A vida imita o filme…

 

Nanni Moretti é conhecido pelas críticas à sociedade italiana<br /><b>Crédito: </b> Andreas Solaro / AFP / CP
Nanni Moretti é conhecido pelas críticas à sociedade italiana
Crédito: Andreas Solaro / AFP / CP

O diretor italiano Nanni Moretti assegurou nesta terça-feira que o filme “Habemus Papam”, que narra a renúncia de um Papa com problemas existenciais, antecipou o anúncio da renúncia de Bento XVI. “Às vezes, o cinema pode antecipar a realidade”, declarou Moretti em uma entrevista ao jornal La Repubblica.
O cineasta disse que a cena que encerra o filme, com a renúncia pública do Papa na Praça de São Pedro, é a prova de “um simples gesto pode derrubar São Pedro e toda a Igreja”. “Apesar de não parecer algo crível, eu disse para mim mesmo que era essa a história que eu queria contar. Não a realidade como é, e sim como poderia ser. E aqui estamos”, afirmou Moretti, um dos cineastas mais críticos da sociedade italiana.
“Habemus Papam” conta a história do Cardeal Melville, interpretado por Michel Piccoli, que sofre um ataque de pânico quando tem de falar à multidão na Praça de São Pedro depois da eleição no conclave de cardeais. Os cardeais tentam manter a crise entre as paredes do Vaticano e contratam um psicólogo, interpretado pelo próprio Moretti, para tratar a depressão do Papa, que, por fim, decide não assumir o cargo.
“Queria contar a História, com H maiúsculo, de um homem que não quer dar prioridade a seu papel, apesar de ser sagrado e poderoso, passando por cima de sua natureza humana”, explicou Moretti, que não acredita que Bento XVI tenha visto o filme.
Moretti disse ainda que queria que seu filme fosse um retrato de um Vaticano “mais humano” e, ao mesmo tempo, uma crítica à Igreja católica.

Dez anos depois…

João Sicsú

Ninguém pode negar: o Brasil mudou para melhor. Dez anos de governos do PT proporcionaram profundas mudanças econômicas e sociais. A sociedade mudou. A desesperança dos anos 1990 foi transformada em otimismo e em uma nova pauta de desejos e exigências. Os governos do PT geraram também uma aglutinação oposicionista composta de forças liberais, de seitas conservadoras, de grupos rentistas, de famílias que controlam grandes meios de comunicação, de altos funcionários de carreiras de Estado e, por último e com menos importância, três ou quatro partidos políticos.
Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53% da população brasileira. Hoje, somam 84%.  Foto: Agência Brasil

Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53% da população brasileira. Hoje, somam 84%. Foto: Agência Brasil
As estatísticas econômicas e sociais são avassaladoras quando são comparados os governos do PSDB (1995-2002) com os governos de Lula-Dilma (2003-2012). Alguns poucos exemplos são suficientes para comprovar as diferenças.
No início dos anos 2000, pesquisas apontavam que o desemprego era um grande problema nacional. Em 2003, a taxa de desemprego era superior a 12%. Em 2012, foi de 5,5%. Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53% da população brasileira. Hoje, somam 84%. O volume de vendas do mercado varejista praticamente dobrou de tamanho entre 2002 e 2012. Em 2002, somente 33,9 % dos domicílios possuíam máquina de lavar. Em 2011, este número aumentou para 51%. Em 2002, 86,6% dos domicílios possuíam geladeira; em 2011, saltou para 95,8%. E, certamente, milhões de brasileiros trocaram eletrodomésticos velhos por novos.
O emprego e o consumo levaram as classes de renda C e D às localidades onde vivem ou trabalham os ricos e aqueles que recebem altas rendas. Esse foi o momento em que os mais necessitados perceberam que não basta ter emprego. O emprego é essencial, mas é preciso ter transporte, saneamento, iluminação pública, moradias dignas, coleta de lixo, áreas de lazer etc… é preciso ter direito às cidades. Sob estas condições, indivíduos que já realizam o consumo (uma atividade privada) passaram a desejar o investimento (público) para todos.
Este é o desafio da década: manter o emprego, o crescimento da renda, e socializar a oferta de bem-estar. Essa é a nova utopia de grande parte da sociedade. Se o PT deseja continuar mudando e transformado o Brasil terá que abraçar essa utopia. O modelo de crescimento com geração de emprego e distribuição de renda, implementado nos últimos 10 anos, precisa incorporar no seu âmago a multiplicação do bem-estar social – que significa a socialização da oferta de serviços e equipamentos públicos de qualidade.
Não há qualquer projeto político alternativo ao projeto implementado pelo PT nesses últimos anos. A aglutinação oposicionista não tem projeto. Ela busca tão somente (o que não é pouco) aumentar a rejeição ao PT, a Lula e à presidente Dilma. Pode-se, por exemplo, criticar o governo por não permitir o aumento da gasolina e reduzir a capacidade de investimento da Petrobras, mas vale também o argumento de que o governo autorizou o aumento da gasolina e neutralizou a redução de tarifas de energia elétrica.
No segundo semestre de 2012, um colunista de rádio criticou a presidenta Dilma por fazer o movimento de redução dos juros. Dizia ele, em tom de sentença: “não é possível reduzir juros por decreto”. Mas, os juros baixaram. Recentemente, ele disse: “os juros no Brasil ainda são uns dos mais altos do mundo”. E, talvez sem perceber, logo em seguida proclamou em tom de concordância: “parte do mercado percebe a necessidade de os juros subirem porque a inflação está se acelerando”. É a prática do vale-tudo: dizer, desdizer e dizer novamente. A coerência não importa. O que importa é fazer oposição no programa de rádio diário.
A aglutinação oposicionista busca juntar um enorme entulho de rejeição ao governo, ao presidente Lula e ao PT. O objetivo é afogá-los nesse lixão. O lixo pode ser rotulado de corrupção, alianças espúrias (com velhos corruptos), incompetência, voluntarismo, autoritarismo, ingerência política em empresas estatais, enriquecimento ilícito, indicações políticas (e não técnicas) para cargos públicos, obras paralisadas, filas no SUS, desperdício de recursos públicos e possibilidade de racionamento de energia elétrica.
É neste ziguezague que a aglutinação oposicionista busca espalhar rejeição para um candidato qualquer tentar vencer as eleições presidenciais de 2014. Não importa o candidato, suas ideias, projetos etc. O que importa é interromper a história. Afinal, ela tem incomodado e muito.  A aglutinação oposicionista está contrariada porque perdeu ganhos financeiros, perdeu o monopólio de decidir grandes questões nacionais, não têm livre acesso aos corredores do Palácio do Planalto… e perdeu controle sobre o futuro. Não aceitam civilizadamente o resultado das urnas: afinal, estudaram nas melhores escolas, em universidades americanas, falam duas ou três línguas e tomaram toddynho na infância. Seu destino não poderia ser a oposição. Eles não aceitam não ocupar posições de comando. O caminho tem sido o do vale-tudo.
A aglutinação oposicionista não somente quer interromper a história. Eles querem apagá-la.  Aliás, nem consideram história o que aconteceu no Brasil nos últimos dez anos. Chamam o período de “tempos estranhos”. Um articulista de uma grande revista escreveu: “Lula será apenas outra má lembrança destes tempos estranhos”.

