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A economia da graça.

Graça é aquilo recebemos sem dar nada em troca. Em outras palavras, um presente. Ninguém paga por um presente. Se pagamos por ele, deixe de ser presente e passa a ser uma compra, negócio, troca, comércio. E aí perde a graça… Já pensou se, no dia do aniversário, tivéssemos que pagar pelos presentes que recebemos dos familiares e amigos? Ia ficar meio estranho. A festa viraria mercado.

Mais do que pensamos, em nossas relações cotidianas, a graça está presente. Já pensou o quanto recebemos das outras pessoas? Dos pais recebemos a vida e o cuidado na infância, adolescência e juventude. Nenhum pai, nenhuma mãe, cobra por criar os filhos. O carinho dos avós: não tem preço que pague! O afeto dos tios, primos, sobrinhos. A amizade dos vizinhos, colegas de trabalho, de esporte… Ninguém nos cobra nada. É de graça.

Da sociedade também recebemos muito. Herdamos a cultura, a ciência, a tecnologia, os bens civilizacionais que as gerações anteriores produziram e nos legaram e nós utilizamos sem ter que pagar por isso. Ainda bem que não precisamos pagar pelo uso do alfabeto que os fenícios fizeram dois milênios antes de Cristo!

Mas, a grande fonte de graça, sem dúvida, é Deus. Toda a criação, o Planeta Terra, a própria humanidade, cada um de nós em particular, somos frutos da graça de Deus. Ele nos criou sem exigir nada em troca. Em seu amor, apenas nos pede que, assim como tanto dele recebemos, sejamos generosos, pois tudo o que temos, não é mérito nosso, mas dom a ser repartido entre todos.

Jesus apresenta este princípio numa fala desconcertante. É a parábola do homem que contratou trabalhadores em diversos horários do dia e, no final, diferente do que esperavam, fez igual pagamento a todos, independente do tempo trabalhado por cada um. Quem iniciou às cinco da manhã recebeu a mesma remuneração dos que começaram ao meio dia ou às seis da tarde.

As pessoas que ouviam Jesus ficaram de boca aberta. Percebiam que ele tinha razão. Mas não podiam aceitar tal argumento. Ele corroia a lógica da meritocracia, ou seja, de que cada um deve ser recompensado pela capacidade e contribuição individual. Essa não é a economia de Jesus. A economia de Jesus é a da graça, ou seja, de que tudo provém de Deus e deve ser repartido entre todos conforme a sua necessidade. E quem necessita mais, deve estar em primeiro lugar nas preocupações de todos. E Jesus vai ainda mais longe ao afirmar que os últimos devem ser os primeiros e os primeiros, ficar por último.

Como aplicar esse princípio cristão numa sociedade complexa como a nossa? Mais simples do que se imagina! Já tem nome e experiências consolidadas. É a Renda Básica de Cidadania. Cada pessoa, independente da condição social, recebe os recursos necessários para suprir suas necessidades fundamentais e assim poder contribuir com toda a liberdade para com a sociedade. Muitos não acreditam nesta proposta. Não é de estranhar. Afinal, como o profeta diz, os pensamentos de Deus estão muito longe dos pensamentos humanos e os pensamentos dos homens, muitas vezes, longe dos pensamentos de Deus. Tão longe quanto a distância entre o céu e a terra!

Mas, para quem acredita na graça de Deus, não custa sonhar. Sonhar como Jesus sonhou: com uma sociedade em que cada um contribuía com as suas possibilidades e receba, de graça, conforme suas necessidades. Essa é a economia da graça, a economia de Deus.

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O atalho dá trabalho

Quem de nós já não fez a experiência de, num dia em que tem pressa para chegar a um lugar, ao invés de tomar o caminho costumeiro, tentar um atalho para chegar mais rapidamente ao destino? E, quem também não fez a experiência de, ao tomar o atalho, ter que andar o dobro e gastar muito mais tempo do que se tivesse tido paciência para seguir na rota que, mesmo sendo longa, leva com certeza ao destino? É! A sabedoria popular tem razão: o atalho dá trabalho!

