masculino que faz alguém ser mais ou menos apto para o serviço à comunidade. Homens, mulheres, casados, solteiros… todos têm a possibilidade de serem bons servidores da comunidade no ministério ordenado.
Mas, considero que esta questão tem que ser colocada para toda a comunidade cristã. Todos os católicos romanos – bispos, presbíteros, leigos, leigas, religiosos e religiosas – devem ser consultados sobre a possibilidade e a necessidade de ordenação de homens casados. E não apenas para as distantes regiões da Amazônia. Tanto quanto na Amazônia, nossas comunidades das periferias das grandes cidades e das zonas rurais sofrem com a ausência de um clero que com elas se identifique e conviva nas necessidades e alegrias do quotidiano. Mas é preciso que se construa um consenso eclesial para que estes novos ministros sejam aceitos e não relegados a uma função supletiva e auxiliar enquanto as decisões na Igreja continuariam a ser tomadas por senis machos celibatários.

A história é dialética…

Por que temos um Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos? Porque antes tivemos um Barack Obama… Simples assim. O Trump se elegeu prometendo desfazer tudo o que o Obama tinha feito: o plano de saúde popular conhecido como “Obama Care”; os direitos das minorias sociais, étnicas e sexuais; o tratamento digno para com os migrantes que a própria economia norte-americana necessita; um menor unilatelarismo imperial nas relações internacionais… Quem elegeu Trump? É conhecido até pelas árvores das ruas de Whashington que Trump foi o candidato da “velha indústria” americana – armas, segurança, automóveis e petróleo – que capitalizou os medos da classe média tradicional “wasp” (white, anglo-saxon and protestant) que sentia sua hegemonia sacudida pela emergência de novos sujeitos sociais tão simbolicamente representados pelo casal presidencial Barack e Michelle Obama. E Trump está dando respostas concretas aos que o elegeram. Ele não é louco. Muito antes pelo contrário. Ele tem uma clareza política ímpar e toma as pequenas decisões do dia-a-dia fundamentado neste norte político.
Por que temos um Papa Francisco à frente da Igreja Católica? Porque antes tivemos um Papa João Paulo II e um Papa Bento XVI. Simples assim… O Papa Francisco foi eleito para desfazer muito do que seus predecessores tinham feito à frente da Igreja Católica Romana: uma excessiva preocupação com a verdade dogmática, uma burocracia focada no dinheirismo e devassa do ponto de vista moral, um fechamento às novas realidades contemporâneas, um medo à democracia e ao popular, uma elitização gnóstica e uma liturgia e uma moral de corte pelagianiano… Quem elegeu o Papa Francisco? Até as Colunas de Bernini, mesmo sem nunca terem-se movido do lugar onde estão há cinco séculos, sabem que Francisco Bergoglio foi eleito pela maioria silenciosa dos cardeais que nos últimos 30 anos foram sistematicamente relegados pela Cúria Romana ao ostracismo eclesiástico e viam suas igrejas definharem em meio aos escândalos vaticanos e os novos desafios da realidade. E o Papa Francisco está dando respostas aos que o elegeram. Seus gestos e suas palavras – tanto nos grandes textos das Exortações Apostólicas e nas Encíclicas como nos pequenos textos dos sermões e catequeses – ele apresenta performaticamente um novo rosto da Igreja cuja maior característica é a alegria e a esperança para os que sofrem. Ele não é o anti-papa nem um pastor sem teologia como querem seus detratores. Tudo o que faz e diz é norteado pelo princípio do amor misericordioso pregado e vivido por Jesus.
Por que temos um golpe parlamentar-midiático-jurídico em curso no Brasil? Porque antes tivemos um Lula durante oito anos na Presidência e uma sua sucessora que, reeleita, ameaçava levar adiante o mesmo projeto por mais oito anos. Simples assim… Os governos Lula e Dilma, mesmo em meio a grandes contradições e a uma oposição feroz, estavam fazendo aquilo para o qual foram eleitos: tirar o Brasil do mapa da miséria e da fome através dos programas sociais, abrir as portas das escolas e das universidades às crianças e aos jovens de baixa renda que antes nunca haviam podido alcançar tais níveis de escolarização, criar políticas para o resgate da identidade e afirmação das peculiaridades de negros e quilombolas, fazer com que os direitos humanos básicos fossem acessíveis àqueles e àquelas que sempre tiveram sua humanidade espezinhada, oferecer emprego, casa e saúde digna para a maioria da população, fortalecer a economia nacional e inserir o país, de forma soberana e altiva, no cenário internacional… Quem elegeu Lula e Dilma? Até as emas dos jardins do Palácio da Alvorada sabem que o voto que elegeu Lula e Dilma veio das camadas mais pobres da população do campo e da cidade. E esse voto e as mudanças sociais nele fundamentadas começaram a mudar a cara da sociedade brasileira. E aqueles que governaram durante 500 anos o Brasil sentiram sua hegemonia ameaçada pelos novos sujeitos sociais que se transformavam em sujeitos políticos. E é bom lembrar que a reação não é recente. Começou com o dito “Mensalão” de 2005, passou pela reeleição de 2006, se explicitou nas eleições de 2010 e 2016. Mas como através do caminho democrático – mesmo que a nossa democracia seja apenas formal – as elites dominantes não conseguiram dar cabo do novo projeto em ascensão, foi necessário o golpe parlamentar de 2016 e, agora, em 2018, a joia da coroa, a prisão de Lula.
Onde vamos terminar? Não sei… Ninguém sabe! O que esperamos é que, depois do Trump, haja um Obama II. E depois de Francisco, um Francisco II. E nunca mais tenhamos que temer um Temer II! E muito menos generais e seus séquitos militares a enfeiar a paisagem do Planalto Central. Porque a democracia é um valor básico da convivência social. Sem ela, só resta o caos. E no caos, todos perdem. Inclusive as elites!

