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Ecumenismo e Libertação

O título desta postagem é uma homenagem a um livro que li pela primeira vez no final da década de 1980, quando cursava a Graduação em Teologia. Era a época da disputa em torno à Teologia da Libertação, um movimento de intelectuais cristãos que queria pensar a fé a partir das lutas dos povos do continente para superar a pobreza e a opressão.

A Teologia da Libertação, desde as suas origens até hoje, sempre se entendeu como um movimento transeclesial, ou seja, constituído por homens e mulheres que, identificando-se com uma comunidade cristã específica, não fica restrito a esta ou aquela comunidade, mas pensa o cristianismo no seu todo, para além dos limites institucionais. Claro que, sendo o Brasil um país naquela época ainda majoritariamente católico romano, a tensão se expressava de maneira mais viva dentro da Igreja Católica Romana. O “caso Leonardo Boff” tornou-se emblemático desta disputa pelo sentido da fé no contexto brasileiro e latino-americano.

O autor do livro “Ecumenismo e Libertação” que motiva esta reflexão é o teólogo uruguaio Júlio H. de Santa Ana. De formação metodista, Júlio fez-se, por opção, amplamente ecumênico e, como tantos uruguaios de seu tempo e de hoje, girou pelo mundo a serviço da causa em que acreditava, a unidade das Igrejas e do Povo de Deus. Atuou em vários organismos ecumênicos internacionais, inclusive no Conselho Mundial de Igrejas.

Neste livro que é, sem dúvidas, um clássico no tema, o autor discorre sobre as causas das diversas divisões que, ao longo de dois mil anos, afetaram a desejada unidade do Povo de Deus. Houve causas dogmáticas, litúrgicas, canônicas, culturais, políticas, econômicas, pessoais… Muitas divisões com muitas causas e muitas causas em cada divisão. O cisma do séc. XI, por exemplo, que separou latinos e orientais, não teve como única causa a discussão sobre a procedência do Espírito Santo apenas do Pai ou do Pai e do Filho. A disputa de poder entre o Império Bizantino, o Papado e as repúblicas italianas também influíram no triste desfecho. Do mesmo modo, não foram as “Cinco Sola” de Lutero que suscitaram as rupturas na Igreja do Ocidente. Sem os interesses econômicos e políticos dos príncipes alemães, de Carlos V e dos Papas Imperadores e de sua corte, a crise das reformas não teria tão triste desfecho.

Mas a razão que sempre me faz voltar ao livro de Júlio de Santa Ana é a parte conclusiva em que, olhando o presente e as perspectivas futuras para os que sonham com a unidade das Igrejas e do Povo de Deus, o autor, citando Emílio Castro, também uruguaio, metodista e apaixonado pelo ecumenismo, afirma que Ecumenismo é Solidariedade. Solidariedade na busca do Reino, solidariedade no serviço aos pobres.

Para Emílio e para Júlio, assim como para muitos outros cristãos e cristãs que buscam ser fieis ao projeto do Reino de Deus, a unidade cristã se constrói não apenas na discussão sobre princípios dogmáticos, litúrgicos, canônicos, sacramentais, ministeriais… O que une ou separa os cristãos, é a atenção que é dedicada aos pobres. Isso não é novo. É muito antigo. Já Paulo o afirmou na Carta aos Gálatas. Segundo o Apóstolo dos Gentios, para quem tem fé no Deus de Jesus, tudo é relativo, menos o cuidado para com os pobres. Estes nunca podem ser esquecidos.

Esse é o princípio que está hoje por trás de todas as discussões em torno à Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Há cristãos que se preocupam com os pobres e há cristãos que, com argumentos supostamente religiosos, justificam sua desatenção para com os preferidos por Jesus Cristo. E isso não é privilégio desta ou daquela Igreja. São posturas que ultrapassam as barreiras confessionais e provocam uma divisão em todas as igrejas.

É a divisão mais radical, mais que as do séc. V, do séc. XI e dos séc. XVI-XVII. Uma divisão que recoloca o cristianismo frente à questão fundamental que temos sempre de novo responder: quem é o Deus em que acreditamos? É o Deus de Jesus que dá a vida para que todos tenham vida ou é um Baal que exige o sacrifício da vida dos pobres?

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Podem os ex-católicos voltar a ser católicos?

pluralidadereligiosa

De 06 a 09 de maio está acontecendo, em São Leopoldo, na Faculdades EST, o Congresso Estadual de Teologia. Dentro da programação, apresetamos uma comunicação que discute os resultados do Censo 2010 e como eles podem ser pastoralmente interpretados.
O arquivo que serviu de suporte para a apresentação pode ser acessado clicando no seguinte link: congressoestadualdeteologiapresentacaooral
O texto completo será publicado no próximo número de Cadernos da ESTEF.