Mas, convenhamos: o atalho é uma tentação. E não só nas ruas e estradas. Em muitas situações da vida. Quem já não sonhou em ganhar na loteria? Ou encontrar um pote de ouro enterrado no pátio? Ou receber uma herança de um tio-avô do qual nunca tinha ouvido falar? Ou resolver a miséria do país com um plano econômico mirabolante?

Para muitos, as mazelas sociais e a disputa política só serão resolvidas por uma ditadura. O caminho da democracia é lento, exige empenho, dedicação, resiliência, informação. O atalho da ditadura é tentador. Parece resolver a curto prazo. Mas suas consequências, como todos sabemos, são duradouras e difíceis de superar.

No que se refere à religião, o atalho também é uma tentação.  Percorrer o caminho que leva a Deus é exigente. Configurar a vida pessoal, familiar, comunitária e social segundo o amor daquele que nos amou, exige abandonar o ódio, o rancor, a vingança, o egoísmo e voltar suas preocupações para a dor de quem caminha ao nosso lado. É difícil. É demorado. É suado.

E aí os atalhos aparecem tentadores. São muitos. Alguns antigos, outros renovados. No passado, tivemos o atalho das indulgências. Bastava pagar um tanto e o céu estava garantido. Mais recente, o atalho das promessas: se este ou aquele santo me der o que eu preciso, em troca, dou tanto ou faço tal coisa. E o atalho de levantar as mãos e aceitar Jesus sem o compromisso de mudar de vida. Mais moderno é o atalho do boleto. Prático, simples, tecnológico: basta imprimir o boleto no site desta ou daquela devoção, pagar no banco, e está tudo resolvido com Deus.

O Papa Francisco nos lembra: a verdadeira santidade nunca busca o atalho. Ela trilha o caminho do cotidiano. É a santidade do pai e da mãe que cria seus filhos em meio às dificuldades, dos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, dos doentes que enfrentam a dor com coragem e serenidade, dos idosos e idosas que, do alto da sabedoria acumulada, continuam a sorrir para a vida que se vai. A santidade, segundo o Papa Francisco, não está apenas sobre os altares. Ela é nossa vizinha. E por isso, talvez, tenhamos tanta dificuldade em enxergá-la.

As soluções estão ao nosso lado, na partilha e na cooperação econômica, no diálogo e na busca conjunta de soluções, na comunidade de fé que nos ajuda a sustentar os momentos difíceis. É preciso voltar a trilhar os caminhos ordinários. Buscar atalhos, só atrapalha, só dá trabalho.

A Maior Igreja do Mundo

YamoussoukroDifícil estabelecer qual a maior igreja do mundo. Depende do critério utilizado: área construída, capacidade para abrigar pessoas, extensão da nave, altura… Conforme a medida usada, teremos um resultado diferente. Nas várias listas possíveis, a Europa contribui com o maior número. Em seguida, vem a América. Mas há uma exceção, e ela é africana.

Trata-se da Igreja Nossa Senhora da Paz de Yamoussoukro, na Costa do Marfim. Sua construção começou em 1985 e foi inaugurada em 1990 pelo Papa João Paulo II. A decisão por edificar tal igreja em plena savana foi do ditador Félix Houphouët-Boigny. Ele governou o país por 33 anos. O custo da obra foi de 300 milhões de dólares. Tamanho investimento teve sérias consequências para o país. Após a morte do ditador, a crise econômica degradou em crise política até hoje não resolvida.

Na nave fechada, que imita a Basílica de São Pedro, cabem 18 mil pessoas. No pátio, 300.000 fieis podem assistir às missas. A capacidade total só foi utilizada duas vezes: na visita do Papa e no enterro do ditador. Os católicos são apenas 15% do total de 25 milhões de habitantes. A cidade de Yamoussoukro não passa dos 100 mil moradores. Hoje, nos domingos, o templo recebe, no máximo, 350 pessoas. O custo anual da manutenção do prédio é de 1,5 milhões de dólares.

