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Tomé, a fé e o fanatismo

A Páscoa é uma história com personagens fortes. O principal, como não poderia deixar de ser, é Jesus. Primeiro, crucificado. Depois, ressuscitado. A seu lado, os coadjuvantes: Judas, o traidor; Pilatos, o covarde; Herodes, o cínico; Caifás, o mau; Pedro, o medroso; Verônica, a consoladora; Maria Madalena, a corajosa. E há os figurantes: os discípulos fujões, os soldados sádicos, a multidão volúvel, os dois crucificados ao lado de Jesus, a mulher que dedura Pedro, as Marias que de longe assistem tudo…
Há um personagem que, de figurante na cena da Paixão, se torna o “coadjuvante principal” numa das cenas da Ressurreição. Tomé, o gêmeo. Aquele que só acreditou depois de ver as mãos e tocar o lado do Ressuscitado. Tal atitude lhe valeu a fama de alguém que não tem fé. Ou que só acredita depois de ter as prova. Aquele que só acredita depois de ver. Uma má fama. Fama que precisa ser reabilitada. Mais: precisa ser promovida. Ele, de certo modo, antecipou-se no tempo. Da fama daquele que não tem fé, Tomé merece ser promovido a patrono da fé moderna. Ele não se contenta em que lhe digam. Ele quer experimentar por si mesmo. Quer ver. Quer comprovar. Essa é a lógica do adulto no mundo moderno.
Ter fé – hoje e em todos os tempos – não significa acreditar naquilo que as leis da natureza não conseguem explicar. Fé, no verdadeiro sentido da palavra, é encontrar o sentido último de todas as coisas, inclusive daquilo que a razão explica. A fé não se opõe à razão. Pelo contrário. A fé exige a razão. Ela pressupõe a ciência e tira dela o proveito na medida em que lhe dá subsídios para melhor compreender o que está acontecendo e indagar-se sobre o que isso significa para o ser humano e o mundo.
O oposto da fé é a falta de sentido e não a falta de explicação. A razão explica. A fé compreende. Em outras palavras, a ciência procura explicar o “como” as coisas acontecem. A fé se interessa e tenta explicar o “porque” tais coisas acontecem.
A ciência sem a fé pode tornar-se perigosa. Arrisca enveredar-se por uma busca vaidosa do conhecimento pelo conhecimento e se esquece das consequências que isso tem para o ser humano e para o mundo. É o cientificismo desvairado que pode nos levar ao apocalipse ecológico.
A fé sem ciência transforma-se em curandeirismo necrófilo, em obscurantismo patógeno que descamba no fanatismo totalitário que constrói e alimenta mitos que falsificam a realidade e impedem o encontro com a verdade
Muitas vezes, tanto na pesquisa científica quanto no caminho da fé, o “porque” explicativo se transforma em “por quê” interrogativo. Ao lado da busca, muitas vezes inglória das ciências, há, não raras vezes, a “noite escura da fé”.
Nestes tempos difíceis que nos cabe viver, no trôpego caminho da incerteza que aguilhoa o espírito humano, fé e ciência, vividas na humildade da busca titubeante, precisam dar-se as mãos para alcançar a verdade. E assim, como Tomé, ao ver as mãos de Jesus e tocar seu lado, teve fé e acreditou, também possamos entender racionalmente o que está acontecendo e colocarmo-nos nas mãos de Deus.

  • Baixe aqui o AUDIO desta reflexão. Caso você o difunda em sua rádio, por favor, comunique-nos pelo email zugno1965@hotmail.com 

Bento XVI: Deus não é 'absurdo', mas uma realidade misteriosa

Bento XVI abordou os mistérios da fé durante audiência no grande salão Paulo VI do Vaticano. Foto: AP

Bento XVI abordou os mistérios da fé durante audiência no grande salão Paulo VI do Vaticano
Foto: AP

Deus “não é absurdo”, mas uma realidade misteriosa, às vezes, obscura por ser justamente deslumbrante, declarou nesta quarta-feira o papa Bento XVI durante uma audiência geral semanal no Vaticano, em um novo debate sobre a aliança entre a fé e a razão.