Maria Madalena outra vez no cinema

O que seria do Cristianismo se a liderança feminina de Maria Madalena não tivesse sido sufocada pela liderança masculina de Pedro, Tiago e João e pela misoginia do tardio Apóstolo Paulo? O que seria do Cristianismo se a tradição gnóstica, tão presente nos evangelhos apócrifos redescobertos na segunda metade do século XX, tivesse sobrevivido à ortodoxia imposta pela hierarquia eclesiástica do Norte da África, da Itália e de Constantinopla que buscava acomodar as sempre revoltosas comunidades cristãs à Pax Romana?
Difícil saber e arriscado afirmar algo sobre tal possibilidade. Afinal, a história não trabalha com hipóteses. Ela trabalha com fatos. E o fato é que Maria Madalena, mesmo sendo ela a personagem mais citada pelos evangelhos canônicos nas cenas decisivas da vida de Cristo – Morte e Ressurreição –, sua memória foi apagado dos outros textos do Novo Testamento. Em nenhuma das cartas de Paulo, tanto as autênticas como as deutero-paulinas, seu nome aparece. Tampouco nas cartas dos outros apóstolos. Nem mesmo nas de João e em seu Apocalipse.
Não tardou para que um terceiro passo fosse dado. Do protagonismo nos evangelhos sinóticos ao esquecimento nas cartas apostólicos passou-se, na tradição patrística, à difamação da mulher que mais aparece – até mesmo mais que a mãe de Jesus – nos evangelhos. Pouco a pouco, na literatura patrística, Maria Madalena passou a ser associada à pecadora que, no capítulo sete do Evangelho de Lucas, ungiu os pés de Jesus. E sem que o Evangelho o diga, o Papa Gregório Magno, no ano de 591 d.C., numa homilia proferida em Roma, afirmou que o pecado de Maria Madalena era a prostituição. A autoridade de Gregório sobre a Igreja era tal que sua versão a respeito de Maria Madalena espalhou-se rapidamente pelo Ocidente e passou a fazer parte das verdades tradicionais da Igreja.
A arte comprou tal versão. Basta fazer um passeio pela pintura renascentista e encontraremos dezenas de belas e sedutoras Marias Madalenas aproximando-se de Cristo em busca de arrependimento. Nikos Kazantzakis em “A última tentação de Cristo” trabalha maravilhosamente bem uma possível relação amorosa entre Maria Madalena e Jesus. O mesmo argumento é utilizado por Dan Brown em “O código Da Vinci”. Ambas as obras foram vertidas para o cinema e, por razões distintas que não temos aqui o espaço de discutir, atraíram milhões de pessoas e ajudaram a popularizar a versão de uma relação amorosa entre o Nazarena e a Madalena.
O filme de Garth Davis atualmente em cartaz nos cinemas não vai por esse caminho. Em nenhum momento há qualquer insinuação de uma relação amorosa entre os dois. O único sentimento que entre eles se estabelece é o de afeto fraterno na espera da chegada iminente do Reino de Deus que trará a justiça para os fracos da terra. O peculiar de Maria é que ela, diferentemente dos outros discípulos, entendeu a proposta de Jesus. Enquanto os outros discípulos viviam na expectativa de que Jesus levantasse as multidões contra o jugo do Império Romano, Maria compreendeu que as curas operadas por Jesus e sua proximidade amorosa para com os sofredores já eram esse Reino presente no mundo.
Se Maria tivesse sido substituída nesse papel por qualquer um dos outros discípulos homens, a trama em nada mudaria. Não há, propriamente falando, no filme, uma relação entre Jesus e Maria Madalena. A relação se dá dos dois para com o Reino de Deus. E nessa relação o filme parece se ater à tradicional divisão de trabalho por gênero: Jesus evangeliza os homens e Maria evangeliza as mulheres e as crianças! E mais: Maria é a única mulher entre os discípulos de Jesus. As outras mulheres mencionadas pelos evangelhos, simplesmente estão ausentes da trama… Ponto a menos para qualquer tentativa de reinterpretação feminista dos evangelhos.
Talvez a falta de uma trama mais ardente entre os dois tenha feito com que Rooney Mara e Joaquim Phoenix que interpretam Maria Madalena e Jesus, transmitam um certo ar de apatia, no sentido etimológico do termo. Falta paixão na interpretação. Os dois parecem deixar-se levar pela trama sem contribuir para que a história, em si já conhecida de todos, ganhe em dramaticidade. Por falar em trama, faltou às roteiristas Philippa Gosslett e Helen Edmundsen uma mais acurada pesquisa histórica sobre a Palestina do tempo de Jesus. O modo como é crucificado Jesus, por exemplo, nada tem a ver com o que nos revelaram as últimas pesquisas arqueológicas.
O que tem de bom o filme, então? Um olhar complacente que não considere a pesquisa histórica como acima consideramos, pode alegrar-se com a inclusão de vários personagens negros na história. Pedro, por exemplo, bem representado por Chiwetel Ejiofor, é um deles. Mas podemos ver outros negros entre os discípulos de Jesus. E também entre os soldados romanos.
O que salva o filme são as cenas iniciais e seu relacionamento com os últimos segundos. Maria Madalena, de uma mulher oprimido e controlada pelo pai e pelos irmãos nas cenas iniciais, depois do encontro com o curador de Nazaré, toma as rédeas da vida em suas próprias mãos e, impulsionada pelo encontro com o Ressuscitado, torna-se anunciadora da Boa Nova do Reino. Isso é o essencial que salva o filme. Para tal, não era necessária uma produção de 40 milhões de dólares e 119 minutos de duração. Com muitos menos dinheiro, poder-se-ia ter produzido um curta metragem muito mais apaixonante e contundente mostrando a importância feminina nos inícios do cristianismo e o desafio de incluir as mulheres, hoje, nas estruturas eclesiásticas de poder.
Mas Maria Madalena é sempre um argumento chamativo, ainda mais em tempo de Páscoa e com uma boa promoção no preço da entrada. Aí vale a pena!