A Igreja Nossa Senhora da Paz de Yamoussoukro é um exemplo típico da confusão entre templo e Igreja. Há pessoas que pensam que construindo um templo se está edificando a Igreja. Ledo engano. Como diz a boa teologia, o que menos importa numa comunidade cristã, é o lugar onde ela se reúne. Não é o tamanho ou a suntuosidade do prédio que diz da grandeza de uma Igreja. Aliás, a construção de prédios grandiosos, como mostra a história passada e fatos do presente, ao invés de ajudar a edificar a comunidade, muitas vezes é motivo para divisão, escândalo e destruição.

É preciso voltar à simplicidade da Igreja de Jesus. Ele se reunia com as pessoas nas sinagogas da Galileia, nas casas, nas praças, nas estradas, na beira do lago, no alto da montanha… De qualquer lugar, ele fazia um lugar de encontro com Deus. E isso por três razões. Primeira, porque, para Jesus, Deus mora na pessoa dos pobres e pequeninos. Em seus corpos machucados pelo esquecimento, desprezo e opressão, aí Ele está presente. Em segundo lugar, porque Ele se faz presente em todo e qualquer lugar onde dois ou mais se encontram em seu nome. E, finalmente, porque Deus não precisa de um templo. Ele mora no coração sincero de toda pessoa que busca a verdade. Ele pode ser encontrado no monte Garizim, no Templo de Jerusalém, em qualquer espaço religioso e também fora deles.

Menos prédios. Mais igrejas vivas. É o grande desafio para todos os que colocam sua fé no Deus de Jesus Cristo e não nas obras das próprias mãos. Aí sim, teremos a verdadeira maior Igreja do mundo que será a humanidade e toda a criação habitada por Deus.

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Quanto vale uma vida?

A pergunta parece, à primeira vista, não fazer sentido. Preço, tem as coisas. A vida humana é absoluta. É impossível estabelecer o preço de uma vida. Impossível, mas nem tanto…

Se olharmos para trás, para nossa história, há pouco mais de cem anos, vidas humanas eram cotadas no mercado como qualquer outra bem. Em 1846, um  homem escravizado comum valia, no mercado brasileiro, em média, 350 mil-réis. Era o equivalente a 30 sacas de café. Um escravizado capaz de um trabalho qualificado valia o dobro, ou seja, 60 sacas de café. Trinta anos depois, em 1875, as restrições ao tráfico de seres humanos impostas pela Inglaterra, fizeram com que o valor de um humano escravizado subisse 235%, alcançando a cotação, no mercado carioca, de 1 conto e 256 mil-réis para os machos e 1,106 contos de réis para as fêmeas. Na época, 1 quilograma de ouro era vendido por 1 conto de réis. Ou seja, uma vida humana valia um pouco mais que um quilo de ouro.

Tais constatações nos espantam e, para alguns, até podem causar horror. Mas são nosso passado e, por que não, também o nosso presente. Quanto vale uma vida? Concretamente, quanto vale a vida do trabalhar do hipermercado que, acometido por um mal súbito, caiu morto e seu corpo, tombado no chão, foi tapado por guarda-sóis para que o negócio não parasse? A vida daquele trabalhador não vale um dia de comércio fechado. Mais vale o faturamento diário que a vida toda daquele homem. Afinal, na fila, há milhares esperando para ocupar a vaga do tombado ao chão. Nem há necessidade de traficá-los da África. Eles já estão aqui.

Mas não nos espantemos! Como diz a propaganda, tudo tem seu preço e pode ser pago com cartão de crédito. Ou, para não ter problemas com a receita, em dinheiro vivo transportado em malas ou depositado parceladamente num caixa eletrônico de um shopping center. Hoje, como no séc. XIX, mesmo que seja cruel dizê-lo e admiti-lo, as vidas humanas têm preço. E, como no tempo da escravidão, há quem esteja disposto a pagar por elas. Outros sentem-se felizes e realizados em comercializá-las. E outros, estes a grande maioria, são obrigados a vendê-las num mercado em que este “produto” é subvalorizado.

