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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Legalização da maconha

Todos estamos prá lá de fartos de saber as consequências do uso e do tráfico de drogas, sem elas as legais, como o álcool e o tabaco, seja a das ilegais das quais as mais conhecidas são a maconha, a cocaína e, ultimamente, o crack.
A maioria das abordagens fala dos danos do uso. Poucas, porém, falam dos danos provocados pelo tráfico. Uso e tráfico se relacionam, mas são diferentes e necessitam abordagens diferentes. Enquanto houver consumo, haverá tráfico. E o tráfico que, sempr eé bom lembrar, é um grande negócio, vai querer criar usuários…
Toda a problemática da droga – uso e comércio – pode ser tratada a partir de abordagens diversas. A mais comum, é a da repressão. Preconizada pelos Estados Unidos, a repressão mostrou seu limite no referente ao consumo nos próprios Estados Unidos e,na questão do tráfico, todos conhecemos as trágicas consequências que a política repressiva teve e continua tendo na Colômbia e no México, para falar apenas dos dois maiores e mais próximos exemplos.
A outra abordagem possível, a da prevenção e, dentro dela, da política de redução de danos, é mais praticada na Europa e, ultimamente, Portugal tem-se tornado dela o melhor exemplo. No vizinho Uruguai, o velho e bom Presidente Mujica teve a sabedoria e a coragem de levantar a questão e enviar para o Congresso um projeto que tenta regulamentar a produção e venda de maconha a fim de minorar as consequências do tráfico e da sua impossível repressão.
É um exemplo a ser observado e seguido.

Abaixo a reportagem da Agência Brasil

 

Governo propõe estatizar produção e venda de Maconha

Por Renata Giraldi*

 

Medida visa controlar e regulamentar a compra, comercialização e distribuição da droga. Foto: Torben Bjørn Hansen/Flickr

 

Brasília – O governo do presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, encaminhou na quinta-feira 9 ao Congresso um projeto de lei para que o Estado passe a controlar e regulamentar a importação, produção, compra, comercialização e distribuição de maconha. O secretário adjunto da Presidência da República do Uruguai, Diego Cánepa, disse que o objetivo é reduzir o tráfico de drogas no país e controlar o consumo da erva.

 

Pela proposta, ficam mantidos os termos de um decreto de 1974, que proíbe a venda de maconha sem a interferência do governo. O novo texto estabelece que o Estado controla a importação, produção, compra, comercialização e distribuição da substância. Segundo o secretário, a expressão importação é aplicada apenas para as sementes da erva.

 

Integrantes do governo Mujica acreditam que, com o Estado no controle da produção e do comércio da maconha, não somente haverá a redução do tráfico como também deve diminuir a dependência do álcool, tabaco e drogas em geral.  ”Não há dúvida de que o álcool e o tabaco são prejudiciais. Porém, não são proibidos, o que se faz são campanhas de conscientização para tentar reduzir os danos”, disse Cánepa.

 

O secretário disse que a proposta não é defender a maconha, mas estabelecer uma nova política pública de combate ao tráfico e controle do uso da erva.  ”Ninguém está dizendo que a maconha é boa”, disse ele. “Acho que a decisão do presidente de ter a audácia ao dar esse passo permitirá ao governo promover um amplo debate.” Mais detalhes da proposta estão na página da Presidência da República do Uruguai.

 

O texto enviado ao Parlamento reúne análises de vários órgãos do governo e especialistas uruguaios e estrangeiros. O ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso é citado como um dos defensores da proposta apresentada pela Comissão Mundial sobre Políticas de Drogas. Também são mencionados o ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas Kofi Annan e o escritores  Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes.

 

A comissão observa a necessidade de se rever a política sobre drogas. “A pior coisa é cair em uma discussão com slogans, preconceitos, sem um debate claro e verdadeiro”, disse Cánepa.  ”Há problemas com o abuso de álcool e alcoolismo em si, mas ninguém em sã consciência pensaria em proibir álcool. Vimos o que aconteceu com a proibição nos Estados Unidos, que foi uma grande derrota das políticas proibicionistas “, disse o secretário.