O futuro com Francisco


Na tarde desta quarta-feira, 24 de abril, professores e estudantes da ESTEF estivemos reunidos para o Encontro Formativo do bimestre. Como tema da tarde de estudos, buscamos discernir sobre o significado e as perspectivas que se abrem com a eleição do Cardeal Bergoglio para “bispo de Roma” (como ele gosta de se afirmar).
No link abaixo estão textos que circulam na internet e que podem nos ajudar a continuar esta reflexão:

A eleição de Frarncisco e seu significado eclesial

No dia 15 de abril tivemos a oportunidade de participar do Encontro dos Pastoralistas Capuchinhos da Grande Porto Alegre. Além da partilha e comunicações, tivemos a oportunidade de partilhar uma reflexão sobre o Novo Cenário Religioso do Brasil a partir dos dados do Censo 2010.Partilhamos no link abaixo o material que serviu de suporte à apresentaçao:
pastoralistas capuchinhos canoas

“Bento 16 apostou todas as fichas no continente errado”, diz historiador

Sucessão Papal Contradizendo projeções demográficas e da própria história recente da Igreja Católica, o papa Bento 16 priorizou a Europa no seu pontificado, afirma o padre e históriador José Oscar Beozzo.

Em entrevista à Folha por telefone, Beozzo diz que, apesar do apoio de Bento 16 ao arcebispo de Milão, Angelo Scola, muitas vezes os papas não fazem seu sucessor.

Padre da paróquia São Benedito, em Lins (SP), Beozzo é coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular e autor de livros e artigos sobre a história da igreja no Brasil e na América Latina.

Rogério Cassimiro/Folhapress
O padre e historiador José Oscar Beozzo
O padre e historiador José Oscar Beozzo

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Folha – O que se pode dizer sobre o provável novo papa?

José Oscar Beozzo – Essa renúncia de Bento 16 mexeu profundamente com a igreja toda, com o inusitado do seu gesto. Ele fechou o arco de um movimento iniciado no Concílio Vaticano 2º (1962-65), que de maneira muito sábia fixou um limite de idade para bispos e párocos: 75 anos.

Bento 16, com a renúncia, apontou com toda clareza que a norma conciliar devia ser tomada em conta também pelo papa e abriu caminho para que seja levada em consideração por futuros papas.

Creio que os cardeais serão muito cautelosos no conclave. A tendência, após um pontificado muito longo, é escolher um cardeal de mais idade, para um pontificado breve. Quando ele é breve, surge a tendência inversa ou um meio-termo. Tenho a impressão de que o papa vai ser escolhido entre cardeais perto dos 70 anos de idade, mas não mais, por causa do breve pontificado de Bento 16.

O Brasil tem cinco cardeais no conclave, menos que os EUA (11), por exemplo. Por quê?

Acho que foi uma política de Bento 16. Primeiro, ele fez muitos cardeais na Europa e na Cúria ou nos países do norte. De fora da Europa, foram criados só três. Nenhum, porém, na América Latina ou na África, que juntos abrigam quase 60% dos católicos.

Houve críticas generalizadas. Nove meses depois, inopinadamente, ele criou seis cardeais: nas Filipinas, na Índia, na Nigéria, no Líbano, na Colômbia… foi uma espécie de remendo na escolha anterior, que incluiu um brasileiro, mas como cardeal de Cúria: dom João Braz de Aviz.

Três quartos dos fiéis da igreja estão fora da Europa. Não há muito cabimento em ter mais da metade dos cardeais eleitores lá, quando ela representa hoje só uns 23% dos católicos do mundo. Nesse sentido, há sobrerrepresentação europeia entre cardeais e “sub-sub-sub-representação” da América Latina.

Por que Bento 16 reforçou o eurocentrismo?

Ele viu como o grande desafio do seu pontificado recristianizar a Europa. Apostou todas as fichas no lugar errado, a meu ver. A população da Europa, envelhecida, decresce em vários países.

Quando se tem uma população envelhecida, não se sonha muito com o futuro. A igreja na Europa e a igreja na África vivem dois mundos totalmente diferentes. Uma está ancorada no passado, a outra projetada para o futuro.

Mais da metade dos cardeais com direito a voto foi escolhida por Bento 16. Esse colégio pode chegar à conclusão de que é preciso deseuropeizar?

Depende muito da conversa entre os cardeais nos próximos dias e do amplo debate, em escala mundial, que a renúncia desencadeou.