Ah! Não sou gaúcho…

Quem teve a oportunidade de viajar por outros estados do Brasil, especialmente os do Norte e do Nordeste, sabe o quanto é difícil explicar que as pessoas nascidas no Rio Grande do Sul não são necessariamente gaúchas. Até muitos que moram no Estado mais ao sul do Brasil estranham quando afirmo que nasci neste Estado, mas nem por isso sou gaúcho. Mas é isso mesmo o diz o dicionário de gentílicos: quem nasce no Rio Grande do Sul é rio-grandense-do-sul. Assim de simples!
Gaúcho é outra coisa. Gaúcho não é um termo gentílico. É uma cultura. Tanto que existem gaúchos na Argentina e no Uruguai. Gaúcho é o morador do pampa, descendentes dos povos charruas que habitavam as pradarias pampeanas e foram dizimados pelos invasores espanhóis e portugueses.
Assim como eu e a maioria dos que hoje vivemos nestas terras, não somos descendentes dos índios charruas. Meus bisavós vieram do norte da Itália. Outros tem seus ancestrais oriundos da Alemanha, da Espanha, de Portugal, da França, Suíça, China, Japão… E há os que aqui estão porque seus antepassados foram trazidos à força da África para terem seu trabalho explorado como escravos nas fazendas e charqueadas do sul do Rio Grande do Sul.
Pergunto eu: um menino nascido hoje, filho de pais recém chegados do Haiti, de Bangladesh ou do Senegal, pode ser considerado gaúcho? Rio-grandense-do-sul com certeza é, pois a lei garante a todo nascido em solo brasileiro o direito de ser brasileiro. Mas se é ou não gaúcho, deixo para os gauchistas decidirem. Só lhes peço que tirem todas as consequências desta sua afirmação. E não apenas as que lhes são vantajosas. Se disserem que sim, que o recém nascido é gaúcho, lhes peço abandonem o discurso racista e xenófobo e acolham bem todos os estrangeiros aqui chegados e seus filhos que aqui nascem. Se disserem que não, parem de querer impor sobre toda a população do Estado uma identidade que não lhes diz respeito.
Sei que esta minha batalha é inglória. Sou exceção entre a maioria que, sem se questionar, brada nos estádios “Ah! Eu sou gaúcho…” e, na hora em que é entoado o Hino Nacional Brasileiro, viram de costas e cantam o Hino Riograndense onde se exaltam as façanhas de um passado que nunca existiu.
Lamento ter que dizer isso. Mas é uma afirmação necessária diante da ideologia gauchesca que teima em fazer dos CTG um espaço de reprodução simbólica da fazenda onde os escravos eram açoitados, os peões explorados até o fim de sua vida útil, e as mulheres tratadas como prendas e chinas. Ideologia que se atualiza em discursos escravagistas e excludentes de que “quilombolas, índios, gays, lésbicas … é tudo que não presta” e que volta a querem impor seu mando na base do chicote.
Se essa é a compreensão do gaúcho, posso então dizer, com toda a tranquilidade: “Ah! Não sou gaúcho…”