 

*Publicado originalmente em Agência Brasil.

 

Governo propõe estatizar produção e comércio de maconha | Carta Capital.

Comissão da Verdade focará atuação sobre crimes cometidos pelo regime militar

A partir da nomeação dos cinco integrantes que serão anunciados pelo governador Tarso Genro amanhã a tarde, o Rio Grande do Sul passará a contar com uma Comissão da Verdade dedicada a recuperar documentos e a memória sobre o período da ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985. A primeira reunião do grupo irá definir um plano de trabalho a ser executado nos próximos 20 meses, prazo de atuação da comissão.

Entre os critérios para escolha dos integrantes, a busca por personalidades com reconhecida atuação na área dos direitos humanos e que estejam desvinculados de partidos políticos.  Um dos nomes deve ser o do Procurador do Estado aposentado, Jacques Alfonsin.

Alfonsin deve ser um dos integrantes da Comissão

O foco de atuação do grupo será sobre os crimes cometidos pelo Estado durante o regime militar, excluindo atos praticados por grupos de esquerda que combatiam a ditadura. “Havia um estado de excessão que fechou o Congresso, calou a imprensa, sequestrou, torturou, desapareceu com pessoas. Estes são os fatos que devem ser apurados. Do outro lado eram grupos lutando pelo retorno da democracia, com direito a rebelião e a insurgir-se contra este estado de coisas”, afirma o chefe da assessoria superior do governador, João Vitor Domingues. O grupo dará suporte a Comissão Nacional da Verdade, instituida pelo governo federal no começo deste ano.

O Gari de Uruguaiana

 

 

Ele não vai ficar rico nem famoso. Seus “três dias de celebridade” passarão, a imprensa se esquecerá dele, os moradores da cidade voltarão a vê-lo como simples “varredor de rua” ou “lixeiro”, já que “gari” é um termo técnico, para não dizer “politicamente correto” usado para nominar as pessoas que, no dia-a-dia de nossas cidades, são anônimas.
Ele não terá o destino de se tornar popular e rico fazendo shows em todo o Estado e até fora dele. Ele não é o Guri de Urugaiana. É apenas mais um Gari de Uruguaiana.
Na sua consciência e na consciência de todos aqueles e aquelas que ainda acreditamos no ser humano e numa sociedade onde cada um viva conforme princípiois de honestidade e dignidade, Darson Pereira, um jovem de 25 anos que há doze meses trabalha na empresa que faz a limpeza das ruas da cidade da Fronteira Oeste, ele será mais um exemplo de que o ser humano tem possibilidades.
Para quem não acompanhou o caso, segue abaixo transcrição da reportagem divulgada pela RBS.

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Gari enco

ntra e devolve cheque em branco assinado em Uruguaiana, RS

Jovem de 25 anos encontrou duas folhas na rua, enquanto trabalhava.
Cheques eram de uma escola e seriam destinados a compra de material.

Mateus Koelzer Da RBS TV

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O gesto de honestidade de um gari emocionou professores de uma escola estadual do município de Uruguaiana, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Nesta segunda-feira (6), ele encontrou dois cheques na rua e providenciou a devolução aos donos.

As folhas perdidas pertenciam a uma escola estadual e seriam destinados para a compra de material escolar. Um dos cheques estava em branco e assinado. O outro, preenchido com o valor de R$ 150. O gari Darson Pereira encontrou os cheques enquanto trabalhava e os entregou ao chefe, que providenciou a devolução à escola.

O ato deixou uma das professoras da escola comovida. “Para nós, educadores, ficou tão claro que sempre vale a pena investir no elemento humano, no ser humano mesmo”, disse a professora Helena Ramos.

Chefe de Darson, o empresário Marcio Guedes não esconde o orgulho do funcionário, que se tornou referência no local onde trabalha. “Essas atitudes, infelizmente, são exceção no nosso país. Esta não é a realidade do nosso país e a gente precisa mudar essas coisas”, afirmou.