Ateísmo, culto e dinheiro…

Uma “igreja ateísta” no norte de Londres está se provando um sucesso entre os não-crentes. Alguns, no entanto, acreditam que a iniciativa pode se tornar uma nova religião.
Inaugurada no mês passado como ponto de encontro para ateus, a Assembleia de Domingo é, nas palavras de seu mestre de cerimônias, o comediante Sanderson Jones, “parte um show de pessoas batendo os pés, parte igreja ateísta e em geral uma celebração da vida”.
Em um domingo pela manhã, o grupo de mais de 300 pessoas se reúne no espaço de uma igreja desconsagrada para a celebração.
Ao invés de hinos, os não-religiosos ficam de pé para cantar músicas de Stevie Wonder e da banda Queen.
Há uma leitura de Alice no País das Maravilhas e uma palestra de um físico de partículas, Dr. Harry Cliff, que explica as origens da teoria da matéria escura.
Parece uma apresentação de comédia stand-up. Jones e a co-fundadora Pippa Evans fazem piadas uns com os outros e animam a plateia como os veteranos do circuito de stand-up que eles são.
No entanto, há momentos mais sérios.
O tema desta manhã é “fascinação” – uma reação, segundo Jones, à crítica de que os ateus não conhecem esse sentimento.
Os participantes têm que abaixar as cabeças por dois minutos em contemplação ao “milagre” da vida e, em seu sermão de encerramento, Jones fala sobre como a morte de sua mãe influenciou sua jornada espiritual e sua determinação por aproveitar ao máximo cada segundo, consciente de que a vida é muito breve e que nada virá após dela.
Foto fornecida por uma frequentadora do evento.

Celebração de ateus tem palestras científicas e músicas pop
A audiência – em sua maioria jovem, branca e de classe média – parece entusiasmada por ser parte de algo novo e fala do vazio que sentiam nas manhãs de domingo quando decidiram abandonar a fé cristã. Poucos se identificavam ativamente como ateístas.
“É uma boa desculpa para nos reunirmos e termos um pouco de espírito de comunidade, mas sem o aspecto religioso”, diz Jess Bonham, uma fotógrafa.
“Não é uma igreja, é uma congregação de pessoas não-religiosas.”
“Eu acho que as pessoas precisam desse sentimento de conexão porque todos são muito individualistas agora, e se sentir parte de algo é o que as pessoas estão precisando no mundo”, diz Gintare Karalyte, outra frequentadora.
O número de pessoas que se declaram “sem religião” na Inglaterra e no País de Gales aumentou de cerca de 7 milhões em 2011 para 14,1 milhões, de acordo com o último censo no país, em 2011.
Isso faz dos dois países alguns dos mais seculares do mundo ocidental.
Pessoas como o escritor Richard Dawkins e o comediante Ricky Gervais transformaram em “moda” a ideia de ser mais assertivo sobre não ter fé religiosa e de pensar sobre o que significa ser ateísta.
O escritor Alain De Botton, que já propôs a criação de um “templo para ateus” em Londres, revelou também nessa semana um Manifesto para Ateístas, listando 10 virtudes para os que não tem fé.
Ele diz querer promover virtudes “esquecidas” como resiliência e humor. De Botton teve a ideia em resposta à crescente sensação de que ser virtuoso se tornou “uma noção estranha e deprimente”.
Os comentários de De Botton parecem ecoar o mantra da Assembleia de Domingo: “viva melhor, ajude com frequência, se maravilhe mais”.
Ele diz que um novo tipo de terapeutas seculares deve ocupar as posições de sacerdócio e acredita que o ateísmo deveria ter suas próprias igrejas, mas diz: “Elas não deveriam ser chamadas assim, porque ateísmo não é uma ideologia em torno da qual qualquer pessoa pode se reunir. É muito melhor chamá-la de algo como humanismo cultural”.

