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Deus tem corpo

Tapete solidário de Corpus Christi – Tangará da Serra, MT, 2020 (Foto: Gilvan Mello)

Dito assim, em simples língua portuguesa, muitos podem achar a expressão estranha: Deus tem corpo. Já dito em latim, solenizado em uma festa de primeira categoria segundo a liturgia da Igreja Católica Romana, parece mais normal: Corpus Christi, ou, de forma ainda mais nobre, Corpus Domini. Pois sim: ambas as expressões latinas querem dizer exatamente isso: Deus tem um corpo.

Todo cristão afirma que o Cristo de Deus se fez humano no corpo do filho do carpinteiro nazareno. Negar a realidade corporal de Deus em Jesus de Nazaré foi, desde o início do cristianismo, considerado uma heresia, ou seja, uma meia verdade, um erro, um perigo para a fé cristã.

Um dos nomes dados a essa forma herética de cristianismo foi “docetismo”. A expressão vem do verbo grego dokeò, que significa “aparentar”, “fingir”. Tendo seu fundamento filosófico no gnosticismo, que considerava impossível a presença do divino no mundo material, na corporeidade humana, os docetistas afirmavam que só aparentemente o Cristo de Deus tinha assumido a corporeidade humana e que a encarnação era um fingimento, uma encenação, apenas para que os humanos pudessem compreender a mensagem de Deus e, nela, a insignificância do mundo material.

Tal heresia foi condenada pela Igreja. Mas a tentação da fuga do mundo e da realidade humana ficou latente dentro do cristianismo e, vez ou outra, assoma aqui ou acolá. Tal aconteceu na Idade Média, quando a introdução na teologia ocidental do pensamento de Aristóteles fez emergir mais uma vez a tentação gnóstica da racionalização da fé. A nova corrente teológica trazia embutida a afirmação de que a salvação pode ser alcançada pela razão e não pela prática e pela devoção.

Contra tal tendência se levantou a piedade popular que encontrou uma de suas expressões na adoração da Eucaristia. Santa Juliana de Liège foi a inspiradora desta devoção que logo se espalhou por toda Europa e foi oficialmente acolhida pelo Papa Urbano IV em 1264. Contraditoriamente, num tempo em que a maioria dos fieis não tinha acesso à Eucaristia, ela se tornou o símbolo da resistência da fé popular no humano em Cristo, contra a elitização e intelectualização da teologia e da liturgia. Impedido de comungar, o povo simples aclama o Corpo de Cristo em procissões nas ruas.

Nas controvérsias das reformas da Igreja que eclodem no séc. XVI, a procissão de Corpus Christi, já oficialmente assumida pela Igreja, se transforma em manifestação antiprotestante. Desconhecendo a diferença entre a presença real afirmada por Lutero e a presença simbólica defendida por Calvino, todos os não católicos são identificados como inimigos da Eucaristia. Depois da Revolução Francesa, Corpus Christi também se torna estandarte da antimodernidade. A presença de Cristo na Eucaristia é um milagre que a ciência e a razão, pilares do espírito moderno, não podem explicar.

A partir das reformas preconizadas pelo Vaticano, a solenidade do Corpo de Deus passou a mudar de tom e caminha cada vez mais em direção ao seu espírito original. As suntuosas procissões apologéticas e apoteóticas vão cedendo lugar a manifestações de solidariedade para com os corpos de Cristo que hoje são desprezados em sua humanidade. As bandas tonitruantes e as nuvens de incenso cedem lugar a tapetes de roupas e alimentos que são encaminhados aos que passam frio, fome, sede, estão doentes ou presos. Afinal, como diz o próprio Jesus no Evangelho, é no corpo dos humilhados da sociedade que ele mora. E, cada vez que damos abrigo, comida e água a quem precisa e consolamos com nossa presença quem vive a solidão da doença ou da prisão, é a Ele que o estamos fazendo.

Muitos têm dificuldade em aceitar essa forma verdadeiramente original e tradicional de celebrar o Corpo de Cristo que estamos redescobrindo. Como lembra o Papa Francisco na Gaudete et Exsultate, o gnosticismo ainda continua presente “de forma sutil” e “é uma das piores ideologias”, pois é “incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros”. E mais: os neognósticos, “ao desencarnar o mistério, em última análise, preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (cf. GE 37-40).

