Refugiados haitianos

Na última semana a imprensa brasileira vem dando cobertura a uma situação que não é nova: a presença de refugiados haitianos nas cidades da fronteira com o Peru. Quem só escutasse as chamadas de abertura dos noticiários da noite ou só lesse as manchetes dos jornais, poderia imaginar que se trata de uma multidão de homens e mulheres invadindo os estados do noroeste brasileiro. Na verdade, a expressão “milhares” não pode ser usada. Trata-se de centenas… Concretamente, fala-se em torno de 4 mil pessoas.
Em termos absolutos, um número insignificante diante dos quase duzentos milhões de brasileiros que somos. Não há nenhum perigo de “invasão” haitiana. E mais: se olhamos os rostos dos homens, mulheres e crianças e não os escutamos falar, dificilmente poderíamos imaginar que são estrangeiros. Eles e elas passariam sem ser notados em qualquer cidade brasileira. Isso não só por compartilharmos com eles a mesma origem étnica mas também porque, como já cantou Gilberto Gil, “o Haiti é aqui”. Haitianos e brasileiros, por razões históricas e culturais, somos filhos do mesmo processo colonial e escravagista que trouxe, contra a vontade, a África para cá.
Em termos pessoais, no entanto, o rosto de cada haitiano e de cada haitiana que aqui aportam traz um drama que não pode ser medido pelo número. É o drama de pessoas que, em consequência do colonialismo e da escravidão secular, da exploração capitalista e dos desastres naturais e da atual ocupação pelas tropas da ONU, não conseguem ter perspectiva de vida digna em suas próprias terras. E, na ânsia de buscar um futuro melhor para si e seus filhos, caem nas mãos dos coyotes que os exploram para depois largá-los em plena floresta amazônica.
Drama ao qual não podemos ficar indiferentes por várias razões. Em primeiro lugar, porque somos povos irmãos e não podemos ficar indiferentes frente ao drama deles que também é nosso. Segundo, porque o Brasil também foi feito por migrantes. Alemães, italianos, poloneses, espanhóis, portugueses, franceses, libaneses, árabes, japoneses, chineses… saíram de suas terras e para cá vieram nos séculos XIX e XX não porque amassem o Brasil ou por puro instinto de aventura. Vieram para cá porque não tinham condições de vida digna em seus países de origem. Vieram como refugiados econômicos, políticos, étnicos e religiosos e aqui, juntos construímos este país do qual nos orgulhamos e sentimos cidadãos. Não podemos esquecer isso e fechar a porta pela qual todos nós, de uma forma ou de outra, passamos.
Em terceiro, e não menos importante lugar, é bom lembrar o envolvimento do Brasil com o Haiti. O exército e as polícias brasileiras constituem o número mais significativo das tropas de paz da ONU no Haito. Logo em seguida ao terremoto, o governo e a sociedade brasileira tomaram a iniciativa de ir em socorro do povo haitiano. Ajuda que calou fundo no coração dos haitianos e faz com que sintam pelo Brasil mais do que simpatia. Haitianos e haitianas veem no Brasil e no povo brasileiro um país e um povo irmão que soube estender a mão e não fugir de sua responsabilididade na construção de relações internacionais baseadas não no interesse e no poder, mas no sentimento de irmandade entre os povos.
Controlar a entrada de haitianos, como propõe o governo brasileiro, é uma medida necessário, não para barrar que mais deles venham para cá. A finalidade deve ser coibir a ação dos coyotes que se aproveitam da desgraça para ganhar dinheiro. Mas continuar com a porta aberta e propiciar trabalho, estudo e formação para que eles possam um dia, se o desejarem, retornar ao seu país e ajudar na reconstrução. E, se desejarem permanecer conosco, possam integra-se na sociedade brasileira e trazer mais uma contribuição na tão variada sociedade brasileira que somos.

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