Darson Pereira, de 25 anos, trabalha como gari há exatamente um ano. Ele dedica oito horas por dia na limpeza das ruas de Uruguaiana. Ao ver seu gesto virar exemplo na cidade, ele disse que apenas seguiu o que aprendeu com os pais.

“A gente vem de um exemplo cristão em casa e traz isto para o nosso serviço. Como o cheque tinha endereço e nome, automaticamente minha atitude foi entregar para o meu chefe, para que ele devolvesse para os verdadeiros donos”, lembrou.

Um passo a mais…

Depois de doze anos de atuação no magistério teológico e na Coordenação de Cursos, desde a semana passada, voltei a ocupar o outro lado da sala de aula e voltei a ser estudante. Desta vez como aluno do Programa de Doutorada da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo.
Serão quatro anos de estudos e preparação da Tese de Doutoramento no Programa de História e Teologial.
Para não perder o pique, continuarei com aulas, tanto no Unilasalle como na ESTEF. E seguiremos nos encontrando por aqui…

Mundos paralelos…

Parece que a autoproclamada “Grande Imprensa” perdeu de vez o senso de realidade… Enquanto televisão, rádios e jornais continuam preocupados com o “julgamento do século” da Ação Penal 470, a grande maioria da população que está interessada em suas reais condições de vida, continua aprovando cada vez mais e melhor o governo Dilma e, se necessário for, disposta mais do que nunca a reeleger Lula.
A matéria abaixo é do Jornal Folha de Sao Paulo, o mais representativo da autoproclamada “grande imprensa” e um órgão insuspeito de petismo.

Folha de S.Paulo – Poder – Aprovação do governo Dilma cresce e chega 56,6%, diz CNT/Sensus – 03/08/2012.

Primeiro condenar, depois julgar…

Começa amanhã, quiiinta-feira, o julgamento do chamamado “mensalão do PT”. Feito à toque de caixa e às vésperas das eleições municipais, para o grande imprensa, o resultado é dado como certo: a condenação dos envolvidos, especialmente os do Partido dos Trabalhadores. Primeiro condena, depois, o julgamento, é um mero detalhe…
Abaixo uma análise de Jânio de Freitas, publicada na insuspeita de petismo Folha de São Paulo, que é um chamado à reflexão sobre o significado político do julgamento.

O julgamento na imprensa
Jânio de Freitas.

O julgamento do Mensalão do PT pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que “o mensalão é o maior escândalo da história” – do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.

Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.

Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?

E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: “Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana”.

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que “vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana”.
A análise é de Jânio de Freitas, jornalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 31-07-2012.

O julgamento na imprensa – Notícias DomTotal.

Índios evangélicos aumentam 42% em 10 anos e já são 210 mil

Reproduzimos abaixo matéria da Folha de São Paulo de 22 de julho. É mais um dado do censo que revela as novas tendências religiosas da sociedade brasileira.

 

Índios evangélicos aumentam 42% em 10 anos e já são 210 mil

FELIPE LUCHETE
DE SÃO PAULO

Atualizado em 23/07/2012 às 11h05.

O número de índios evangélicos aumentou 42% nos últimos dez anos, conforme dados do Censo 2010. Eles são 210 mil e já correspondem a 25% da população indígena.

O crescimento segue tendência geral da população brasileira –o aumento de evangélicos foi de 61% entre 2000 e 2010, e o grupo corresponde a 22% dos brasileiros. Mas com a peculiar característica de ser impulsionado por organizações que tentam levar a evangelização mesmo a áreas isoladas.

A organização de grupos evangélicos com essa missão tem aumentado, afirma Carlos Travassos, coordenador-geral do setor que monitora tribos isoladas e de recente contato na Funai (Fundação Nacional do Índio).

O trabalho conta até com apoio logístico de aviões em áreas de difícil acesso, graças à Asas de Socorro, uma das 15 agências missionárias evangélicas filiadas à AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras).

Bancadas por igrejas, empresas e voluntários, são ligadas a várias denominações e fazem ações de ensino, assistência social e treinamento de líderes indígenas.