Voltar ao Cristo encarnado no humano de Jesus e resgatar o humano no Cristo presente em cada pessoa destituída de sua dignidade. Esse é o caminho para podermos celebrar com toda solenidade a presença real de Cristo entre nós na Eucaristia e em cada pessoa que precisa da presença consoladora de Deus e de um irmão e de uma irmã.

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Que Deus é esse?

A historieta é terna. Um velho senhor de barba branca cuja nobreza se mostra na capa vermelha que ostenta, caminha pela praia. Em seu andar encontra-se com uma criança que, com uma minúscula concha, transvasa água do mar para uma poça. Admirado, o nobre homem pergunta ao menino o que está a fazer. Este, com um sorriso infantil, confessa seu propósito de esvaziar o mar. – Impossível! Exclama o nobre sábio. Ao que a criança lhe retruca: – É mais fácil para mim transportar a água do mar para esta cova do que para a tua razão compreender o inescrutável mistério da Santíssima Trindade.

Uma bela historieta. Mas não tão velha. Conforme o historiador Henri-Irinée Marrou, em seu livro “Saint Agustin et l’Ange”, as primeiras versões da narrativa datam do início do século XIII. O velho senhor de barba branca era apresentado como “um professor” anônimo que tentava explicar o Deus cristão que, sendo uno, é, ao mesmo tempo, trino. A narrativa surge no contexto de desconfiança de clérigos ante a nascente teologia escolástica que argumenta não mais a partir da autoridade eclesiástica, mas da racionalidade acessível a todas as pessoas.

Foi na segunda metade do século XIII que Tomas de Cantimpré, para dar autoridade ao exemplo, inseriu a figura de Santo Agostinho, considerado até então a maior autoridade teológica da Igreja no Ocidente, como o personagem principal da história.  A inclusão do bispo de Hipona foi exitosa e logo a nova versão se popularizou e passou a ser usada tão amplamente que ganhou status de história real. Teólogos nem sempre cuidadosos de suas fontes e pregadores em busca de argumentos para emocionar seus ouvintes, dela fizeram uso abundante para advertir os fiéis dos perigos da razão.

A arte deu sua contribuição à popularização da legenda. Sandro Botticelli, um dos mestres do Renascimento e apaixonado pela figura de Agostinho, imortalizou a cena no Retábulo de São Barnabé. A partir de então, múltiplas versões surgiram nas diferentes escolas artísticas e, com a difusão da imprensa, passaram a ilustrar catecismos e manuais apologéticos.

Ainda hoje, quase mil anos depois, é quase inevitável escutarmos, na Festa da Santíssima Trindade, a legenda ser mais uma vez repetida e ilustrada, agora nas páginas da internet e nas redes sociais. Por que ela perdura tanto no imaginário popular e nos sermões nem sempre bem preparados? A causa é simples e, ao mesmo tempo, grave. Ela ilustra uma questão presente em toda experiência de fé: a tensão entre a fé e a razão.

Na narrativa medieval, a solução se dá pela derrota da razão. Fracasso ainda mais calamitoso pois personalizado no teólogo por excelência, o bispo de Hipona. A historieta é um assassinato simbólico da razão teológica que perdura nos séculos. Agostinho dedicou boa parte de suas indagações teológicas à questão fundamental da fé: quem é Deus? Seu livro “Sobre a Trindade” é uma obra prima que esgrime todos os argumentos da razão até chegar à afirmação mais contundente e plena que alguém pode fazer da compreensão cristã da divindade: Deus-Trindade é Amor puro e pleno!

Diferentemente do que a historieta e as interpretações antirracionais que dela decorrem afirmam, o conhecimento de Deus não dispensa a razão. Pelo contrário, como bem pode notar quem se dá ao árduo trabalho de ler Agostinho, ele a supõe e exige. A razão não é o fim e nem tem a palavra última, com certeza. Mas, como dom de Deus, ela faz parte dos instrumentos que podemos usar para até Ele chegar.

Negar a necessidade e a utilidade da razão nestes tempos de irracionalidade surda, cega, tonitruante e orgulhosa de sua própria ignorância, é uma tentação à qual não podemos nos dar ao luxo, sob o risco de sermos engolidos pela voragem mortal do obscurantismo que ronda tribunas, microfones, cátedras e púlpitos.

A volta a Santo Agostinho, sem a mediação das legendas medievais, é um belo caminho para voltarmos a saborear a racionalidade amorosa da Trindade. Fica a sugestão!

