Assange: Wikileaks criou um novo tipo de jornalismo

Pouco antes de entregar-se às autoridades britânicas, Julian Assange enviou ao jornal The Australian um texto em que defende a publicação dos documentos pelo Wikileaks e afirma que o site criou um novo tipo de jornalismo. O jornalismo científicoEm 1958 um jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor do “The News” de Adelaide(Austrália), escreveu: “Na corrida entre o segredo e a verdade, parece inevitável que a verdade sempre vença.”

Sua observação talvez tenha sido um reflexo da revelação de seu pai, Keith Murdoch, sobre o sacrifício desnecessário de tropas australianas nas costas de Gallipoli, por parte de comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não seria silenciado e seus esforços levaram ao termino da desastrosa campanha de Gallipoli.

Quase um século depois, o Wikileaks também publica sem medo fatos que precisam ser tornados públicos.

Eu cresci numa cidade do interior do estado de Queensland, onde as pessoas falavam de maneira curta e grossa aquilo que pensavam. Eles desconfiavam do governo (‘big government’) como algo que poderia ser corrompido caso não fosse vigiados cuidadosamente. Os dias sombrios de corrupção no governo de Queensland, que antecederam a investigação Fitzgerald, são testemunhos do que acontece quando políticos impedem a mídia de reportar a verdade.

Essas coisas ficaram comigo. O Wikileaks foi criado em torno desses valores centrais. A ideia concebida na Austrália era usar as tecnologias da internet de maneira a reportar a verdade. O Wikileaks cunhou um novo tipo de jornalismo: o jornalismo científico. Nós trabalhamos com outros suportes de mídia para trazer as notícias para as pessoas, mas também para provar que essas notícias são verdadeiras. O jornalismo científico permite que você leia as notícias, e então clique num link para ver o documento original no qual a notícia foi baseada. Desta maneira você mesmo pode julgar: Esta notícia é verdadeira? Os jornalistas a reportaram de maneira precisa?

Sociedades democráticas precisam de uma mídia forte e o Wikileaks faz parte dessa mídia. A mídia ajuda a manter um governo honesto. Wikileaks revelou algumas duras verdades sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, e notícias defeituosas (‘broken stories’) sobre corrupção corporativa.

As pessoas afirmaram que sou anti-guerra: que fique registrado, eu não sou. Algumas vezes, nações precisam ir à guerra, e simplesmente há guerras. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir à sua população sobre estas guerras, e então pedir a estes mesmos cidadãos que coloquem suas vidas e o dinheiro de seus impostos a serviço destas mentiras. Se uma guerra é justificável, então diga a verdade e a população dirá se deve apoiá-la ou não.

Se você leu qualquer um dos relatórios de guerra sobre o Afeganistão e o Iraque, qualquer um dos telegramas das embaixadas estadunidense ou qualquer uma das notícias sobre as coisas que o Wikileaks tem reportado, considere quão importante é que toda a mídia possa reportar tais fatos livremente.

O Wikileaks não é o único que publicou os telegramas das embaixadas dos Estados Unidos. Outros suportes de mídia, incluindo o britânico The Guardian, o The New York Times, o El País e o Der Spiegel na Alemanha publicaram os mesmos telegramas. Porém é o Wikileaks como coordenador destes outros grupos, que tem sido alvo dos mais virulentos ataques e acusações por parte do governo estadunidense e seus acólitos. Eu tenho sido acusado de traição, mesmo sendo cidadão australiano e não estadunidense. Tem havido inúmeros sérios clamores nos EUA para que eu seja capturado por forças especiais estadunidenses. Sarah Palin diz que eu deveria ser “caçado como Osama Bin Laden”. Uma lei republicana tramita no senado norte-americano buscando declarar-me uma “ameaça transnacional” e tratar-me correspondentemente. Um assessor do gabinete do primeiro-ministro canadense clamou em rede nacional de televisão que eu fosse assassinado. Um blogueiro americano clamou para que o meu filho de 20 anos de idade aqui na Austrália fosse sequestrado e ferido por nenhum outro motivo além de um meio de chegar até mim.

E os australianos devem observar sem orgulho a desgraçada anuência a estes sentimentos por parte da Primeira ministra australiana Guillard e a secretária do Estado dos EUA Hillary Clinton, as quais não emitiram sequer uma palavra de crítica às demais organizações midiáticas. Isto por que o The Guardian, The New York Times e Der Spiegel são velhos e grandes, enquanto o Wikileaks é ainda jovem e pequeno.

