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Há esperança

Primeiro sábado de outono. Porto Alegre ensolarada. Mas já não tão quente.  Trânsito tranquilo a caminho da Estação Rodoviária. Chego antes do tempo. Aproveito os 45 minutos que ainda me separam da partida do ônibus para ler. Me sinto um extraterrestre em meio aos não muitos outros passageiros que também aguardam as respectivas partidas. Sou o único – confiro para não estar equivocado – a ter um livro mãos. Quase todos ocupam o tempo em teclar nas redes sociais ou ouvir música. Alguns fones de ouvido se escondem no interior do pavilhão auricular. Outros, escondem a cabeça de seus ouvintes.
Na hora marcada o ônibus parte. Pontualidade brasileira com preços britânicos. Com duas passagens pagar-se-ia uma viagem em carro para o mesmo destino. É o preço do monopólio construído em tempos de governos liberais. Como de costume, durmo na primeira hora de viagem. Acordo já para lá da Estrada do Conde que leva a Guaíba. Retomo minha leitura de “Sodoma” e observo as ondas multicoloridas dos arrozais em ponto de colheita. O tema da leitura e a paisagem se complementam. O tempo passa rápido apesar da pista que teima em não ser duplicada desde o ano de 2014. Aqui e ali um pequeno sinal de obras em andamento. Aparências para enganar eleitores incautos e cultivar futuras expectativas que alimentarão novas eleições.
A platitude do terreno me remete ao ano de 1983 quando, pela primeira vez, fiz este percurso. Em meus então 17 anos, saia da terra natal e me aventurava na distante Pelotas. Tempos de abertura e de descortinamento de um novo mundo. A democracia ainda tardaria mas já vivíamos os albores das Diretas Já, da Constituinte e do fim da ditadura militar. Tantas lembranças destes tempos
Depois de duas horas e um pouco mais de viagem, o tradicional paradouro: 20 minutos! Para minha surpresa, para usar o banheiro, não há necessidade de passar pela loja e restaurante. E, surpresa maior, o banheiro masculino está surpreendentemente limpo. Algo a louvar. Passo na lojinha, compro uma água mineral e um pacotinho de torrões de arroz. Preço dobrado em relação aos mercados urbanos. Não há opção. O preço do banheiro limpo está embutido. Faz parte do jogo.
Como meus torrões e tomo a água sentado em frente ao ônibus. Ninguém conversa com ninguém. Apenas os smartphones falam. Deixo o tempo passar. Faltam poucos minutos e não vale a pena buscar meu livro. Do restaurante sai calmamente um casal de idosos. Por volta dos 70 ou um pouco mais. Não são passageiros do ônibus. Estão viajando de carro. Ao passar, o senhor – mais velho que a senhora – olha a origem e o destino do ônibus. Volta-se para mim e me diz: — Vamos ver quem chega antes! Eu sorria e desejo boa viagem. Os dois se encaminham em direção ao carro estacionado sob uma sombra. Levam nas mãos plásticos e papeis para descartar na lixeira. Mas a lixeira está virada e há papeis e plásticos espalhados pelo chão. Um olha para o outro e, com a calma de quem não tem pressa para chegar ao destino, os dois começam a recolher o lixo jogado pelo chão e acomodá-lo nas sacolas plásticas que carregavam. O senhor vai até o carro, busca mais uma sacola plástica e continua a coleta no gramado que se estende à beira da estrada.
Ao terminar o trabalho, recolocam a lixeira na vertical, depositam nela as sacolas recheadas de dejetos por outros produzidos e, sem pressa, dirigem-se ao pé da árvore. Tomam seus celulares e fazem fotos. Ele dela e, ela, dele. Em seguida, um selfie os junta na mesma imagem. Tudo acompanhado por sorrisos e gestos de carinho.
O ônibus parte. O carro vermelho de modelo popular com o casal de idosos segue o ônibus com toda calma e tranquilidade. Quem chegará antes em Rio Grande?

Em meus pensamentos desejo outra vez uma boa viagem aos dois. E, mesmo que o ônibus corra mais e eles continuem andando na vagarosa tranquilidade do bem feito, certamente eles já chegaram ao seu destino.

Vamos celebrar o Golpe?