Cardeais asiáticos e da África vão apresentar a realidade daqueles continentes. É um momento rico nesse sentido, pois se sairá do discurso monocórdico ditado pelo centro da igreja. Quem vai dar as cartas não será só a Cúria.

Bento 16 preparou um sucessor, o arcebispo de Milão…

Bento 16 transferiu o cardeal Scola de Veneza –que é meio fim de carreira, como o posto de um marechal no Exército– para Milão. Para bom entendedor da política interna, é uma sinalização.

Havia mais de 400 bispos na Itália, entre os quais o papa podia escolher livremente um para Milão. Escolheu alguém que aparentemente não deveria ser removido, por estar num lugar prestigioso.

Outra possível sinalização foi a escolha de um dos cardeais eleitores, Gianfranco Ravasi, para pregar seu último retiro como papa.

Mas podemos também nos voltar para a história: Leão 13 falou aos cardeais sobre quem ele gostaria que fosse seu sucessor, mas o indicado não foi o escolhido. Depois, Pio 10º apostou no cardeal Gotti, mas ele também não foi eleito. O papa pode dar seu pitaco, mas não significa que os cardeais necessariamente seguirão sua sugestão.

Com a renúncia, Bento 16 está enfraquecido ou fortalecido para a escolha do sucessor?

Ele nomeou 67 cardeais, mais da metade dos votantes. Há poder maior? Por outro lado, com a renúncia, ele vai se recolher em copas. Não tem sentido ele ter renunciado e buscar influenciar diretamente o conclave. Com seu gesto, mostrou humildade e grandeza humana e espiritual.

50 anos de Teologia da Libertação

Nesta próxima terça-feira, 26 de fevereiro, o Curso de Teologia estará realizando sua Aula Inaugual com o tema “50 anos de Teologia da Libertação – reflexões a partir do Congresso Continental de Teologia”.Juntamente com a Profa. Ana Formoso, estarei ajudando a dinamizar o encontro. Para guiar a reflexão, preparei algumas apresentações que compartilho com vocês.
Para acessá-las, basta clicar no ling  50 anos da Teologia da Libertação

UMA IGREJA CATÓLICA SEM PAPA É POSSÍVEL?

por Eduardo Hoornaert

O anúncio da renúncia de Bento XVI me surpreendeu, com aconteceu com muitas pessoas. Impressiona-me a simplicidade com que o papa expõe seus sentimentos e penso que, agindo desse modo, ele ajuda a desbloquear uma visão estática do papado e abre um espaço oportuno de discussões em torno do governo da igreja católica, e não só de seu gesto em particular. É isso que pretendo fazer neste texto. Minha pergunta é a seguinte: será que a igreja católica precisa mesmo de um papa? Vou por pontos.

1. O papado.

O papado não está ligado à origem do cristianismo. O termo ‘papa’, por exemplo, não aparece no novo testamento. Quanto aos versos do evangelho de Mateus (‘tu és Pedro e sobre essa pedra construirei minha igreja’: 16, 18), que costumam ser invocados para legitimar o papado, é bom que nos lembremos que a exegese atual é taxativa quando afirma que não se pode isolar um texto de seu conjunto literário e transformá-lo em oráculo. Ora, os versos de Mateus funcionam, pelo menos na instituição católica, como um oráculo. Mas quem lê os evangelhos em contexto compreende que é um absurdo pensar que Jesus tivesse planejado uma dinastia apostólica de caráter corporativo, baseada na sucessão de poderes. As palavras ‘tu és Pedro’ não têm nada a ver com a instituição do papado. Foi o bispo Eusébio de Cesareia, teórico da política universalista do imperador Constantino, que no século IV começou a redigir listas de sucessivos bispos para as principais cidades do império romano, em muitos casos sem verificar a veracidade dos nomes arrolados, para adaptar o sistema cristão ao modelo romano da sucessão dos poderes. Esse bispo-escritor é o criador da imagem de Pedro-papa. Mas a pesquisa histórica aponta outro horizonte e mostra que a palavra ‘papa’ (pope), que pertence ao grego popular do século III, é um termo derivado da palavra grega ‘pater’ (pai) e expressa o carinho que os cristãos tinham por determinados bispos ou sacerdotes. O termo penetrou no vocabulário cristão, tanto da igreja ortodoxa como da católica. No interior da Rússia, até hoje, o pastor da comunidade se chama ‘pope’. A história conta que o primeiro bispo a ser chamado ‘papa’ foi Cipriano, bispo de Cartago entre 248 e 258 e que o termo só apareceu tardiamente em Roma: o primeiro bispo daquela cidade a ser chamado papa (segundo a documentação disponível) foi João I, no século VI.