“Misterioso, Deus não é absurdo. Se diante do mistério a razão vê apenas escuridão, não é devido à ausência de luz, mas a seu excesso”, disse o Papa teólogo para sete mil fiéis reunidos no grande salão Paulo VI.

Bento XVI fez uma comparação com a luz do sol: “ela cega quando fixamos o olhar no sol, mas ninguém dirá que não é luminosa. A fé permite olhar o sol de Deus que se aproximou do homem para ser conhecida”, considerou.

“Ao mesmo tempo, por sua graça, Deus clareia a razão, ao abrir novos horizontes infinitos e incomensuráveis”, ressaltando que “a fé católica não se opõe a uma razão honesta” dos homens à procura da verdade, nem da busca científica.

Joseph Ratzinger se opõe regularmente a um positivismo científico que explica tudo pela ciência, recusando qualquer transcendência. Ele vê nisso um perigo à liberdade do homem. Na ciência, “devemos encorajar tudo o que é favorável à vida, como a luta contra a doença, ou a busca para revelar os segredos da Terra e do universo”, analisou.

Ao reiterar seus argumentos constantes contra uma fé mágica ou supersticiosa, Joseph Ratzinger, que concentrou sua obra de teólogo sobre a questão da razão e da fé, considerou que “a tradição católica sempre rejeitou o fideísmo, que é a vontade de acreditar contra a razão”.

Até que ponto a religião influencia o voto do brasileiro?

Jefferson Puff da BBC Brasil, em São Paulo

Fiéis rezam em igreja evengélica (foto: Reuters)

Às vésperas do primeiro turno das eleições em 5.561 municípios de todo o país, a BBC Brasil ouviu especialistas para tentar dimensionar as relações entre a religião e o voto do brasileiro.

Embora a opção religiosa e os valores morais atrelados a diferentes grupos tenham sido temas recorrentes nas últimas campanhas eleitorais, ainda há divergências entre cientistas políticos sobre o peso da religião nas escolhas do eleitor.

Uma parte vê o cenário atual como indicador de padrões que devem se fortalecer cada vez mais, tanto do “voto do fiel” como da ascensão política dos evangélicos. Eles se baseiam em dados como os do último censo do IBGE, que apontou um crescimento de 15,4% para 22,2% da população evangélica no Brasil entre 2000 e 2010.

Trinta anos atrás, eles não eram mais do que 6,6% da população. E entre as diversas vertentes evangélicas, os pentecostais são de longe a maioria, com 60% dos fiéis.

“É uma tendência, é um crescimento exponencial. Veja a Marcha para Jesus [que reuniu mais de 300 mil fiéis em São Paulo neste ano]. Os evangélicos acumularam um capital político que não pode mais ser ignorado. É uma presença consolidada e irreversível”, analisa Eduardo Oyakawa, professor de sociologia da religião da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Moral e consumo

O analista diz que os valores morais e a exclusão da sociedade de consumo estão no cerne do “voto evangélico”.

“O voto em candidatos conservadores atrelados à religião se dá muito mais por conta da identificação com um sistema de valores morais do que a opção religiosa em si. Estamos falando de pessoas invisíveis no dia a dia. Elas moram nas periferias das grandes metrópoles e não se sentem protegidas pelo Estado. A dificuldade para ter acesso a bens de consumo também colabora para que encontrem refúgio na religião”.

Já Alberto Carlos Almeida, autor do livro A Cabeça do Eleitor, diz que o principal fator na decisão dos eleitores é a avaliação dos candidatos incumbentes, que estão deixando o cargo ou buscam reeleição. “Sem dúvida, o desempenho do governo atual é o que decide uma eleição”, diz.

Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, usa o caso da eleição para prefeito de São Paulo para relativizar a relação entre religião e opção de voto.

Ela pondera o favoritismo do candidato Celso Russomano (PRB) entre os evangélicos, e diz que embora o percentual seja maior, os fiéis também apoiam os outros candidatos.