Diferente de meus amigos democratas que se escalofriaram com a proposta do Presidente de plantão em mandar os quartéis celebrarem o Golpe de 1964, eu, decididamente, oPTtei por seguir a ordem do dia e me agregar à nova velha política da morte da democracia. Vou celebrar, sim, o 31 de março. E o faço com o texto de um poeta que, se vivo, ontem, 27 de março, estaria comemorando 59 anos. Como todos os da minha geração já adivinharam, trata-se de Renato Russo. A poesia, musicada e lançada no álbum “O Descobrimento do Brasil” de 1993, chama-se “Perfeição”. E é tão perfeita a letra que não pode ser em nada emendada na medida em que desvela o caráter profundo deste Brasil tão esquizofrenicamente injusto que, por isso, nunca chega a construir-se como nação pois isso implicaria abolir o caráter escravista de nossa sociedade. Mas, como diz o poeta, mesmo se “a esperança está dispersa”, sabemos que “só a verdade nos liberta”, e, como temos a certeza de que “o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera, nosso futuro recomeça”.
Com a palavra, o poeta:
PERFEIÇÃO (Renato Russo, 1993)
Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações, o meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões.
Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão.
Vamos celebrar nosso governo e nosso Estado que não é nação.
Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas.
Celebrar nossa desunião.
Vamos celebrar Eros e Thanatos, Persephone e Hades.
Vamos celebrar nossa tristeza.
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado, todos os mortos nas estradas, os mortos por falta de hospitais.
Vamos celebrar nossa justiça, a ganância e a difamação.
Vamos celebrar os preconceitos por volta dos analfabetos.
Comemorar a água podre e todos os impostos, queimadas, mentiras e sequestros, nosso castelo de cartas marcadas, o trabalho escravo, nosso pequeno universo, toda hipocrisia e toda ostentação, todo roubo e toda a indiferença.
Vamos celebrar epidemias, e a festa da torcida campeã,
Vamos celebrar a fome, não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar.
Vamos alimentar o que é maldade, amos machucar um coração.
Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos, tudo o que é gratuito e feio, tudo que é normal.
Vamos cantar juntos o Hino Nacional (A lágrima é verdadeira).
Vamos celebrar nossa saudade e comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja, a intolerância e a incompreensão.
Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada.
Vamos celebrar a aberração ee toda a nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação.
Vamos celebrar o horror de tudo isso com festa, velório e caixão.
Está tudo morto e enterrado agora, já que também podemos celebrar a estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa, só a verdade me liberta.
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça.
Venha, que o que vem é perfeição!

São Patrício X Antônio Conselheiro?

A modernidade é a era da “colonialidade”. O neologismo difundido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano, quer expressar as relações políticas e suas consequências econômicas, culturais, pedagógicas, étnicas, de gênero… que foram construídas no Ocidente a partir do séc. XIV e resultaram no euro-centrismo típico da modernidade. Eurocentrismo que teria sua expressão maior no atual processo de globalização capitaneado pelo capital transnacional.

A colonialidade se expressou de forma brutal no modo como as potências europeias – Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália, Rússia – invadiram, cada uma a seu turno, territórios na América, África, Ásia e Oceania subjugaram militarmente os povos nativos destes continentes, provocaram genocídios, exploraram as riquezas naturais e impuseram sua cultura. É uma história que todos conhecemos e muitos sofremos as consequências ainda hoje. A colonialidade não é algo do passado. Ela se instalou de tal modo nas mentes e corações das pessoas – tanto dos colonizadores como dos colonizados – que, muita vezes, parece ser difícil superar suas expressões tanto no macro das relações internacionais como no micro das suas manifestações culturais.

Dentro do histórico da expansão colonial europeia há um fato muito particular que poucos conhecem. A Inglaterra foi a nação que conseguiu manter pelo tempo mais prolongado uma colônia dentro da própria Europa. Trata-se da Irlanda. A partir do séc. XX, a dominação inglesa sobre a Irlanda sendo imposta de forma cada vez mais rígida. A propriedade das terras passou a ser um direito exclusivo dos ingleses e só eles tinham representação política. A língua nativa – o gaeilge– foi substituído pelo inglês e as profissões liberais foram proibidas aos nativos.

Dominados por todos os lados, os irlandeses encontraram na religião o refúgio pra manter a identidade cultural. Por oposição aos ingleses anglicanos, ser irlandês tornou-se sinônimo de ser católico romano. E, dentro do catolicismo, a figura de São Patrício – o escravo do séc. V que evangelizou a ilha verde – a grande referência de vida para os que resistiam ao colonialismo.
A grande fome do séc. XIX – provocada pela exploração inglesa e por um fungo importado do México – provocou a morte de mais de um milhão de irlandeses e fez com que mais de outros dois milhões deixassem a ilha em busca da sobrevivência. A maioria cruzou o Atlântico e se instalou na então conflituosa e próspera nação dos Estados Unidos da América. Antes do afluxo de latinos aos Estados Unidos, ser católico nos Estados Unidos equivalia quase que normalmente a ser descendente de irlandeses.

Junto com a fome e os poucos pertences, levaram para lá a tradição católica e a devoção a São Patrício expressa no nome de incontáveis paróquias, instituições religiosas e sociais. Para um descendente irlandês nos Estados Unidos, festejar São Patrícia é fazer memória do passado de dominação colonial da Inglaterra sobre a Irlanda e, ao mesmo tempo, afirmar a identidade cultural e a resistência de tantos homens e mulheres que deram a vida para que, no início do séc. XX, a pequena ilha pudesse proclamar sua independência e afastar definitivamente o sombrio passado colonialista inglês.

Há alguns anos, em Porto Alegre, assim como em outras cidades brasileiras, começaram a pipocar, especialmente nos bairros nobres, as “Saint Patrick’s Day”. Neste ano, em Porto Alegre, a Prefeitura autorizou a realização de onze eventos ao ar livre com ocupação de praças e interrupção de ruas. Todos eles acontecem nos bairros nobres de Porto Alegre. Decoração verde, trevos, cerveja verde, música típica… fazem parte do menu disponibilizado.