2. O episcopado.

Em contraste com o papado, a instituição episcopal deita raízes sólidas na origem do cristianismo, pois se refere a uma função já existente no sistema sinagogal judeu.  A palavra ‘bispo’ (que significa ‘supervisor’) se encontra diversas vezes nos textos do novo testamento (1Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1Pd 2, 25 e At 20, 29), assim como o substantivo ‘episcopado’ (1Tm 3, 1). Nas sinagogas judaicas, o ‘episcopos’ era responsável pela boa ordem nas reuniões e as primeiras comunidades cristãs nada mais fizeram que adotar e adaptar o nome e a função.

3. A luta pelo poder.

A partir do século III se desencadeou, entre os bispos das quatro principais metrópoles do império romano (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma), uma dura luta pelo poder. Essa luta era particularmente dramática na parte oriental do império, onde se falava a língua grega. Os bispos em litígio foram chamados ‘patriarcas’, um termo que acopla o ‘pater’ grego com o poder político (‘archè’, em grego, significa ‘poder’). O patriarca é ao mesmo tempo pai e líder político. Nos inícios, Roma não participava muito dessa disputa, por se situar longe dos grandes centros do poder da época e usar uma língua menos universal (só usada na administração e no exército), o latim. Por sua vez, Jerusalém, cidade ‘matriz’ do movimento cristão, ficou fora do páreo por ser uma cidade de pouca importância política.

Mas, mesmo assim, Roma se fazia valer na parte ocidental do império. O já citado bispo Cipriano, de Cartago, reagiu com energia diante das pretensões hegemônicas do bispo de Roma e insistiu: entre bispos tem de reinar uma ‘completa igualdade de funções e poder’. Mas o curso da história foi implacável. Os sucessivos patriarcas de Roma conseguiram ampliar sua autoridade e elevaram sempre mais o tom da voz, principalmente após a bem sucedida aliança com o emergente poder germânico no ocidente (Carlos Magno, 800). As relações com os patriarcas orientais (principalmente com o patriarca de Constantinopla) se tornaram sempre mais tensas até que se chegou à ruptura de 1052. Aí começou a história da igreja católica apostólica romana propriamente dita.

4. O papa fica do lado dos mais fortes.

Uma vez ‘dona do pedaço’, Roma foi elaborando de forma sempre mais sofisticada a ‘arte da corte’, aprendida em Constantinopla. Praticamente todos os governos da Europa ocidental aprendem a arte diplomática com Roma. Trata-se de uma arte nada edificante, que inclui hipocrisia, mentira, aparência, habilidade em lidar com o povo, impunidade, sigilo, linguagem codificada (inacessível aos de fora), palavras piedosas (e enganosas), crueldade encoberta de caridade, acumulação financeira (indulgências, ameaça do inferno, pastoral do medo etc.). A imponente ‘História criminal do cristianismo’, em 10 volumes, que o historiador K. Deschner acaba de concluir, descreve essa arte eminentemente papal em detalhes.

Foi principalmente por meio da arte diplomática que, ao longo da idade média, o papado teve sucessos fenomenais. Sem armas, Roma enfrentou os maiores poderes do ocidente e saiu vitoriosa (Canossa 1077). Um dos resultados foi, no dizer do historiador Toynbee, a ‘embriaguez da vitória’. O papa começou a perder contato com a realidade e passou a viver num universo irreal, repleto de palavras sobrenaturais (que ninguém entendia). Como bem observa Ivone Gebara, algumas delas ainda hoje estão em voga, como quando se diz que o Espírito Santo elegerá o próximo papa.

Com o advento da modernidade, o papado perdeu paulatinamente espaço público. No século XIX, principalmente durante o longo pontificado de Pio IX, ficou claro que a antiga estratégia de se opor aos ‘poderes deste mundo’ não funcionava mais. Não trazia mais vitórias, só registrava derrotas. Então, o papa Leão XIII resolveu mudar a estratégia e iniciou uma política de apoio aos mais fortes. Essa estratégia funcionou durante todo o século XX: Bento XV saiu da primeira guerra mundial ao lado dos vitoriosos; Pio XI apoiou Mussolini, Hitler e Franco, enquanto Pio XII praticou uma política do silêncio diante dos crimes contra a humanidade perpetrados durante a segunda guerra mundial, à custa de inumeráveis vidas humanas. Após uma breve interrupção com João XXIII, a política de apoio silencioso aos fortes (e de palavras genéricas de consolo aos perdedores) prossegue até os nossos dias.