Prá ficar na história

O mês de março em Porto Alegre é quente. Muito quente. E esta semana foi particularmente quente. Demais… como muitas coisas são demais em Porto Alegre. Para quebrar a rotina depois de uma semana de intenso trabalho, penso em ir ao cinema. Consulto a programação cultural da cidade e, em meio aos premiados e insosos filmes de Hollywood, um estranho título de um documentário brasileiro: “Prá Ficar na História”. A sinopse me surpreende mais que o título: trata-se de uma produção de um diretor gaúcho – Boca Migotto – sobre o empenho de um veterinário garibaldense – Luiz Henrique Fitarelli –  em resgatar, restaurar e guardar objetos relacionados à imigração italiana. Leio alguns comentários sobre o filme disponíveis na internet e me decido: vou ver!
Como a linha de ônibus 255 Caldre Fião desaparece nos finais de semana, desço a pé até a Bento Gonçalves e espero pacientemente por um ônibus que vá até o Centro. O São José me deixa na Rua Uruguai. Subo até a Rua da Praia que no sábado de tarde está transformada em um verdadeiro shopping popular a céu aberto. A sombra dos edifícios e a brisa que sopra do Gasômetro formam um microclima agradável em meio ao torpor das três da tarde. No meio da rua, todo tipo de pessoas vendendo todo tipo de coisas. A maioria são brasileiros que, com o “crescimento negativo” da economia, encontraram no comércio informal uma forma de suavizar a precarização da vida. Chama a atenção também o número significativo de estrangeiros vendendo suas mercadorias nas improvisadas lojas sobre caixas e panos. A maioria são senegaleses. E aí estão os haitianos. Pela convivência com senegaleses na França e com haitianos aqui no Brasil, consigo distinguir, pelo tipo físico e pela fala, quem é de uma nacionalidade e quem é de outra. E há também os equatorianos e peruanos com suas flautas e CDs de música andina. Mais para diante, um casal com duas crianças. Falam espanhol com um sotaque que não conheço. Pode ser que sejam venezuelanos.
Sigo sem pressa pela Rua da Praia. Entro numa farmácia para comprar meus remédios para hipertensão. Coisa de 20 anos de professor! Mais adiante passo pelo restaurante da Tauane. Assim como o diretor do filme que vou assistir, ela também é de Carlos Barbosa. Há 22 anos a família Pedruzzi mantém o restaurante Tauta na Rua da Praia, um pouquinho antes da Casa de Cultura Mário Quintana. Com a dedicação típica dos descendentes de imigrantes, fizeram do restaurante o ganha pão – e algo mais! – para toda a família.
Com o Cartão Banrisul tenho direito à meia-entrada. Uma regalia que é mantida em meio a tantos cortes nos gastos públicos. Umas 20 pessoas de meia idade pra cima na plateia. Pelo tipo físico, tenho certeza de todos são descentes de imigrantes italianos. O documentário tem um pouco o estilo do objeto documentado: uma montanha de belas imagens e entrecortadas falas em português, vêneto e italiano  sobre um amontoado de objetos que Luiz Henrique Fitarelli foi colecionando aleatoriamente durante 40 anos. Não há preocupação em construir uma narrativa orgânica do trabalho de Fitarelli nem um discurso interpretativo da imigração italiana. Nem mesmo as sequências filmadas na Itália tentam estabelecer uma relação entre a situação da Itália no final do séc. XIX e a imigração para o Brasil. Não afirmo isso como um defeito do filme. Pelo contrário, é uma virtude, pois a produção tenta manter-se fiel à proposta do objeto que tenta transmitir. E essa é a virtude maior de um bom documentário. Se Fitarelli não tem sequer um catálogo dos milhares e milhares de objetos que mantém depositados nas várias construções da Villa Fitarelli, que direito teria Migotto de tentar catalogar o trabalho de Fitarelli?
A fala que destoa do conjunto é a da professora Loraine Slomp Giron, uma das maiores estudiosas da imigração italiana no Rio Grande do Sul. Ciceroneada pelo próprio Fitarelli, ela percorre os depósitos e não esconde o seu desdém pelo trabalho do veterinário que se transformou em antiquário. Para ela, os objetos aí guardados, assim como todos os que estão em todos os museus, são objetos mortos que lembram pessoas mortas que lhe trazem “energias negativas”.
Mas uma fala da doutora me chama sobremaneira atenção. Ela lembra que os descendentes dos imigrantes italianos só começaram a ter orgulho e a se interessar pela história da imigração quando esta começou a ser interessante para a indústria do turismo. E que enquanto os descendentes dos imigrantes italianos eram pobres, suas histórias não interessavam a ninguém. E quando estas histórias vinham à tona, eram escondidas ou reprimidas. E arremata provocativamente ela: quem se interessa pela história dos senegalês e haitianos que hoje estão chegando ao Brasil?
Enquanto o documentário prossegue, minha mente sai da Sala Eduardo Hirtz da Casa de Cultura Mário Quintana e sobrevoa os vendedores ambulantes da Rua da Praia que falam sotaques dos diversos cantos do mundo. Cada um e cada uma tem suas histórias de vida que nem sempre são contadas e muitas vezes são ocultadas sobre o genérico nome de “estrangeiros”. Qual o nome do vendedor dos Nikes falsificados? De onde veio a senhora que vende leques chineses? Quantos filhos tem o casal de peruanos que tenta vender seus CDs de música andina? Quem é o pai do adolescente haitiano que vende “pau de selfie” e capas para celular? Quem se interessa por suas histórias?

Talvez daqui a 30, 50 ou 100 anos, seus netos e bisnetos, já estabelecidos no Brasil e com estabilidade econômica, comecem a buscar suas origens, resgatar objetos e contar histórias sobre a chegada de seus antepassados ao Brasil. E quem sabe, um documentário Prá Ficar na História.