Bispo Harrison | Foto: BBC

Bispo evangélico acha que Assembleia de ateus é início de jornada espiritual até religião
No entanto, existe a preocupação entre alguns não-crentes de que o ateísmo esteja se tornando uma religião em si mesmo, com seu próprio código de ética e sacerdotes autointitulados.
Sanderson Jones insiste que não está tentando fundar outra religião, mas alguns membros de sua congregação discordam.
“Vai se tornar uma religião organizada. É inevitável. Um sistema de crenças vai se estabelecer. Haverá uma estrutura, uma perspectiva ética sobre a vida”, diz o arquiteto Robbie Harris, frequentador da assembleia.
Ele acredita que Evans e Jones tem “uma grande responsabilidade” se a Assembleia de Domingo “continuar tendo tanto sucesso como tem agora”.
“Existe o perigo de que ela se torne ‘da moda’ e se torne centrada em uma pessoa só. Você pode acabar se colocando como um pregador, esse é o perigo.”
“Eu acho que Sanderson deveria se afastar e se ver como mediador ou facilitador, no que ele obviamente é bom, e somente levar pessoas para falar ou ler”, diz Sarah Aspinall, que também frequenta o grupo.
Jones diz que as assembleias estão no início e que as próximas serão menos sobre ele e mais sobre as experiências de membros da congregação. Ele rejeita a ideia de que esteja dando início a um culto.
“Eu não acho que sou um pregador carismático. Eu só fico muito entusiasmado com as coisas e quero dividir isso com as pessoas”, afirma.
Ele diz ainda que ficou surpreso com a reação do público da Assembleia de Domingo e que está explorando a possibilidade de fazer reuniões semelhantes em outros locais do país.
As doações dos membros da congregação irão ajudar a pagar por ela. “Eu queria fazer isso porque pensei que seria algo maravilhoso”, diz Jones.
Ao lado da igreja desconsagrada onde se reúnem os ateus fica a igreja evangélica de São Paulo e São Judas, onde cerca de 30 pessoas se reuniram no mesmo domingo para cantar músicas gospel e fazer leituras da Bíblia.
Mas o bispo Harrison, um pregador cristão há 30 anos, disse que não vê os vizinhos como ameaça e prevê que sua jornada espiritual eventualmente os levará a Deus.
“Eles tem que começar de algum lugar”, diz.

Religião e Dinheiro

Em um país onde só 8% da população declaram não seguir uma religião, os templos dos mais variados cultos registraram uma arrecadação bilionária nos últimos anos.
Apenas em 2011, arrecadaram R$ 20,6 bilhões, valor superior ao orçamento de 15 dos 24 ministérios da Esplanada –ou 90% do disponível neste ano para o Bolsa Família.
A soma (que inclui igrejas católicas, evangélicas e demais) foi obtida pela Folha junto à Receita Federal por meio da Lei de Acesso à Informação. Ela equivale a metade do Orçamento da cidade de São Paulo e fica próxima da receita líquida de uma empresa como a TIM.
A maior parte da arrecadação tem como origem a fé dos brasileiros: R$ 39,1 milhões foram entregues diariamente às igrejas, totalizando R$ 14,2 bilhões no ano.
Além do dinheiro recebido diretamente dos fiéis (dos quais R$ 3,47 bilhões por dízimo e R$ 10,8 bilhões por doações aleatórias), também estão entre as fontes de receita, por exemplo, a venda de bens e serviços (R$ 3 bilhões) e os rendimentos com ações e aplicações (R$ 460 milhões).
Sérgio Lima/Folhapress
Lucilda da Veiga paga dízimo com cartão de débito em igreja evangélica de Brasília
Lucilda da Veiga paga dízimo com cartão de débito em igreja evangélica de Brasília
“A igreja não é uma empresa, que vende produtos para adquirir recursos. Vive sobretudo da doação espontânea, que decorre da consciência de cristão”, diz dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
Entre 2006 e 2011 (último dado disponível), a arrecadação anual dos templos apresentou um crescimento real de 11,9%, segundo informações declaradas à Receita e corrigidas pela inflação.
A tendência de alta foi interrompida apenas em 2009, quando, na esteira da crise financeira internacional, a economia brasileira encolheu 0,3% e a entrega de doações pesou no bolso dos fiéis. Mas, desde então, a trajetória de crescimento foi retomada.
Editoria de Arte/Folhapress
IMPOSTOS
Assim como partidos políticos e sindicatos, os templos têm imunidade tributária garantida pela Constituição.
“O temor é de que por meio de impostos você impeça o livre exercício das religiões”, explica Luís Eduardo Schoueri, professor de direito tributário na USP. “Mas essa imunidade não afasta o poder de fiscalização do Estado.”
As igrejas precisam declarar anualmente a quantidade e a origem dos recursos à Receita (que mantém sob sigilo os dados de cada declarante; por isso não é possível saber números por religião).
Diferentemente de uma empresa, uma organização religiosa não precisa pagar impostos sobre os ganhos ligados à sua atividade. Isso vale não só para o espaço do templo, mas para bens da igreja (como carros) e imóveis associados a suas atividades.
Os recursos arrecadados são apresentados ao governo pelas igrejas identificadas como matrizes. Cada uma delas tem um CNPJ próprio e pode reunir diversas filiais. Em 2010, a Receita Federal recebeu a declaração de 41.753 matrizes ou pessoas jurídicas.
PENTECOSTAIS
Pelo Censo de 2010, 64,6% da população brasileira são católicos, enquanto 22,2% pertencem a religiões evangélicas. Esse segmento conquistou 16,1 milhões de fiéis em uma década. As que tiveram maior expansão foram as de origem pentecostal, como a Assembleia de Deus.
“Nunca deixei de ajudar a igreja, e Deus foi só abrindo as portas para mim”, diz Lucilda da Veiga, 56, resumindo os mais de 30 anos de dízimo (10% de seu salário bruto) à Assembleia de Deus que frequenta, em Brasília.
“Esse dinheiro não me pertence. Eu pratico o que a Bíblia manda”, justifica.