Nós somos os vira-latas. O governo Guillard está tentanto atirar no mensageiro porque não quer que a verdade seja revelada, incluindo informações sobre as suas próprias negociações diplomáticas e políticas.

Houve alguma resposta por parte do governo australiano às inúmeras ameaças públicas de violência contra mim e outros colaboradores do Wikileaks? Não me parece absurdo supor que a primeira ministra australiana deveria estar defendendo os seus cidadãos de ações dessa natureza, porém, de sua parte, tem havido apenas alegações infundadas de ilegalidade. A Primeira ministra e especialmente o Procurador-Geral deveriam levar a cabo suas obrigações com dignidade e acima das disputas. Que fique claro que esses dois pretendem salvar a própria pele. Eles não conseguirão.

Toda vez que o Wikileaks publica a verdade sobre abusos cometidos pelas agências dos EUA, políticos australianos entoam o coro provavelmente falso com o Departamento de Estado: “Você colocará vidas em risco! Segurança nacional! Você colocará em perigo as nossas tropas!” E então eles dizem que não há nada de importante no que o Wikileaks publica.

Mas as nossas publicações estão longe de serem desimportantes. Os telegramas diplomáticos dos EUA revelam alguns fatos inquietantes:

Os EUA pediram a sua diplomacia para que roubassem material humano (“personal human material”) e informações de oficiais da ONU e grupos de direitos humanos, incluindo DNA, impressões digital, scans de íris, números de cartão de crédito, senhas da internet e fotos de identificação, em violação a tratados internacionais. É provável que diplomatas australianos da ONU também sejam alvos.

O Rei Abdullah da Arabia Saudita pediu aos oficiais dos EUA na Jordânia e Bahrein que interrompam o programa nuclear iraniano a qualquer custo.

A investigação britânica sobre o Iraque foi adulterada para proteger “interesses dos EUA”

A Suécia é um membro secreto da OTAN e a Inteligência dos EUA não divulga suas informações ao parlamento.

Os EUA está forçando a barra para tentar fazer com que outros países recebam detentos libertados de Guantanamo. Barack Obama concordou em encontrar o presidente esloveno apenas se a Eslovênia recebesse um prisioneiro. Nosso vizinho do Pacífico, Kiribati, foi oferecido milhões de dólares para receber detentos.

Em sua decisão histórica no caso dos Documentos do Pentágono, a Suprema Corte Americana disse: “ apenas uma impresa livre e sem amarras pode eficientemente expor fraudes no governo”. A tempestade turbulenta em torno do Wikileaks hoje reforça a necessidade de defender o direito de toda a mídia de revelar a verdade.

Justiça autoriza a ortotanásia no país

A Justiça Federal decidiu na semana passada dar respaldo aos médicos que optarem por não tentar prolongar a vida de doentes terminais, sem chances de cura e cujas famílias concordem com a opção –a ortotanásia.A proteção passou a existir porque a Justiça Federal no Distrito Federal reviu liminar dela própria, de 2007, que tornava nula resolução do Conselho Federal de Medicina, que permitia aos médicos praticar a ortotanásia.

A nova posição foi tomada após o Ministério Público Federal, autor do pedido da nulidade, também ter alterado sua opinião. A decisão foi revelada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, na edição de anteontem.

“Sobre muito refletir a propósito do tema, chego à convicção de que a resolução, que regulamenta a possibilidade de o médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente na fase terminal, realmente não ofende o ordenamento jurídico”, disse, na decisão, o juiz Roberto Luis Luchi Demo.
Diferentemente da ortotanásia, a eutanásia é ilegal no Brasil -opção em que a morte de paciente terminal é induzida pelo médico.

Em sua primeira avaliação, o Ministério Público entendeu que a norma do conselho extrapolava as competências do órgão, tanto no âmbito legal quanto cultural.
A nova procuradora do caso, Luciana Loureiro Oliveira, discordou do posicionamento, citando, principalmente, a diferença entre a eutanásia e a ortotanásia.

Presidente do conselho federal, Roberto Luiz d’Avila afirma que, ainda que a ortotanásia não fosse proibida por lei, a medida judicial dá mais segurança ao médico.
“Muitos ficavam inseguros, pois não havia proteção legal para a prática. Eles até faziam procedimentos desproporcionais. O posicionamento do conselho e a própria liminar despertaram discussão positiva”, disse.