Enquanto dirijo lentamente ao som de uma música tradicional irlandesa à base de foles e violinos, pergunto às palhetas de meu Peugeot 208 que bailam de um lado para outro em um ritmo que não combina com a música se os organizadores da festa sabem quem foi São Patrício e a história colonial da Irlanda e sua luta pela afirmação da independência econômica, política e cultura. Como bom francês, meu Peugeot 208 responde um suave “penso que não”. Concordo com ele. Lembro do Halloween, do Black Friday e da gravata do Pelé na final do Copa de 1994. “Yes, nós temos banana, banana prá dar e vender”, como dizia o samba de antigamente. E junto vai a Petrobrás, a Embraer e a Base de Alcântara.

Enquanto deixo a Avenida Goethe e começo a descer a Doutor Timóteo, a sanfona, acompanhada da zabumba, do triângulo e da inigualável voz de Luiz Gonzaga me lembra que “Minha vida é andar por este país, pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações, das terras onde passei, andando pelos sertões, e dos amigos que lá deixei…” Sigo meu caminhando esperando encontrar, na esquina com a Cristóvão Colombo, uma festa em homenagem a Antônio Conselheiro. Não custa sonhar!

NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, O CARNAVAL ACABAVA…

“Cadê as marchas bonitas dos tempos de antigamente? Dos carnavais que passaram, que pena, hoje é tão diferente.” Com um início assim de saudosista, iniciava o agauchado e melancólico samba cantado por Teixeirinha sob o título de “A saudade que ficou”.

Segundo o autor do samba – não consegui informações exatas se era do próprio Teixeirinha ou de outra pessoa – duas razões há para que os carnavais de hoje não sejam mais como os de antigamente. A primeira é a da relação entre o fim do carnaval e a permanência, na memória das pessoas, das marchinhas nele cantadas. Segundo o autor, antigamente, o carnaval terminava na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas seguiam sendo cantadas o ano inteiro. Hoje, o carnaval continua terminando na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas “morrem ao baixar a poeira”. Isso se deve, sempre segundo o autor do samba, a que os compositores de hoje não são mais como os de antigamente: “O Noel Rosa morreu, Francisco Alves também. A velha guarda inteirinha partiu, subiu o céu e não vem. Oh! Velha guarda querida dos carnavais que passou, pra cantar e compor como eles, meu bem, nenhum herdeiro ficou.”

Não sei em que ano este samba foi composto. Na minha memória musical ele está presente deste a minha longínqua infância quando lá, no interior de Vila Flores, sintonizávamos, num rádio de pilha, as emissoras de Porto Alegre, e a Rádio Tupi de São Paulo e a Rádio Globo do Rio de Janeiro. É um samba antigo e que grudou no meu ouvido. Lembrando dele, perguntei-me: será que ele continua atual? Não! Definitivamente, não. Se a letra do samba fosse recomposta, hoje, ela teria que ser mudada. Em primeiro lugar, porque, hoje, o carnaval não termina na Quarta-feira de Cinzas. Movido pela lei do mercado que explora ao máximo um produto, até o limite da possibilidade de produzir lucro, o “produto carnaval” não respeita mais os princípios cristãos da Quaresma e, cruzando a Quarta-feira de Cinzas, se estende, no mínimo, até o fim de semana seguinte. E isso não só apenas um Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo em Porto Alegre e cidades do interior gaúcho, o carnaval vai se aproximando cada vez mais da Semana Santa. Não me admira se, daqui a alguns anos, não acabaremos tendo um Carnaval de Semana Santa. Se der lucro, o deus-mercado vai justificar…

Uma outra razão pela qual podemos discordar da letra do samba cantado por Teixeirinha, é de que as letras das marchinhas sejam esquecidas imediatamente após a Quarta-feira de Cinzas. Isso aconteceu até recentemente. Mas, nos últimos anos, há letras de sambas que vão ficar para sempre na memória das pessoas. Como esquecer, por exemplo, do Samba Enredo da Mangueira, campeã do Carnaval carioca de 2019 que teve a coragem de “contar histórias que a história não conta” e concluir com a desafiadora memória de tantos heróis do povo que não cabem nas molduras oficiais?

É uma “história para ninar gente grande” e que permanecerá, muito depois da Quarta-feira de Cinzas, lembrando ao Brasil que “teu nome é Dandara e a tua cara é de cariri. Não veio do céu, nem das mãos de Isabel, a liberdade é um dragão no mar de Aracati. Salve os caboclos de julho, quem foi de aço nos anos de chumbo. Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Sambas como este, ultrapassam não apenas a Quarta-feira de Cinzas, mas cruzam o ano todo e certamente continuarão na memória do povo brasileiro por muito tempo, passando pela cruz da Sexta-feira Santa até chegar no Domingo da Eterna Ressurreição.

DA “TORMENTA NO DESERTO” À “TORMENTA NO CARIBE”

Os fatos que lembramos e aos quais fazemos referência em nossos discursos revelam a idade que temos. Saber o que foi a “Tormenta no Deserto” revela que a pessoa – fora os apaixonados por história – tem mais de cinquenta anos… É o meu caso. Estou iniciando a segunda parte daquilo que espera seja o século que me cabe viver e por isso lembro o que foi a “Tormenta no Deserto”.

