Por menos pedras e menos cruzes.

Fim de semana passada participei, como todos os católicos que tem possibilidade, da celebração dominical. Tempo especial em preparação à Páscoa. A sequência da liturgia quaresma nos convida à revisão de vida e conversão para acolher a Salvação sempre dada por Deus, independentemente de nossa condição pecadora.

As leituras da Palavra de Deus do Quinto Domingo do Tempo da Quaresma têm como tema a misericórdia de Deus. No Evangelho de João, Jesus é colocado diante da situação da mulher que teria sido flagrada em adultério. Todos conhecemos o episódio. Só a mulher é levada até Jesus. O homem que teria cometido adultério com ela é isentado pelas “pessoas de bem” que se julgam cumpridores da Lei. Jesus desarma os moralistas agressores convidando a quem não tivesse pecado a atirar a primeira pedra. E todos se afastam, começando pelos mais velhos. Talvez fossem eles os que tivessem cometido adultério com a mulher. Jesus também não condena a mulher. Ele não veio para condenar, mas para salvar. E o faz com carinho, abaixando-se, colocando-se na mesma condição da mulher. Bem diferente dos homens que, de pé, julgavam a mulher e queriam também julgar a Jesus.

Minha tristeza, na celebração em que participei, foi a de ouvir o presidente, na sua reflexão, colocar-se do lado dos apedrejadores e não do lado da mulher e de Jesus. Durante os doze minutos do sermão, todo o acento foi colocado no “vai e não peques mais”, ressaltando que, de fato, a mulher era pecadora e devia ser condenada e que só a misericórdia de Jesus a salvou. Com o deslocamento do centro de atenção, as pedras voltaram a voar e a misericórdia de Deus desapareceu do horizonte. A insistência nos pecados da mulher foi tanta que a ação libertadora de Jesus foi transformada em um verdadeiro apedrejamento verbal. Uma pena! O legalismo condenado por Jesus parece muitas vezes presidir a leitura que fazemos do Evangelho. Como seria bom colocar-se outra vez na mesma posição de Jesus, sentado, no pó do chão, ao lado das que sofrem. Isso nos faria entender e anunciar.

Escrevo isso pensando na semana litúrgica da qual estamos nos aproximando, a Semana Santa. Passa-me pela cabeça a terrível ideia de que a Paixão e Morte de Cristo na cruz também possa ser interpretada a partir da condenação das autoridades religiosas daquele tempo e de seus gritos de “crucifica-o, crucifica-o”. Meu medo é que apareça alguém pregando que a morte de Jesus, assim como afirmavam seus acusadores, devia mesmo acontecer. Afinal, ele ensinava os pobres, anunciava o Reino de Deus, convivia com pessoas tidas por impuras e indignas da graça de Deus, com hereges e estrangeiros, infringia a Lei e não respeitava as autoridades religiosas. E que os que o mataram, nada mais fizeram que cumprir a lei.

Oxalá que isso não aconteça. Mas tenho medo. E temo. Temo muito. Afinal, estamos vivendo tempos em que a religião da pedra e da cruz parece prevalecer sobre a comunhão do pão e a esperança da ressurreição. Rezemos pela nossa conversão!

São José e a santidade que mora ao lado.

Hoje, 19 de março, venho a público confessar que durante muito tempo tive dificuldade em lidar com as devoções a São José, o carpinteiro, esposo de Maria e pai de Jesus. A dificuldade não se enraizava numa falta de fé de minha parte ou em uma presenta desconfiança na exemplaridade da vida do homem de Nazaré. Muito antes pelo contrário. José, ao aceitar Maria grávida e criar um filho que não era dele, transgrediu as leis judaicas que regulamentavam o casamento e a procriação e pagou caro as consequências de ter assumido o cuidado do Filho de Deus.

A vida em Nazaré não foi fácil para o jovem casal. As “pessoas de bem” olhavam para os dois com desconfiança e até com desprezo. Especialmente para José que tomou por esposa uma mulher que, segundo a lei, deveria ter sido apedrejada porque ficara grávida antes do casamento. E, se o filho fosse dele, segundo a mesma lei, José deveria ter sido apedrejado também, por engravidar uma virgem antes de coabitar com ela. Os moradores de Nazaré nada sabiam dos anjos que, segundo os evangelhos de Mateus e Lucas, tinham falado a José e a Maria.

