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Comer ou não comer?

Essa não é a questão! Com certeza, não. Se comer ou não comer, isso não faz diferença para a salvação. Estou falando da Quaresma, este tempo em que os cristãos se dedicam à penitência, à oração ao jejum e à caridade.

Vamos falar aqui apenas do jejum. E aí tem uma frase fantástica que é atribuída ao Papa Francisco. Talvez não seja dele. Não tenho como provar nem sim e nem não. Talvez seja apenas mais um dos tanto apócrifos a ele atribuídos que circulam por aí. Mas, se não for, bem que poderia ser dele, sim, essa frase: Comam o que quiserem na Páscoa, o sacrifício não está no estômago, mas no coração. Eles abstêm-se de comer carne, mas não falam com os irmãos ou familiares, não vão visitar os pais ou pesa-lhes atendê-los, não partilham a comida com os necessitados, proíbem os filhos de verem o pai, proíbem os avós de verem os netos, criticam a vida dos outros, espancam a mulher etc.. Um bom churrasco ou um guisado de carne não vai fazer de você uma pessoa ruim, assim como um filé de peixe vai fazer de você santo. Melhor procurarmos ter um relacionamento mais profundo com Deus através de um tratamento melhor ao próximo. Sejamos menos soberbos e mais humildes de coração.

Uma fala antológica, uma fala soteriológica, uma fala teológica que se fundamenta num grande profeta do Primeiro Testamento que nos provoca em nossa fé neste tempo quaresmal. Falo de Isaías quando, ao falar do jejum, assim diz o profeta diante daqueles que o questionavam por não jejuar: É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios e oprimis os vossos empregados. É porque, ao mesmo tempo que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas. Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu. Acaso é esse jejum que aprecio, o dia em que uma pessoa se mortifica? Trata-se talvez de curvar a cabeça como junco, e de deitar-se em saco e sobre cinza? Acaso chamas a isso jejum, dia grato ao Senhor? Acaso o jejum que prefiro não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição? Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. (Is 58, 3b-8).

Parafraseando um profeta de nosso tempo, o saudoso e sempre lembrado Dom Hélder Câmara, eu apenas diria que, neste tempo de Quaresma, o dilema não é entre fazer jejum ou não fazer jejum ou abster-se de comer carne nas sextas-feiras. O problema são aqueles que não têm essa opção porque, durante o ano inteiro, não têm o que comer e sequer ousam sonhar com carne em seus pratos. Esses, sim, são o grande dilema para os cristãos nesse tempo de preparação para a experiência pascal de uma Vida Nova.