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O Silêncio dos Inocentes

Minha intenção inicial para este texto não era a de falar do filme de Jonatham Demme que, em 1991, depois de dar ao seu diretor o Urso de Prata no Festival de Berlim e várias indicações para o Globo de Ouro, foi consagrado com cincos prêmios Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator e Melhor Atriz. Um feito inédito para um filme de terror. O sucesso de crítica, público e financeiro foi tanto que gerou uma franquia que continuou a explorar o horror despertado em cada um de nós pelo Doutor Hannibal Lecter, o psiquiatra canibal.

Anthony Hopkins no papel de Hannibal Lecter e Jodie Foster fazendo a jovem investigadora do FBI Clarice Starling são, sem dúvida, os destaques do elenco. Mas o filme não teria chegado a tal êxito não fosse a fantástica trilha sonora executada pela Orquestra Sinfônica de Munique e a história original do livro homônimo de Thomas Harris.

A trama elaborada por Harris e inteligentemente adaptada pelo roteirista Ted Tally para a linguagem cinematográfica explora a tensa relação entre uma aprendiz de policial ansiosa por firmar-se na carreira e um assassino psicopata que vê nesse encontro a possibilidade de livrar-se da cadeia e voltar a seu mórbido prazer de alimentar-se das vítimas de seus crimes.

Como vocês veem, acabei falando do filme mais do que eu queria. Não consegui interromper minhas divagações. Não sai da minha cabeça a possibilidade de O Silêncio dos Inocentes ser uma metáfora do que vive nossa sociedade brasileira que tenta acabar com criminosos insanos utilizando o savoir faire de insanos assassinos. Ao tentar arrancar do psicopata prisioneiro informações que a levem ao seria killer Buffalo Bill, Clarice entrega a ele seus mais íntimos segredos e Hannibal se torna senhor de sua alma. Qualquer semelhança com o que está acontecendo hoje no Brasil não é mera coincidência. Como diz o poeta, muitas vezes “a vida imita o filme” e, no espelho ficcional de O Silêncio dos Inocentes, vemos uma nação que entregou sua alma não a um, mas a um bando de psicopatas que só pensam no prazer sádico de ver sangue jorrando e alimentar-se dos despojos de suas vítimas.

Na Favela do Jacarezinho, foram vinte nove as vítimas que padeceram na sórdida disputa de poder entre milicianos e o Supremo Tribunal Federal que havia impedido a realização de operações policiais nas favelas. Inocentes ou culpados – ninguém pode ser condenado e executado antes de passar pelo devido julgamento – traficantes, moradores e o policial, todos foram sacrificados como cordeiros (no original, tanto o livro como o filme se chama O silêncio dos cordeiros) no altar do terror que sustenta a desigualdade social.

No país inteiro, já estamos quase alcançando as 500 mil vítimas da opção pelo envenenamento precoce da população e da recusa em adquirir o único medicamente comprovadamente eficaz contra a Covid19, as vacinas. O que antes era suspeita, agora, na CPI do Senado, é comprovado sob a luz dos holofotes midiáticos: milhares de inocentes foram sacrificados pela necropolítica dos que pensávamos podiam nos revelar os segredos para acabar com os perigos que ameaçavam o Brasil.

No final do filme, o serial killer Buffalo Bill é morto por Clarice numa sequência de perseguição das mais fantásticas já produzidas pelo cinema. Mas a esperada tranquilidade não chega para Clarice. Na confusão, Hannibal Lecter foge e, desde uma ilha distante, telefona para a policial e lhe faz a pergunta que turba o inconsciente da agora formada e festejada policial: “Bem, Clarice, os cordeiros pararam de gritar?”

Alice se cala. Ela não responde. Ela sabe que os cordeiros inocentes só se calam quando o perigo se afasta ou quando estão mortos. E, com Hannibal solto, as duas possibilidades estão abertas. Para que os cordeiros estejam em segurança, é preciso prender o assassino psicopata. Ou o silêncio continuará sendo um silêncio carregado de morte. É o dilema que vivemos no Brasil.