A viagem a Belém, a fuga para o Egito e o retorno a Nazaré não foram fáceis para José e Maria. Os evangelhos nos fornecem pouca informação sobre a vida da família de Nazaré. Apenas dizem que eles cumpriam suas obrigações religiosas – frequentavam a sinagoga e faziam a peregrinação a Jerusalém – e que José era um sem-terra que sobrevivia trabalhando como diarista na construção civil. Talvez, como tantos outros conterrâneos seus, passasse a semana trabalhando nas grandes obras que a administração romana levava adiante nas vizinhas cidades de Séforis e Tiberíades e só voltasse para Nazaré onde morava Maria com o menino no sábado. Mas são apenas suposições. O fato é que nos Evangelhos, depois das narrativas iniciais de Mateus e Lucas, são poucas as referências a José. Nenhuma no evangelho de Marcos; uma nos evangelhos de Mateus e Lucas; duas no evangelho de João. Em três delas, a menção a José é feita com o intuito de desqualificar a pregação e a atividade de Jesus por ser ele “o filho do carpinteiro José”! Depois isso, José desaparece completamente dos relatos bíblicos.

De onde vem, então, as tantas informações sobre a vida de José que encontramos nas vidas dos santos? A maioria vem da literatura apócrifa e gnóstica ou então da imaginação dos devotos que atribuem a José coisas que os evangelistas sequer ousavam pensar e muito menos descrever porque, de fato, não existiram. Como pode alguém, com tão poucas informações sobre o carpinteiro de Nazaré escrever uma biografia de São José com mais de seiscentas páginas? Haja imaginação!…

Minha reconciliação com as devoções a São José foi despertada pela Encíclica “Gaudete et Exsultate” do Papa Francisco. Nela, ele chama a atenção para a “santidade que mora ao lado”, a santidade dos “pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir […] daqueles e daquelas que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus”.

Essa é a santidade do carpinteiro José, a santidade ordinária, a “classe média” da santidade, como diz o Papa Francisco. Santidade que muitas vezes passa desapercebida porque não se expressa em grandes fatos ou em discursos eloquentes. Ela se realiza no quotidiano e só é perceptível para aqueles e aquelas que tem a graça de sentir a presença de Deus no ordinário da vida. E esse é o caminho da revelação que Deus nos mostrou em Jesus Cristo, aquele que foi cuidado e ensinado por José, o carpinteiro de Nazaré, que, por isso, merece toda nossa reverência.

Obs.: A tradução portuguesa da “Gaudete et Exsultate” fala de “santidade ao pé da porta”. Nós preferimos, a partir do original francês da expressão, traduzir como “a santidade que mora ao lado”.

Sobre oligarcas e grandes marcas.

Para tentar conter o ímpeto bélico da Rússia, os países ocidentais – Estados Unidos à frente – estão tomando algumas medidas extraordinárias para os padrões capitalistas que regem a economia deste lado do globo terrestre. O mais surpreendente é o sequestro dos bens dos ditos oligarcas russos. Uma medida surpreendente, já que os liberais ocidentais defendem o direito absoluto à propriedade e à livre iniciativa. É uma medida extrema, só aceitável em tempo de guerra e contra estrangeiros, dizem eles.
Outra medida extrema, foi a retirada de marcas mundialmente famosas – American Expresses, Visa, Master Card, Zara, Coca Cola, Starbucks e Mac Donalds – do mercado russo. Essas empresas vão perder bilhões de dólares que certamente não deixarão de circular na 10ª economia do mundo que é a russa. Mas é o “sacrifício” que estas empresas farão para restabelecer a democracia e salvar o mundo da volta do regime soviético capitaneado pelo novo Stalin em que Putin se transformou. São medidas extremas, só aceitáveis em tempo de guerra e em países estrangeiros, dizem eles.
Tais medidas extremas me fizeram pensar em algo insólito. No Brasil não vivemos uma situação de guerra declarada. Há as chacinas diárias onde morrem mais civis do que na guerra da Ucrânia e as pessoas andam de um lado para outro, não fugindo da guerra – graças a Deus! – mas buscando sim, um lugar para ganhar o pão de cada dia e sobreviver com suas famílias destroçadas pelo desemprego e pela miséria. Nessa situação extrema, não seria justificável desapropriar os bens dos oligarcas brasileiros para prover aos milhões de cidadãos que não tem o que colocar na mesa hoje? Proporcionalmente falando, os oligarcas brasileiros são muito mais oligárquicos que os russos. Enquanto por lá 300 pessoas detém a metade da riqueza russa, aqui, na “terra brasilis”, os seis homens mais ricos detém a mesma riqueza que a metade mais pobre da população. Em termos de oligarquias, damos de goleada nos russos. Quase um 7 X 1!
Quanto a banir as marcas americanas, isso seria uma graça. Poucos brasileiros sentiriam a falta da Zara, Starbucks e Mac Donalds. E a Coca Cola pode ser substituída por um Jesus Cola ou Fruki Cola e por um bom café nacional. Tudo, claro, pago através de um cartão de débito ou crédito chinês que substituiria os American Express, Visa e Master Card como aconteceu na Rússia.
Se alguém estranhou a minha matinal divagação, talvez ela se deva à dose excessiva de café que tomei essa manhã…