A “Tormenta no Deserto” também marca um tempo na minha vida e ganha com isso um significado especial. No dia 24 de fevereiro de 1991 eu deixava o Brasil para iniciar um período de trabalho na Nicarágua pós-sandinista. Naquele exato dia, enquanto juntamente com o agora falecido Vitor Poloni, deixava Porto Alegre nas asas da Varig e, depois de uma escala no Equador e outra na Costa Rica, chegávamos em Manágua, as areias do deserto do Golfo Pérsico e os céus do Oriente Médio sacudiam sob o peso da maior operação militar desencadeada depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Em uma única noite, as forças de uma coalização internacional liderada pelos Estados Unidos despejaram sobre o Kuwait e o Iraque, apenas através de bombardeios aéreos, nada mais nada menos que oitenta e oito mil e quinhentas toneladas de explosivos.

Foi a primeira guerra televisionada ao vivo. A CNN, então uma emergente cadeia de televisão, foi encarregada de divulgar ao mundo o espetáculo do bombardeio. A Tormenta no Deserto foi transformada em espetáculo e videogame. Os soldados, nos aviões ou nos bunkers de comando, apertavam botões e os céus e cidades do Iraque explodiam num espetáculo de cores que ocultava a morte de em torno de um milhão de pessoas.

No dia seguinte, 25 de fevereiro, por terra, a coalização militar ocidental entrou no Kuwait e, em menos de 24 horas, já fazia as tropas iraquianas comandadas por Saddam Hussein recuarem ao norte da fronteira. No dia 26 o Iraque é invadido e no dia 27 um armistício é assinado. Na retirada, as forças iraquianas incendiaram os poços de petróleo que não haviam sido destruídos pelo bombardeio norte-americano.

Qual a causa dessa guerra? Muitas podem ser elencadas… Cada historiador escolhe as suas e dá destaque a esta ou aquela. Mas a causa imediata é clara: o preço do petróleo. Para poder manter a dinâmica de sua economia, os Estados Unidos obrigavam a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Kuwait a uma superprodução para além dos limites estabelecidos pela OPEP. Com isso, o preço do petróleo baixou de dezesseis a dez dólares o barril. O Iraque, maior produtor da época e necessitado de divisas para reconstruir o país após a guerra contra o Irã – guerra patrocinada do lado iraquiano pelos norte-americanos, há de se lembrar – era o maior prejudicado com essa política. Impossibilitado de resolver diplomaticamente seu problema, invadiu o Kuwait como uma forma de regular o mercado petroleiro.

O Iraque pagou e continua pagando até hoje um alto preço por essa aventura. Em 2003 sofreu outra invasão por parte dos Estados Unidos que, desta vez, depôs Saddam Hussein sob o pretexto de armas químicas e nucleares nunca encontradas. O território do país do Tigre e do Eufrates foi dividido em três zonas e hoje é um dos abrigos do chamado “Estado Islâmico” que continua a convulsionar aquela região.

Quase trinta anos depois, o mapa do petróleo mudou. As maiores reservas conhecidas não estão mais no Oriente Médio. Novas descobertas revelaram que o maior volume de ouro negro ainda disponível é o que se esconde no Golfo de Maracaibo. E é o tipo de petróleo – o “petróleo pesado” – que mais faz falta à indústria americana. E que com o embargo dos Estados Unidos ao Irã, este petróleo, no mercado internacional, tornou-se extremamente caro. E o disponível na Venezuela está a apenas três dias de viagem das refinarias do Texas. Enquanto que, o importado do Oriente Médio leva quase três meses para fazer o percurso.

O único problema é que os venezuelanos não estão mais dispostos – como o estiveram no passado – a entregar o petróleo de graça. A solução: uma Tormenta no Caribe. É o que talvez se aproxime. Outra vez, o problema é o petróleo.

A Tormenta no Deserto custou mais de um milhão de vidas e aproximadamente 150 bilhões de dólares. Um investimento humano e monetário fantástico que certamente deve ter dado um significativo retorno para os que o sustentaram. Quanto custará – em vidas humanas e em recursos materiais – uma invasão à Venezuela? A indústria petroleira e a de armamentos devem estar fazendo seus cálculos. Se a opção bélica for vantajosa, certamente acontecerá. A diferença é que não será mais transmitida pela CNN, via televisão a cabo. Ela será transmitida pela internet e um megaespectáculo de luzes, cores e sons que, mais uma vez, abafarão o sofrimento humano que ela comporta. É difícil ser humano num mundo dominado pela máquina do petróleo. É doloroso pensar…

VOCÊ SABE QUEM É BERRY BENNELL?

A maioria de meus parcos leitores, com certeza, nunca ouviu falar de Berry Bennel. Tranquilos! Não há nenhum culpa nisso… Afinal, só mesmo um brasileiro maluco por futebol poderia saber quem é esse misterioso personagem. Eu não sou maluco por futebol. Falo dele por outro motivo que logo vocês verão, interessa a mim e a todos.

Mas qualquer inglês que tenha mínimas noções do esporte bretão que se joga com os pés, sabe quem é ele. De 1982 a 1994, Berry Bennel foi coordenador e treinador do Crewe Alexandra, clube da Quarta Divisão do Futebol Inglês. Não seria grande coisa, mas, além disso – e o que o tornou famoso – ele também era “olheiro” do Manchester City, do Chelsea e do Stoke City, clubes de primeira grandeza e “sonho de consumo” de qualquer iniciante no futebol. O faro futebolístico de Bennel em descobrir novos talentos fez com que fosse considerado o melhor olheiro das categorias de base de toda a Grã-Bretanha. E, nessa função e com tal fama, ele tinha acesso irrestrito a todos os garotos – a maioria de origem pobre – que sonhavam com um futuro melhor para eles e suas famílias graças ao talento futebolístico.