No final do ano passado, o conselho aprovou novo código de ética, em que já aparecia respaldo para a ortotanásia. “Agora, há mais segurança se médico e família entenderem não ser mais adequado pedir exames, colocar o paciente no respirador”, disse o presidente da entidade.

Apesar da restrição que havia sido imposta pela Justiça, d’Avila diz desconhecer qualquer caso de médico que tenha sido punido por ter praticado a ortotanásia.
O conselho afirma que a prática só é aplicada em casos específicos: pacientes na fase terminal de doença crônica e progressiva, com o consentimento do próprio doente ou da família.

Kaká e mulher rompem com a Igreja Renascer, diz revista

 . Foto: AgNews

Caroline disse à revista que o tempo dela na Renascer “acabou” e que pode afirmar é que sua “busca constante é somente por Deus”. Ela não quis explicar os motivos da decisão. Ainda segundo a reportagem, Kaká ligou pessoalmente para Estvam Hernandes para confirmar o desligamento, alegando “motivos pessoais” para o rompimento.

Polêmicas
A Renascer está envolvida em diversas polêmicas. No ano passado, a Justiça Federal em São Paulo condenou Estevam e Sonia Hernandes a quatro anos de prisão pelo crime de evasão de divisas. Em janeiro de 2007, eles chegam a Miami, nos EUA, com cerca de US$ 56 mil escondidos em uma bolsa, foram presos e condenados pela Justiça americana. Em janeiro de 2009, o teto da antiga sede da igreja em São Paulo desabou, deixando sete mortos. Nestas ocasiões, Kaká sempre manifestou publicamente apoio ao casal fundador da Renascer.

Menino Jesus era traquinas e até fazia malvadezas, mostra livro de padre

Livro de franciscano mostra um Jesus travesso na infância

Um menino Jesus traquinas, que subia nos telhados, quebrava os cântaros alheios, brincava com leõezinhos, apaziguava dragões, transformava crianças em carneiros e, vez ou outra, fazia também malvadezas. Zangado, podia amaldiçoar e punir com a morte quem lhe enfrentasse. Outras vezes, para tirar uma história a limpo e provar que não tinha culpa de uma morte casual, ressuscitava mortos para que contassem o que aconteceu, depois os mandava dormir o sono eterno outra vez.

Em “Infância Apócrifa do Menino Jesus: histórias de ternura e de travessuras” (Vozes), o padre franciscano Jacir de Freitas Faria pesquisou em textos antigos, chamados de evangelhos apócrifos, ou seja, que não entraram na lista oficial para a Bíblia, e descobriu que Cristo foi uma criança sábia, inteligente, obediente aos pais, mas também muito peralta. Segundo ele, todos os textos pesquisados convergem para um mesmo ponto: “demonstrar o poder do Menino Jesus, sua divindade e sua humanidade”.

Segundo os evangelhos apócrifos, Jesus foi concebido, através do Espírito Santo, no dia 6 de abril, numa terça-feira, às 15h. Ainda bebê, já era capaz de fazer milagres. Tocar nele ou nas suas fraldas era cura certa para todos os males e um expulsa demônios. A água de seu banho livrava leprosos da enfermidade. No colo de uma muda, ela voltou a falar. Onde ele chegou, ladrões e demônios fugiram e animais ferozes se converteram em mansos. O povo, ao ver tais eventos, dizia: “eles não podem ser simples mortais”.

Já maior, costumava brincar com amiguinhos. Certa feita, nas terras de Moab, um deles subiu no muro do terraço e caiu de lá, bateu a cabeça numa pedra e morreu. Por medo do castigo dos pais, as outras crianças culparam o pequeno estrangeiro, Jesus, dizendo que ele tinha empurrado o menino de cima do muro. Interrogado, Jesus tentou explicar o acontecido, mas as testemunhas o incriminavam. Aborrecido, ele, então, ressuscitou o morto e lhe ordenou que contasse a verdade. Depois, mandou que voltasse ao mundo dos mortos outra vez.

Outra vez, de novo com amiguinhos, brincava de fazer laguinhos interligados à beira do rio Jordão quando um dos meninos fechou a entrada da água para os canais. “Ai de ti, filho de morte, filho de Satanás. Ousas destruir o que eu fiz?”, disse Jesus. Naquele instante, o menino caiu morto. Aflitos com a repercussão do caso, José e Maria pediram ao filho que não usasse sua força divina dessa forma. Então, para não entristecer a mãe, ele ordenou que o menino ressuscitasse. E assim foi.