É preciso resgatar o valor da vida humana. De cada vida e de todas as vidas. Não há nada que possa ser trocado por uma vida. Uma vida só pode ser entregue se for para resgatar outras vidas das modernas escravidões. É o que fez Jesus. E, no seu seguimento, bem perto de nós, Chico Mendes, Margarida Alves, Santo Dias da Silva, Pe. Ezequiel Ramin, Irmã Dorothy, Irmã Dulce, Dom Pedro Casaldáliga e tantos santos e mártires do povo brasileiro.

São vidas que não tiveram preço, mas tem o apreço e o carinho daqueles e daquelas pelas quais foram doadas. Por isso, são vidas eternas.

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SOBRE IPÊS E MENINAS

Faz agosto em Porto Alegre. Apesar dos 24 graus, o inverno ainda não se foi. Ainda é cedo para se dizer primavera. Frio e calor se alternam num grenal de temperaturas que seguirá até setembro ou outubro. Ninguém sabe. Cada ano é diferente. Cada semana é uma semana. E cada dia é uma caixa de surpresas. Faz parte… Somos sobreviventes neste clima abrupto, intermitente, impaciente.

Impaciente como os cinco ipês rosas que habitam o pátio da casa onde moro. Basta um pouco de calor de agosto – às vezes até mesmo em julho – e logo saltam suas flores que contrastam com o verde das figueiras, mangueiras e jacas. Sim! Em Porto Alegre também há mangueiras e jacas. Um ou dois dias de sol bastam para que os ipês ocupem todo o espaço ao meio e acima das outras árvores. A cada dia, a cada hora, novos brotos, novas flores, um brilho cada vez maior a fascinar os olhos e a mente.

Mas como ainda é agosto, nem termina a floração e uma frente fria patagônica varre com seu gélido sopro os pampas, a serra, invade as ruas do Porto (nem sempre) Alegre, sobe a lomba do Santo Antônio e os ipês, num movimento instintivo de proteção, recolhem sua seiva, encolhem suas flores e pouco a pouco, uma atrás da outra, vão tombando ao chão formando um róseo tapete a enfeitar a grama, as ervas, a lama que se forma com a chuvisca intermitente que tudo volta a congelar. Ainda é inverno em Porto Alegre…

Entre uma pétala e outra que surdamente caem, fico a ouvir as muitas vozes que falam da menina capixaba de dez anos estuprada durante quatro anos por seu tio e que resultou grávida. Vozes que gritam para defendê-la. Vozes que rugem pra condená-la. Pobre menina pobre. Tão pobre, como diz o poeta, que até ficou negra como tantas negras de quatrocentos anos de escravidão obrigadas a carregar seus filhos presos aos grilhões da servidão em seus próprios ventres. Filhos que, quando nasciam, eram vendidos pelos próprios pais. Faz pouco isso acontecia. Há apenas 150 anos a Lei do Ventre Livre chegou. Mas muitos ventres continuam presos, escravizados à sanha de machos que se acham donos dos corpos das mulheres, antes mesmo que a natureza as faça entender que são mulheres.

Uma entre tantas meninas estupradas e obrigadas a gestar e parir um rebento fruto de um crime. Vinte e duas mil, dizem as estatísticas oficiais. Na realidade, muito mais numerosas, pois nem todas tem a dupla infelicidade de sofrerem o abuso e de serem expostas publicamente como objeto de disputa política em tempos de fascismo moralista que faz da repressão de gênero um instrumento de dominação política.

Onde estava a mãe dessa menina? Onde estava a avó desta menina? Perguntam inquisidores legais, morais e religiosos escondidos atrás de suas togas, túnicas e gravatas. Ninguém pergunta pelo estuprador. Nem pelo pai e nem pelo avô. O primeiro está foragido. O segundo, assim como o terceiro, não se indaga sua presença. Faz parte da “cultura” brasileira responsabilizar as mães e as avós sobre a educação dos filhos e filhas. Se aconteceu o que aconteceu, a culpa é da menina. A culpa é da mãe. A culpa é da vó. A culpa é das mulheres. Talvez alguém pergunte que tipo de roupa a menina estava usando quando foi estuprada pelo tio… Nunca se sabe o tamanho e o limite da hipocrisia. Talvez seja infinita. Ou incurável. Temo.