E aí se revelou o “lado monstro” de Bennel. Aproveitando-se do acesso aos garotos e a seus alojamentos, o treinador e olheiro construiu uma sórdida carreira de predador sexual que tem no currículo o registro de mais de cem meninos, entre 8 e 15 anos, abusados por ele. Sua carreira de pedófilo só foi interrompida por ocasião de uma excursão de seu time de crianças aos Estados Unidos. Longe da proteção que os grandes times poderiam lhe dar, foi preso pela justiça americana e condenado. Com a publicitação do fato, outras denúncias surgiram e ele foi deportado para a Inglaterra onde foi condenado a 30 anos de prisão.

Uma de suas vítimas, o ex-zagueiro Andy Woodward, esteve no Brasil no início de 2018 e, em várias cidades, proferiu uma séria de palestras sobre sua experiência e a necessidade de livrar o futebol deste tipo de predador. Sua visita estava relacionada ao escândalo que veio à tona nas categorias de base do Santos Futebol Clube onde o também “olheiro” Ricardo Marco Crivelli, conhecido como “Lica”, foi denunciado pelo jogador Ruan Pétrick Aguiar de ter abusado dele e de outros dos meninos da Vila Belmiro.

Na mesma época, na Argentina, o Independiente foi palco de outro escândalo que envolvia não apenas pedofilia, mas também prostituição de menores. Um jogador maior de idade e um árbitro de futebol agenciavam os atletas de base da equipe como “garotos de programa”.

Uma rápida busca na internet mostra inúmeros outros casos, tantos nos grandes clubes como nos pequenos clubes e escolinhas de futebol do interior onde o abuso sexual é moeda de troca para a possibilidade de inserção e ascensão no mundo da bola.

Apesar disso tudo, não tenho notícia, até hoje, de que a todo poderosa Sra. FIFA tenha convocado uma Assembleia Geral com os Presidentes de todas as Confederações Nacionais de Futebol para discutir um modo de punir os “olheiros”, treinadores, pessoal técnico e dirigentes que abusam – ou são coniventes – dos meninos que, supostamente, estariam sob sua guarda e proteção. E assim, pelo que parece, tais episódios continuarão a se reproduzir para a triste sorte de nossos meninos…

O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA E O ESTADO LAICO

Causou espécie nas últimas semanas a informação divulgada por membros do alto escalão das Forças Armadas de que o Governo brasileiro estaria preocupado com o Sínodo sobre a Amazônia a ser realizado pela Igreja Católica mês de outubro de 2019. Mais espantosa foi a afirmação – primeiro confirmada e depois desmentida – de que bispos estariam sendo espionados e que haveria a intenção de setores do governo em interferir no Sínodo para que este não abordasse temáticas tidas como sensíveis tanto do ponto de vista econômico, político, ecológico e de segurança nacional.
Tal atitude por parte do Governo não era vista desde a redemocratização e fazia lembrar os tempos da recente ditadura militar em que, não só a Igreja, mas toda a sociedade, era mantida sob a vigilância e, se necessário, controle, pela persuasão ou pela força. Se há a vontade de controlar a Igreja Católica, quem poderá sentir-se livre? Imediatamente levantaram-se vozes, tanto na Igreja como na sociedade, contra esta suposta pretensão. Houve, como dissemos, também os desmentidos. Mas, como diz o ditado, “onde há fumaça, há fogo”.
Olhada no curto prazo, este episódio é, pela maioria dos analistas, situado dentro do quadro político resultante das eleições de 2018 onde venceu, em nível federal e na maioria dos Estados, um aglomerado de forças de corte neo-liberal no que tange ao econômico e marcadamente neo-fascista na sua proposta política e social. O Sínodo, por abordar temáticas sociais, culturais e ambientais, se coloca nos antípodas dessa corrente hoje hegemônica no Brasil e poderia soar como uma nota fora do tom no discurso monocórdico da propaganda governista e de sua mídia oficialista. E, como soe acontecer em governos de caráter fascista, toda voz discordante tem que ser calada e, se for o caso, eliminada.
Sem desmerecer este contexto próximo, a polêmica necessita ser situada no longo prazo e na tradição que remonta ao Brasil Colonial e ainda está muito presente na cabeça e nos corações de muitos brasileiros de que o Estado e a Igreja devem estar unidos para a manutenção da ordem social. Este modo de pensar, nascido com
Constantino e consolidado na Cristandade Medieval, foi institucionalizado no Padroado Colonial Português e em seu sucedâneo, o Padroado Imperial através do qual Dom Pedro I e Dom Pedro II outorgavam-se o direito de governar a Igreja Católica através do Ministério da Justiça. Até mesmo os revoltosos farrapos, aqui no Rio Grande do Sul, ao criar a fantasmagórica República de Piratini, nomearam ao Padre Chagas como Vigário Apostólico e chefe da Igreja Católica no Rio Grande do Sul. Em outras palavras, um “Papa” farroupilha para o Estado Farroupilha.
Verdade que a primeira Constituição Republicana de 1891 estabeleceu a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e Estado. Mas uma união tão longa deixa marcas profundas nas duas partes que a compõem. E, depois de três curtas décadas de separação litigiosa, Igreja e Estado, através do Cardeal Leme e de Getúlio Vargas respectivamente, reataram, não legal, mas factualmente, a união entre os dois poderes naquilo que é conhecido como “neo-cristandade”.
Esse arranjo só foi colocado em crise pelo Golpe Civil-Militar de 1964 e a cruenta ditadura que se seguiu e que, em sua sanha persecutória a toda e qualquer fora de resistência, não titubeou em prender, torturar e matar a dezenas e dezenas de leigos, leigas, religiosos, religiosas e sacerdotes católicos. Contra estas ações, bispos formados dentro do espírito do Vaticano II, com coragem e valentia, se opuseram e constituíram um dos focos de denúncia contra o que vinha acontecendo no Brasil.
Se, nestes episódios das décadas de 1970/80, parte da Igreja Católica aprendeu que Igreja e Estado devem manter-se cada qual com sua identidade e missão própria e que, se em algumas circunstâncias podem operar cooperativamente, nenhuma das duas instituições pode querer utilizar a outra como instrumento para seus fins próprios. É, em outras palavras, o princípio do Estado Laico que faz bem tanto para o Estado como para a Igreja.
Mas, infelizmente, nem todos aprenderam com as lições da história e hoje vemos, no Brasil, renascer o desejo de um Estado teocrático ou de uma Igreja Imperial. E isso não só no mundo católico, mas com mais força e ressonância no campo das Igrejas pentecostais.
Isto posto, voltamos a afirmar que é importante, sim, denunciar a pretensa intenção do governo de imiscuir-se nos assuntos eclesiais. Mas é importante também, no quotidiano do agir eclesial e político, vencer a tentação da neo-cristandade e trabalhar para que o caráter laico do Estado – tanto no âmbito federal, como no estadual e municipal – seja respeitado e que as Igrejas tenham a liberdade para cumprir sua missão evangelizadora.

