Arquivo da tag: memória

Fratelli Tutti: a paz e a superação dos conflitos.

Escrevo este texto sobre o Capítulo VII da Fratelli Tutti no dia 20 de novembro. Uma data importante na história do Brasil. Talvez a data mais importante. Ela celebra o fato mais significativo da nação brasileira. Hoje é dia de Dandara e Zumbi de Palmares. Um homem e um mulher que, nas suas individualidades, representam os milhões de africanos – estima-se em cinco milhões – que foram arrancados de suas aldeias e cidades e trazidos à força para o trabalho escravo no Brasil. Deles e de seus descendentes que, durante três séculos, de geração em geração, foram submetidos à mais degradante condição humana que é a privação da liberdade e a serem considerados não como pessoas, mas como instrumentos de trabalho.

Os três séculos de escravidão marcaram de forma estrutural a sociedade brasileira. Somos uma sociedade racista. Racismo que se expressa na cultura, na economia, na política, na educação, na literatura, nos meios de comunicação, nas religiões, no esporte, na vida familiar… Não há um recôndito das relações sociais brasileiras, das mais íntimas às mais públicas, que não esteja marcada pela violência racial.

Este ano o dia 20 de novembro, para os que moramos em Porto Alegre, é ainda mais triste. Na noite de ontem, em um hipermercado da Zona Norte da cidade, um homem negro de 40 anos, foi espancado até a morte por um segurança e um policial militar. O assassinato foi filmado pelas câmeras do estabelecimento. As imagens circularam nas redes sociais causando indignação. E gerou uma pergunta: quantos homens e mulheres negras, a cada dia, a cada hora, em todo o Brasil, sofrem violência e são mortos, pelo simples fato de serem negros e negras?

Há dados disponíveis. Subestimados, é claro. Escondidos, disfarçados, negados. A polícia, a justiça e a estatística também são racistas.

O que fazer diante destes fatos e outros semelhantes que se repetem a cada dia? A Fratelli Tutti nos dá algumas dicas. Primeiro, é preciso fazer memória das violências e injustiças cometidas. Elas não podem ser esquecidas. Precisam ser lembradas e celebradas. O esquecimento só perpetua a injustiça. E com isso está indicado o segundo passo: é preciso fazer justiça para com as vítimas. Um passo adiante para novas relações sociais só será possível quando o sofrimento das vítimas for reparado. A sociedade como um todo deve assumir o compromisso de sanar as feridas do passado criando as condições para que suas consequências não afetem o presente e nem comprometam o futuro.

Para isso, segundo o Papa Francisco, é necessário uma arquitetura da paz que consiste em criar mecanismos econômicos, políticos, educacionais e culturais que compensem aqueles e aquelas que, hoje, sofrem a violência herdada do passado. Projetos estruturais que encontram seu complemento no artesanato da paz que consiste em que cada pessoa, nas suas relações cotidianas, se comprometa a evitar e impedir a reprodução dos mecanismos discriminatórios que sutilmente se mantém no consciente ou no inconsciente das pessoas.

Depois destes passos, será possível a reconciliação, que não consiste num retorno à situação anterior à violência, mas em uma nova convivência capaz de reconhecer, integrar e superar os conflitos de modo a não repetir os erros do passado. Teremos então, a possibilidade de uma fraternidade universal e da amizade social com que tanto sonhamos.

_________________________________________________________________________________

Assista o vídeo e inscreva-se em nosso canal no YouTube:

Viver para contá-la.

O escritor colombiano, Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Márquez, abre o primeiro capítulo do primeiro volume – são três – de seu livro de memórias com uma frase que, por si só, já vale toda a leitura: “a vida não é o que se viveu, mas o que se recorda e como se recorda para contá-la”.