Se você teve a paciência de nos acompanhar até aqui, fica a sugestão: assista (de novo, caso já o tenha feito), ao clássico O Silêncio dos Inocentes. Está disponível numa das populares plataformas de streaming. E pense-o como uma metáfora do Brasil. Você se assustará com Hannibal Lecter e Buffalo Bill. Mas, o verdadeiro perigo, observe bem, está na Clarice Starling. Confira e, depois, me diga se sim ou se não.
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A Mãe do Dia das Mães

Anna Jarvis. Assim se chamava ela. É a mãe do Dia das Mães. Ela nasceu no dia 1º de Maio de 1864, na pequena cidade de Webster, na Virgínia Ocidental, Estados Unidos. Era filha de Ann Reeves, uma piedosa senhora que teve treze filhos, dos quais somente quatro chegaram à idade adulta. Durante a guerra civil americana (1861-1865), Ann dedicou-se a cuidar dos soldados feridos, tanto os do Exército Confederado como os do Exército da União. Além de cuidar de suas feridas e reconectá-los com suas famílias, ela criava situações para que os feridos de ambos os lados se encontrassem, se conhecessem e se reconciliassem.

Não foi esse o primeiro trabalho humanitário da Senhora Jarvis. Antes da guerra, ela organizava as mulheres de sua comunidade para melhorar as condições sanitárias do local em que viviam. Findo o conflito, ela continuou seu trabalho para que as mães tivessem melhores condições de vida e a família se tornasse um espaço de proteção e cuidado.

Em 1870, outra mulher propôs a criação de um “Dia das Mães pela Paz”. Assim como outras tantas mães traumatizadas pela experiência da guerra, a poetisa, abolicionista e feminista Julia Ward Howe (1819-1910), queria que fosse reconhecido o direito sagrado de as mães protegerem a vida de seus filhos e que jamais voltassem a ser trucidados em guerras para defender interesses que lhes eram alheios.

As décadas passaram e, no segundo domingo do mês de maio de 1905, Ann Reeves faleceu. Para sua filha Anna, o choque foi terrível. Entrou em depressão. Para tentar aliviá-la, suas amigas passaram a encontrar-se regularmente com ela para lembrar a mãe falecida. Em 1907, no segundo domingo de maio, na Igreja Metodista de Grafton, Anna organizou um serviço religioso para lembrar os dois anos da morte da mãe. No ano seguinte, no mesmo segundo domingo de maio, o culto foi realizado na importante cidade de Filadélfia, no Estado da Pensilvânia. Na ocasião, Anna distribuiu entre as mães e filhos presentes um cravo branco. Em 1910, a data foi oficializada como dia feriado no Estado da Virgínia Ocidental e os cravos brancos se tornaram o símbolo do evento. A partir de então, Anna dedicou todo seu tempo, energia e dinheiro para que o “Dia das Mães” tivesse reconhecimento nacional. Tal aconteceu em 1914. Rapidamente, a data ganhou adesão em vários países. No Brasil foi celebrada pela primeira vez em 1918, em Porto Alegre, na Associação Cristã de Moços Católicos. Em 1932, Getúlio Vargas incluiu a data no calendário oficial brasileiro.

Assim como os filhos que uma mãe gera, Anna Jarvis não sabia o que seria de seu rebento. E o rumo que a festa do Dia das Mães tomou foi bem diferente do pensado por sua genitora. A popularidade da data despertou a cobiça dos industriais e comerciantes que logo fizeram do comércio de flores, cartões e presentes um negócio lucrativo que substituiu o ideal de humanização e respeito pela maternidade.

“Não criei o dia das mães para ter lucro”, foi a resposta que Anna deu a um repórter quando este lhe perguntou se estava feliz ao ver a data tão festejada. Sua indignação foi ao extremo quando o Dia das Mães passou a ser utilizada pela campanha belicista que tomou conta dos Estados Unidos na década de 1930. As “Mães para a Paz” sonhado por Júlia Ward Howe, foi transformado em “Mães Americanas pela Guerra”.

Juntamente com sua irmã Ellsinore, Anna lutou de todas as formas e com todos os recursos para que a data retomasse sua intenção original. Sua batalha foi inútil. O mercado é implacável e tudo transforma em mercadoria, até a mais belas intenções e, se permitirmos, até as próprias mães. Anna terminou seus dias em 24 de novembro de 1948, pobre, endividada, internada como louca num asilo para idosos.

Hoje, o Dia das Mães é a segunda data que “mais vende”. Diante do fato, convém lembrar uma frase da sua criadora em sua luta contra a comercialização do sentimento materno e filial: Um cartão impresso não significa nada mais que você é muito preguiçoso para escrever para a mulher que fez mais por você que qualquer outra pessoa no mundo. E tortas! Você leva uma caixa para a Mãe – e então come tudo você mesmo. Um belo sentimento!

