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Da pandemia à empatia.

2020 já terminou! Um alívio… Um ano tão rápido que demorou tanto a passar. Parecia que não acabava mais. A tradicional contagem regressiva dos 10 segundos finais foi antecedida pela contagem dos últimos dias, das últimas semanas, dos últimos meses. Todos desejávamos que passasse logo. E passou. Estamos em 2021. Um ano novo cheio de otimismo e sonhos.

Esperança de tempos novos que foi alentada pela chegada das vacinas que prometem a superação da pandemia. Alguns países já começaram a imunizar sua população. O Brasil ainda não. A cadeira presidencial está sendo ocupada por um ser que afirma “não estar nem aí” com os 200 mil brasileiros mortos em consequência da Covid19. Esse ser do qual declino pronunciar o nome e a equipe de tanatófilos que o rodeiam, não se sente nem um pouco afligido pela dor daqueles e daquelas que perderam seus familiares e dos milhões de brasileiros e brasileiras que vivem a angústia da proximidade da morte e das consequências da crise econômica que, há de se dizer, não tem na pandemia sua única causa. A pandemia apenas veio potencializar o projeto de morte da elite de sempre que, para mantê-lo, precisa dos tradicionais cães de guarda verde-oliva que arreganham suas garras e dentes a cada vez que a maioria pobre da população ousa alçar a cabeça e reivindicar o direito à vida e à dignidade mínima que nos faz humanos.

Projeto de morte que se expressa na maior desigualdade econômica do mundo, na fascistização da política, na violência grotesca contra tudo o que nos faz plurais (diferenças culturais, de raça, sexo, gênero, idade, lugar de moradia, religião…) e na destruição da Casa Comum. Estas expressões e outras tantas que poderíamos elencar, tem sua raiz no pecado original da sociedade brasileira: o elitismo individualista. É a ideia de “cada um por si” e “salve-se quem puder” que veio junto com as naus de Colombo e Cabral e se constituiu como eixo articulador das relações sociais. “Pecado original” expresso de forma grotesca e criminosa no ocupante da cadeira presidencial que diz não temer a Covid19 por ter “histórico de atleta”. E os milhões de brasileiros e brasileiras que não tiveram a oportunidade de serem aposentados aos 33 anos por insanidade e, durante 28 anos de mandato parlamentar improdutivo, ter o tempo e os recursos para desenvolver um “histórico de atleta”? “Esses podem morrer”, pensa o carregador da faixa presidencial.

Mas também é expressão do elitismo individualista o comportamento daqueles que, em plena pandemia, promovem e participam em festas e aglomerações de todo o tipo onde, além do risco de infectar-se a si mesmos, criam a ocasião para que outros o sejam. Eles pensam e dizem: “se eu me infectar, o problema é meu!” Só pensam em si mesmos. Não se preocupam com as consequências de seu comportamento para a sociedade. Pior: sequer são capazes de imaginar o que seja “viver em sociedade”. Foram ensinados que existe “o povão, a ralé, a chusma, a gentalha”, da qual eles não fazem parte. Eles são ou imaginam ser um outro Brasil. O Brasil que vive em Miami, em Nova Iorque, em Paris ou Londres. Uns residem fisicamente lá. Outros vivem aqui como se lá estivessem.

Para superar o caos sanitário a vacina certamente ajudará. É preciso que ela chegue a todos e o mais pronto possível. Mas só sairemos melhores desta se formos capazes de controlar o vírus do individualismo elitista que assola, há séculos, essa terra chamada Brasil. É preciso que apliquemos em cada um de nós e em cada relação social, da mais próxima até as mais complexas, o sentimento de empatia e de solidariedade. Sentir cada brasileiro e brasileira como um ser humano de plenos direitos – independente das diferenças e das “comorbidades” – e mover-nos e estender a mão para que todos vivam.

Então, sim, a passagem de ano não será apenas um marco no calendário. Será possível passar do ano da pandemia ao ano da empatia e preparar um 2022 de muitas aglomerações. E torcer para que 2021 passe rápido!

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A Bolsa ou a Vida

bolsa

Segundo a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, “economia é o conjunto de atividades desenvolvidas pelos homens visando a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida”.

Uma bela definição a ser lembrada nestes tempos em que, segundo alguns, o distanciamento social, que ajuda a salvar vidas no contexto da Covid19, levaria à ruína da economia. Mas, nos perguntamos nós: que economia é essa que se opõe à sobrevivência e à qualidade de vida das pessoas?

Afinal, vale a pena produzir, distribuir e consumir bens e serviços se toda esta atividade não tem como objetivo maior salvar pessoas? Pode existir uma economia desvinculada da vida humana? Que economia é essa que não se importa com a vida dos homens e mulheres que produzem, distribuem e consomem bens e serviços?

Na Encíclica Laudato Sì, publicada lá se vão já cinco anos, o Papa Francisco chamava a atenção para o grande perigo de uma economia desvinculada das reais necessidades humanas. Segundo o Papa, quando a economia já não é pensada como a arte de suprir as demandas da sobrevivência e da qualidade de vida, cai-se num “vale tudo” em que a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, o trabalho escravo, o tráfico de órgãos, pessoas e drogas, o comércio sexual de mulheres e crianças, o abandono dos idosos e a depredação do meio ambiente, são justificados como necessários para que a economia continue funcionando e dando lucros. Dá lucro? Então pode… parece ser o mote de alguns economistas.

Segundo o Papa Francisco, a hegemonia do sistema financeiro sobre a economia real é o sintoma mais claro da desvirtuação da economia. Segundo ele, “a finança sufoca a economia real”. Não é apenas uma frase bonita. Ela expressa o mundo concreto em que vivemos. Na medida em que as medidas de isolamento social são levantadas e, em consequência, o número de mortos pela Covid19 explode, a Bolsa de Valores retoma seu viés de alta.

Para dar vida à Bolsa de Valores, é necessário dar morte a milhares de brasileiros e brasileiras. Tal qual Baal, o sistema financeiro exige o sacrifício de vidas humanas. É um sistema idolátrico que se nutre do sangue das pessoas. E, no caso da pandemia que estamos vivendo, exige o sacrifício das pessoas mais frágeis da sociedade, os idosos e doentes.

Já dizia Jesus em sua crítica aos fariseus: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Quando o lucro é colocado acima da vida, já não há lugar para o verdadeiro Deus. A religião se torna ideologia e a economia se transforma em uma máquina de morte que devora, primeiro os mais fracos, e depois aqueles e aquelas que pensavam dominá-la.

Palavras que precisam ser lembradas antes que nos tornemos todos vítimas. Alguns da Covid19. Outros, da ganância cega, surda e muda diante da vida que clama. Temos que escolher: ou a bolsa, ou a vida.