Sobre suicídios e suicidas: uma velha história sempre atual

Meu pai era um ótimo contador de histórias. Sabia por onde começar, dar os volteios, fazer o suspense, apresentar as diversas alternativas de sequência e aí arrematar com um bom final. E, mesmo tendo por língua materna e habitual o vêneto, as histórias eram sempre contadas em bom português. Até hoje eu me pergunto o por quê de seu Avelino escolher a segunda língua para contar as  melhores histórias. Claro que, no meio de cada conto, sempre deslizava sorrateiramente palavras e expressões em vêneto que davam à história um colorido todo especial. 
Algumas destas histórias as tenho até hoje na memória. Uma das mais interessantes era a do rapaz que queria se suicidar. O tema era difícil, pois o suicídio, no meio dos descendentes de italianos, tinha muito de tabu. Quem se suicidava, entre outras coisas, além de não ter velório público, era enterrado fora do cemitério. Na Linha Aimoré, lá onde eu me criei, no interior de Vila Flores, antes que se fizesse a atual ampliação do cemitério, havia um “anexo” em que eram sepultadas as crianças que morriam antes de serem batizadas, os que não eram católicos e os que se suicidavam. Ainda hoje lembro das três cruzes que havia naquele cercadinho ao lado do Campo Santo e da certeza que todos tinham de que as almas daquelas três pessoas estavam condenadas eternamente ao fogo do inferno. Era assim que se pensava… por isso, fazer piada de suicida, exigia uma boa dose de arte.
Sem a arte de meu pai e por ter que fazê-lo por escrito, reproduzo apenas o script da história do rapaz que, por razões que seu Avelino sempre deixava no entredito, queria se suicidar. A decisão dele era definitiva: não queria mais morrer e, sabendo de outros que haviam intentado tal desdita e haviam fracassado e se amostravam como mais confiáveis: um tiro na cabeça, o enforcamento em uma alta árvore e uma boa dose de veneno. Para não fracassar, o rapaz resolveu combinar as três possibilidades: corrependido de não terem morrido, buscava um meio seguro de alcançar seu objetivo. Depois de muito pesquisar e eliminar métodos de suicídio que não lhe pareciam seguros, chegou a três que se lhe nseguiu clandestinamente uma boa dose de estricnina, comprou um revólver novo carregadinho com sete balas para que não pudesse haver erro e uma corda soga novinha.
Tudo meticulosamente planejado, colocou a estricnina numa garrafa de água meticulosamente armazenada no bolso, fez a forca com a corda e molhou-a para dar-lhe mais resistência. Com a ajuda de uma escada, subiu em uma árvore, sentou-se no galho, empurrou a escada para o chão para não haver nenhuma tentação de retorno. Com todo cuidado, prendeu a corda firmemente ao galho e passou a forca no pescoço. Tudo pronto como no

passo-a-passo planejado. Agora, só faltava o ato final que envolvia os três componentes: a estricnina, a forca e revólver. Sorveu a garrafa de água envenenada em rápidos goles, deslizou do galho até a corda esticar e começar a apertar violentamente o pescoço e, antes que a falta de ar o impedisse de movimentos, sacou o revólver e desferiu um tiro contra a cabeça. E aí entrou em cena a fatalidade: A mão trêmula pelo sufocamento fez com que o tiro, ao invés de atingir a cabeça como o planejado, desviou para cima e acertou a corda soga que, esticada pelo peso do corpo, se rompesse fazendo com que o pobre infeliz tombasse rotundamente no chão e, com o golpe, vomitasse o veneno que ainda estava se acomodando no estômago. Resultado: o rapaz fracassou em seu intento de deixar esta vida de forma voluntária e, como a grande maioria dos suicidas, arrependeu-se e nunca mais tentou se matar.