Neste Dia das Mães, pensemos na mãe do Dia das Mães. Siga o conselho dela. Seja um bom filho. Não dê um presente. Dê um abraço, diga seu obrigado, permaneça ao lado de sua mãe o tempo que ela desejar. E, se ela já partiu para sempre, tenha-a no silêncio do seu coração e abrace a mãe mais próxima. Há muitas que, como Anna Jarvis, não tiveram filhos ou não os têm por perto. Neste Dia das Mães, seja para ela um filho. O filho que ela desejou.

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O 1º de Maio e a Doutrina Social da Igreja

Um segundo 1º de Maio de pandemia. O primeiro, foi o de 2020. E de lá prá cá, a situação só piorou. Não apenas chegamos aos 400 mil mortos pela Covid 19, o que já é, em si, trágico. Junto com os milhares de mortos e os que sobreviveram com sequelas, estão os familiares que padecem as dores da ausência não devidamente ritualizada. Ao lado, a crise econômica que não é só fruto da pandemia, mas tem muito de sua origem e manutenção na opção econômica do atual (des)governo que se oculta por trás da crise sanitária para alienar as riquezas do país aos interesses estrangeiros.

Um dos resultados mais perversos de tudo isso são os milhões de homens e mulheres que não tem a possibilidade de trabalhar. 14% da força de trabalho, numa estimativa bastante conservadora, está desocupada. E isso tem consequências não apenas para eles, mas para as famílias e toda a sociedade. E, os que ainda estão ocupados, vivem uma precariedade cada vez mais perversa. Podemos vê-los nos “empreendedores” que prestam serviço às plataformas digitais de intermediação de trabalho e serviços que se veem obrigados a labutar 12, 14 e até 16 horas diárias para poder alcançar uma renda mínima que lhes permita a sobrevivência. O caso mais gritante é o dos entregadores de comida que não tem o que comer e não conseguem levar para casa comida para seus filhos e filhas.

Diante disso, que palavra temos a dizer como cidadãos e como cristãos? No vídeo abaixo, oferecemos alguns elementos da Doutrina Social da Igreja sobre esta situação. Assista, compartilhe e inscreva-se em nosso canal no YouTube:

Os livros que eu nunca li

Aproveito a ocasião do Dia do Livro para tornar pública uma paixão que eu nunca ocultei de ninguém: sou viciado em livros. E não é vício novo. É antigo. Vem desde a infância. Aos sete anos, ganhei meus primeiros livros. Só aos sete? Sim. Livro, lá no interior, para uma família pobre como a nossa, era um luxo!

Estava eu no Segundo Ano do Primeiro Grau (era assim que se dizia na época), e a professora Maria Polesel Didoné, minha primeira professora, pediu aos pais que comprassem livros para seus filhos, alunos na brizoleta da Linha Aimoré, a Escola Estadual Rural João Ghellere.

Na primeira ida à cidade, meu pai voltou com três livros. Capa dura, coloridos, papel branco… Devem ter custado caro os meus três primeiros livros: “João e o Pé de Feijão”, “Os Três Porquinhos” e “Chapeuzinho Vermelho”. Três clássicos da Literatura Infantil certamente recomendados pela vendedora da Livraria Parisi, a única existente na época em Veranópolis.

Não sei quantas vezes li e reli aqueles três livros. Em seguida começaram a circular entre nós os gibis da Walt Disney. Fiz meu up grade com a leitura do “Príncipe Valente” do Harold Forster. Aí o vício estava instalado e não parei mais. Lia de tudo. O que viesse pela frente. Comecei a exercitar meu discernimento literário com a professora de Língua Portuguesa e Literatura no Segundo Grau, a incrível e inesquecível Professora Ida Sonda Pessin. Professora com “P” maiúsculo. Ela me apresentou os clássicos da Literatura Brasileira. Jorge Amado foi minha grande paixão. E na Biblioteca do Seminário estava todo o Jorge Amado: uma longa fila de livros de capa vermelha que fui degustando um a um, saboreando aquele mundo tão estranho para mim.

Foi a professora Ida quem me apresentou aquele que para mim é, até hoje, o clássico dos clássicos brasileiros: “Grande Sertão: Veredas” do João Guimarães Rosa. No final do ano, no último dia de aula, ela veio até mim, me estendeu o livro e me disse: “Aproveita para ler esse livro nas férias”. Não li de uma sentada só porque isso é impossível! Mas não conseguia parar… Foi uma experiência espetacular que só se repetiria em outras duas ocasiões com outros dois livros: “O Nome da Rosa” de Umberto Eco e o “Ciem Años de Soledad”, de Gabo Márquez. Uma experiência da qual se aproximaria a leitura de “La Ciudad y los Perros” de Vargas Llosa, “Waslala” de Gioconda Belli e “La Casa de los Espiritos” de Isabel Allende.

