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Deus também é mãe.

Falar de Deus é algo temerário. Por mais que nos esforcemos para escolher as palavras, sempre podemos dizer algo inadequado a seu respeito. Nunca temos a palavra exata e completa para dizer quem Ele é.
O melhor caminho para não calar – já que quem experimenta Deus quer sempre comunicá-lo aos outros – é o uso de metáforas. Através de algo que nos é familiar, tentamos dizer a realidade divina que transcende à capacidade de nossas palavras.
Na tradição judaico-cristã, uma das metáforas para dizer quem é Deus, é a da figura do Pai. Dizemos que Deus é Pai. Mas não é pai no sentido da paternidade humana. Mas, a partir da paternidade que todos, como pais e/ou como filhos, experienciamos, podemos dizer algo a respeito de Deus.
Mas a metáfora do Pai não é a única possível. Há muitas outras. Entre elas, está a metáfora da mãe. Na Bíblia, várias vezes, Deus é designado com figuras femininas. O próprio Jesus as utilizou. Ele comparou Deus e seu reino com a mulher que faz pão. Comparou também com a mulher que varre a casa para achar a moeda perdida e, quando a acha, faz festa com as amigas e vizinhas. E se comparou a si mesmo com uma galinha que, para proteger seus pintinhos, os quer esconder sob suas asas.
Existe outra passagem em que Jesus revela o rosto materno de Deus. Na chegada a Jerusalém, num momento de muita tensão entre os discípulos e do conflito de Jesus com as autoridades judaicas, ele diz aos que o seguem: “Na casa de meu pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos um lugar.”
Leiamos esta frase a partir da experiência de filhos. Nos momentos de dor, sofrimento, tensão, desesperança… para onde corremos a fim de encontrar abrigo e proteção? A grande maioria, senão todos, busca a casa da mãe. É lá que se encontra a proteção e o conforto para sanar as feridas e recomeçar.
E mesmo quando a briga é entre irmãos, todos, um de cada vez, vão correndo para a casa da mãe apresentar sua queixa contra os outros. E a mãe acolhe, escuta e acomoda cada um de modo que todos possam voltar a conviver nas muitas moradas existentes no seu coração.
Uma metáfora bonita em que Jesus, mesmo chamando Deus de Pai, apresenta-o com o rosto e o coração de mãe. Uma linda comparação que nos desafia a pensar e dizer Deus não apenas com nomes e símbolos do masculino. Mas a incluir o feminino na nomenclatura e caracterização divina.
E, na prática do dia a dia, num mundo dividido por todo tipo de tensões e desigualdade, nos impulsa a superar as diferenças e divergências para que todos e todas possamos ter uma morada pacífica na casa comum de Deus-Mãe, seja ela a nossa família, a Igreja, a sociedade ou a criação.
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Ovelha ou rebanho?

Aconteceu comigo há alguns meses. Voltava de uma atividade no interior. Parei na tenda em que sabia que havia um bom queijo. Havia uns quatro ou cinco carros estacionados. Desci, entrei na tenda e, para minha surpresa, não havia nenhum cliente. Saudei o rapaz que aí estava e, como era meu conhecido de longa data, perguntei: “Cadê todo o pessoal desses carros aí na frente?”
Do fundo da tenda saiu o pai, me saudou e disse com toda calma: “Os carros são nossos. A gente traz aí de manhã e deixa estacionado. Se não tem nenhum carro na frente, ninguém para. Se tem muito carro, todo mundo para!” Imagino que aquele senhor de quase sessenta anos, nascido na Região das Missões e com seu negócio instalado há dez anos no Vale do Caí, não tenha conhecimentos de sociologia e psicologia social. Mas ele, com seu saber prático, descreveu um dos fenômenos mais típicos de nossa época: o comportamento de manada.
A sociologia descreve o fenômeno como a atitude de indivíduos em grupo que, em uma situação de dúvida ou tensão, reagem todos da mesma forma, mesmo sem saber para onde suas ações conduzem. É o clássico “João vai com os outros”. Só que não é um só João. São muitos Joões e todos vão para o mesmo lado sem saber o que os encontrará pela frente!
Duas são as bases para este comportamento. A insegurança e a ignorância. Quanto mais fragilizado e menos informado um grupo, mais fácil de ser conduzido. E com isto já aponto para o outro lado da questão. Hoje, o comportamento de manada, é conhecido, estudado e aplicado de forma científica em muitos setores da sociedade.
Não é só o seu Helmuth que deixa os carros na frente da tenda para que todos vejam que a loja é bem frequentada. Nas propagandas, os supermercados estão cheios de gente feliz. Duplas sertanejas inflam seus shows para dizer que são mais populares. Pastores e padres reúnem multidões para mostrar que são eficientes intermediadores da graça de Deus. Políticos pagam robôs para multiplicar “likes”, comentários e compartilhamentos em redes sociais. E todos somos convidados a ser rebanho que caminha alegremente em direção ao matadouro.
Se queremos mudar o país e o mundo, precisamos deixar o comportamento de rebanho e voltar a ser ovelhas. A diferença é simples. Jesus já a assinalou. A ovelha conhece o pastor pela voz. E ele conhece cada ovelha e a chama pelo nome. O ladrão, esse foge de toda conversa e desvia o olhar das ovelhas, porque sua intenção não é cuidar, mas matar e roubar.
Ah! Seu Helmuth, da tenda de produtos coloniais do Vale do Caí, quando chego, sempre me chama pelo nome. É um bom pastor de compradores de queijo colonial. Abraços, seu Helmuth!
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Viver para contá-la.