A classe media e o complexo de vira-lata

A expressão foi cunhada pelo grande Nelson Gonçalves. Originalmente referia-se à condição do povo brasileiro depois da derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. O gol de Gigghia que fez calar o Maracanã abarrotado selava o sentimento presente na mente de muitos brasileiros de que o nosso destino seria o de ser eternos tupiniquins e quenunca alcançaríamos a glória das grandes civilizações. Nem mesmo no mundo desportivo.
A vitória por 5 X 2 contra a anfitriã Suécia no final da Copa de 1958 foi o começo da virada que se consolidou em 1962 e chegou ao seu auge em 1970 com a seleção canarinho do “Brasil ame-o ou deixe-o”. Os títulos que vieram depois – 1994 nos Estados Unidos e 1992 no Japão – foram apenas decorrência do “melhor futebol do mundo”. O sonho durou até a Copa do Brasil de 2014 e o fatídico 7 X 1 contra a Alemanha. E aí voltou o complexo de vira-lata até que a seleção prove ganhando outro mundial. Quem sabe o da Rússia em 2018?
Mas aí eu coloco uma pergunta: será que é mesmo real o complexo de vira-latas do povo brasileiro? Quem sou eu para desmentir ou corrigir o Nelson Gonçalves… Mas, desde a minha humildade, lanço a tese de que o tal complexo não atinge todos os brasileiros. Ele é um complexo típico da classe média. E isso não é o resultado de nossa composição étnica mestiça ou da fatalidade de sermos um país tropical, como afirmaram vários “cientistas” brasileiros do séc. XX. O complexo de vira-lata é uma opção da classe média. Tenho muitas razões para pensar assim. Elenco apenas algumas. Sigam-me na lista se tiverem paciência.
A classe média brasileira – a do sul, pelo menos – nunca esteve em Belém do Pará, nem em Manaus, Fortaleza, João Pessoa ou Salvador. Mas a classe média faz questão de ir a Nova Iorque, Paris, Londres e Roma. A classe média nunca comeu uma feijoada, um vatapá, uma moqueca de peixe, um tutu mineiro, um autêntico churrasco gaúcho. Mas a classe média faz questão de dizer que adora escargot, come o insosso McDonalds e faz um esforço danado prá engolir sushis, sashimis e tamakes. A classe média não vai ao cinema para ver filmes brasileiros. Ela despreza os nossos atores e atrizes e afirma que nossos filmes não tem qualidade técnica. Mas a classe média lota os cinemas com as produções hollywoodianas de quinta categoria. A classe média não houve rock brasileiro, tem horror de música sertaneja e passa longe do samba, do pagode e do funk. Mas a classe média lota os estádios nos shows de ridículas bandas americanas que não tem o menor pudor com o uso do playback. A classe média não compra roupa nos shoppings brasileiros. Ela vai fazer suas compras em Miami onde paga o dobro pelos mesmos produtos chineses, bengalis e tailandeses vendidos em Ciudaddel Este. Mas a classe média tem orgulho de dizer que fez suas compras em Miami. A classe média jamais participa das festas juninas, do Círio de Nazaré ou do carnaval de rua. A classe média comemora o Halloween, o Thanksgiving Day e o Saint Patrick’s Day.
O fato é que a classe média não gosta do Brasil. Ela não quer que o Brasil saia de sua situação de Terceiro Mundo. A classe média quer que o Brasil continue sendo um país marcado pela pobreza. Imagina se o Brasil dá certo e essa multidão de pretos e pobres começa a tomar o lugar que historicamente foi da classe média branca e bem nascida? Seria o fim da própria classe média… Melhor que o Brasil perca de novo para a Alemanha de 7 X 1! E que a Petrobrás seja vendida. Afinal, prá que ter a maior e melhor petroleira do mundo? O Brasil não merece, pensa a classe média. E as reservas do pré-sal? O Brasil não sabe o que fazer com elas. Melhor entregá-la para os europeus e norte-americanos que sabem o que fazer com o petróleo. As reservas naturais de fero, manganês, bauxita, níquel, cádmio, titânio? Entreguemos para os chineses, pensa a classe média. Chinês transforma tudo em manufaturado e depois nós compramos! A biodiversidade da Amazônia? Os cientistas brasileiros não são capazes de aproveitá-la… Aliás, prá que incentivar o desenvolvimento científico e tecnológico se podemos comprar tudo já pronto nos shoppings de Miami, Cingapura, Doha, Hong Kong ou Taiwan? A caatinga e o cerrado? São só árvores tortas e espinhentas. Belas de verdade, para a classe média, são as florestas de coníferas do norte da Europa e do Canadá. O pampa? Um imenso deserto verde. Vamos enchê-lo de eucaliptos australianos! São lindos os eucaliptos australianos… Bom mesmo seria importar cangurus prá substituírem os pangarés e as ovelhas. Prá que sermos a sexta economia do mundo se podemos ser a primeira colônia americana?
E o pior é que a classe média, mesmo dizendo-se admiradora dos Estados Unidos e defensora das liberdades individuais, ela tem pavor de democracia. Democracia só existe nos Estados Unidos e Europa. Aqui, o bom mesmo é uma boa ditadura. Daquelas bem sanguinárias, com tanques e tropas nas ruas. Porque “bandido bom é bandido morto” e as “pessoas de bem” tem direito a se armar para se defender. Políticas públicas, só para os ricos, tipo bolsa-empresário e auxílio moradia para juízes, ministros, deputados e senadores. Pobre tem que aprender a pescar. Nada de acostumá-los com as benesses do Estado. Vicia, torna preguiçoso. Ajuda do Estado apenas para o andar de cima no qual a classe média acha que habita. Se o filho de trabalhador não pode pagar pela universidade, que não estude. O Brasil precisa de mão de obra barata para rebaixar o “custo Brasil”. Políticos decentes? Melhor impedir que se candidatem. Se forem eleitos, podem dar mau exemplo e o populacho pode querer fazer política.E, caso algum consiga candidatar-se e ser eleito, faz-se um impeachment sem qualquer base legal. Com a Câmara, com o Senado, com o Supremo e com tudo, como bem lembrou o Romero Jucá. E se o impeachment for muito trabalhoso, tem sempre um miliciano disposto a ganhar uns trocados para fazer o serviço sujo numa noite escura de uma rua do centro do Rio de Janeiro. Foi feito com Mariella Franco. Pode ser feito com outros.
Como disse a filósofa Marilena Chauí, a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”.