5. Hoje, o papado é um problema.

Por tudo isso se pode dizer hoje que o papado não é uma solução, mas um problema. Não se diz o mesmo do episcopado, que registra, nos últimos tempos, páginas luminosas. Além dos bispos mártires (como Romero e Angelelli), tivemos, aqui na América Latina, uma geração de bispos excepcionais entre os anos 196 e os anos 1990. Além disso, o concílio Vaticano II avançou a ideia da colegialidade episcopal, no intuito de fortalecer o poder dos bispos e limitar o poder do papa. Mas tudo esbarrou num muro intransponível, feito de mistura entre preguiça mental (a lei do menor esforço), fascínio pelo poder (Walter Benjamin), disponibilidade do fraco diante do poderoso (Machiavelli) e arte cortesã (Norbert Elias). Mesmo assim, vale lembrar que o catolicismo é maior que o papa e que a importância dos valores veiculados pelo catolicismo é maior que o atual sistema de seu governo.

6. Pode a igreja católica subsistir sem papa?

Perguntar se a igreja católica pode subsistir sem papa é o mesmo que perguntar se a França pode subsistir sem rei, a Inglaterra sem rainha, a Rússia sem czar, o Irã sem aiatolá. A França não se acabou com a morte do rei Luis XIV e o Irá certamente não se acabará com o fim do reino dos aiatolás. Haverá certamente resiliências e saudosismos, tentativas de volta ao passado, mas as instituições não morrem com mudanças de governo. Em geral, o movimento da história em direção à maior democracia e participação popular e inegável. Cedo ou tarde, a igreja católica terá de enfrentar a questão da superação do papado por um sistema de governo central mais condizente com os tempos que vivemos.

Concluindo se pode dizer que a atual ânsia em fazer prognósticos acerca do futuro papa pode ter um efeito contraproducente. Pois não se trata do papa, mas do papado como tipo de governo. O comportamento da grande mídia, nestes dias, comprova o que escrevo aqui. Ela não focaliza o papado, mas o papa. Com isso reforça a síndrome papal. Para a TV, o papa é um grande negócio. O sucesso do enterro do papa João Paulo II, alguns anos atrás, mostrou aos planejadores da grande mídia as potencialidades financeiras de grandes eventos papais. É por isso que a grande mídia hoje é tão ‘catequética’, ela divulga os pontos básicos do catecismo papal: o papa é o sucessor de Pedro, o primeiro papa; a eleição de um papa, em última análise, é obra do Espirito Santo; não se pode perder a indulgência plenária concedida excepcionalmente por Deus por ocasião da primeira bênção do novo papa. É o que veremos nas próximas semanas. Talvez seja melhor não falar muito do papa nestes dias, mas trabalhar sobre temas que preparem a igreja do futuro.

Termino trazendo aqui dois exemplos recentes em torno dessa problemática. Poucas pessoas sabem que, nos idos de 1980, o cardeal Aloísio Lorscheider chegou a discutir com o papa João Paulo II acerca da descentralização do poder na igreja. Não existe registro escrito ou fotografado dessa discussão, mas parece que o papa se mostrou aberto às sugestões do cardeal brasileiro, conforme consta na encíclica ‘Ut unum sint’. Esse ponto foi comentado por José Comblin num de seus últimos trabalhos: ‘Problemas de governo da igreja’ (veja internet). Penso que o papa só não avançou porque não percebia, na igreja, uma real vontade política em avançar na direção da descentralização do governo. Nesse caso, ficou claro que o problema não é o papa, mas o papado.

Um exemplo bem diferente, mas que aponta na mesma direção, é dado por outro bispo brasileiro, Helder Câmara. Chegando a Roma para participar do concílio Vaticano II (ele não tinha viajado à Europa antes), o bispo brasileiro estranhou os comportamentos na corte romana ao ponto de ter alucinações, como conta em suas cartas circulares. Certa vez, por ocasião de uma sessão na basílica de São Pedro, ele teve a impressão de ver o imperador Constantino invadir a igreja montado num garboso cavalo em pleno galope. Outra vez, ele sonhou que o papa ficou louco, jogou sua tiara no Tibre e atou fogo no Vaticano. Ele dizia, em conversas informais: o papa faria bem em vender o Vaticano à Unesco e alugar um apartamento no centro de Roma. Pude verificar pessoalmente, em diversas ocasiões, como Dom Helder detestava o ‘sigilo papal’ (um dos instrumentos do poder de Roma). Ao mesmo tempo, o bispo brasileiro mantinha uma amizade sincera com o papa Paulo VI, o que mostra, mais uma vez, que o problema não é o papa, mas sim o papado enquanto instituição.