O escritor colombiano, Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Márquez, abre o primeiro capítulo do primeiro volume – são três – de seu livro de memórias com uma frase que, por si só, já vale toda a leitura: “a vida não é o que se viveu, mas o que se recorda e como se recorda para contá-la”.

De fato, muitas coisas acontecem em nossas vidas. Algumas, logo as esquecemos. Outras, ficam gravadas em nossas memórias. Umas poucas, estamos sempre a contá-las e recontá-las para nós mesmos e para os outros. E, cada vez que as contamos as vamos contando de um modo diferente. Não porque o passado tenha mudado. Mas porqueo contar e o recontar estas histórias mudaas nossas vidas na medida em que as contamos de um jeito diferente de acordo à necessidade do presente.
Com efeito, o sentido de recordar e contar o que se viveu, não é apenas o de lembrar os tempos pretéritos. O principal efeito de contar a própria história, é dar sentido ao momento presente e assim abrir o caminho para o futuro que sonhamos. Contar o passado é dar sentido ao passado. É o primeiro passo. Mas é, ao mesmo tempo, compreender o presente e assegurar o futuro.
A passagem do Evangelho em que Jesus se encontra com os dois discípulos de Emaús mostra o quanto a intuição literariamente expressa de Gabriel Garcia Márquez dialoga com a experiência cristã. Estavam os dois discípulos fugindo de Jerusalém diante do horroroso espetáculo aí acontecido na Festa da Páscoa. Os romanos, a pedido dos chefes de Israel, haviam crucificado a várias pessoas. Entre elas, o mestre deles, Jesus. Eles estavam perdidos. Apesar de terem assistido a tudo, estavam sem nada compreender. Jesus se aproxima e convida-os a lembrar e contar o que havia acontecido. E, a partir dos eventos recentes, faz com eles uma longa viagem pela história do Povo de Israel, desde os mais longínquos até o presente. E, ao chegar em casa, depois de haver partido o pão como o povo o fizera ao sair do Egito, no deserto, ao chegar na Terra Prometida, no exílio na Babilônia, e como Jesus o partilharatantas vezes com eles, encontraram o sentido de tudo o que acontecera e estava acontecendo: Deus não havia abandonado o seu povo. Pelo contrário. Aquilo que parecia uma desgraça, havia sido, na verdade, a graça de Deus.
Penso nisso ao imaginar como, daqui a dez, vinte, trinta, cinquenta anos, contaremos aos nossos filhos, netos e bisnetos, aquilo que estamos vivendo hoje. E, mais de o quecontaremos, comoo contaremos. Afinal, como bem remarca o escritor colombiano, o mais importante não é o que a gente vive. O que importa, de fato, é o que lembraremos e como o lembraremos para contá-lo aos que vierem depois de nós. E nisso, a intuição de Gabriel Garcia Márquez pode ser pensada também de um outro ângulo, ainda mais instigador. O do futuro que interroga o presente: teremos orgulho do que fazemos hoje ou vamos fazer tudo o que for possível para ocultá-lo a nossos filhos e netos?
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Tomé, a fé e o fanatismo