Rússia X Ucrânia: o falso dilema.

Fui interpelado ontem por uma pessoa de minhas relações sobre o meu posicionamento ante a guerra entre a Rússia e Ucrânia. Vendo minhas postagens nas redes sociais, essa pessoa não conseguia saber se eu apoiava Putin ou Zelinsky.

Tentei logo esclarecer: não torço nem prá um e nem prá outro. Numa guerra, quem torce para que um ou outro seja vencedor, dá uma demonstração de desconhecimento do que está em jogo. E, no caso, o que se disputa não é o domínio da Ucrânia simplesmente. O problema é muito mais profundo. Trata-se do fim da hegemonia global norte-americana e da emergência de uma nova configuração nas relações internacionais.

Com a expansão da OTAN para o Leste, os Estados Unidos tentam manter militarmente a hegemonia que a força econômica e política já nãos lhes proporciona. China, Rússia e Índia – sem contar outros países – estão hoje dispostos a assumir um papel protagônico nas relações internacionais.

Putin não é um louco ou um novo hitler. Ele sabe muito bem o que está fazendo e vem planejando isso desde que assumiu o poder. E não vai voltar atrás. E Biden também sabe disso. E não vai voltar atrás… Por isso o desenlace da crise não será para logo. E quem mais sofrerá será o povo ucraniano que, instigado por um fantoche dos Estados Unidos, foi jogado para uma guerra sem qualquer perspectiva de vender. Até porque numa guerra nunca há vencedores, a não ser os que vendem armas e os que depois ganharão dinheiro com a reconstrução da infra estrutura destruída.

Os países da Europa tampouco serão vencedores. As sanções impostas à Rússia logo se voltarão contra os próprios europeus que terão que pagar cada vez mais caro pelo petróleo, gás, trigo… Sem contar, é claro, com o custo absurdo de uma guerra que os Estados Unidos lhes repassarão. E o custo dos milhões de refugiados que continuarão a afluir para o Oeste.

A perspectiva é muito triste… O único caminho seria a total desnuclearização e desmilitarização da Europa com os Estados Unidos retirando suas forças de ocupação do solo europeu e a Rússia fazendo o mesmo movimento em seu território. Mas, a essas alturas, sonhar com isso é uma absurda divagação pacifista que só seria alcançada com uma ampla mobilização da população europeia. Algo que, claro, não está à vista na esquina das ruas de Berlim, Paris, Londres, Madrid ou Roma.

O que nos resta a fazer, além de rezar e ser solidários com as vítimas, é fortalecer e espalhar a convicção de que todo recursos à violência e às armas nunca é caminho para a solução dos problemas que vivemos, tanto nos relacionamentos próximos como nas relações internacionais.

Ah! Prá não esquecer… Se sobrevivermos, nem Rússia nem Estados Unidos serão os vencedores. Quem ganhará com a presente guerra é a China e os países que com ela se alinharão. Basta acompanhar nos portais oficiais do governo chinês os movimentos da diplomacia daquele país e logo perceberemos como eles estão conduzindo seus negócios em meio à crise.

Caminhar, comer e meditar.

O que fazer para mudar o mundo? É a pergunta que todos os que temos um mínimo sentimento de humanidade fazemos. Só quem é insensível diante de tudo o que está acontecendo – guerras, fome, peste, ecocídio, feminicídio, racismo, genocídios… – pode abdicar de preocupar-se com o futuro da humanidade e do planeta que nos cabe habitar.

Muitos talvez desistam da inquietação diante da enormidade das situações que se apresentam. Os problemas são grandes demais para que um indivíduo sozinho ou com seu pequeno círculo de relações possa fazer algo. Então, é melhor não fazer nada pois, agindo, podemos piorar ainda mais a situação.