Minha paixão por livros é tanta que as bibliotecas são o meu playground preferido. O cheiro dos livros é perfume comparável aos das flores do jardim. Passear entre as estantes, um verdadeiro prazer. Passeando as mãos nos livros enfileirados, me sinto como Mário Quintana olhando o mapa de Porto Alegre:

Olhos os livros da biblioteca
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Dos livros da biblioteca
Que jamais eu lerei…

O outro lado desta história é que o meu vício virou profissão quando meu tornei professor. E os livros que antes eram diversão, transformaram-se em instrumentos de trabalho. O que era prazer, virou obrigação. Não que haja oposição entre as duas versões da paixão. Leio com prazer o que é obrigação e faço da obrigação um prazer. Mais ou menos como o amante de vinhos que vira enólogo. Só não leio com moderação! Não me peçam isso jamais… Leio e sempre lerei com devoção e com tesão.
Até quando lerei? Não sei… Só sei que gostaria de morrer com a cabeça descansando sobre um livro. Ou com um livro nas mãos. Ou no meio de uma leitura, o livro caído ao lado da cama, leitura inconclusa de uma vida que se vai.

Hoje, olhando para trás nessa história toda, me faço uma pergunta: e se meu pai, em vez de ouvir as palavras da professora Maria e comprar meus três primeiros livros, tivesse comprado e me presenteado com uma arma de brinquedo? O que eu teria me tornado se tivesse ganho, aos sete anos, uma imitação de um revólver, espingarda ou metralhadora?

É muito provável que eu não teria lido tantos livros em minha vida… E hoje, certamente, eu não seria professor. Poderia ser algo bem diferente. Talvez Capitão Presidente ou General Ministro de Estado. Ou simplesmente um miliciano.

Os livros traçam destinos. Tanto os que lemos como os que não lemos. Tenho gratidão pelos livros que eu li. E tenho saudades dos que ainda não li e ficam na esperança de que um dia talvez possa ler.

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Morrer para dentro

Os números nos excedem. São tão monstruosos que ultrapassam nossa capacidade de mensuração. Não é que não saibamos mais contar ou que dois mil, três mil, quatro mil ou quatrocentos mil sejam quantidades que já não nos dizem nada. Nosso cérebro conta. Mas ele não consegue mais processar o que significa tal quantidade de mortos. A cifra e a dor embutidas nela são de tal monta que a única defesa é o anestesiamento auto infligido. Um anestesiamento emocional para poder suportar a dor e a vergonha de uma sociedade que se permite a morte das pessoas mais frágeis.

A eutanásia é algo não admitido pela maioria das pessoas em nossa sociedade. Muito menos a eugenia e o extermínio dos fracos e indigentes. Na história da humanidade, apenas regimes totalitários adotaram tais práticas. E as pessoas que lideraram tais processos genocidas são hoje apresentados como excrecências históricas. No entanto, o modo como está sendo abordada por alguns líderes brasileiros a crise da Covid19 faz com que nos coloquemos interrogações sobre as reais intenções que os animam. Quando um prefeito de uma capital apela a um cidadão para que “contribua com sua vida para que a gente salve a economia”, estamos muito perto da barbárie.

O peso é tanto, que muitos já não o suportam. A dose de autoanestiamento exigido para poder suportar o absurdo civilizatório em que fomos jogados é tão pesada que muitos já não conseguem emergir das trevas que nos rodeiam. São poucas as manchetes dos jornais e os espaços televisivos e radiofônicos que tratam de tal assunto. Mas cada um de nós – feliz de você se não está neste número – sabe de um familiar, amigo ou conhecido que, em meio à pandemia, tomou a decisão de acabar com a própria vida. Às vezes pessoas que imaginávamos nunca chegariam a tão trágica opção. Um médico, um professor, um padre, um pastor… Personalidades que sempre imaginamos fortes, conscientes, respeitosas da vida dos outros e da própria. Num gesto inexplicável e incompreensível decidem partir deste mundo que se tornou insuportável.