A Páscoa é uma história com personagens fortes. O principal, como não poderia deixar de ser, é Jesus. Primeiro, crucificado. Depois, ressuscitado. A seu lado, os coadjuvantes: Judas, o traidor; Pilatos, o covarde; Herodes, o cínico; Caifás, o mau; Pedro, o medroso; Verônica, a consoladora; Maria Madalena, a corajosa. E há os figurantes: os discípulos fujões, os soldados sádicos, a multidão volúvel, os dois crucificados ao lado de Jesus, a mulher que dedura Pedro, as Marias que de longe assistem tudo…
Há um personagem que, de figurante na cena da Paixão, se torna o “coadjuvante principal” numa das cenas da Ressurreição. Tomé, o gêmeo. Aquele que só acreditou depois de ver as mãos e tocar o lado do Ressuscitado. Tal atitude lhe valeu a fama de alguém que não tem fé. Ou que só acredita depois de ter as prova. Aquele que só acredita depois de ver. Uma má fama. Fama que precisa ser reabilitada. Mais: precisa ser promovida. Ele, de certo modo, antecipou-se no tempo. Da fama daquele que não tem fé, Tomé merece ser promovido a patrono da fé moderna. Ele não se contenta em que lhe digam. Ele quer experimentar por si mesmo. Quer ver. Quer comprovar. Essa é a lógica do adulto no mundo moderno.
Ter fé – hoje e em todos os tempos – não significa acreditar naquilo que as leis da natureza não conseguem explicar. Fé, no verdadeiro sentido da palavra, é encontrar o sentido último de todas as coisas, inclusive daquilo que a razão explica. A fé não se opõe à razão. Pelo contrário. A fé exige a razão. Ela pressupõe a ciência e tira dela o proveito na medida em que lhe dá subsídios para melhor compreender o que está acontecendo e indagar-se sobre o que isso significa para o ser humano e o mundo.
O oposto da fé é a falta de sentido e não a falta de explicação. A razão explica. A fé compreende. Em outras palavras, a ciência procura explicar o “como” as coisas acontecem. A fé se interessa e tenta explicar o “porque” tais coisas acontecem.
A ciência sem a fé pode tornar-se perigosa. Arrisca enveredar-se por uma busca vaidosa do conhecimento pelo conhecimento e se esquece das consequências que isso tem para o ser humano e para o mundo. É o cientificismo desvairado que pode nos levar ao apocalipse ecológico.
A fé sem ciência transforma-se em curandeirismo necrófilo, em obscurantismo patógeno que descamba no fanatismo totalitário que constrói e alimenta mitos que falsificam a realidade e impedem o encontro com a verdade
Muitas vezes, tanto na pesquisa científica quanto no caminho da fé, o “porque” explicativo se transforma em “por quê” interrogativo. Ao lado da busca, muitas vezes inglória das ciências, há, não raras vezes, a “noite escura da fé”.
Nestes tempos difíceis que nos cabe viver, no trôpego caminho da incerteza que aguilhoa o espírito humano, fé e ciência, vividas na humildade da busca titubeante, precisam dar-se as mãos para alcançar a verdade. E assim, como Tomé, ao ver as mãos de Jesus e tocar seu lado, teve fé e acreditou, também possamos entender racionalmente o que está acontecendo e colocarmo-nos nas mãos de Deus.

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Vocês sabem o que aconteceu…