Pior que este temor muitas vesses pode ser verdadeiro! Afinal, para enfrentar os Cavaleiros do Apocalipse que ameaçam tudo destruir, é preciso uma ação conjunta que reúna forças para enfrentar aqueles – pessoas, grupos econômicos e países – que ganham com o mercado da morte. A tanatofilia não é apenas um distúrbio psicológico. Ela é um programa político e um mercado rentável. Basta ver o lucro das empresas produtoras de armas e o modo como alguns candidatos se alçam ao poder.

A política é o único caminho para se construir uma alternativa que defenda a vida de todas as pessoas e dos demais seres vivos e do Planeta Terra. Não há outro caminho. Ele é longo. Exige serenidade e perseverança. Trilhá-lo com paixão e compaixão é a única alternativa possível a longo prazo.

O problema é que quem tem fome e tem a vida ameaçada, não pode esperar tanto. E aí emerge o outro lado de uma possível solução. Precisamos iniciar logo a mudança e dar os primeiros passos com nossos próprios pés. E isso literalmente! Afinal, na raiz das muitas ameaças à vida sobre a Terra, está a demanda insaciável por energia que o modo atual de organizar a vida sobre a Terra – aquilo que pomposamente chamamos de Economia – exige. Por trás das guerras, da destruição ambiental e da fome, está a necessidade de petróleo, gás, energia elétrica, nuclear… E o carro é o vilão simbólico do consumo desenfreado de energia. Andar a pé, de bicicleta ou em transporte coletivo, é o início de uma verdadeira revolução.

Ao andar a pé, gastamos energia. E para repô-la, temos que comer! E aí vem a segunda opção: comer menos carne. Efetivamente, a produção de “proteína animal” é a principal causa do desmatamento, do desperdício de água e do desequilíbrio ambiental. A cada quilo a menos de carne que comemos, estamos ajudando a manter viva a criação e a harmonia entre os humanos e destes com o meio ambiente. Para manter estas difíceis opções, é preciso pararmos para pensar no sentido da curta e frágil vida humana. Afinal, dificilmente passaremos dos cem anos! Vale a pena passar este curto tempo correndo pelas estradas reais e virtuais sem sentir o sabor da paisagem que se esvai e da qual só ficam em nossa memória vagos fantasmas? Melhor ir devagar… suavemente, docemente, calmamente, tomando tempo para saborear cada passo, cada espaço, cada momento. Meditar é a solução. Menos agitação e mais contemplação, certamente nos ajudarão a sentir, pensar, viver e construir um mundo melhor.

Si vis pacem, para bellum?

A frase é atribuída a Vegécio, um escritor romano que viveu no séc. V d.C. Dizia ele: Si vis pacem, para bellum. Para convencer o Imperador, de quem era amigo, a restaurar a grandeza do Exército Romano, escreveu um “Compêndio da Arte Militar” que, por sua simplicidade e praticidade, tornou-se referência da arte da guerra durante séculos no Ocidente. A fama da obra e a força da frase perduraram tanto que, no início do século XX, o Império Alemão, através da Fábrica Alemã de Armas e Munições (Deutsche Waffen und Munitionsfabriken) batizou uma de suas mais famosas criações, a Luger P08, de Parabellumpistole. Entre os anos de 1914 e 1918, mais de dois milhões de exemplares deste modelo foram produzidos e ele se tornou icônico de arma de defesa pessoal.

Curiosidades históricas a parte, voltemos ao importante da expressão popularizada por Vegécio. Ela afirma que a paz só pode ser alcançada pelo uso da força. Em outras palavras, só haverá paz quando as pessoas se sentirem suficientemente amedrontadas para não mais agirem violentamente. É uma lógica que tem forte apelo popular. Para muitas pessoas, a violência só poderá ser diminuída através do armamento generalizado dos cidadãos e de uma ação intimidatória por parte do Estado. Quanto mais armas nas mãos dos cidadãos e quanto mais violenta for a repressão por parte do Estado – polícia e Exército – contra os que praticam a violência, mais tranquila e pacificamente poderá viver a sociedade. Os inimigos da sociedade, sejam eles internos ou externos, só serão inibidos quando aterrorizados ou, no limite, aniquilados.