A lista de histórias é de assombrar. Segundo padre Jacir, apesar dos textos apócrifos, jamais poderemos afirmar com certeza como foi a infância de Jesus. Afinal, esses relatos foram escritos no auge de disputas teológicas sobre a divindade e a humanidade de Jesus. E, para muita gente, “são pura fantasia”. Mas, para o padre, eles têm o grande mérito de dar uma infância a Jesus e de mostrar que ele foi um menino igual aos outros. Ou seja, apesar sua divindade, fazia traquinagens e precisava, vez ou outra, do velho puxão de orelha dos pais.

Mortalidade infantil do País pode atingir meta da ONU em 5 anos

A taxa de mortalidade infantil manteve queda no Brasil nos últimos dez anos. Conforme os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2009 os óbitos foram de 22,47 para mil nascimentos. Caso o País consiga manter a queda nos índices, o Brasil irá atingir a meta do milênio estabelecida pela ONU em cinco anos.

Em 2000, 30,07 crianças morriam a cada mil nascimentos. Conforme o cálculo baseado nos dados do IBGE. Em 10 anos, o Brasil conseguiu diminuir 25% da taxa registrada.

Os dados do instituto também mostraram que o perfil desse índice mudou ao longo das décadas. Por volta de 1980, os óbitos ocorridos entre o nascimento e o primeiro mês de vida, eram menores em relação aos óbitos pós-neonatais, aqueles ocorridos de um mês até um ano de vida.

De acordo com Juarez de Castro Oliveira, gerente da Coordenação de População e de Indicadores Sociais do IBGE, a diminuição do percentual de óbitos pós-neonatais é indicativo de uma melhoria dos serviços sociais, como aleitamento materno, acompanhamento de gestantes e recém-nascidos, além de relativa expansão do saneamento básico.

“A tendência de países desenvolvidos é que a taxa de óbitos neonatais seja maior do que a de óbitos pós-neonatais”, explicou.

Apesar da boa notícia, o Brasil continua atrás de países latinos vizinhos, como Colômbia, Venezuela, México, Argentina e Uruguai.

Dia internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher

Hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. Mas a Lei Maria da Penha ainda é pouco aplicada

Outro dia eu estava no ônibus em São Paulo quando ouvi uma história que gostaria de dividir aqui especialmente hoje, 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

A caminho do trabalho, duas moças comentavam sobre uma agressão sofrida por uma conhecida. Ela teria sido atacada pelo marido (ou companheiro) com uma panela de água fervente. A agredida não tomou posição ou denunciou o agressor, constrangida com o fato ocorrido durante a briga do casal.

A história se repete com outros personagens em diferentes lugares do mundo. Mas fatos como este devem nos lembrar, não só no dia de hoje, que uma em cada três mulheres é vítima de violência doméstica ao redor do mundo. Na maioria das vezes, agredidas por companheiros, parentes e pessoas próximas ao convívio familiar.

De acordo com a ONU, 40% das mulheres são vítimas de violência física na América Latina, sendo 27% adolescentes. Em alguns países a violência psicológica chega a 60%. Esta violência também é a principal causa de morte ou deficiência de meninas e mulheres entre 15 e 49 anos.

Aquela que inspirou o movimento judiciário no Brasil a criar uma lei em prol das mulheres agredidas, Maria da Penha Fernandes sofreu duas tentativas de homicídio por parte de seu então marido, Marco Antonio Viveiros. Levou um tiro pelas costas enquanto dormia em 1983, que lhe deixou paraplégica. Anos depois, ele tentou eletrocutá-la enquanto tomava banho. Há quatro anos em rigor, a Lei Maria da Penha (11.340) ainda é pouco divulgada. Pior ainda, é pouco aplicada.

A partir desta semana, campanhas mundiais pelo fim da violência contra mulher são colocadas em pauta pela ONU e pelo seu braço feminino, a UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), aliados ao Instituto Avon, responsável por importantes pesquisas sociais e científicas em prol da mulher.