Missa na Igreja Cristã Metropolitana  Foto BBC Brasil

Igrejas voltadas predominantemente para público gay somam hoje cerca de 10 mil fiéis
Encaradas pelas minorias como um refúgio para a livre prática da fé, as igrejas “inclusivas” – voltadas predominantemente para o público gay – vêm crescendo a um ritmo acelerado no Brasil, à revelia da oposição de alas religiosas mais conservadoras.
Leia a íntegra da reportagem no site da BBC

Amar, verbo intransitivo

Por Matheus Pichonelli de http://www.cartacapital.com.br

O escritor mexicano David Toscana descreveu, em O Último Leitor, uma das melhores passagens que eu conheço sobre a banalização do tema “morte” na literatura. O livro conta a história de um bibliotecário de um vilarejo assolado pela fome e pela seca. Ali, diante do abandono (com carências materiais mais urgentes, os habitantes não pisavam na biblioteca havia anos), passa horas num jogo solitário e autocrático: identificar clichês nos livros disponíveis e se vingar dos autores com uma espécie de fogueira da inquisição. Quando o clichê era identificado, ele passava mel nas frases mal formuladas e jogava os livros num quarto escuro, onde as palavras eram literalmente devoradas pelas baratas.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) em cima do filme “Amor”
O personagem esbarrava com expressões do tipo “o horror dos olhos diante da morte” e se enfurecia. Para ele, não fazia sentido alguém se apoiar na expressão sem jamais ter matado ou ficado perto da morte. Certo dia ele pede ao filho que ele sacrifique uma cabra com uma facada no peito. O filho obedece e é questionado pelo pai se, em algum momento, os olhos do animal demonstravam algum tipo de horror. A experiência real leva a uma outra resposta: não, a expressão não era de horror, como descreviam os literatos, mas sim de vergonha. Era como se a cabra estivesse constrangida pela forma com que morreria e seria observada pelos vivos depois de morta. Uma vergonha, conclui, comum a qualquer ser vivo flagrado em situações supostamente indignas.
Esse constrangimento da morrer, ou de caminhar até a morte inevitável, é escancarado sem anestesia em Amor, de Michael Haneke. O filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ganhou cinco indicações ao Oscar deste ano: “Melhor Filme”, “Melhor Direção”, “Melhor Atriz”, “Melhor Roteiro Original” e “Melhor Filme Estrangeiro”. A história é simples: um casal de músicos octagenários se tranca dentro de casa para lutar contra a morte. Anne (Emmanuelle Riva) tem uma doença degenerativa e Georges (Jean-Louis Trintignant) é o marido responsável por recriar um mundo hermético no qual os desejos da mulher sejam de alguma forma garantidos – entre eles o de não permitir que naquela casa entre qualquer sinal de piedade pela enferma.