Lembro desta história neste final de ano em que começamos a olhar para trás e tentar compreender a tentativa de suicídio que, como nação brasileira ensaiamos neste último ano utilizando os três métodos mais confiáveis para se acabar com uma democracia: a deslegitimação da representatividade política, a eleição de pessoas assumidamente autoritárias e a reabilitação dos militares como condutores da vida pública. Oxalá tenhamos a mesma sorte que o rapaz e a combinação dos três fatores leva a que um anule o outro.
Ah! A árvore da história que meu pai contava não era uma goiabeira. Lá na serra não havia goiabeiras. A árvores da história era uma araucária. E Jesus não subia nela…

Os Budas de Bamiyan e o Cristo Redentor

Bamiyan é um vale como outros tantos vales no centro do distante Afganistão. No ceu centro, uma pequena vilazinha à beira da estrada que liga Herat, na fronteira com Iraque, à capital Kabul. Seguindo em direção ao Oriente, depois de Kabul, a rota segue, para o sul, em direção a Islamabad, já no Paquistão e mais adiante, para a Índia. Ou então, de Kabul, outra alternativa é pender para o Norte e,  transitando entre os vales que separam o Tibet de Xingiang, chegar até a China, o Império do Centro. É a Rota da Seda que, durante milênios, fez a conexão entre o Oriente e o Ocidente. Marco Polo, no final do séc. XIII e início do séc. XIV, fez o percurso e tornou-o conhecido no mundo mediterrâneo. Hoje, a China, em seu anseio de firmar-se como liderança econômica mundial, está reconstruindo a Rota da Sede não mais com camelas, mulas e cavalos mas com modernos sistemas de transporte ferroviário, rodoviário e naval.

Voltando a Bamiyan… O que torna este vilarejo tão importante e tema deste nosso texto é que, nas encostas dos vales que a circundam, estavam as famosas estátuas dos Budas gigantes de Bamiyan. A maior das duas tinha 54 metros de altura. A outra, 36 metros. Escavadas dentro das cavernas, sua construção teve início no séc. VI quando a região era ocupada por dezenas de mosteiros budistas. No ano de 630, um chinês budista que passou pelo local descreveu-as como “decoradas com ouro e pedras preciosas”. Com o passar do tempo e a destruição dos mosteiros pela invasão árabe do séc. VIII, o ouro e as pedras preciosas foram levadas para o tesouro de alguma corte da região e só resistiram os Budas de pedra impávidos em suas cavernas dominando a região habitada pelos pashtuns e alternadamente dominada pelos impérios persa, árabe, turco e, finalmente, de 1830 a 1919, pelo Império Britânico. Com a saída dos britânicos, a região viveu décadas de instabilidade até que, em 1978, um golpe militar, apoiado pela então União Soviética, instalou uma república socialista no Afganistão.
Em plena Guerra Fria, o novo governo foi visto pelos Estados Unidos como uma ameaça para seus interesses na região. Com o apoio do Paquistão e da Arábia Saudita, o serviço secreto norte-americano começou a arregimentar, treinar e municiar grupos de opositores ao novo governo pró-soviético. Para dar-lhe coesão ideológica, fez recurso ao fundamentalista islâmico sunita. Nasceram assim os talibãs ou mujahidin. Traduzidas, estas duas palavras significam estudanteou guerreiro santo. Professando uma interpretação literal do Al Corão, financiados, armados e assessorados pelos Estados Unidos, lançaram-se à luta para expulsar os invasores soviéticos e seu regime ateu e construir um Emirato Islâmico na região. A operação foi a mais cara da Guerra Fria norte-americana e concluiu com a derrocada, em 1997, do governo pró-soviético e a instauração do Emirado Islâmico do Afeganistão. Nele, os estudantes do livro impuseram a sharia como legislação reguladora de todas as instâncias da vida do país. E, como manda a sharia, toda representação humana ou divina, deveria ser destruída. Entre estas representações, a mais simbólica, os Budas gigantes de Bamyian, tornaram-se alvo dos talibãs.
Os apelos da UNESCO e a pressão diplomática dos países ocidentais não foram suficientes para demover os guerreiros. Pelo contrário, tal ato tornou-se, para eles, simbólico do seu poder e de sua autonomia ante os antigos mestres. Para financiar a compra de armas não mais necessitavam de ajuda americana. O comércio do ópio lhes fornece os recursos de que precisam. Em março de 2001 as duas gigantescas estátuas foram transformadas em disformes blocos de pedra pela explosão de centenas de quilos de dinamite. Tudo filmado e disponibilizado na internet. Era o fim das estátuas dos Budas gigantes de Bamyian. O governo norte-americano lamentou o episódio mas foi incapaz de reconhecer que aquela barbárie só se tornou realidade porque, na década anterior, havia colocado armas na mão de fundamentalistas religiosos que, ao darem-se conta de seu poder, não mais obedeciam às ordens de seus antigos patrões e resolveram continuar o seu percurso fundamentalista independentes de seus antigos tutores.