Volto aos ipês e suas roupas rosas. Logo serão relevados pelos ipês de roupas amarelas e, mais raros, os de roupas brancas e verdes. Estes últimos, raríssimos, discretos, belos, singelos. Derramadas pelo chão, as pétalas rosas olham para o alto e observam os galhos, outra vez desnudos, a preparar novos brotos para a segunda floração. Apesar do frio que enrijece a pele e fere o coração, as flores voltarão. Estamos no mês de agosto. Ainda é inverno. Intermitente inverno. Renitente inverno. Quase um inferno de um minuano macho que tudo quer penetrar.

Mas o ipê está a anunciar que logo a primavera virá. E as árvores todas – paineiras com suas sestrosas flores rosa, guapuruvus a colorir o céu de amarelo, jacarandás com seu provocante lilás – para sempre desabrocharão em todas as casas, em todos os pátios, em cada rua, esquina, praça, parque, num arco-íris de esperança e liberdade onde as meninas de seis a dez anos poderão brincar sem medo, de boneca, de carrinho, de escola, de bola… do que quiserem!

Quem poderá nos salvar?

pergunta é antiga. Estamos sempre voltando para ela. Afinal, como humanos, vivemos a limitação da fragilidade e da finitude. Sabemos que, sozinhos, não podemos alcançar tudo o que sonhamos.

Desde o nascimento até a morte, precisamos dos outros. De um pai e de uma mãe para sermos gerados e criados. Da família para proporcionar o entorno de proteção, cuidado e carinho.

Durante a vida, precisamos da sociedade para ter o espaço de sobrevivência, cultura e realização. No curto tempo de existência, aproveitamos daquilo que outras gerações construíram antes de nós. E usufruímos do que outras pessoas – vizinhas ou de recantos remotos do mundo – desenvolvem e partilham conosco.

Na velhice e na morte, também precisamos dos outros. Para cuidar-nos nas debilidades que surgem da idade e para acompanhar-nos na morte e depois dela, no caminho final do cemitério ou do crematório.

As religiões nascem da experiência radical de que o ser humano não se realiza por si mesmo. Elas afirmam que a salvação de cada pessoa e da humanidade vem de uma realidade que é maior que a humana e que é chamada “Deus”. Ele salva ou envia alguém para salvar as pessoas que a ele se devotam.

Toda religião responde à pergunta fundamental: quem poderá nos salvar? É a pergunta que Jesus faz aos discípulos: Quem dizem as pessoas ser o Filho do Homem? “Filho do Homem”, na tradição judaica apocalíptica, era a pessoa enviada por Deus que traria a salvação para a humanidade. Alguns diziam que o salvador era João Batista, outros Elias, Jeremias ou algum dos profetas.

Diante das respostas, Jesus faz o teste final e pergunta se os discípulos viam nele a salvação de Deus. Pedro responde afirmativamente. Mas responde com uma resposta que mostra quem é Pedro e não quem pode ser o Salvador. Pedro imagina um salvador forte e poderoso que esmaga os adversários. Ele projeta em Jesus seu desejo de vingança contra os opressores dos judeus e quer que Jesus os esmague com força e poder. Jesus diz que Pedro, pensando assim, se torna um tentador, um satanás. Atribui a Deus o jeito de agir do diabo e, no lugar da salvação, traz a perdição.

Pedro não era uma pessoa má. Mas tinha uma ideia equivocada da liderança e do modo de fazer as coisas. E ele projetava em Jesus seu modo vingativo de pensar. Não é uma atitude exclusiva de Pedro. Nós também podemos repeti-la ao buscar salvadores que não agem como Deus mas agem como o diabo, aquele que divide, cria confusão, mente e mata.