A sinopse, em si, não parece suculenta ao gosto do grande público, mas o alvoroço em torno do filme levou, na terça-feira 22, os espectadores a lotarem a sala do cinema onde eu estava. Talvez porque estivessem movidos pela expectativa de ver na tela uma história parecida com O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, ou filmes aparentemente similares sobre o envelhecimento, como o lírico Longe Dela, de Sarah Polley.
À saída, duas impressões pareciam manifestadas. Os espectadores com idade mais avançada pareciam em choque, indispostos até para as lágrimas. Os mais jovens pareciam não ver sentido no que assistiam (vi alguns com olhos inchados, pontos de interrogação na cabeça e um certo rubor, corrigido com sorrisos, por uma ou outra lágrima que escapava na sessão).
As reações eram compreensíveis: em vez de “Morte”, o filme se chama “Amor”. E “amor”, à primeira vista, não remete à dor, a não ser as superáveis. As dores desnecessárias, que não levam à transcendência, não constam do script dos amores idealizados. Por isso, quem entrou na sala esperando uma história sobre superação, sobre o lirismo restaurador, com diálogos limpos sobre os esforços que de fato importam na vida, ou mesmo sobre a morte sublime, correu um grande risco de se decepcionar. O filme é um lento exercício de desconstrução da palavra-título. Mais ou menos como fez o personagem de Toscana: é preciso tirar da realidade seu elemento mais natural para encontrar o significado mais honesto da expressão.
E Amor descarta qualquer condimento. Mais que lirismo, amar exige coragem, parece dizer o diretor. E não há romantismo latente diante da morte, que degenera, separa, desgasta, oprime, envergonha e dá vida (por ironia) aos sintomas humanos mais primitivos do orgulho, da vaidade, da teimosia, da autoproteção.
Sem malabarismos, o filme consegue subverter lógicas assentadas em lugares-comuns e que tentam  tornar a morte menos indigesta. Por exemplo: em qualquer sociedade, a morte é trágica apenas quando a juventude é interrompida; no fim da linha, ela é natural, aceitável, permitida e até desejada. Quem disse?, questiona Haneke.
Como uma sombra, a morte ganha corpo pela casa onde a vida a dois parecia bem comportada. Naquela casa, ela é tão intrusa quanto os acidentes, os furacões, os desabamentos ou qualquer tragédia imprevista. Como são intrusos todos males que advém dela, inclusive a pena e os clichês indesejáveis. Clichês que pedem a tal “superação”, serenidade, paciência, como se a morte pedisse condimentos para ser aceita.
À saída, os espectadores mais jovens se mostravam indignados pela exposição supostamente gratuita ao sofrimento. Diziam saber que as pessoas nascem e morrem e que este processo, embora inevitável, é sempre doloroso. Mas o filme, que se passa apenas numa casa de cortinas fechadas, está longe de ser só isso. Pelo contrário: há, dentro daquela casa, uma profusão de elementos a mostrar como a morte é um ruído em si. Por exemplo, a tentativa de assaltantes arrombarem, sem sucesso, a porta da casa onde o casal vive quando tudo parecia em ordem. A pia que incomoda e não para de jorrar. Ou a disposição da mesa de jantar – onde Anne dá os primeiros sinais da doença –  colada numa parede e com espaço apenas para duas cadeiras. Encurralados, os dois personagens parecem simbolicamente condenados à incompreensão. Nessa, os diálogos com a filha parecem (só parecem) surreais. Numa das cenas, a personagem leva longos minutos a falar sobre viagem e a relação tensa com o marido. Só depois, como por educação, pergunta, afinal, o que aconteceu com a mãe. É a mesma filha que, como se não percebesse que a mãe está na cama sem a menor capacidade de articular uma ideia, discorre sobre investimentos em imóveis, poupança, preocupação com aplicações financeiras e pede a ela uma opinião sobre o que fazer. Num terceiro momento, a filha enquadra o pai, pede uma explicação para o que acontece, mostra-se preocupada com a situação da mãe e é interpelada: “de que me adianta a sua preocupação?”
Adianta quase nada. Anne, quando percebe que seu quadro é inevitável, sela um acordo informal com o marido, que promete vedar todas as brechas daquela casa para evitar contato com um mundo de preocupações e pesares. Ela simplesmente não quer ser vista com piedade. Como um diálogo cravado a vida toda, a filha não entende, nem faz esforço para entender a atitude dos pais. Naquela casa, não há tempo nem disposição para dar respostas ou ouvir dos filhos conselhos sobre o que é o certo a fazer a certa altura da vida. Porque, do lado de fora, as pessoas seguem suas vidas sem a projeção do fim – ao menos no centro das preocupações diárias com contas, carreiras, relacionamentos, etc. Mas a morte, de perto, desdenha eufemismos e futiliza qualquer sentimento de apego mundano.
Naquela casa já assombrada pela morte há espaço apenas ao que resta de vida, mais ou menos como escreveu Carlos Drummond de Andrade no poema Os Ombros Suportam o Mundo: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação”. É essa sobra de vida que se desgasta sem eufemismo e mistificação o ponto central em Amor. Não esperem dele suspiros gratuitos. Nem do filme, nem da velhice, nem do amor.