Foi esta lógica de forte apelo popular que levou à corrida armamentista que resultou na Primeira e na Segunda Guerra Mundial com seus milhões de mortos e incalculáveis perdas humanas e econômicas. Corrida que continuou através da Guerra Fria que quase resultou numa guerra nuclear que poderia ter acabado com a humanidade e boa parte da vida do Planeta Terra. A experiência cotidiana e os dados de todas as instituições que monitoram a violência a nível global indicam, sem sombra de dúvidas que, quanto mais armas em circulação, maior é a letalidade da violência.

Um olhar frio e sério sobe a realidade humana nos ensina que, diferentemente do que dizia o escritor romano e hoje apregoam os armamentistas, deveríamos afirmar: se queres a paz, prepara-te para ela! E o primeiro passo, é renunciar a toda lógica de violência. E o passo mais concreto, é livrar-se de todo e qualquer instrumento que possa fazer dano a outras pessoas.

Para o cristão, isso não é nada novo. É um compromisso que nasce da própria missão recebida de Jesus. Com efeito, quando enviou seus 72 discípulos, Jesus os advertiu claramente: “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” Mas, avisa o Mestre, os discípulos não podem agir como os lobos, pois, agindo como lobos, deixariam de ser cordeiros, deixariam de ser símbolos da paz. Os discípulos devem andar desarmados e sem ostentar nenhum símbolo de poder. E o seu anúncio dever ser o da paz: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro:
A paz esteja nesta casa!” E o anúncio proclamado deve ser tão radicalmente pacífico que precisa ser apresentada sem nenhuma pretensão de imposição. Se os habitantes da casa acolherem esta paz, os discípulos nela podem permanecer. Mas se os habitantes não acolherem a mensagem de paz, o discípulo não deve discutir ou querer impor a paz, pois isto seria abandonar a lógica da paz e aderir à lógica da disputa e do conflito que resultará, inevitavelmente, em violência. Para Jesus, os fins não justificam os meios e não se pode justificar uma ação má nem mesmo quando feita com boa intenção.

A tentação da lógica da violência como meio para alcançar a paz é tão grande que Jesus adverte os 72 discípulos: “…quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós.’” A lógica da violência é tão sutil e pegajosa que se aninha em nossos vestidos – físicos, mentais e espirituais – sem que nos demos conta dela e, às vezes, contra o discurso proclamado, acabamos por reproduzi-la em nossas relações diárias. É preciso livrar-se dela, sacudi-la de nossos corpos, mentes e corações. E isso só pode ser feito com a educação das novas gerações e a reeducação dos que fomos treinados para agir violentamente.

É preciso ensinar as pessoas que “não se pode trocar um aperto de mão com o punho fechado” e muito menos trocar um aperto de mão com armas na mão. Se queremos a paz, preparemo-nos para ela. E o primeiro passo é desarmar a mente, o coração e as mãos.

LULA, ALCKMIN E SUPLICY EM TRÊS ANOS

Poucos dias antes do Natal os noticiários brasileiros noticiaram com ampla repercussão o inusitado jantar promovido pelo grupo Prerrogativas onde se reuniram numerosos personagens da cena política brasileira. Havia para todos os gostos, desde a esquerda, passando pelo centro até a direita mais ou menos moderada e, claro, não faltaram os representantes do dito “Centrão” que, qual geleia mal apurada, se move para o lado onde pende o poder.

O prato principal do jantar, mesmo que muitos não o admitissem publicamente, era a presença simultânea e proposital entre Lula e Alckmin. O petista mor e um tucano de longa linhagem e alta plumagem pronto a saltar do ninho que por tanto tempo o abrigou em busca da vice-presidência. Como não podia deixar de ser, houve críticas e elogios de todos os lados. Nas redes sociais voaram confetes, serpentinas, fogos de artifício, bombas e também maledicências e palavrões. Comentários para todos os gostos. De minha parte, me mantive no silêncio diante do passado ali presente e pensando no futuro que pode acontecer.

A cena seguinte, menos bombástica mas também devidamente registrada, foi o encontro entre Alckmin e o ex-Senador Eduardo Suplicy no sábado de Natal. O objetivo era claro: manter viva a discussão sobre a possível chapa Lula-Alckmin. O efeito foi alcançado. O diálogo PT/Alckmin continua pautando o noticiário político.

No domingo a terceira cena que me moveu a escrever estas linhas: a morte de Desmond Tutu, o incansável bispo lutador contra toda forma de opressão e desigualdade. Mas, acima de tudo, o homem que foi o garante dos acordos que permitiram a superação do regime de apartheid na África do Sul. Liderando a Comissão de Verdade e Reconciliação, fez com que o aperto de mãos entre Nelson Mandela e Fréderic De Klerk não fosse seguido por um banho de sangue de repressão ou de vingança. Sem a Comissão de Verdade e Reconciliação liderada pelo pequeno gigante, todo o esforço político de Mandela e De Klerk poderia ter ido ao chão.