CENAS DE VERÃO IV: OS BANQUEIROS, O ROTTWEILER E O SAPO BARBUDO

Dia seis de fevereiro. Ainda era verão nos quatro cantos do Brasil com sol de norte a sul. Véspera de carnaval. Mas a cidade de São Paulo fica longe do litoral. Aqui nada para. A vida segue normal. Afinal, tempo é dinheiro e como o tempo não para, o dinheiro também não pode parar. Ainda mais em ano eleitoral. As fichas tem que ser jogadas desde cedo para que os senhores da mesa tenham a segurança de nada perder.
Hotel Hyatt. Um dos mais sofisticados de São Paulo. O evento foi organizado pelo Banco Pactual. Quem comanda o espetáculo é um dos seus fundadores que deixou a função de executivo para dedicar-se à articulação política dos interesses do segmento que domina a economia brasileira. Presente na plateia o reduzido clube dos donos de bancos. Além deles, os operadores de mercado. Aqueles que, no dia a dia, administram os interesses dos donos dos bancos.
É um seleto grupo. O grupo dos ganhadores. Em um ano de profunda crise da economia brasileira, o maior dos bancos privados, o Banco Itaú, viu sua lucratividade crescer 12,3% e aproximar-se, em valor líquido, dos 25 milhões de reais. Na soma dos quatro maiores bancos – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander – o aumento da lucratividade foi de 10,4%.
Mas os banqueiros e seus lugares-tenente não estão aqui para discutir economia. Para eles, o atual cenário econômico brasileiro está muito bom. Mais: nunca esteve tão bom! Eles querem que continue assim. E para isso precisam garantir seu candidato que já governa a economia brasileira há um bom tempo servindo aos diversos governos de plantão. Seu nome é conhecido: Henrique Meirelles. O único problema do Henrique Meirelles é que, ao mesmo tempo que produz os número espetaculares para os banqueiros, produz também os mais horripilantes números para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. O pior deles, o do desemprego. E todas as pesquisas de opinião mostram a sua inviabilidade. Não decola porque o lastro de desgraças que sua política econômica amarrou aos pés dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil é muito grande.
Que fazer então? Coloca-se o bode na sala. Ele tem nome e consequências: Reforma da Previdência. Para o desprazer dos engravatados que lotam o auditório do Hotel Hyatt, a tática do bode não funcionou. A Reforma da Previdência foi adiada e os brasileiros e brasileiras começaram a dar-se conta dos reais interesses que estão por trás das jogadas legislativas desde o golpe midiático-jurídico-parlamentar que afastou Dilma Roussef da Presidência.
Como a tática do bode não funcionou, a solução é apelar para a seguinte chama o rottweiler. Ovacionado em sua entrada triunfal e, na fala de quase uma hora, interrompido por frequentes aplausos, falou o pré-candidato à Presidência Jair Messias Bolsonaro. O que disse? Uma série de lugares comuns de seu repertório fascista. O que mais chamou a atenção foi sua incapacidade de apresentar qualquer proposta sensata sobre economia, saúde, educação e outros temas de interesse nacional. Sua maior pérola foi quando perguntado sobre como resolver o problema da segurança no Rio de Janeiro. A solução foi radiante: mandar metralhar a favela da Rocinha. Simples assim… E todos aplaudiram!
A pergunta é: o que leva homens inteligentes – se não fossem inteligentes não ganhariam tanto dinheiro… – a aplaudir tal personagem? A resposta me parece óbvia: eles precisam de um rottweiler para proteger seu território e assustar àquelas e àquelas que, mesmo timidamente, começam a querer a volta daquele que, durante oito anos, conduziu o maior processo de crescimento e redistribuição de renda do Brasil. Metade da população brasileira quer a volta do sapo barbudo ao governo. E a tendência é que aumente…
Será que a tática do rotweiler vai funcionar? Não sei. Não se sabe… Por precaução, o postiço que está onde nunca deveria ter estado, soltou sua matilha de rottweilers sobre a cidade do Rio de Janeiro. Se um rottweiler assusta, imagina milhares… Mas, não poderá acontecer com a tática do rottweiler o mesmo que aconteceu com a do bode? Só o tempo dirá… Mas, para desprazer dos banqueiros, no calor e na umidade típica dos trópicos, os sapos se multiplicam.