No Brasil, entra no ar o site Quebre o Ciclo (http://www.quebreociclo.com.br/), que estimula o debate na rede, focando principalmente estudantes e profissionais de Direito e Justiça. Em discussão, a violação dos direitos humanos das mulheres por meio de violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Alertando assim que não é apenas pelos hematomas corporais que podemos identificar a violência contra o gênero.

“Dizer não à violência contra as mulheres é adotar ações práticas, individuais e coletivas de denúncia e apoio às vítimas. A Lei Maria da Penha é uma das melhores legislações do mundo. Falta mais rigor na sua aplicação pelo sistema de justiça e segurança”, diz Rebeca Tavares, representante da UNIFEM-ONU no Brasil e Cone Sul.

No site, os internautas podem dividir experiências ou ouvir relatos por meio de vídeos. Na área Guia do Educador, há sugestões e conteúdo sobre atividades que podem ser usadas em salas de aula, ou grupos de reflexão.

Vale lembrar que o agressor de Maria da Penha demorou 18 anos para ser julgado e permaneceu apenas 2 em regime fechado. Vale lembrar ainda, que hoje, apesar de o atendimento à mulher funcionar 24 horas por dia pelo telefone 180, apenas 7% dos municípios brasileiros tem delegacias especializadas neste atendimento.

Vaticano amplia autorização a camisinha para combater aids

O papa Bento XVI fez uma declaração histórica reconhecendo que o uso de camisinhas é moralmente justificável em alguns casos para prevenir contra a aids, não apenas para garotos de programa homossexuais, mas também para heterossexuais e transexuais, disse o Vaticano nesta terça-feira.

O esclarecimento, o mais recente passo em direção ao que já está sendo visto como uma mudança significativa na política da Igreja Católica, foi feito durante uma entrevista coletiva para divulgar o novo livro do Papa: Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times (Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos).

No livro, uma longa entrevista com o jornalista católico alemão Peter Seewald, o papa usou o exemplo de que um garoto de programa estaria justificado em usar uma camisinha para prevenir contra a transmissão da doença.

O esclarecimento foi necessário porque as versões em alemão, inglês e francês do livro usaram o artigo masculino ao se referir ao “garoto de programa”, mas a versão italiana usou o artigo feminino (“prostituta”).

O padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, disse que havia perguntado ao Papa pessoalmente se havia uma distinção séria entre o uso do masculino ao invés do feminino e ele disse ‘não'”, disse Lombardi.

“Ou seja, a questão é que (o uso da camisinha) deveria ser o primeiro passo em direção à responsabilidade de se tornar ciente do risco à vida de outra pessoa com quem se está tendo uma relação”, disse Lombardi.

“Se é um homem, uma mulher ou um transexual que faz isso, defendemos sempre o mesmo ponto, de que é o primeiro passo de responsabilidade para prevenir contra a transmissão de um grave risco ao outro.”

A Igreja vem dizendo há décadas que camisinhas não fazem parte da solução no combate à Aids, apesar de não existir nenhuma política formal sobre o assunto em qualquer documento do Vaticano.

No livro, o papa diz que o uso de camisinhas deveria ser visto como “o primeiro passo em direção à moralização”, mesmo que camisinhas “não sejam realmente a forma de lidar com o mal da infecção do HIV.”

As palavras do papa e a explicação de Lombardi ¿ apesar de não mudarem a proibição de métodos contraceptivos pela Igreja Católica ¿ foram bem recebidas como sendo um avanço pelos católicos liberais, ativistas contra a aids e autoridades da saúde.

“Pela primeira vez o uso de camisinhas em circunstâncias especiais foi apoiado pelo Vaticano e isso é uma boa notícia e um bom começo para nós”, disse Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde.

Uso profilático de antirretroviral diminui infecção por HIV em até 94,9%

Estudo realizado por 11 centros de pesquisa de Brasil, Peru, Equador, Estados Unidos, África do Sul e Tailândia mostrou que o uso profilático do antirretroviral Truvada (que reúne as substâncias emtricitabina e tenofovir) pode reduzir o risco de infecção pelo vírus HIV em até 94,9%. Atualmente, o medicamento é usado apenas para o tratamento de pessoas já infectadas pelo vírus, mas não está disponível no Brasil.

A pesquisa contou com a participação de 2.499 voluntários, todos homens, homossexuais e com alto risco de contrair o vírus (estimado de acordo com o número de parceiros e a frequência com que fizeram sexo sem preservativo nos seis meses anteriores ao estudo). Eles foram divididos em dois grupos, um que recebeu o medicamento, e outro que recebeu placebo.