Um discurso de despedida a ser lido com atenção

O texto abaixo está em espanhol e foi extraído do Boletim de Notícias (VISES) do Vaticano de 15 de fevereiro passado. É um pronunciamento de Bento XVI ao clero de Roma sobre o Concílio Vaticano II. Há afirmações teológicas interessantíssimas, sobretudo no campo da eclesiologia, e que nos ajudam a entender o contexto da renúncia.

BENEDICTO XVI: LA ALEGRÍA DEL CONCILIO

Ciudad del Vaticano, 15 febrero 2013 (VIS).-Ofrecemos a continuación amplios extractos de la charla que el Santo Padre dio ayer, en un clima cordial y amistoso, al clero de Roma en el Aula Pablo VI.

“Fuimos al Concilio no sólo con alegría, sino con entusiasmo. Había una expectativa increíble. Teníamos la esperanza de que todo se renovase, de que llegase un nuevo Pentecostés… de encontrar de nuevo la unión entre la Iglesia y las mejores fuerzas en el mundo, para abrir el futuro de la humanidad, para abrir el progreso real. Empezamos a conocernos unos a otros y esta fue ya una experiencia de la universalidad de la Iglesia y de su realidad concreta que no se limita a recibir los imperativos desde lo alto, sino que crece y avanza en conjunto, naturalmente bajo la dirección del Sucesor de Pedro. Las cuestiones planteadas a los padres conciliares eran “la reforma de la liturgia… la eclesiología… la Palabra de Dios, la Revelación y, por último, el ecumenismo”.

“En retrospectiva, creo que fue muy bueno comenzar por la liturgia, así se mostraba la primacía de Dios, la primacía de la adoración….El Concilio ha hablado de Dios y éste ha sido su primer acto: hablar de Dios y abrir a toda la gente, a todo el pueblo santo a la adoración de Dios, en la celebración común de la liturgia del Cuerpo y la Sangre de Cristo (…) Luego estaban los principios: la inteligibilidad, para no estar encerrados en un idioma que no se conoce y no se habla; y la participación activa. Por desgracia, estos principios a veces se malinterpretaron. La inteligibilidad no quiere decir trivialidad, ya que los grandes textos de la liturgia – aún cuando estén, gracias a Dios, en la lengua materna – no son fácilmente inteligibles; necesitan una formación permanente del cristiano para que crezca y entre más profundamente en el misterio, y así pueda entender”.

“Segundo tema: la Iglesia … Se quería decir y comprender que la Iglesia no es una organización, algo estructural, legal, institucional – que también es – sino que es un organismo, una realidad viva, que entra en mi alma, y que yo mismo, con mi propia alma de creyente , soy un elemento constructivo de la Iglesia como tal… La Iglesia no es una estructura; nosotros mismos, los cristianos, juntos, todos somos el Cuerpo vivo de la Iglesia. Y, por supuesto, esto es cierto en el sentido de que nosotros, el verdadero “nosotros” de los creyentes, junto con el “yo” de Cristo, es la Iglesia, cada uno de nosotros, no “un nosotros”, un grupo que se declara Iglesia”.

“La primera idea era completar la eclesiología en forma teológica, pero continuando de una manera estructural, es decir, al lado de la sucesión de Pedro, de su función única, definir mejor también la función de los obispos, del cuerpo episcopal. Y para hacer esto, se encontró la palabra “colegialidad”, muy discutida con debates intensos, yo diría, algo exagerados. Pero era la palabra… para expresar que los obispos, juntos, son la continuación de los Doce, del Cuerpo de los Apóstoles. Dijimos: sólo un obispo, el de Roma, es el sucesor de un determinado apóstol, Pedro ….Así, el Cuerpo de los Obispos, el Colegio, es la continuación del Cuerpo de los Doce, y con ello tiene su necesidad, su función, sus derechos y deberes”.

“Otra cuestión en ámbito eclesiológico fue definir el concepto de “pueblo de Dios” que “implica la continuidad de los Testamentos, la continuidad de la historia de Dios con el mundo, con los hombres, e implica también el ‘elemento cristológico’. Sólo a través de la cristología nos convertimos en Pueblo de Dios y así se unen los dos conceptos. Y el Concilio ha decidido crear una construcción trinitaria de la eclesiología: Pueblo de Dios Padre, Cuerpo de Cristo, Templo del Espíritu Santo… El nexo entre el Pueblo de Dios y el Cuerpo de Cristo, es efectivamente la comunión con Cristo en la unión eucarística. Así nos convertimos en Cuerpo de Cristo; es decir, la relación entre el Pueblo de Dios y el Cuerpo de Cristo crea una nueva realidad: la comunión”.