Orientação racista na PM-SP provoca indignação de grupo de Direitos Humanos

Reprodução do documento publicado nesta quarta-feira 23 pelo jornal Diário de São Paulo

Reprodução do documento publicado nesta quarta-feira 23 pelo jornal Diário de São Paulo
Um documento com teor racista, assinado pelo capitão da Polícia Militar de São Paulo Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, veio à tona nesta quarta-feira 23 e gerou revolta de organizações de Direitos Humanos e de igualdade racial. O documento, divulgado pelo jornal Diário de São Paulo, orienta policias que trabalham no bairro Taquaral, região nobre de Campinas, a abordarem com rigor pessoas “em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra”. Segundo o jornal, a determinação é adotada por policiais desde o dia 21 de dezembro do ano passado e é direcionada principalmente para jovens entre 18 e 25 anos, que estejam em grupos de três a cinco pessoas e tenham a pele escura.
Em carta, o diretor presidente da Educafro, frei David, pediu esclarecimentos sobre o caso para o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, e ao secretário de Segurança Pública, Fernando Grella. “Nos assusta saber que ainda ocorrem casos de racismo dentro da polícia”, disse o frei David a CartaCapital.
Às 11 horas desta quarta-feira 23, o secretário-adjunto de Segurança Pública, Antonio Carlos Ponte, se reuniu com frei David para assegurar a apuração da denúncia e a convocação do Comando-Geral da PM para explicar se a orientação também é dada a outros comandos e batalhões.
Motivada pelo caso, a Educafro solicitou, durante a reunião, a divulgação dos dados étnicos das vítimas de abordagens policiais registradas como “resistência seguida de morte”. O pedido foi baseado na Lei da Transparência. O secretário-adjunto se comprometeu, segundo o diretor da Educafro, a apresentar os dados até o dia 15 de fevereiro.
Em relação a Campinas, a carta requisita os dados estatísticos sobre as abordagens com e sem mortes realizadas pelo Batalhão de Campinas, com o intuito de verificar se há, de fato, uma tradição racista dentro da unidade.
Resposta da Polícia Militar
O Comando da PM nega teor racista do documento e explica que a ordem do oficial foi motivada por uma carta de dois moradores do bairro, na qual eles descreviam os criminosos “com a cor da pele negra”.
Procurada pela reportagem, a assessoria da Polícia Militar disse que o documento apenas reproduziu as características presentes na carta dos moradores. “Houve uma falta de atenção na escrita do documento, mas isso não é um caso de preconceito”, explica o capitão Araújo, da assessoria de imprensa da PM. “O próprio capitão Beneducci é pardo e quis, no documento, apenas expor as características físicas dos suspeitos”, completa.
Leia a íntegra da carta, redigida por frei David, abaixo:
Para: Governador Dr. Geraldo Alckmin
Cc para: SSP Dr. Fernando Grella