Todos os voluntários foram orientados a tomar um comprimido por dia. Receberam, também, o que é considerado atualmente o melhor pacote preventivo à infecção por HIV, que inclui testes mensais para a detecção do vírus, aconselhamento pré- e pós-teste, camisinhas, tratamento de doenças sexualmente transmissíveis para si e para os parceiros e exames semestrais para a detecção de uretrite assintomática e úlceras genitais, além de sorologia para herpes e sífilis –a presença de outras doenças facilita a infecção e transmissão pelo HIV.

Eles foram então acompanhados por até três anos. Ao fim desse período, foi constatado que a incidência de infecção por HIV foi 43,8% menor no grupo que recebeu o antirretroviral. O resultado, porém, considerou todos os voluntários recrutados para o estudo, independentemente de eles terem ou não tomado os comprimidos como indicado.

A proteção foi subindo à medida em que os pesquisadores foram selecionando aqueles com maior grau de adesão. Comparando apenas os voluntários que relataram ter tomado os comprimidos em pelo menos metade dos dias, o risco de infecção já foi 50,2% inferior. Entre os que relataram ter tomado o medicamento em no mínimo 90% dos dias, chegou a 72,8%.

O melhor resultado, porém, foi verificado em uma amostra dos voluntários com perfil semelhante que tinham praticado sexo anal passivo desprotegido e foram submetidos a testes para detectar a presença de medicamento no sangue –procedimento que não é realizado em todos devido aos custos envolvidos.

Nesses casos, a incidência da infecção pelo HIV foi 94,9% menor entre os que tinham resquícios do medicamento no sangue do que entre os que não tinham. A presença do medicamento significa que a pessoa tomou pelo menos um comprimido nos 14 dias anteriores à coleta –após esse período, os resquícios não são mais detectados.

A pesquisa também testou a segurança do uso do Truvada em pessoas saudáveis. Nas primeiras quatro semanas, o grupo que recebeu o medicamento teve maior incidência de náuseas do que o grupo que recebeu placebo. Em nenhum caso, porém, as náuseas foram fortes a ponto de levar à interrupção do tratamento.

Cinco (0,4%) dos voluntários que receberam a droga também tiveram elevação dos níveis de creatinina, sinal de danos aos rins. Após a suspensão do uso do medicamento, porém, o quadro voltou ao normal.

Ainda de acordo com a pesquisa, a frequência de outros efeitos colaterais foi a mesma nos dois grupos.

Os pesquisadores ressaltaram, porém, que as pessoas não devem tomar o medicamento por conta própria e nem abrir mão do uso de presevativos, considerada a medida mais eficaz disponível hoje para a prevenção da Aids.

No Brasil, a pesquisa foi conduzida pela Fiocruz, pela USP e pela UFRJ.

CNBB evita polêmica de declarações do papa sobre uso de preservativos

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), porta-voz da Igreja Católica no país, evitou nesta segunda-feira a polêmica criada em torno da declaração do papa Bento 16, que admitiu a utilização de preservativos em certos casos para reduzir o risco de transmissão do vírus da Aids.

Em um livro que será lançado nesta terça-feira na Alemanha e na Itália, Bento 16 afirma que o uso de preservativos é aceitável “em certos casos”, especialmente para reduzir o risco de infecção do HIV, mas insiste que não é a “verdadeira” maneira para combater a Aids –já que para ele é necessária uma “humanização da sexualidade”.

Consultada pela agência de notícias France Presse, uma porta-voz disse que a CNBB esperará até ter o livro original em mãos para comentar as declarações.

Já o governo brasileiro elogiou as declarações do papa, que classificou como “muito positivas”. “[Elas] nos permitem abrir uma discussão junto a grupos católicos que atuam na prevenção da Aids”, disse Eduardo Barbosa, diretor-adjunto do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, do Ministério da Saúde.

Segundo Barbosa, ao admitir o uso de preservativos em casos como a prostituição, o papa permitiu que “tenhamos a possibilidade de incluir os preservativos masculinos e femininos nas ações que desenvolvemos com grupos como a Pastoral da DST/Aids, que depende da CNBB”.

“Assim, poderemos incluir estes importantes agentes católicos em discussões sobre o sexo fora do casamento, por exemplo, e as possíveis ações sociais de prevenção de doenças. A credibilidade do papa abriu este espaço”, continuou.