Uma pesquisa do Datafolha do início de setembro mostrou que o apoio dos pentecostais aos principais candidatos estava distribuído da seguinte forma: Russomano (PRB) tinha 45%, José Serra (PSDB) 17%, Fernando Haddad (PT) 16% e Gabriel Chalita (PMDB) 6%.

“Se a religião fosse um fator tão crucial, ele teria 70%, 80% dos votos entre os evangélicos”, afirma, avaliando que as cifras não permitem concluir que a religião foi determinante.

“Há muitas variáveis para você isolar somente a religião. É mais uma, sem dúvida, mas é difícil dizer que foi algo decisivo.”

Diversidade

Alberto Carlos Almeida diz ver a presença maior da agenda pentecostal no debate eleitoral como algo natural.

“Trata-se de um cenário normal de maior pluralismo e diversidade de forças políticas. É apenas mais um grupo, com sua bancada, seus representantes e interesses”, diz o pesquisador.

Ele diz que o panorama atual é esperado de uma sociedade em evolução. “Há mais forças entrando em jogo, é natural. Agora, precisamos diferenciar: uma coisa é o cenário político duradouro, outra coisa é o processo de eleição”.

“Ninguém provou até hoje, com dados concretos, que o eleitor está decidindo seus candidatos porque eles se associam a determinadas religiões.”

Mas ainda que pesquisas não tenham conseguido determinar uma relação clara entre religião e sucesso nas urnas, é cada mais vez recorrente a associação de candidatos a forças religiosas.

A distribuição de apoio aos candidatos em São Paulo aponta ainda discrepâncias entre os evangélicos pentecostais, que, em muitas situações, mostram posições divergentes e rivalizam por fiéis.

Apesar da busca por apoio em diferentes grupos religiosos, é justamente entre os pentecostais que a disputa política de maior destaque se concentra, já que eles formam o grupo mais numeroso e poderoso dentro do universo evangélico, com cinco igrejas dominando o cenário: Universal, Assembleia de Deus, Renascer e Mundial do Poder de Deus.

Não por acaso a grande maioria dos 70 deputados federais e três senadores que integram a bancada evangélica no Congresso pertencem a esses cinco grupos.

Neste panorama, Russomano (PRB) conta com apoio da Igreja Universal do Reino de Deus, Haddad (PT) tem a seu favor a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, Serra (PSDB) conquistou a chancela dos evangélicos pentecostais da Assembleia de Deus e da Igreja Mundial do Poder de Deus (dissidente da Universal) e Chalita (PMDB) tem simpatizantes entre os pentecostais da Sara Nossa Terra e da Renovação Carismática Católica.

Projeto de poder?

Apesar das diferenças sobre o impacto religioso de forma geral, analistas concordam que as igrejas evangélicas estão consolidadas como uma força política com a qual todos os partidos precisam negociar.

Além disso, a penetração de grupos religiosos na esfera pública nacional, por meio de canais de televisão, tem aumentado gradativamente.

“As igrejas evangélicas, além de grupo religioso, constituíram uma força política, vide a bancada no Congresso”, diz Maria Teresa Micelli Kerbauy, cientista política da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo). “Elas querem uma inserção política.”

“Só o discurso religioso não é suficiente para ganhar novos adeptos, e se essa tendência já vinha se manifestando desde a década de 1990, ela atinge seu boom agora com a eleição de São Paulo”, diz a pesquisadora.

Para a estudiosa, a tendência identificada é de uma expansão da base de fiéis evangélicos e maior penetração dessas igrejas e seus representantes na política brasileira.

Maria Teresa acrescenta que pode ser um exagero falar em um “projeto de poder”, mas identifica um claro “projeto de participação mais intensa no sistema político brasileiro, colocando suas demandas”.

Entre elas estão a agenda moral conservadora da bancada em Brasília, contrária ao aborto e à união civil entre homossexuais e a luta por facilidades na obtenção de licenças de funcionamento para igrejas.

“É cedo para medir a força da religião no processo eleitoral, mas que ela está mais presente do que no passado, é um fato inquestionável”, diz Marcia Cavallari, do Ibope Inteligência. “Como isso vai se dar, se vai ser um fator de influência decisivo, só poderemos observar com o tempo.”