Lula e Alckmin talvez não tenham as dimensões de Mandela e De Klerk. Mas ninguém pode deixar de reconhecer que um representa a luta por um Brasil socialmente mais junto e o outro tem a trajetória da elite que nunca se incomodou com os sofrimentos da maioria do povo pobre e, na grande maioria dos casos, dela se aproveitou.

Na África do Sul havia o apartheid racial e legal. No Brasil, o apartheid social é informal mas não menos real e nem menos cruel que o do país do outro lado do Atlântico. Fico torcendo para que o aperto de mãos entre Lula e Alckmin sele o pacto por uma sociedade mais justa. Mas estou convicto que se não houver uma Comissão de Verdade e Reconciliação sobre as injustiças do passado distante e do presente próximo – entre elas os mais de 600 mil mortos por Covid19 e as múltiplas chacinas de jovens negros nas periferias das grandes cidades – dificilmente iremos além de uma conciliação de elites que nada de novo trará ao povo pobre brasileiro.

E aí a pergunta: quem poderá exercer no Brasil o papel que Desmond Tutu exerceu na África do Sul? Já não temos um Dom Hélder Câmara, nem um Dom Aloísio Lorscheider ou um Dom Paulo Evaristo Arns… As lideranças religiosas brasileiras, ou são silentes ou, em alguns casos, caricatos cúmplices da situação de dor e sofrimento de seus fiéis e de toda a nação. Quem tem autoridade moral hoje no Brasil para liderar um processo de desencobrimento das atrocidades e restauração da convivência entre vítimas e vitimários?

Talvez o provecto ex-senador por São Paulo possa indicar ou ser indicado para esse papel. É um burguês que sempre foi sensível à causa dos pobres. Pode ser a ponte entre o poleiro de tucanos e a estrela que, depois da tempestade, volta a brilhar. Quem sabe! Não custa sonhar com um 2022 melhor que abra caminhos para um novo futuro para o Brasil.

De qualquer foram, Feliz Ano Novo!

Meu fetiche de Natal

Símbolo ou fetiche? A distinção nem sempre é fácil. Muitas vezes o que queremos afirmar com uma das palavras se confunde com o que a outra quer dizer. Ainda mais nestes tempos de imprecisão linguística em que tudo o que é dito pode ser desdito ou entendido de forma totalmente diferente do que é.

Tentando uma aproximação, podemos dizer que símbolo é algo concreto que, por convecção ou analogia, indica algo abstrato. A cruz é símbolo do Cristianismo; a pomba representa a paz; a meia luz crescente o Islã; a foice e o martelo o comunismo; a suástica o nazismo.

Já o fetiche, é algo real e tangível que pretende substituir algo inalcançável. Coube a Sigmund Freud introduzir o conceito de fetiche na análise psicológica. Segundo ele, quando alguém não consegue alcançar o prazer sexual através de uma relação amorosa, pode dar-se prazer com algum objeto que simule a pessoa desejada ou em alguma parte de seu corpo que substitui o todo.

Freud não inventou este conceito do nada. Ele o buscou na etnologia que, desde o séc. XVIII, já o usava para caracterizar as religiões não ocidentais que apresentavam suas divindades agindo em lugares e objetos materiais. Charles de Brosse, primeiro etnólogo a utilizar o termo em um estudo dito científico, provavelmente tenha se inspirado na “caça às feiticeiras” dos séculos que os precederam. Afinal, “feiticeira” é a pessoa que é capaz de fazer com que objetos do quotidiano tenham qualidades divinas e, no limite, seja ela capaz de transformar algo material em sobrenatural.

De forma simples podemos dizer que o símbolo indica uma realidade que é diferente dele e o fetiche substitui esta realidade tomando o seu lugar e suas propriedades. Daí a pergunta que nos vem nestes dias que antecedem o Natal: quais são os símbolos natalinos mais populares? Tente fazer essa pergunta a si mesmo e às pessoas que estão ao seu redor. Pinheirinho, Papai Noel, trenó, renas, peru, chester, panetone, pacote de presente com fita vermelha e verde… serão as respostas mais comuns. Símbolos ou fetiches? No rigor do termo, fetiches. Eles substituíram e roubaram as propriedades daquilo que o Natal representa.