O treinamento é a base da ideia da “terceira onda” evangelizadora: depois de missionários brancos estrangeiros e brasileiros, chegou a vez de os próprios índios atuarem.

A maioria dos índios evangélicos é ligada à Assembleia de Deus, 31% do total ou 64.620 pessoas. Em segundo lugar vêm os batistas, com 17%, ou 35,5 mil pessoas.

Em Chapada dos Guimarães (MT) funciona a Ami, escola para índios cujo lema é formar “discípulos de Jesus Cristo” e criar uma igreja “genuinamente indígena em cada tribo do Brasil”.

Eles são preparados para repassar os conhecimentos aprendidos a suas comunidades –“da maneira deles”, diz o pastor indígena Henrique Terena, presidente do Conplei (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas), que se define como o maior movimento evangélico indígena do país.

Na última semana, o Conplei organizou na Ami um congresso que reuniu cerca de 2.500 pessoas, com 81 etnias do Brasil e de outros países, segundo a organização.

Eles comemoraram o marco simbólico da primeira evangelização indígena, quando missionários escoceses chegaram à aldeia de índios terenas, em 1912, em área hoje de Mato Grosso do Sul.

Também retrato de tendência nacional, o percentual de católicos indígenas também caiu nos últimos dez anos, de 59% para 50,5% da população indígena.

A Igreja Católica, com missões iniciadas no século 16, está presente em 185 povos, com missionários ligados ao Cimi (Conselho Indigenista Missionário). A AMTB diz atuar com 182 etnias.

ATRITOS

A penetração religiosa já foi foco de atritos com a Funai. Em 2005, a fundação criticou o grupo Jovens com uma Missão, que retirou crianças de uma aldeia no Amazonas para tratamento médico em São Paulo.

Nos anos 80, integrantes da Missão Novas Tribos foram expulsos da tribo isolada dos Zo’é, no Pará, depois que os índios contraíram doenças.

A Funai vetou em 1994 a abertura de novas frentes missionárias, a não ser as que fossem convidadas pelas comunidades. O entendimento é que os povos têm autonomia para autorizar a entrada.

Para Travassos, a relação de missionários com povos isolados é prejudicial, por impor uma nova forma de ver o mundo. Os evangélicos negam qualquer imposição.

EVANGELIZAÇÃO

Para a AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras), que reúne organizações de missionários evangélicos, as ações em comunidades indígenas respeitam a cultura e o direito de escolha dos índios.

Em manifesto divulgado em 2009, a AMTB aponta diferença entre o trabalho de evangelização com a “catequese histórica e impositiva”.

“Se as culturas são móveis e mutáveis, por que as mudanças provocadas a partir do conhecimento dos valores cristãos e do evangelho despertam tantas e tão violentas reações quando se trata de culturas indígenas?”, diz.

A associação diz não ter ligação com nenhuma denominação específica.

A AMTB afirma que as missões executam projetos sociais que ajudam na preservação linguística e cultural desses povos.

O pastor Henrique Terena, presidente do Conplei (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas), diz que os trabalhos ensinam técnicas de plantio e atuam no combate ao alcoolismo, por exemplo.

Ele afirma ainda que, no caso de povos isolados, a atuação ocorre mediante convite das tribos. (FL)

 

Folha de S.Paulo – Poder – Índios evangélicos aumentam 42% em 10 anos e já são 210 mil – 22/07/2012.

Mon Dieu, ministra francesa usa vestido no Parlamento

O texto abaixo é da Revista Carta Capital. e é um sério convite a refletir sobre a relação enre política e machismo:

Mon Dieu, ministra francesa usa vestido no Parlamento

 

Por Barbara Ellen

 

Cécile Duflot, a ministra da Habitação da França, causou comoção ao usar um vestido para falar na Assembleia Nacional (Parlamento). Espere, uma correção. Não foi Duflot que causou comoção, mas sim os ministros homens, que assobiaram e rugiram: “Uau!” De sua parte, Duflot reagiu calmamente, com uma piada seca — “Senhoras e senhores, obviamente mais senhores que senhoras” — antes de continuar seu discurso. Mais tarde ela disse: “Já trabalhei na construção e nunca vi nada parecido. Isso revela algo sobre alguns deputados. Penso nas mulheres deles”. Sim, as pobres esposas, casadas com o que parecem ser “les troglodytes sérieux”, mas esse não é o fim da história.