O governo japonês se dispôs a reconstruir as estátuas assim que a guerra na região terminar. Talvez demore… mas será uma reconstrução importante. Afinal, aquelas duas estátuas talvez só sejam comparáveis, em seu poder simbólico, á estátua da Liberdade na entrada do porto de Nova Iorque e à do Cristo Redentor do alto do Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro. A estátua da Liberdade está bem protegida pelos serviços de segurança norte-americanos. Já a do Cristo Redentor, talvez tenha que ser protegida antes que seja dinamitada pelas milícias fundamentalistas que começam a ser formadas no Brasil. Oxalá que não…, mas é bom precaver-se!

O Evangelho de Satanás

A cada ano, geralmente no tempo da Quaresma ou do Natal, quando os sentimentos religiosos estão mais à flor da pele, a mídia sensacionalista mancheteia a descoberta de um novo Evangelho que durante milênios teria sido ocultado pela Igreja. Com o aval de um “cientista” de um instituto de pesquisa que ninguém sabe onde se localiza, sites sensacionalistas, jornais precisando chamar a atenção de leitores, emissoras de televisão em crise de audiência e rádios de duvidável credibilidade vão passando a informação adiante sem se perguntar da confiabilidade das fontes e da fiabilidade da informação. As redes sociais se encarregam de fazer o resto e logo uma multidão de pessoas está convicta de que descobriram uma namorada, a esposa ou um filho de Jesus.

Uma pesquisa mais atenta sobre o tema leva à conclusão de que se trata, na maioria dos casos, senão todos, da exploração requentada de uma cópia falsificada de um suposto fragmento de um texto apócrifo do séc. V que foi descoberto numa biblioteca do séc. XII!… Mas muita gente acredita e passa a escrever textos e textos sobre a hipocrisia da Igreja que tenta ocultar a verdade sobre Jesus e os youtubers do sensacionalismo produzem vídeos e mais vídeos que incautos assistem e compartilham em suas redes sociais na ânsia de convencer a mais e mais pessoas de que aquilo é verdade.

Por que tudo isso acontece? Por um lado, como já dissemos, pela necessidade da mídia em produzir conteúdos que chamem a atenção do público. E, conteúdos religiosos, principalmente quando tem um viés sensacionalista e mexem com a imaginação, sempre vendem bem. Por outro lado, o dos consumidores deste tipo de informação, está o desejo do novo, do extraordinário, do inaudito, do nunca visto que possa talvez preencher de uma vez por todas o vazio das pessoas carentes de sentido em meio a um mundo individualista e sensacionalista. Na verdade, este tipo de informação, nada diz a respeito de Jesus. Mas diz muito a respeito das pessoas que as buscam e nelas projetam seu eu e suas próprias necessidades, reais ou imaginárias.

Lembrei destes fatos ao ler nesta segunda-feira o texto da Liturgia Diária da Carta de Paulo aos Gálatas onde diz: Admiro-me de terdes abandonado tão depressa aquele que vos chamou, na graça de Cristo, e de terdes passado para um outro evangelho. Não que haja outro evangelho, mas algumas pessoas vos estão perturbando e querendo mudar o evangelho de Cristo. Pois bem, mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excomungado. Como já dissemos e agora repito: Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja excomungado. Será que eu estou buscando a aprovação dos homens ou a aprovação de Deus? Ou estou procurando agradar aos homens? Se eu ainda estivesse preocupado em agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Irmãos, asseguro-vos que o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo. (Gl 1,6-12).

É um texto forte. Paulo excomunga da comunidade aqueles que pretendem alterar o Evangelho por ele anunciado. Nem que fosse um anjo que anunciasse um Evangelho diferente do recebido por Deus, deveria ser excomungado!

Pobres dos autores dos apócrifos. E pobres dos divulgadores de apócrifos, tão comuns, infelizmente, em nossos dias… Pobres daqueles que, mesmo ouvindo “amai-vos uns aos outros”, bradam a todos os ventos “armai-vos uns contra os outros”; pobres daqueles que, mesmo lendo “não matarás”, pregam a pena de morte; pobres daqueles que, ao invés de oferecer a outra face como ensinou Jesus, semeiam o ódio e o terror entre os pobres e desprotegidos; pobres daqueles que ao invés de repartir com os milhões de irmãos necessitados e famintos, acumulam insensatamente suas riquezas que as traças e a ferrugem hão de comer; pobres daqueles que do alto dos telhados, ao invés de proclamar a verdade, espalham mentiras, calúnias e fake news contra seus adversários; pobres daqueles que ao invés de descobrir que, em Jesus, não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, discriminam as pessoas por sua origem étnica, condição social ou de gênero; pobres daqueles que percorrem mares e terras para fazer um prosélito e, depois que ele dizima em sua igreja, transforman-no num “filho do inferno duas vezes mais infernal” do que seus próprios pastores… Pobres enfim daqueles que levantam templos em honra a Deus e destroem o templo mais sagrado que é o corpo do irmão e da irmã.

É um novo Evangelho que está circulando, inclusive dentro de muitas igrejas. E, como todo apócrifo, perigoso porque se disfarça com o discurso da verdade e da religião. Como todo apócrifo, precisa ser desmascarado. E, caindo a sua máscara, deixar que se divise o verdadeiro rosto dos que o propagam para semear a discórdia e a divisão, a mentira e a morte, os frutos daquele que divide, os frutos do diabo, satanás.