Alguns dos que desta maneira partem deixam uma mensagem de despedida. Outros partem sorrateiramente sem deixar qualquer vestígio. No primeiro caso, suas palavras são um chamado a ser escutado. No segundo, seu silêncio é um grito de dor a ser respeitado. Porque ninguém que parte desta maneira, parte sem dor. O suicídio é o ponto final de um longo e penoso processo de partidas interrompidas e nunca escutadas.

O suicídio é uma decisão individual. Mas ele revela um mal-estar social. Assim como não existe vida que nasça por si mesmo, toda morte carrega consigo um pedaço da vida dos outros. Cada suicídio é também um pouco de cada um de nós que morre. Em cada um que opta por partir, é denunciada a cultura tanatófila de nosso tempo que se tornou insensível à morte de milhões.

Vivemos uma explosão de mortes. É tamanha que ultrapassa tudo o que nossa geração já viveu. É preciso interrompê-la já. Mas é preciso estar também e desde já atentos às vidas que implodem por já não suportarem tanta dor. É preciso manter distância física para evitar o contágio viral. É indispensável aproximarmo-nos dos que estão à deriva e na ameaça de implosão e dar-lhes apoio emocional. A morte não é apenas o espetáculo morboso no jornal televisivo da noite. Há muitos morrendo silenciosamente para dentro. Para estes, não basta máscara, distanciamento e vacina. É preciso aproximação, carinho e compaixão.

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A Igreja não se fecha!

Escrevo este texto na terça-feira da Páscoa. Uma Páscoa diferente. Diferente como foi a do ano passado. Uma segunda Páscoa em meio à Pandemia. Uma Páscoa com celebrações restritas. E com poucas comemorações. Uma Páscoa com Igrejas fechadas ou com acesso limitado. Uma Páscoa com o comércio vazio e os cemitérios lotados. O choro da Paixão do Senhor continuou no sábado e domingo e segue ainda hoje pelo contágio, intubação e morte de pessoas cada vez mais próximas de nós.

O silêncio do sábado de espera foi rompido por uma notícia insólita. Um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou liminarmente a realização de cultos religiosos em todo o Brasil. Decisão monocrática e contrária a outras decisões anteriores do Pleno do STF. Prefeitos, governadores e até outros membros da Suprema Corte manifestaram-se contrários. As igrejas afiliadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) chamaram ao bom senso e à necessidade de não fazer dos templos um lugar de transmissão do vírus e de propagação da morte.

A intervenção de outro ministro do STF fez com que a disputa seja decidida amanhã, quarta-feira, no plenário do STF. Esperamos a decisão. Será uma decisão jurídica que todos os brasileiros e brasileiras terão como referência. Do ponto de vista religioso, no entanto, a polêmica veio colocar um ponto de não retorno no cristianismo brasileiro. E não apenas nesta ou naquela denominação religiosa. É um marco que atravessa todo o cristianismo porque, em todas as igrejas, há membros que defendem a abertura e membros que defendem o fechamento.

O que está em questão, é o que compreendemos por Igreja. Quando falamos a palavra “igreja”, pensamos no prédio em que nos reunimos ou pensamos na comunidade que é o Corpo de Cristo e o Templo do Espírito Santo? Se esta segunda compreensão é a que habita nossos corações, não há necessidade de templos abertos para praticar a fé. Onde dois ou mais estiverem reunidos, aí está Deus no meio de nós. Como diz a nota do CONIC, isto pode ser feito em família, online e no coração de cada um. E mais: onde houver um irmão ou uma irmã passando fome, com sede, nu, doente, preso… aí está o próprio Cristo. Não há necessidade de ir ao templo para encontrá-Lo. Ele está abandonado em nossas ruas, parques, praças perambulando por não ter casa e, desempregado, pedindo pão para seus filhos. Ele está clamando nos hospitais lotados e nas UTIs abarrotadas, esperando atendimento, intubado, morrendo… Os verdadeiros adoradores, já dizia Jesus, não são os que vão ao Templo de Jerusalém ou ao Monte Garizim para rezar, mas os que o adoram em Espírito e Verdade.

A decisão do STF será uma decisão jurídica. Prevalecerá a lei, a Constituição que esperamos seja interpretada com o bom senso que a situação merece. Mas a decisão de fé já está dada. As duas opções são claras: há os que adoram o Deus da Vida e os servidores da morte. Há os pastores que dão a vida pelas ovelhas (e os há em todas as igrejas) e há os mercenários que só pensam no dízimo e nas doações dos fieis. Há as Igrejas e há os grupos empresarias que exploram a fé dos pobres e desesperados. Essa é a divisão básica entre as igrejas e em todas as igrejas. Independentemente do que decida o Supremo Tribunal Federal, cada um e cada uma sabe o lado que está tomando. Não há mais o que fingir. Deus está vendo. E todos nós também. Amém.