 

A ministra Cecile Duflot, que causou frisson ao aparecer de saia durante evento político. Foto: Patrick Kovarik/AFP Photo

 

Que pena ver a França com uma Assembleia Nacional cheia do tipo de imbecis que não conseguem se conter quando uma ministra se ergue diante deles usando um vestido. “Uau!” Realmente? O que é isso, Confissões de uma Ministra Francesa? Cinquenta Tons de Risca-de-giz? O vestido de Duflot não era sequer uma coisa provocativa como o de Jessica Rabbit: justo, sinuoso, talvez com uma fenda até a coxa, com o próximo projeto de lei enfiado na liga. Era um modelo floral recatado — algo que você poderia imaginar [a apresentadora de TV britânica] Kirstie Allsopp usando no casamento de sua terceira melhor amiga. Se isso é tudo o que é preciso para deixar os políticos perigosamente excitados, que os céus ajudem a França — na próxima vez eles entrarão em êxtase ao ver o tornozelo das moças.

 

Duflot diz que nem todos os homens são assim, e ela prefere pensar em “homens feministas”. Sim. Mas por que as mulheres políticas deveriam se endurecer tanto para esse tipo de terrível pantomima redutiva? Duflot ficou famosa por usar jeans em uma reunião de gabinete, mas foi necessário um vestido para expor a grosseria oportunista do poder político predominantemente masculino. Jacques Myard disse que os assobios de lobos foram apenas um tributo à beleza de Duflot. Para Patrick Balkany, a ministra provavelmente usou o vestido “para que não escutássemos o que ela dizia”.

 

Não é de surpreender que esses dois, e muitos outros que assobiaram, fizeram olhares lascivos e rugiram, estão no partido de oposição União por um Movimento Popular (UMP). O que eles fizeram não foi apreciação, ou mesmo uma piada, foi fria estratégia política — usar o gênero de uma mulher contra ela.

 

Escrevi anteriormente sobre como as mulheres políticas não podem vencer quando sua aparência está em jogo. Arrumadas demais, elas são rejeitadas como dondocas, desesperadas, ou ambos; de menos, são condenadas como monstras assexuadas que desistiram de si mesmas. É o destino da mulher política ser vista e não ouvida. Ou, de todo modo, muito mais vista (julgada, objetificada, zombada) do que consegue ser ouvida.

 

No entanto, qualquer político, homem ou mulher, não é nada se não for ouvido adequadamente. O que transforma em zombaria o raciocínio segundo o qual talvez essas mulheres apreciem incidentes como esse, porque lhes dão uma condição de mártires feministas e destacam seus perfis.

 

Na realidade, esses eventos fatalmente prejudicam a mulher envolvida, enfraquecendo sua mensagem e desperdiçando seu ímpeto. Depois da Assembleia Nacional, ninguém comentou o que Duflot realmente disse, apenas seu vestido florido. Um caso clássico de “política interrompida”.

 

É uma questão que continua surgindo: esse é o modo padrão do homem político, sexista-juvenil? Existem “homens feministas” suficientes para fazer diferença? Na verdade, talvez esse incidente seja apenas mais um indicador da preocupação maior de se as mulheres podem esperar um tratamento completamente igualitário na política.

 

Do que aconteceu na França ao terrível e revelador “acalme-se, querida” de David Cameron para a trabalhista Angela Eagle, parece haver uma tendência desconcertante de mandar as mulheres se calarem assim que tentam abrir a boca.

 

Desta vez foi um vestido, mas na verdade poderia ser qualquer coisa — a ponto de nunca ter a ver com o que uma mulher disse, mas com a rapidez e eficiência dos “rapazes” para silenciá-la antes que pudesse falar.