De fato, o menino que nasce em Belém, filho de Maria e de José, é o símbolo da presença salvadora no meio de nós. Ele mostra no concreto de sua fragilidade o projeto de Deus-Javé de libertar seus pequenos da escravidão do Egito, da Babilônia, da Assíria, do Império Grego, do Império Romano e, hoje, do império do consumo capaz de roubar até mesmo a esperança dos empobrecidos.

Queremos Natal, sim. Com muita festa, com muita alegria. Um Natal com seus verdadeiros símbolos: Maria, José, o Menino, o boi, o burro, os pastores, os anjos… Para que eles tenham lugar no presépio de nossas casas, cidades, de nosso país e do mundo, é preciso que nos livremos dos fetiches do capital. Um grande desafio natalino! Que possamos encará-lo com coragem e esperança.

FELIZ NATAL!


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Natal: tempo de alegria

Que o Natal é tempo de alegria, todo mundo sabe. Especialmente o comércio e o turismo que “fazem a festa”. Não a do nascimento do Deus-menino. É a festa do Papai Noel, o maior vendedor de todos os tempos. Um verdadeiro “deus do comércio”. Pensando bem, talvez o velho gordinho seja a versão moderna do deus romano Mercúrio. Apesar das diferenças de peso – Mercúrio é magro e o Papai Noel é gordo – os dois têm várias semelhanças: vestem vermelho, se deslocam voando – um de trenó e outro com asas nos pés – e estão sempre carregando um saco. O de Mercúrio é pequeno, uma simples bolsa amarrada por um cordão e levada nas mãos. O do Papai Noel é grande e levado nas costas pelo idoso. Mercúrio carrega dinheiro. Papai Noel aquilo que o dinheiro pode comprar. Os pais sabem bem disso…

Na verdade, os “presentes” que o dito “bom velhinho” traz não vêm de graça. São cada vez mais caros. Parece que a inflação das terras geladas de onde as renas trazem o trenó é mais alta que a do Posto Ipiranga. E ainda tem os presentes sem graça. Aquelas coisas que ganhamos e não sabemos o que fazer com elas. Ficam entulhando a casa e a gente fica fingindo que gostou apenas para agradar o amigo nada secreto de Natal. Nesta história de presente sem graça, o único que ganha são os comerciantes e os fabricantes de quinquilharias. Mas é o “espírito de Natal”. Não o de Jesus, mas o de Mamom, a versão cananeia de Mercúrio e de Papai Noel.

Mas voltemos ao Natal. O verdadeiro Natal. O do Deus que se faz menino na gruta de Belém, nascido da virgem Maria e de José nos tempos em que Tibério era o Imperador de Roma, Pôncio Pilatos o governador da Judéia, Herodes administrava a Galileia e seu irmão Filipe as regiões da Ituréia e Traconítides e o outro irmão, Lisâneas, governava Abilene. E para não esquecer do poder religioso, Lucas lembra que Anás e Caifás eram os Sumos Sacerdotes de Jerusalém.

É com esta “análise de conjuntura” onde apresenta os poderosos que oprimiam o povo, que o evangelista Lucas inicia sua narrativa da vida de Jesus. Início da Boa Nova que é lido na liturgia do Segundo Domingo do Tempo do Advento. A alegria anunciada por João Batista, o filho de Zacarias e de Isabel. Alegria que não pode ser conquistada com a espada dos poderosos, os incensos do templo e nem comprada com o dinheiro de Mercúrio ou de Mamom e tampouco transportada em um trenó.

A verdadeira alegria é a anunciada por João Batista, o filho do sacerdote que deixou o templo para, qual novo profeta Baruc, anunciar que o reinado de Deus está chegando. Um reinado onde a paz brotará da justiça para com os empobrecidos e a glória de Deus se tornará concreta e real na misericórdia entre os humanos e destes com toda a criação.

Como canta o Salmo 125 nesta mesma liturgia, a verdadeira alegria não é a anunciada pelo “Oh!Oh!Oh” da propaganda da Coca-Cola. A voz que a anuncia é a do Santo que chama os sem teto, os sem trabalho e os sem terra do mundo inteiro para a construção de uma nova sociedade, do Novo Céu e da Nova Terra onde todos serão verdadeiros cidadãos, filhos e filhas de Deus de pleno direito e fato. A alegria do Natal anunciada por João Batista, realizada por Jesus e celebrada no Segundo Domingo do Advento, é a certeza de que “os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” e que são “bem aventurados os que choram, porque serão consolados”.