O cristianismo é a religião da memória. No sentido cristão, fazer memória não é apenas lembrar os fatos do passado. É lembrá-los, sim, mas na medida em que eles continuam atuando em nosso presente e nos conduzindo para o futuro.
O cristianismo não inventou isso. É uma herança das raízes judaicas. Na Páscoa judaica, o pai, ao redor da mesa com a família, lembrava aos filhos a trajetória do povo, desde os tempos de peregrinação no deserto, a descida para o Egito, a escravidão que sofreram durante quatro séculos e, finalmente, a libertação que Deus lhes havia proporcionado. Recordar o passado de escravidão e a libertação operada por Deus era a forma de vacinar o povo contra a sedução das novas escravidões.
Na última Páscoa que passou com seus discípulos, Jesus celebrou com eles a memória da libertação. Como mandava a tradição repartiu o pão e o vinho. O pão lembrava a comida para o povo faminto e o vinho a alegria pra os que viviam a dor e o sofrimento. Era o compromisso de continuar fiel a Deus e fiel ao povo.
Jesus pagou caro por sua fidelidade ao projeto de Deus de dar pão aos famintos e alegria aos entristecidos. Foi crucificado e morto na cruz. Mas Deus o ressuscitou e os discípulos reconheceram que Ele estava presente e atuante na pessoa de Jesus. E que, para ser fiel a Deus, era preciso fazer a memória de Jesus e de tudo o que Ele tinha feito.
Na Vigília Pascal, renovamos nosso compromisso com Cristo. Fazemos a Grande Memória da libertação do povo de Israel e da entrega de Jesus Cristo para a nossa salvação. Na memória desse passado, afirmarmos nosso compromisso de viver no presente aquilo que Jesus viveu afim de que o futuro seja de vida nova para todos.
Este ano, a Páscoa terá um sabor especial. As circunstâncias forçam-nos a vivê-la de um modo diferente. Não haverá viagens. Não haverá festas. Nem celebrações litúrgicas públicas. O isolamento social imposto pela Covid19 nos obriga a passar a Páscoa em casa, com nossas famílias. Muitos a passarão sozinhos. Outros em hospitais. E também haverá aqueles que a passarão chorando seus mortos. Os “coelhinhos da Páscoa” desapareceram. Assim como raros serão os chocolates. A mesa não será tão farta como costuma ser nas festas pascais.
Será uma Páscoa diferente, de silêncio e de reflexão. Talvez a oportunidade para, em meio à apreensão, à dor e ao sofrimento, retomarmos o costume de fazer a Memória Pascal. Lembrar a ação libertadora de Deus e renovar o compromisso de, com Jesus, colocar a nossa vida a serviço dos que tem a sua vida ameaçada pelo coronavírus e pelos discursos de morte que ameaçam a sobrevivência dos débeis e dos pobres.
Afinal, como lembra Pedro em seu discurso na casa de Cornélio, “vocês sabem o que aconteceu…”
Uma boa Páscoa de Ressurreição a todos e a todas.

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TENHO MEDO!

Tenho medo, sim! E não tenho medo de dizer que tenho medo… Dizê-lo com todas as palavras, é uma forma de afastá-lo e poder viver com os medos que me atormentam no dia a dia. São muitos medos: de morrer antes do tempo, medo de nunca mais ver a pessoa amiga que não vejo há tanto tempo, medo de sair de noite, de ser assaltado, medo de aranhas, de subir num lugar alto… Medos medíocres e grandes medos!
Ter medo é natural no ser humano. Faz parte da dinâmica de preservação. É uma proteção que nos impede de ir em direção ao perigo. O sujeito mais perigoso é o que não tem medo. Ele é capaz de arriscar a própria vida por qualquer coisa. Traficantes e milicianos utilizam jovens e crianças em suas ações assassinas. Elas não têm medo de morrer, pois ainda não sabem o valor da vida.
O medo coletivo pode ser utilizado como estratégia de controle social. Jean Delumeau mostra isso no livro clássico “A História do Medo no Ocidente”. Tanto as religiões como o poder político utilizaram o medo para controlar fieis e súditos. Medo do inferno e medo da cadeia. A política do terror é corrente no Ocidente. Do terror da Revolução Francesa ao terrorismo islâmico. Michel Foucault, por sua vez, nos mostrou que a manipulação do medo, nas sociedades modernas, foi integrada nos dispositivos da biopolítica. Impor o medo sobre a população é uma forma de fazer política. E isso conhecemos muito bem no Brasil atual.
Nesse momento, tenho medo do coronavírus. Ele é invisível. Circula por todos os lugares de forma ágil e sorrateira e, quando se instala nos pulmões de uma pessoa, é o terror! Mata por sufocamento. Tenho medo da Covid19. Muito medo!
Mas tenho mais medo daqueles que não têm medo da Covid19. Ou que aparentam não ter medo. Sua falta de medo é um perigo para a sociedade tão grande ou maior que a própria pandemia. Porque, quem não tem medo, além de expor-se à própria morte, é capaz de provocar a morte dos outros.
Diante de um perigo, precisamos nos proteger. Não com armas e muito menos com mentiras! É preciso encarar o perigo com tranquilidade e, no caso da Covid19, com os recursos da ciência.
Neste Domingo de Ramos, lembramos a entrada de Jesus em Jerusalém. Ele entrou na cidade com medo. Sabia que nela estavam os chefes do povo judeu que tanto o odiavam. E aí estavam também os soldados romanos prontos para controlar, pelo medo, a população judaica.
Jesus não se armou. Ele dispensou cavalos e soldados. Entrou montado num jumento. Um animal pacífico que não servia para a guerra. Entrou acompanhado por mulheres e crianças que o aclamavam com ramos de paz. Diante do medo dos discípulos que mandavam as pessoas calarem, Jesus seguiu seu caminho proclamando a verdade.