Pesquisa feita no RS mostra relação entre medicina e espiritualidade

Roberta Salinet Da RBS TV

 

 

 

Uma pesquisa desenvolvida por dois médicos no Hospital São Francisco, do Complexo da Santa Casa de Porto Alegre, mostra a relação entre a medicina e a espiritualidade. No levantamento feito com 260 pacientes desde maio deste ano, a conclusão foi que a fé tem influência no tratamento de doenças. Os números da primeira fase do estudo serão apresentados no 67º Congresso Brasileiro de Cardiologia, que será realizado de 14 a 17 de setembro em Recife (PE).

 

“Nós temos a presença de Deus no nosso dia a dia. Eu tenho inúmeras histórias na minha vida de cirurgião cardíaco em que a gente sente a presença de Deus”, diz o cirurgião cardiovascular Fernando Lucchese, que é católico. Ele e o cardiologista Mauro Pontes, seu parceiro na pesquisa e espírita, fazem parte de uma parcela de pesquisadores que crê em Deus. “Milagre para nós é quase que um fato diário”, diz Pontes.

 

Na primeira etapa, o estudo conduzido pelos dois médicos procurou saber o que os doentes e médicos pensam sobre a espiritualidade e perceber como a religião ajuda a superar as doenças. Entre os 260 pacientes ouvidos, todos disseram que acreditam em Deus. Quando questionados sobre a crença na vida depois da morte, 71,1% dos participantes da pesquisa disseram acreditar. Quando se cruzam as perguntas sobre religião e saúde, fica evidente a importância da espiritualidade: mais de 84% acredita que ter fé faz bem à saúde e 88,2% usa a fé como conforto na doença.

 

“Eu sempre tive fé, desde o ambiente familiar me criei com fé. Respeito Deus, gosto de Deus, acredito em Deus, tenho fé em Deus”, diz Antônio Gilberto Lehnen, que passou por um transplante de coração há 10 anos. “Eu devo a minha saúde a duas situações. Uma é a competência médica, a ciência. De outro lado está a oração, muita oração”, conta ele, que é um dos pacientes de Lucchese.

 

 

Para surpresa dos pesquisadores, mais da metade dos pacientes gostaria que o médico falasse sobre espiritualidade. Mais de 70%, no entanto, diz que o médico nunca falou sobre o assunto. Outro dado chamou a atenção dos médicos: 16% dos pacientes acham que a doença é um castigo de Deus.

 

“Eles têm a crença de que o comportamento deles foi inadequado. Acham que tiveram culpa pelo desenvolvimento da doença e acham que Deus está punindo eles por causa desse comportamento”, explica Pontes. Esses pacientes, diz o cardiologista, têm um índice de mortalidade 50% maior, mas o motivo ainda não foi descoberto. “O mecanismo que associa essa crença com o aumento da mortalidade ainda está sendo esclarecido”, conclui.

 

Outro aspecto que está sendo estudado é a influência do comportamento e do estado de espírito dos pacientes na cura. “Estamos chegando progressivamente à bioquímica das doenças da alma. Por exemplo, um sujeito que é raivoso, explosivo, a gente não pode dizer que seja doente mental, ele tem uma doença da alma, a raiva”, diz Lucchese.

 

Por meio de exames de sangue, foi verificado que as pessoas raivosas têm maior nível de interleucina 6 no sangue. “Nós somos corpo, mente e espírito. Nestes indivíduos se detectou que no sangue eles há um produto em nível mais alto, que é chamado marcador de inflamação. É a interleucina 6, proteína C reativa ultrassensível, são marcadores que indicam no organismo alguma coisa que vá nos levar à doença”, explica o médico.

 

Por outro lado, há estudos demonstrando que em comunidades religiosas os integrantes têm índices mais baixos de interleucina 6 no sangue. “Nossa próxima fase na pesquisa será exatamente isso. Estudar a bioquímica nos procedimentos cardiovasculares”, conclui.