De fato, muitas coisas acontecem em nossas vidas. Algumas, logo as esquecemos. Outras, ficam gravadas em nossas memórias. Umas poucas, estamos sempre a contá-las e recontá-las para nós mesmos e para os outros. E, cada vez que as contamos as vamos contando de um modo diferente. Não porque o passado tenha mudado. Mas porqueo contar e o recontar estas histórias mudaas nossas vidas na medida em que as contamos de um jeito diferente de acordo à necessidade do presente.
Com efeito, o sentido de recordar e contar o que se viveu, não é apenas o de lembrar os tempos pretéritos. O principal efeito de contar a própria história, é dar sentido ao momento presente e assim abrir o caminho para o futuro que sonhamos. Contar o passado é dar sentido ao passado. É o primeiro passo. Mas é, ao mesmo tempo, compreender o presente e assegurar o futuro.
A passagem do Evangelho em que Jesus se encontra com os dois discípulos de Emaús mostra o quanto a intuição literariamente expressa de Gabriel Garcia Márquez dialoga com a experiência cristã. Estavam os dois discípulos fugindo de Jerusalém diante do horroroso espetáculo aí acontecido na Festa da Páscoa. Os romanos, a pedido dos chefes de Israel, haviam crucificado a várias pessoas. Entre elas, o mestre deles, Jesus. Eles estavam perdidos. Apesar de terem assistido a tudo, estavam sem nada compreender. Jesus se aproxima e convida-os a lembrar e contar o que havia acontecido. E, a partir dos eventos recentes, faz com eles uma longa viagem pela história do Povo de Israel, desde os mais longínquos até o presente. E, ao chegar em casa, depois de haver partido o pão como o povo o fizera ao sair do Egito, no deserto, ao chegar na Terra Prometida, no exílio na Babilônia, e como Jesus o partilharatantas vezes com eles, encontraram o sentido de tudo o que acontecera e estava acontecendo: Deus não havia abandonado o seu povo. Pelo contrário. Aquilo que parecia uma desgraça, havia sido, na verdade, a graça de Deus.
Penso nisso ao imaginar como, daqui a dez, vinte, trinta, cinquenta anos, contaremos aos nossos filhos, netos e bisnetos, aquilo que estamos vivendo hoje. E, mais de o quecontaremos, comoo contaremos. Afinal, como bem remarca o escritor colombiano, o mais importante não é o que a gente vive. O que importa, de fato, é o que lembraremos e como o lembraremos para contá-lo aos que vierem depois de nós. E nisso, a intuição de Gabriel Garcia Márquez pode ser pensada também de um outro ângulo, ainda mais instigador. O do futuro que interroga o presente: teremos orgulho do que fazemos hoje ou vamos fazer tudo o que for possível para ocultá-lo a nossos filhos e netos?
__________________

Se você quiser divulgar em sua rádio o áudio desta reflexão, CLIQUE AQUI!

Inscreva-se em nosso canal no YouTube

Projeto de brasileira lança novo olhar sobre origem e destino de escravos

Ana Alakija | Crédito da foto: Live Smart Videos

Descendende de escravos, Ana Alakija quer ampliar conhecimento sobre a escravatura

Uma jornalista radicada nos Estados Unidos se dedica, há mais de uma década, à missão de registrar e divulgar a história de vítimas da escravidão e o destino de seus descentes.

O objetivo de Ana Alakija, que é descendente de um clã de um antigo reino iorubá, o segundo maior grupo étnico nigeriano, é destacar aspectos pouco explorados pela ensino oficial de história.

“Peço licença aos meus antepassados africanos para quebrar a tradição de passar nossa história oralmente e apresentar suas memórias de forma mais concreta”, disse à BBC Brasil.

Desde 1997, a jornalista vem reunindo informações e documentos coletados no Brasil e também na África – especificamente em Lagos, na Nigéria – para onde um grupo de africanos e descendentes voltou após a abolição da escravatura.

O esforço resultou na produção de um documentário, um livro e uma série de exposições com fotos, documentos e artesanatos que ilustram a trajetória do grupo interconectado pelo Atlântico.

Escravidão no Brasil

Estima-se que metade dos cerca de 13 milhões de africanos capturados para servirem de escravos nas Américas tenham sido enviados para o Brasil.

Ana se concentra na história que não é ensinada nas escolas, mostrando as conquistas e as contribuições intelectuais, comerciais e políticas dos africanos à sociedade, antes e depois da escravatura.

Um número expressivo de vítimas, por exemplo, fazia parte da elite política e religiosa iorubá, e esses indivíduos foram vendidos como escravos porque eram prisioneiros de guerra. Isso representa uma perspectiva histórica diferente da ideia de servidão passiva dos escravos que é geralmente contada nas salas de aula, segundo a pesquisadora.

Muitos dos escravos brasileiros alforriados reconquistaram o status social de seus antepassados, tornando-se médicos, advogados, comerciantes, políticos e donos de propriedades, tanto na África quanto no Brasil.

Estima-se que metade dos 13 milhões de africanos capturados na África vieram ao Brasil.

Um exemplo do fenômeno é o destino da própria família Alakija, que conectou os dois continentes mesmo após a abolição da escravatura, em 1888.

“Meus bisavós eram vizinhos na África, mas só se conheceram no Brasil. Meu bisavô reconquistou seu título de nobreza e dinheiro quando voltou à Nigéria, estabelecendo lá uma plantação de algodão com o que aprendeu no Brasil”, disse Ana.

O avô da jornalista, Maxwell Alakija, visitou o Brasil na infância e se apaixonou pelo país. No início do século 20, o filho do próspero fazendeiro decidiu estudar advocacia em Salvador, que já contava com uma renomada faculdade de direito. Na Bahia, ele fez carreira como advogado e teve três filhos. O pai de Ana e seu irmão se dedicaram à medicina, e o irmão deles optou pela engenharia civil.

O objetivo da historiadora é que a preservação e divulgação do papel dos negros na África e nas Américas contribuam com a continuidade dos vínculos originalmente estabelecidos entre esses continentes. “Esse diálogo pode ajudar a criar um entendimento mútuo para os relacionamentos entre brancos e negros nas sociedades modernas e multiculturais”, disse Ana.

O projeto da jornalista é intitulado Memorial Alakija e já está programado para ser promovido nos próximos meses em eventos no Brasil, Nigéria, Estados Unidos e alguns países europeus. “Quero ter um sentimento de missão cumprida”, afirma Ana.