É tempo de pensarmos em nossos medos. E na forma como os enfrentamos. Fingindo que não temos medo e caminhando para a morte ou assumindo nossos medos e afrontando-os com a coragem da verdade.
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Calma…deixa-me ver tua alma!

A atual pandemia do covid19 é um momento de dor e sofrimento para toda a humanidade. Principalmente para os países, cidades, comunidades, famílias e pessoas atingidas. Para os que morrem e para os que ficam chorando seus mortos.
É ocasião para a solidariedade e compaixão que, devido às características de transmissão do coronavírus, tem sua melhor expressão no isolamento social. Quanto menos contato físico com as pessoas, mais as estamos ajudando!
É uma pandemia que nos obriga à solidão, ao silêncio e à reflexão. Hábitos esquecidos e até desprezados na sociedade da hiperconexão e da interação. Da dificuldade de introspecção de uma cultura voltada para a autoimagem projetada, nascem dois sentimentos aparentemente opostos: a agressão e a depressão.
Nas redes sociais vemos amigos e amigas virtuais expressar a incapacidade de estar consigo mesmos através da agressão a toda e qualquer pessoa que sente, pensa e comunica diferente do que eles gostariam. É a tentação da alma vazia, do espírito incapaz de encontrar-se consigo mesmo, do medo de se olhar no espelho interior e se deparar com o horror vacui da própria existência. Vazio que se projeta agressivamente sobre os outros tentando destruir neles o que não quer apagar de si mesmo.
Por outro lado está a tentação de preencher o vazio de sentido da existência através do consumo de coisas desnecessárias. Horas e horas de shopping, de cinema, de teatro, de restaurantes, de séries televisivas, novelas, viagens e tantas outras coisas mais, com a única finalidade de empanturrar o interior de bens. É o acumulador típico do mercado capitalista. Ele morre sufocado pelos objetos dos quais não necessita. Agora que a pandemia do covid19 o impede de consumir, padece o delirium tremens do consumismo e corre o risco da implosão depressiva.
A covid19 é uma doença física grave. Não é uma gripezinha qualquer. Ela mata. Mais de 15 mil pessoas já perderam a vida. Infelizmente, muitas outras a perderão. A humanidade demorará anos, talvez décadas, para refazer-se.
Mas a covi19 também revela uma doença da alma. De uma humanidade que coloca a economia acima da vida das pessoas e da vida dos outros seres que habitam o mesmo sistema Terra.
É importante que se faça tudo o que é possível para impedir o avanço da pandemia. É importante que se descubra logo um tratamento para os já infectados. Todos os esforços devem ser envidados nesta direção e sem tergiversação e atitudes diversionistas, seja por parte dos cidadãos como dos governantes.
Mas é importante que saiamos desta pandemia com uma alma nova, com a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos e percebermos que não podemos transformar nossas vidas, a vida da humanidade e do Planeta Terra em uma sepultura onde jazem os restos das pessoas que amamos.
Para os que creem na Ressurreição, não há quarto dia. Lázaro está vivo e pode, sim, sair do túmulo e iniciar uma vida nova.
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Da Terra viemos…

A maioria de nós tivemos um dia a ocasião de ler a carta escrita, em 1854, pelo Cacique Seattle ao Presidente dos Estados Unidos, quando este lhe propôs a compra de suas terras. Naquela carta, que é um poema de amor à criação, entre outras afirmações, dizia Seattle: “Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo”.