CENAS DE VERÃO III: O PADRE E O PINSCHER

Para boa parcela dos gaúchos que desfrutamos apenas de um breve e instável verão, ir à praia entre o Natal e o Carnaval é praticamente um ritual. Para muitos, mais do que o mar, o sol e a areia, os poucos dias ou semanas – para os mais agraciados, um mês! – tornam-se uma espécie de parêntesis onde se pode viver a distopia do quotidiano assoberbado por trabalho, compromissos, aparências e rotinas. Aproveita-se este tempo, mesmo que breve, para não fazer nada ou para fazer aquilo que não se pode fazer durante o ano. Para o bem ou para o mal…
Uma das coisas que muito me impressiona no Litoral Norte gaúcho é a frequência das pessoas às igrejas. Falo, concretamente, da Igreja Católica. Em cada pequena praia há uma capela. Algumas em condições precárias que só funcionam durante o veraneio. Outras, com sólidas estruturas e que funcionam o ano todo. Em umas e outras, é quase corrente haver missa todos os dias. Padres que se deslocam do interior, da serra ou da região metropolitana para descansar e, a convite da comunidade ou por interesse próprio, celebram a missa nas capelas. Tanto nos fins de semana como durante a semana.
Sábado de tarde. Tempo chuvoso e nordestão batendo. Impossível ir à praia. A missa na capela próxima da casa é às 20 horas. Chego quinze minutos antes. O espaço é grande. Cabem, tranquilamente, umas quatrocentas pessoas. Lotada. Consigo um lugar para sentar na fila de bancos do lado direito. Uma enorme variedade de idades, cores e vestimentas. É o Rio Grande mesclado em oração!
Um rapaz com um violão e um pequeno grupo de senhores e senhoras afina a voz para animar a missa. Um ruído no fundo da capela e depois o silêncio. Um perfume de incenso se espalha no ar. Olho para trás e aí está o padre para a procissão de entrada. Idade mediana, entre os 40 e 50. Um pouco mais do que bem paramentado para meu gosto. À sua frente um séquito de seis coroinhas e dois ministros. Os coroinhas marcham à frente com velas e o incenso. Um dos ministros carrega a cruz. O outro a Biblia. Em seguida o padre fechando a procissão e, a seu lado, um pinscher marron-avermelhado. A procissão é acompanhada por um canto tipicamente carismático.
Ao chegar ao altar, depois das devidas genuflexões e inclinações, cada um toma seu lugar. O pinscher também teu o seu. Quando o padre está sentado, descansa deitado entre seus pés. Quando o padre se levanta, o pinscher vai para baixo do altar e permanece de pé, olhando a assembleia. De vez em quando, sabe-se lá se motivado pelo irritante som da microfonia, pelo canto desafinado ou por algum olhar ou gesto de alguém da assembleia, o pequeno cão solta três ou quatro de seus agudos latidos que são pacientemente suportados pelos frequentadores da missa. Afinal, o pinscher é do padre. Os paroquianos o sabem e os visitantes desde o início da missa se deram conta do fato.
O movimento dos coroinhas, dos ministros e do comentarista não provoca qualquer reação do pequeno cão. Mas os latidos se tornam mais agressivos quando as leitoras se aproximam para proclamar os textos bíblicos que antecedem os evangelhos. Parece que ao pinscher do padre não agradam as presenças femininas perto do altar.
Depois do Evangelho, o padre inicia o seu sermão. O pinscher permanece sob o altar olhando a assembleia. A fala se prolonga monotamente mais do que o tempo recomendado. Depois dos primeiros minutos de atenção, os assistentes começam a torcer para que o tempo passe rapidamente. Uns fecham os olhos, talvez lembrando as ondas do mar. Outros ocupam o tempo vasculhando as visagens e vestimentas de seus vizinhos e vizinhas. Nos fundos, não faltam aqueles que aproveitam para dar uma olhadinha nas redes sociais. Na terceira fila do lado oposto de onde estou, uma senhora de meia idade com seu filhinho no colo. Pela aparência, não é veranista. É moradora do local. Talvez uma senhora que tenha trabalhado o dia todo e que, no fim do sábado de labuta, tenha vindo à igreja para encontrar um momento de consolo e esperança. No seu colo, a criança com o rosto tão cansado como o da mãe. Talvez não cansada esta do trabalho, mas da solidão ou quem sabe da fome, da multidão da igreja cheia, do calor que já começa a se tornar incômodo ou do sermão que não termina mais. Previsivelmente, a criança começa a chorar. A mãe tudo faz para acalmá-la. Por um momento, ela cessa seu lamento para em seguida recomeçar. Os circundantes olham, uns com compreensão e comiseração e outros com um certo incômodo. De sob o altar, a cada choro da criança, os agudos latidos do pinscher… O padre, sem interromper a fala que repete as mesmas frases pela enésima vez, olha para a criança, a mãe e o pinscher. Diante dos olhos assustados da assembleia, desce do altar com o microfone e se dirige até a terceira fila onde está a mãe e a ela se dirige falando ao microfone para que toda a igreja ouça: — A senhora, por favor, faz essa criança parar de chorar ou se retira da igreja!
Todos os oitocentos olhos estão cravados na criança e na mulher. Esta, com uma calma muito além do que se poderia esperar da situação, responde tranquilamente: — Quando o senhor fizer o seu cachorro parar de latir, eu faço o meu guri parar de chorar. Mas sair da igreja eu não saio…