Neste tempo de incertezas, de medo, de insegurança, mais do que nunca, é preciso estar atento e discernir os verdadeiros sinais de salvação e não confundir o agir de Deus com o agir de satanás. Só assim poderemos seguir o verdadeiro salvador e ficar longe do falso e enganador.

Se queres subir, olhe para baixo!

A crise que estamos vivendo, não é uma crise normal. Mais do que outras que a nossa geração teve que enfrentar, a Covid19 coloca em cheque não apenas a saúde de cada pessoa e o sistema sanitário. Ela põe a economia em frangalhos, provoca crises políticas, tem causas e consequências ambientais, rompe a sociabilidade, fratura afetividades, questiona espiritualidades. É, no sentido mais próprio, uma crise cultural: ela questiona o sentido da existência pessoal e da civilização que, há séculos e a duras penas, estamos construindo.

Por ser radical, a crise provoca reações radicais. Há os que racionalizam, os que deixam emergir os instintos básicos de sobrevivência através da agressão ou da superproteção, os que se aproveitam da situação para lucrar bilhões, e os que, para não enfrentar a gravidade da situação, fingem ignorá-la ou buscam soluções mágicas em terapias sem nenhuma comprovação ou comprovadamente ineficazes. É há os que não aguentam tamanha pressão e, num ato de desesperada esperança, abdicam da própria existência.

Onde encontrar sentido para a vida e esperança para o futuro em meio ao esgarçamento civilizacional provocado pela Covid19?

Há os que se agarram à sua riqueza, ao poder, ao supremacismo social, ao racismo e a outras ideologias que lhes dão a pseudo segurança de que, por fazerem parte de uma elite, não serão atingidos pela crise.

Há os que apostam todos os seus recursos na ciência alimentando a esperança de que em breve teremos remédios, terapias e vacinas que nos livrarão do flagelo. Mas esse “até lá”, a própria ciência o diz, não é para amanhã. E muitos ainda serão os mortos e a destruição antes que tal solução chegue.

E há os que se apegam à religião como solução. Bênçãos, promessas de cura, milagres, orações que garantem saúde a salvação e muita exploração de incautos são uma epidemia tão avassaladora quanto à provocada pelo coronavírus. E da qual as religiões, todas elas, num futuro próximo, sofrerão as consequências.

Acreditar em algo é importante. A ciência é importante. A religião é importante. Neste tempo de crise sanitária, em que o Brasil padece a dor de mais de 100 mil mortos e mais de três milhões de infectados, é crucial lembrar que, para o cristão, não há salvação da alma sem salvação do corpo. Uma exige a outra. Só há ressurreição para aquele que experimentou a salvação na própria carne e na carne dos outros. O ressuscitado com as mãos, os pés e o lado marcado pelos cravos da paixão, é imagem eloquente de que a salvação passa pela encarnação.

Maria, que foi subida ao céu em corpo e alma, também o anunciou: o Deus verdadeiro olha para a humildade de sua serva para elevá-la à mais alta dignidade. Ele derruba do trono os poderosos e exalta os humildes. Sacia os famintos e despede os ricos sem nada. O caminho do céu passa pelo mais sofrido da humanidade. Não há outro caminho. Se queremos, a exemplo do Filho de Deus e de Maria, ir para o alto, precisamos olhar para baixo, para os que sofrem e, tomando-os pela mão, iniciar o caminho da redenção. Da salvação deles, e da nossa salvação.

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Para que não se repita!

hiroshima

Em sua obra Sobre a Oratória, escrita em 55 a.C., Marco Túlio Cícero registrou uma frase que, de século em século, chegou até hoje e nos faz pensar sobre a capacidade humana de apreender. Dizia ele: “a história é testemunha dos séculos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado”. A forma breve da afirmação – a história é a mestra da vida – tornou-se popular e enfeita formaturas de Cursos de História e discursos de políticos candidatos a caudilho, ditador ou estadista.

Sem pôr em dúvida a grandeza de Cícero – quem sou eu! – faço-me uma singela pergunta: o sábio romano, ao fazer tal afirmação, fazia uma constatação ou proclamava um desejo?