A consciência de que os humanos pertencemos ao conjunto da criação e de que tudo está interligado são eixos estruturadores da Carta Encíclica Laudato Sì do Papa Francisco.
Com pontos de partida diferentes – a cultura milenar dos povos originários deste continente e a cultura judaico-cristã – o Cacique Seattle e o Papa Francisco chegam à mesma conclusão. Por que, então, temos tanta dificuldade em organizar nossas vidas a partir destes princípios básicos que garantiriam a sobrevivência da espécie humana e de todas as outras formas de vida vegetal e animal?
A nosso modo de ver, por duas razões. A primeira, pela dificuldade em aceitarmos nossa fragilidade humana. Somos seres mortais, tão mortais quanto os outros animais e nossa vida neste mundo é fugaz e poucos ou ninguém lembrará de nós depois da nossa morte. A outra razão, conexa com a primeira, é a tentação de nos pensarmos como senhores da criação, com direito a tudo dominar e a tudo explorar. Tanto os seres humanos como as outras criaturas. Temos dificuldade em aceitar que não somos senhores, mas cuidadores da criação.
A atual pandemia provocada pelo coronavírus é ocasião para lembrarmos e pensarmos nisso. Com todo o avanço científico e tecnológico, estamos ameaçados por um simples vírus. Ou não seria exatamente por causa de uma ciência incapazes de perceber o ser humano em sua relação com a criação as causas desta pandemia que tanto assusta?
Precisamos rever a forma como os humanos nos situamos no mundo. E o tempo quaresmal é adequado para isso. Iniciamos este tempo litúrgico lembrando que somos pó e que ao pó voltaremos. É um chamado à humildade, à simplicidade, à humanidade nas suas formas básicas e fundamentais.
A Palavra de Deus lembra que, num mundo tomado pela doença e agressão, deste mesmo pó da terra, quando conformado pelo sopro e pela saliva divina, pode nascer a esperança da cura e da vida nova. Do pó da terra fomos criados pelo sopro divino. E Jesus, diante do cego que tem sua vida ameaçada pela insensibilidade e prepotência dos fariseus, junta sua saliva ao pós da terra e devolve a luz e a capacidade de sobreviver.
Deixar que a fragilidade humana seja conformada pelo sopro divino que compartilhamos com todas as outras criaturas é um caminho para construir um mundo mais convivial onde todos, humanos e não humanos, podemos conviver em harmonia.
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A verdade no fundo do poço

Não vou falar aqui das fake news que invadem as redes sociais e da infodemiaque se gerou em torno ao coronavírus. Simplesmente lamento que, em pleno século XXI, quando os cientistas conseguem desvendar, em 24 horas, o genoma de um vírus e, outros cientistas, em longos anos de pesquisa, ajudam-nos a compreender os mistérios do universo, ainda somos obrigados a ouvir pessoas afirmando que uma doença é castigo de Deus ou que a Terra é plana e que os astronautas nunca pisaram na Lua. Não é fácil… Mas, no fundo, este é um problema derivado.
De fato e o que realmente deve nos preocupar, é a raiz desta insanidade que hoje parece tomar conta de nossa sociedade e leva a atitudes de intolerância, violência e desejo de extermínio do outro. A raiz de tudo isso, é a dificuldade de encarar a verdade sobre nós mesmos.
A aceleração do tempo gerada pelas condições extremas de trabalho – penso num motorista de aplicativo que tem que trabalhar 12 ou 16 horas por dia – e o impacto alucinante das mídias sociais sobre o nosso cérebro, faz com que estejamos sempre voltados para fora e incapazes de olhar para o interior de nós mesmos e fazermos aquelas perguntas básicas que estão na origem de toda filosofia e de toda religião: quem sou, de onde vim e para onde vou? Em outras palavras: qual o sentido da minha vida? Como estou vivendo o tempo que me cabe habitar neste mundo?
Quando não paramos para pensar no fundamental, é fácil ser tentado a colocar nos outros a culpa por tudo aquilo que de mal acontece. Se não sei porque estou a viver, a solução fácil que desobriga a pensar, é culpar o irmão, o pai, a mãe, o filho, o vizinho, o colega de trabalho ou de faculdade, o professor, o patrão, a empregada, o estrangeiro, os chineses, o prefeito, o presidente, a oposição. E, da culpabilização à agressão e extermínio, é só um passo, fácil de ser franqueado, quando se tem as armas do poder.
O diálogo de Jesus com a samaritana junto ao Poço de Jacó é uma amostra de como é difícil, mas necessário, olhar para dentro de nós mesmos, para o fundo do poço da nossa existência, para reconhecermos quem somos, quem são os outros e quem é Deus.
No diálogo, Jesus não ensina nenhuma novidade à mulher. Apenas a ajuda a perceber quem ela é em seu presente e em seu passado. E não só a história pessoal, mas a história de seu povo – os samaritanos – e do povo de Israel a quem havia sido ensinada a odiar.
A verdade estava ali, na sua frente, no fundo do poço cavado pelo patriarca Jacó. Estava dentro dela mesma e na sua vida sofrida que a obrigara a ter cinco maridos. Estava na cidade que a segregava e não lhe permitia ir junto com as outras mulheres buscar água no poço. Estava em Jesus que com ela dialogava, despido de todo e qualquer preconceito.
No momento em que pôde olhar para a verdade e compreendê-la, a mulher deixou de odiar-se a si mesma, deixou de odiar a cidade que a discriminava e violentava, deixou de odiar a Jesus, o judeu que estava à sua frente. E passou a anunciar a verdade que encontrara no fundo do poço de si mesma e de seu povo.
Que o caminho da Quaresma, com seu jejum e sua penitência, nos impeça de jogar a verdade no fundo do poço do ensimesmamento e nos dê forças para descobri-la e proclamá-la a todos e todas.
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O 8 de março ou a transfiguração das relações