“En la cuestión sobre la Revelación el fulcro era la relación entre la Escritura y la Tradición … Lo importante ciertamente es que las Escrituras son la Palabra de Dios y la Iglesia está bajo las Escrituras, obedece a la Palabra de Dios, y no está por encima de la Escritura. Sin embargo, la Escritura es Escritura sólo porque hay una Iglesia viva, su sujeto vivo; sin el sujeto vivo de la Iglesia, la Escritura es sólo un libro abierto a diferentes interpretaciones y no da una claridad definitiva”. En este sentido “fue decisiva la intervención del Papa Pablo VI… que propuso la fórmula “nos omnis certitudo de veritatibus fidei potest sumi ex Sacra Scriptura”, es decir la certeza de la Iglesia sobre la fe no nace sólo de un libro aislado, sino que necesita del sujeto Iglesia iluminado, que aporta el Espíritu Santo. Solo así la Escritura habla y tiene toda su autoridad”

“Y, por último, el ecumenismo. No quisiera entrar ahora en estos problemas, pero era obvio que – sobre todo después de las “pasiones” de los cristianos en la época del nazismo- que los cristianos podían encontrar la unidad, o por lo menos buscarla; pero también estaba claro que sólo Dios puede dar la ‘unidad. Y todavía proseguimos este camino”.

“La segunda parte del Concilio fue mucho más amplia. Apareció, con gran urgencia, el tema: mundo de hoy, era moderna, e Iglesia, y con el los temas de la responsabilidad de la construcción de este mundo, de la sociedad, la responsabilidad por el futuro del planeta mundo y la esperanza escatológica; la responsabilidad ética del cristiano…y también la libertad religiosa, el progreso, y la relación con otras religiones. En ese momento, entraron en discusión realmente todas las partes del Concilio, no sólo los Estados Unidos a quienes importaba mucho la libertad religiosa… también entró con gran fuerza América Latina, sabiendo de la miseria del pueblo en un continente católico, y la responsabilidad de la fe por la situación de estos hombres. Y así, África, Asia, percibieron igualmente la necesidad de un diálogo interreligioso… El gran documento “Gaudium et Spes”, analizó muy bien el problema entre escatología cristiana y progreso mundano, incluyendo la responsabilidad de la sociedad del mañana y las responsabilidades del cristiano ante la eternidad, y así también renovó la ética cristiana desde los cimientos… El fundamento de un diálogo, en la diferencia, en la diversidad, en la fe en la unicidad de Cristo, que es uno, y no es posible para un creyente pensar que las religiones son variaciones sobre un mismo tema. No, hay una realidad del Dios vivo, que ha hablado, y es un Dios, un Dios encarnado, por lo tanto, una Palabra de Dios, que es realmente la Palabra de Dios. Pero también hay una experiencia religiosa, con una determinada luz humana sobre la creación y, por tanto es necesario y posible entrar en diálogo, y así abrirse a los demás y abrir todos a la paz de Dios, de todos sus hijos, y de toda su familia”

“Me gustaría añadir todavía un tercer punto…. el Concilio de los medios de comunicación. Era casi un Concilio de por sí, y el mundo vio el Concilio a través de ellos. El “Concilio de los periodistas”, no se llevó a cabo, por supuesto, dentro de la fe, sino dentro de las categorías de los medios, es decir fuera de la fe, con una hermenéutica diferente… Una hermenéutica política. Para los medios de comunicación, el Concilio era una lucha política, una lucha por el poder entre las diferentes corrientes de la Iglesia….. Había un problema triple: el poder del Papa trasladado al poder de los obispos y al poder de todos: la soberanía popular. Y lo mismo pasaba con la liturgia: no interesaba la liturgia como un acto de fe, sino como algo donde las cosas se hacen comprensibles, un tipo de actividad de la comunidad…. Esas traducciones, esa trivialización de la idea del Concilio fueron virulentas en la práxis de la aplicación de la reforma litúrgica; nacían de una visión del Concilio fuera de su propia clave, la de la fe”.