Coloco esta indagação nestes dias em que comemoramos os 75 anos do lançamento, pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. No dia 6 de agosto de 1945, uma bomba de urânio foi jogada sobre Hiroshima. Três dias depois, outro avião despejou uma bomba de plutônio sobre Nagasaki. Milhares de pessoas morreram instantaneamente. Em menos de quatro meses, o número de mortos subiu a mais de 300 mil. Durante décadas, milhares de pessoas continuaram a morrer e a sofrer as consequências da radioatividade.

Até hoje, estrategistas militares, governantes, políticos e moralistas se perguntam: era necessário tal massacre para que a guerra terminasse? Para os defensores do holocausto de Hiroshima e Nagasaki, não haveria solução final para o conflito sem uma prova irrefutável da superioridade americana sobre o Império Japonês.

As palavras grifadas o foram de propósito: holocausto, solução final e superioridade. Elas remetem a um outro espaço em que se disputou a hegemonia econômica, política e cultural na “Segunda Guerra Mundial”. Como todos já perceberam, trata-se do conflito europeu em que o nazismo, através do holocausto de judeus, ciganos, comunistas, pacifistas, homossexuais e doentes, queria dar uma solução final para os problemas do mundo e impor a superioridade da raça ariana.

Voltando à frase de Cícero, nos perguntamos: aprendemos algo com esses dois episódios tão similares da história da humanidade?

É verdade que a bomba atômica nunca mais foi usada. Mas outras bombas, menos espetaculares mas tão ou mais eficazes, continuaram a matar milhões de pessoas por todo o mundo: Coreia, Vietnam, Argélia, Camboja, Indonésia, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Chile, Ruanda, Congo, Afeganistão, Iraque, Tiananmen, Líbia, Iêmen… e tantos outros massacres esquecidos.

É preciso ler a frase de Cícero até o fim quando ele diz: “qual voz, se não a do orador, pode tornar a história imortal?” Para que a história não morra, é preciso contá-la. E contá-la sempre de novo. Só assim ele não será repetida. O painel de entrada do Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago do Chile nos interroga: “Que acontecerá se esquecermos?” Que jamais se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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O paradoxo da abundância.

Comer é um ato biológico. Nosso corpo precisa ser provido dos nutrientes necessários para permanecer vivo. Se não comemos, morremos. Por isso a fome é algo tão terrível. Ela é a antessala da morte. A pessoa que está com fome, para comer, ou seja, para sobreviver, é capaz de qualquer coisa: trapacear, roubar e, no limite, até matar.

Mas, comer, é também um ato social. Amostra disto é afirmação de que, mais importante do que comemos, é com quem comemos. Como diz a Bíblia no Livro dos Provérbios, “é melhor comer um prato de hortaliças, onde há amor, do que ter um boi gordo acompanhado de ódio na refeição”. A forma como são produzidos, intercambiados e consumidos os alimentos revelam a verdadeira natureza de uma sociedade.

A comida, por ser indispensável para a sobrevivência e por ser símbolo de relações sociais, é um elemento presente em todas as religiões, inclusive no cristianismo. Nos Evangelhos, há mais comida e refeições do que milagres e exorcismos. Se tomamos, por exemplo, o Evangelho de João, a obra do Salvador começa com uma festa de casamento em Caná onde ele transforma a água em vinho e termina com um encontro do Ressuscitado com os discípulos à beira do lago onde Jesus partilha pão e peixe assado com seus amigos e amigas.

Partilha de comida e bebida que, durante o percurso da Galileia até Jerusalém, Jesus já havia feito em muitos lugares e com muitas pessoas. Na casa de pobres e de ricos, de santos e de pecadores, de homens e de mulheres, de judeus e de estrangeiros. Às vezes comendo e bebendo muito, a ponto de dizerem que era um comilão e um beberrão. Outras vezes, comendo as sobras ou o quase nada do que as pessoas tinham. E, em algumas situações, até roubando o trigo da beira da estrada para poder saciar a fome dos discípulos.