Dois lados nada brilhantes da sociedade brasileira a serem considerados neste Dia Internacional da Mulher. De um lado, a realidade laboral. Em todas as empresas, em todas as funções, desde as básicas até as gerenciais, as mulheres, exercendo as mesmas funções que os homens, ganham, em média, 30% a menos que os homens.

Nas profissões que exigem menos qualificação, a diferença é menor. Nas profissões ditas “de ponta”, a diferença pode ultrapassar os 100%. Ou seja, os homens ganham o dobro das mulheres, pelo simples fato de serem homens… Segundo dados do IBGE, em 2019, a renda média dos homens brasileiros foi de R$2.043,00. A renda média das mulheres, por sua vez, foi de R$ 1.762,00. Uma diferença de R$ 489,00.

O que explica isso? Apenas uma razão: o machismo que impregna a sociedade brasileira como um todo e se expressa no mundo do trabalho onde uma mulher, mesmo tendo a mesma formação e desempenhando a mesma função, recebe uma remuneração inferior à de um homem nas mesmas condições.

O outro dado, ainda mais estarrecedor do que o primeiro, é o da violência contra a mulher. No Brasil, a cada quatro minutos, uma mulher é vítima de violência física, sexual ou psicológica. Número que inclui apenas os casos notificados em que as vítimas sobreviveram. E todos sabemos que os casos não notificados são muito mais numerosos que os que chegam aos registros policiais ou médicos. A cada duas horas, uma mulher é estuprada.  No ano de 2017, no Brasil, 4.396 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres, ou seja, casos tipificados como feminicídios.

As maiores vítimas de violência sexual são mulheres com até 19 anos, ou seja, crianças e adolescentes. A violência física é cometida principalmente contra mulheres entre 20 e 39 anos.
O mais aterrador destes dados – já de por si assustadores – é que 70% dos atos violentos contra as mulheres acontecem dentro do próprio ambiente familiar. Os principais abusadores de crianças e adolescentes são os pais, avôs, tios, irmãos, primos… 36% das agressões físicas contra as mulheres adultas são cometidos pelo cônjuge e 14% por ex-maridos ou ex-companheiros. Apenas 9% das agressões contra as mulheres são cometidas por desconhecidos.

Que dizer de tudo isso e de outros dados que poderiam ser acrescentados? Primeiro, que é necessário, assim como foi naquele março de 1911, quando 125 mulheres e 21 homensem greve foram queimados dentro de uma fábrica nos Estados Unidos, continuar lutando pela igualdade de gênero. Sonhamos com uma sociedade em que ninguém seja julgado melhor ou pior pelo fato de ser homem ou ser mulher.
É o primeiro passo que, para ser pleno, necessita de um segundo: o da transparência nas relações entre homens e mulheres. Na nossa sociedade, as mulheres sofrem, em todos os âmbitos das relações, a violência do machismo. Isso não pode ser negado, ocultado, disfarçado. Precisa ser dito e superado. Mas para isso é preciso superar as masculinidades tóxicas que fazem sofrer as mulheres e também fazem sofrer os homens. Como dizia Paulo Freire, o opressor, ao mesmo tempo em que desumaniza o oprimido, se desumaniza a si mesmo.

A igualdade de gênero buscada pelas mulheres não é um perigo para os homens. Pelo contrário… É a ocasião para os homens libertarmo-nos da condição de opressores que – consciente ou inconscientemente – carregamos dentro de nós e possamos realizar a transfiguração do nosso ser masculino para que, homens e mulheres, possamos conviver em harmoniosa diferença e pluralidade.
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