“Sabemos que este Concilio de los medios de comunicación era accesible a todos. Por lo tanto, fue el dominante, el más eficiente, y creó muchas calamidades, problemas y miserias… Y el verdadero Concilio encontró dificultad para concretarse y realizarse; el Concilio virtual era más fuerte que el Concilio real. Pero la fuerza del Concilio estaba presente y, poco a poco, se realiza cada vez más y se convierte en la verdadera fuerza, que es, después, la verdadera reforma, la renovación verdadera de la Iglesia. Me parece que después de cincuenta años, vemos cómo este Concilio virtual se rompe, se pierde y aparece el Concilio auténtico, con toda su fuerza espiritual”.

Papa denuncia divisão no clero e ‘hipocrisia religiosa’ em última grande missa

DA EFE

Sucessão Papal O papa Bento 16, que renunciará ao pontificado no próximo dia 28, oficiou nesta quarta-feira sua última grande missa, na qual se mostrou visivelmente emocionado com o afeto dos fiéis e denunciou que a divisão no clero e a falta de unidade desfiguram o rosto da Igreja.

Em uma basílica de São Pedro do Vaticano lotada, o papa rezou a missa da Quarta-Feira de Cinzas, que abre a Quaresma, e destacou a importância do testemunho de fé e da vida cristã de cada um dos seguidores de Cristo para mostrar a verdadeira cara da igreja.

O pontífice acrescentou que, no entanto, muitas vezes esse rosto “aparece desfigurado”.

Alessandro Bianchi/Reuters
Bento 16 reza missa da Quarta-Feira de Cinzas, na basílica de São Pedro
Bento 16 reza missa da Quarta-Feira de Cinzas, na basílica de São Pedro

“Penso em particular nos atentados contra a unidade da igreja e nas divisões no corpo eclesiástico”, afirmou o papa, que acrescentou que é preciso viver a Quaresma de uma maneira intensa, superando “individualismos e rivalidades”.

Bento 16 também disse que Jesus denunciou a “hipocrisia religiosa, o comportamento de que buscam o aplauso e a aprovação do público”.

“O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao público, mas ao Senhor, de maneira singela, simples e generosa”, ressaltou o papa, que acrescentou que o testemunho do cristão será mais incisivo quanto menos busque a glória.

Em sua segunda aparição pública após o anúncio da renúncia –a primeira foi também hoje, na audiência pública das quartas-feiras–, Bento 16 falou sobre sua decisão e pediu orações pela Igreja.

“As circunstâncias sugeriram que nos reunamos em torno do túmulo de São Pedro para pedir pela Igreja neste particular momento, renovando nossa fé em Cristo. Para mim é a ocasião para agradecer a todos quando me disponho a concluir meu Ministério e para lhes pedir que me tenham em suas preces”, disse.

‘EM PLENA LIBERDADE’

Essas palavras foram a continuação das expressadas durante a audiência pública, nas quais assegurou que decidiu renunciar ao pontificado “em plena liberdade, para o bem da Igreja”, e após “ter orado muito” e examinado sua “consciência diante de Deus”.

O papa acrescentou nesse encontro público que é “ciente” da “importância” do fato, mas também de “não ser capaz de promover o Ministério de Pedro com a força física e o espírito que ele requer”.

O pontífice reconheceu que estes são dias “nada fáceis” para ele, mas que notou “quase fisicamente a força da prece do amor da Igreja”.

QUARESMA

Na homilia da missa da Basílica de São Pedro, Bento XVI disse também que a Quaresma é um tempo de conversão, e exortou os fiéis a “retornar a Deus”, afirmando que esse retorno se tornará realidade quando a graça do Senhor entrar nos homens e cortar seus corações.

O bispo de Roma reiterou as práticas tradicionais da esmola, o jejum e a prece neste tempo de Quaresma como caminhos para retornar a Cristo.

Após a homilia, o cardeal Angelo Comastri, arcipreste da basílica de São Pedro, impôs as cinzas ao papa.

Depois, Bento 16 as impôs a ele, ao secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone; ao cardeal decano, Angelo Sodano, e a vários frades.

Concluída a missa, Bertone expressou a Bento 16 a “tristeza” da igreja por sua renúncia ao pontificado, uma decisão, disse, que demonstra “sua pureza de coração, sua humildade, docilidade e coragem”.

“Não seríamos sinceros se não lhe disséssemos que hoje há um véu de tristeza em nossos corações”, disse Bertone, que ressaltou que este ato revela que “a pureza de mente, a fé forte e exigente, a força da humildade e docilidade, junto com uma grande coragem marcaram cada passagem de sua vida e de seu ministério”.

Após as palavras de Bertone, o papa, comovido, foi amplamente aplaudido por vários minutos.

Bento 16 se retirará no próximo domingo durante uma semana para exercícios espirituais, que terminarão no dia 23. Durante esse período, o papa não vai realizar atos públicos.