Sexta-feira de Páscoa

Por que no Brasil as celebrações da Sexta-feira Santa são muito mais concorridas que as do Domingo da Ressurreição? Muitos agentes de pastoral se fazem essa pergunta e a respondem, geralmente, culpando a ignorância religiosa dos fieis. Nessa resposta há um equívoco que nasce do desconhecimento da história do catolicismo no Brasil e de um lapso teológico grave.

Nós também nos fazemos esta pergunta e buscamos respondê-la no vídeo abaixo. Confira e pense conosco:

Meus medos.

Sou uma pessoa medrosa, sim, e não tenho escrúpulos em confessá-lo. E não tenho um medo só. Tenho muitos medos. Inumeráveis medos. Um deles é o medo das alturas. Não gosto de chegar perto de precipícios. O Cânion do Itaimbezinho é um dos meus lugares preferidos para passear. Mas nada de me aproximar da borda do precipício. Fico bem longe! Só olhando…

Também tenho medo de velocidade. Quando dirijo, nunca ultrapasso os cem quilômetros por hora. Mesmo na autoestrada onde isso é possível. É o meu limite! Por mais que zombem de mim e da lentidão com que ando… E se estou de carona e o motorista passa dos cem, já fico incômodo e peço para andar mais devagar.

Também tenho medo de instalações elétricas. Nunca levei um choque nem presenciei algum acidente elétrico mais grave. Mas quando vejo um emaranhado de fios, ainda mais se houver algum velho, solto ou desencapado, eu é que fico pilhado!

Teria muitos outros medos a confessar. Mas fico por aqui. São suficientes para dizer que não tenho medo dos meus medos. Aprendi a conviver e até gostar deles quando me dei conta que são uma proteção. Cair do alto de um prédio ou de um penhasco, fazer um acidente em alta velocidade, levar um choque de 220 volts, é um risco de morte. Ter medo é uma forma instintiva ou aprendida de preservar a vida.

Os medos são bons. Todos precisamos deles para sobreviver. O contrário do medo não é a coragem e a valentia. Muitos dicionários dizem isso. E o senso comum também. Mas é preciso pensar. E se formos a fundo, veremos que o contrário do medo é a imprudência e a inconsequência. Quem não tem medo de nada, muito facilmente acaba tomando atitudes e assumindo comportamentos que provocam dano a si mesmo ou fazem mal aos outros. Não ter medo de dirigir em alta velocidade pode levar à morte do motorista, de quem está com ele no carro e de outras pessoas que se tornam vítimas inocentes da suposta coragem do dito motorista. Não ter medo de ficar doente, nestes tempos de pandemia, está levando à morte de muitos valentões e, o que é pior, de seus familiares e amigos que sofrem as consequências de seus comportamentos desatinados.

Não sei se existe uma palavra que possa ser tida como expressão exata daquilo que é contrário ao medo. Mas, naquilo que a vida me ensinou, considero que, para viver com os medos do dia a dia, duas atitudes são necessárias. A primeira, é a prudência. Uma virtude que anda bastante esquecida nestes tempos de muita pressa. Ser prudente, no entanto, não é ir devagar. Muito menos desistir do que se quer. Ser prudente é analisar as diversas possibilidades e discernir o melhor caminho para atingir o fim almejado.

Pode não ser o caminho mais fácil. E nem o mais rápido. Mas aquele que, ao fim e ao cabo, resulta no objetivo almejado. Ao lado da prudência, para conviver com os medos, é preciso a serenidade. Todos sabemos o que é um céu sereno. E todos deveríamos saber que, quem tem um espaço interior despejado, limpo, sem nuvens escuras e tempestuosas, consegue aceitar e superar seus medos e não se deixar intimidar pelos perigos que vem de fora.

Hoje, assim como em todos os tempos, não ter medo, é um perigo. Para si e para os outros. E uma confissão de fraqueza disfarçada em aparente valentia. Com meus medos, procuro cultivá-los e conviver com eles. Dos que não sabem conviver com os próprios medos, guardo distância e um indisfarçável desprezo: coitados, são covardes a ponto de ter medo de seus medos!

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