O padre olha para a criança, para a mulher, para o pinscher, para a assembleia. Todos os presentes estão com os olhos cravados no padre. Uns olhares sérios, outros interrogativos, risonhos e até desafiadores. Sem abaixar a cabeça nem dizer outra palavra, o padre dá meia volta, retorna ao altar, levanta os braços e inicia a rezar o “Creio em Deus Pai”. A assembleia se levanta. A mulher continua sentada com seu filho que já não chora no colo. O pinscher está sob o altar, de pé, atento ao menor movimento da assembleia. A missa segue…

Cenas de Verão II: o menino e o pitbull

Praia da Conceição. Uma das tantas pequenas e pouco conhecidas praias do Litoral Norte gaúcho. São apenas três ruas ligando a Interpraias e as dunas da orla entre Arroio Teixeira e Curumim. Até os anos 1970, eram apenas algumas choupanas de pescadores e umas poucas casas de madeira de araucária construídas pelos abastados de São Francisco de Paula e Bom Jesus que aqui vinham veranear. A partir dos anos 80 e as sucessivas promessas de abertura da Rota do Sol, chegou o povo de Canela e Gramado. As avenidas foram calçadas e as travessas assinaladas e ocupadas por mais e mais veranistas.Com a finalização da Rota do Sol, veio a invasão dos gringos de Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Foram comprando e construindo casas e mansões sempre maiores e melhores que as dos vizinhos. Quem é gringo sabe como é isso…Apesar dessa mudança, a Praia da Conceição continuou sendo eminentemente residencial. O único comércio é o Minimercado Mattos na esquina da Interpraias com a avenida por onde passa o ônibus urbano. Tem de tudo: do pão francês ao material elétrico e hidráulico para concertos básicos. O espaço é pequeno. Tudo apertadinho, especialmente no verão, quando todos buscam este “pronto socorro material”. Na porta de entrada, um enorme cartaz com dois dizeres: “Proibido entrar sem camisa. Proibida a entrada de animais”.Sábado de Carnaval. Chego para buscar o pão para o lanche da tarde. Pequeno tumulto na entrada. Dona Bela, esposa do proprietário e caixa, impede um rapazote sem camisa de entrar. Depois de uma rápida discussão, o rapaz sai e, desde a rua, anuncia em tom de ameaça: — Vou chamar meu pai!Dona Bela olha para seu Ervino que está no açougue que olha para o genro que atende na padaria que olha para a nora que repõe as verduras nas caixas de plástico… Eu olho para os fregueses que se apressam nas compras e, ao sair, se postam na parada de ônibus em frente ao armazém. Algo de ameaçador paira no ar…No momento em que estou colocando as maçãs no saquinho plástico, uma sombra de dois metros tapa a luz do fim da tarde que entra pela porta. Ele aí está, de bermuda e sem camisa, no braço direito uma tatuagem de uma caveira sobre dois fuzis, no esquerdo, o emblema de um time de futebol. A seu lado, um pitbull que lhe chega ao joelho. Sem focinheira nem laço. Solto, pronto para o bote. Atrás dos dois, o rapazote…Olhando ameaçadoramente para os presentes – eu incluído – o homem dirige a palavra ao filho: — Luizinho! O que você queria nesta espelunca? — A tatuagem do dragão com o arco-íris. — Onde é que tá essa p…? — Ali! — Pega logo essa m…O meninote vai passando um por um os saquinhos com as tatuagens até achar a desejada. Olha para o pai. Olha para Dona Bela que segue estática atrás do caixa. O pai toma o filho pelo braço e sem qualquer menção de pagar pelo dragão com arco-íris, toma a porta da rua. O pitbull espera que os dois cheguem a calçada, solta um rosnado, dá meia volta e também parte. Os vira-latas que habitam a entrada do Minimercado Mattos seguem o pitbull a uma cuidadosa distância até este desaparecer na esquina.A parada de ônibus se esvazia. Uns voltam para casa. Outros para o armazém. Dona Bela enxuga o suor. Seu Ervino guarda a faca do açougue. O genro emerge da padaria. Sorrio para Dona Bela, pago minhas contas e retorno para casa. No caminho cruzo com um vira-lata que me rosna insistentemente.  Talvez ele esteja treinando para ser pitbull. Ignoro-o e signo meu caminho pensando no perfume do café colombiano que me espera.