Acreditamos que neste novo Brasil que estamos construindo, que deseja ser modelo civilizatório para o mundo, especialmente a partir da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, nenhum governante opta por ser racista ou desumano haja vista a responsabilidade da garantia assegurada pelos Direitos Humanos, tão atual no reconhecimento dos crimes praticados quando da Ditadura no Brasil. A própria ONU mostra-se preocupada com a violência de vários países entre eles, o Brasil e decretou a década do Afrodescendente que vai de 2013 a 2023. No entanto, em vários setores da sociedade, especialmente órgãos públicos, vários fatos concretos deixam-nos preocupados, como por ex: cobramos do governo do Estado, na ocasião das primeiras ocorrências e até hoje o governo estadual não revelou quanto por cento das mortes pelos ataques do (PCC e da Polícia) foram de indivíduos negros.
Apesar dos protestos de boa parte da sociedade, poucas providências foram e são aplicadas para reeducar os funcionários públicos da segurança e de outros setores, autores isolados de atos discriminatórios ou vítimas do “Consciente Coletivo” que perpassa ao longo da história grande parte da corporação policial e da sociedade. O “embranquecimento” ocorre para nossa tristeza e decepção na formação de nossos policiais que inconscientemente passam a não se verem como negros e aplicam na abordagem as ordens lhes passadas ao abordarem o negro como ele. Esta falta de formação gera e faz perpetuar a “abordagem RACISTA de pressupor que o negro até que se prove em contrário é considerado um bandido, marginal!”
O novo fato, muito preocupante, refere-se à Ordem de Serviço nº 8 – BPMI – 822/20/12 da região de Campinas emitida pelo Capitão Ubiratan Beneducci, que segue anexo.
A ordem leva-nos a entender que se os policiais cruzarem de carro ou a pé, com um grupo de 3 a 5 brancos entre 18 e 25 anos, não desconfiem deles. Se forem pardos ou negros, abordem-nos imediatamente! Queremos que a Polícia se liberte da imagem do cidadão/ã Negro/a como sendo bandido/a. Quase 100% dos políticos processados e daqueles que aplicam Grandes Golpes financeiros contra a nação são indivíduos brancos. Para estes sim, a polícia deveria emitir alertas urgentes! Para nossa tristeza, neste caso são considerados inocentes até que se prove o contrário. A inversão de valores está no conceito de que são “autoridades” e não moram na periferia ou favelas.
Compreendemos que esta orientação e determinação não é governamental, mas este mesmo governo ao qual apelamos através deste ofício, pode combater com determinação e direito esta medida aplicada por este servidor policial, mal formado e não preparado para suas funções de comando.
Ao final, baseado na lei de transparência nº 12.527 de 18/11/2011, solicitamos ao governador Alckmin:
1) Que nos apresente os dados étnicos das vítimas de abordagens policiais, registradas como “resistência seguida de morte”, e quantos por cento são cidadãos/ãs brancos/as, indiodescendentes, negros/as ou orientais.
2) Apresente-nos o perfil étnico das vítimas dos ataques do PCC e da Polícia do ano de 2006 quando dos primeiros ataques.
3) Apresente-nos os dados estatísticos daquele batalhão de Campinas sobre abordagens (sem e com mortes), bem como, a percentagem de moradores negros e brancos da área desse batalhão.
4) Apresente-nos os dados estatísticos dos assassinatos de negros e brancos, no estado de São Paulo nos últimos 12 meses (janeiro de 2011 a janeiro de 2012), com perfil étnico, idade e classe econômica.
Sem mais, confiando em um retorno de nossas solicitações o mais breve possível,
Com a saudação franciscana de Paz e Bem!
Frei David Santos