Mas acima de tudo e em todas as ocasiões, ensinando que a comida deve ser partilhada sem que ninguém fique de fora. Quando os discípulos, vendo a multidão com fome, pedem que o Mestre mande todos embora para que cada um se vire como pode, Jesus ensina que a partilha é o caminho para que todos fiquem saciados. E dos cinco pães e dois peixes nasce a consciência e a prática de que, para que todos comam, é preciso que os que tem muito partilhem com os que pouco ou nada têm.

No tempo de Jesus, assim como hoje, o problema não é a falta de comida. É a falta de partilha. No mundo, há comida de sobra. No caso do Brasil, somos o maior exportador mundial de alimentos. E, mesmo assim, há gente passando fome…

Como dizia o Papa João Paulo II na Inauguração da Primeira Conferência da ONU sobre alimentação no ano de 1992, vivemos o “paradoxo da abundância”: há alimento para todos, mas nem todos podem comer.

Precisamos de novo, aprender com Jesus: que a partilha do pão, do peixe, do vinho, da alegria e da mesa aberta para todos e todas, nos ajude a matar a fome de comida e o anseio por uma nova e justa sociedade.

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Nole mi tangere!

Dia 22 de julho a Igreja celebra Santa Maria Madalena. E o faz com uma festa. Dentro das categorias litúrgicas, é o modo mais elevado de lembrar um santo, no caso, uma santa. A elevação de categoria litúrgica de Maria Madalena aconteceu em 2016 por decisão do Papa Francisco. Até então, celebrava-se apenas a memória desta mulher.

A decisão não foi uma inovação. Na Idade Média, vários teólogos, incluído Santo Tomás de Aquino, a chamaram de “apóstola dos apóstolos”. Título mais do que merecido pois, segundo os Evangelhos, foi a encarregada por Jesus de anunciar a ressurreição aos outros discípulos.

Ela fazia parte do grupo dos seguidores e seguidoras do Mestre desde a Galileia. Juntamente com Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana e muitas outras, elas sustentavam o grupo com seus bens. Eram mulheres poderosas e independentes que, contrariando as tradições e leis, abandonaram tudo para seguir Jesus.

Maria Madalena é uma das personagens mais frequentes nos evangelhos. Quatorze vezes é citada nominalmente. Acompanhou Jesus até Jerusalém e, junto com a mãe de Jesus e as outras mulheres, foi das poucas que presenciaram a crucificação.

Além de discípula fiel e apóstola de primeira hora, a única informação que dela nos dão os evangelhos é que foi libertada de sete demônios. Em linguagem bíblica, era uma pessoa que sofria muito e, no encontro com Jesus, foi libertada. De que ela sofria? Os evangelhos nada dizem.

Por que então a tradição associou Maria Madalena a uma prostituta? É uma boa pergunta… A primeira vez que isso aconteceu foi num sermão de São Gregório Magno, pronunciado no ano de 591 d.C. No sermão, o Papa confunde a Madalena com a mulher adúltera e com a Maria que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas. Uma indevida ligação que que se perpetuou em sermões e obras de arte e chegou até o cinema contemporâneo.

E mais: por que durante séculos tal associação foi aceita acriticamente? Também é uma boa pergunta… Não sei se tenho uma boa resposta para as duas boas perguntas. Mas tenho, no mínimo, uma suspeita: a dificuldade, tanto na Igreja como na sociedade, em aceitar o protagonismo das. São Gregório Magno, em seu sermão, já deixou a dica. Maria, a Mãe de Jesus, era o modelo de mulher submissa. Madalena, a de mulher independente que se arrepende e passa a ser submissa.

São João Paulo II, na Encíclica sobre a Dignidade da Mulher, lembra que estamos em outros tempos e precisamos reconhecer a dignidade e protagonismo das mulheres na sociedade e na Igreja. Nessa mudança, é preciso ouvir das mulheres de hoje, aquilo que Jesus disse outrora a Maria de Magdala: “Noli me tangere! Não me detenhas!” Elas pedem passagem.

*Imagem: “Nole mi tangere!” de Fra Angelico (c. 1440).