Um bom esperançar natalino a cada um e cada uma!

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Natal: o símbolo dá o que pensar.

Na manhã de hoje, 23 de novembro de 2021, um caminhão guindaste rompeu o silêncio da Praça de São Pedro no Vaticano. Retirada de cima de um caminhão, uma árvore de 28 metros foi levantada e fixada na vertical. Ali permanecerá até o dia 9 de janeiro de 1922. O majestoso pinheiro, com em torno de 110 anos de idade, é originário de uma floresta sustentável do Trentino, no Norte da Itália. A agência de notícias do Vaticano diz que a árvore será decorada com ornamentos esféricos de madeira e iluminada com lâmpadas LED de baixo consumo.

Colocar uma “árvore de Natal” na praça de São Pedro é uma prática recente. Tem apenas 40 anos. A primeira foi ali colocada em 1982 quando João Paulo II era o Papa. Desde então, a cada ano, várias regiões da Europa disputam o direito de enviar a sua árvore para o Vaticano.

Ao ler a notícias, várias considerações me vieram à mente. Duas quero partilhá-las com os amigos para que pensemos juntos e juntas. A primeira uma inquietação franciscana tão cara ao Papa Francisco, como ele o demonstra na “Laudato Sì”. É uma preocupação ecológica. Quando Francisco de Assis, em Greccio, celebrou o Natal com a população local, fez vir, junto ao presépio, um boi e um burro. Apenas dois animais. Mas o suficiente para mostrar que a salvação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo abarca toda a criação. É um símbolo. E São Francisco, antes mesmo que Paul Ricoeur, sabia que os símbolos dão o que pensar.

E aqui eu penso: em tempos de “Laudato Sì”, de aquecimento global, de devastação da Amazônia, de Sínodo para a Amazônia, ainda faz sentido cortar uma árvore de 110 anos para colocá-la na Praça de São Pedro onde permanecerá por algumas semanas e depois… o que será feito com essa vida de 110 anos que foi interrompida apenas para o deleite visual dos que passam por Roma neste tempo de inverno? Milhões de fotos desta árvore circularão pelas redes sociais. Que mensagem elas levam para o mundo?

A segunda preocupação é sobre a relação entre religião e cultura. Todos sabemos que a data do Natal foi uma apropriação cristã da festa pagã do sol invictus, divindade erigida pelo Imperador Aureliano como religião oficial romana no ano de 274d.C.. Ao buscar uma aproximação com o cristianismo, o Imperador Constantino proibiu o culto ao sol invictus e substituiu o festival de 25 de dezembro pela comemoração do nascimento de Jesus Cristo.

O pinheiro é outro exemplo de apropriação de um símbolo pagão pelo cristianismo. Ele era utilizado por várias religiões para representar a presença da divindade. Quando os missionários cristãos penetraram nas regiões ocupadas pelos germânicos e escandinavos, eles assumiram esse símbolo religioso e incorporaram-no à festa natalina. Lutero, em seu intuito de purificar o cristianismo dos símbolos pagãos e sabendo que não podia contrapor-se a essa tradição, insistia em que a árvore deveria ser triangular para representar nela as três pessoas da Santíssima Trindade. Atitude sábia. Não se pode lutar contra a cultura. Pelo contrário. O cristianismo, assim como todas as religiões, sempre se expressa através dos símbolos culturais compreensíveis às pessoas.

E aqui eu me faço uma segunda pergunta: qual o símbolo da cultura de hoje que mais é associado ao Natal? Temo não estar equivocado ao afirmar que a grande maioria das pessoas hoje, quando pensa em Natal, pensa em Papai Noel. Na maioria dos presépios, desde as casas até os centros comerciais, não há lugar para Jesus. Maria e José continuam rodando por aí em busca de um lugar onde o menino poderá nascer. E é muito provável que tenham que, outra vez, buscar uma manjedoura.

Não creio que seja possível evangelizar o Papai Noel. Mais: temo que o Papai Noel já tenha comercializado definitivamente o Menino Jesus. Por isso, minha opção é radical: nada de presentes no Natal. E, para o presépio, nada de árvores. Nem naturais e muito menos as artificias. No máximo, um presépio artesanal, feito com materiais locais e da economia cooperativa e sustentável.

Isso não muda o mundo. Mas é um símbolo. E o símbolo dá o que pensar.

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