Barbosa lembrou ainda que o Brasil acaba de comprar 1,2 bilhões de preservativos que serão distribuídos gratuitamente pela rede de saúde pública nos próximos dois anos, incluindo 20 milhões de preservativos femininos.

O assessor nacional da Pastoral da DST/Aids, frei Luiz Carlos Lunardi, disse que a declaração do papa “acrescenta um dado importante para o contexto da realidade atual da Aids” e “lança luz sobre os desafios concretos que representa a epidemia da Aids”.

“Em algumas situações, como indicou o papa, a pastoral pode considerar o uso do preservativo, sempre em direção ao bem maior que é salvar vidas”, completou.

OBRA

O livro do papa, intitulado “Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times” (Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais do Tempo, em tradução livre), é baseado em 20 horas de entrevistas conduzidas pelo jornalista alemão Peter Seewald.

Alguns capítulos do livro foram publicados neste domingo pelo jornal do Vaticano, o “L’Osservatore Romano”. Leia trechos

A declaração surpreendente, apesar de não questionar a proibição da camisinha na doutrina da Igreja, foi considerada um passo importante que muda a imagem ultraconservadora do pontífice alemão, segundo analistas.

“O papa deu o passo em um momento maduro, que já era esperado por muitos teólogos e conferências episcopais’, afirmou o vaticanista Luigi Accatoli do jornal “Corriere della Sera”.

A inédita abertura do chefe da Igreja Católica ao uso do preservativo, rejeitado de todos os modos até o momento, abre o debate dentro da instituição sobre uma aceitação ou não do uso da camisinha como um “mal menor” para salvar vidas.

Importantes nomes da Igreja, como os cardeais Carlo Maria Martini e o africano Peter Kodwo Appiah Turckson, já haviam se pronunciado publicamente a favor do uso da camisinha em casos específicos, como quando um dos membros do casal está contaminado.

A nova posição de Bento 16 certamente influenciará o debate, já que até agora a Igreja defendia apenas a abstinência como método de prevenção da doença, e apresenta um rosto mais humano e aberto do primeiro pontífice alemão da era moderna, que ficou conhecido como guardião do dogma durante o pontificado de João Paulo 2º.

Marilena Chauí: “A mídia brasileira é uma das mais autoritárias do mundo”

Na campanha eleitoral a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação. Entrevista concedida originalmente ao site Carta Maior

Carta Maior*

Em entrevista à Carta Maior, Marilena Chauí avalia a guerra eleitoral travada na disputa presidencial e chama a atenção para a dificuldade que a oposição teve em manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: “o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula”. Para a professora de Filosofia da USP, essa foi a novidade mais instigante da eleição: a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação. E esta última venceu.

Carta Maior: Qual sua avaliação sobre a cobertura da chamada grande mídia brasileira nas eleições deste ano? Na sua opinião, houve alguma surpresa ou novidade em relação à eleição anterior?

Marilena Chauí: Eu diria que, desta vez, o cerco foi mais intenso, assumindo tons de guerra, mais do que mera polarização de opiniões políticas. Mas não foi surpresa: se considerarmos que 92% da população aprovam o governo Lula como ótimo e bom, 4% o consideram regular, restam 4% de desaprovação a qual está concentrada nos meios de comunicação. São as empresas e seus empregados que representam esses 4% e são eles quem têm o poder de fogo para a guerra.

O interessante foi a dificuldade para manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou, então, para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula.

Isso me parece a novidade mais instigante, isto é, uma sociedade diretamente informada pelas ações governamentais que mudaram seu modo de vida e suas perspectivas, de maneira que a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação.

CM: Passada a eleição, um dos debates que deve marcar o próximo período diz respeito à regulamentação do setor de comunicação. Como se sabe, a resistência das grandes empresas de mídia é muito forte. Como superar essa resistência?

MC: Numa democracia, o direito à informação é essencial. Tanto o direito de produzir e difundir informação como o direito de receber e ter acesso à informação. Isso se chama isegoria, palavra criada pelos inventores da democracia, os gregos, significando o direito emitir em público uma opinião para ser discutida e votada, assim como o direito de receber uma opinião para avaliá-la, aceitá-la ou rejeitá-la.

Justamente por isso, em todos os países democráticos, existe regulamentação do setor de comunicação. Essa regulamentação visa assegurar a isegoria, a liberdade de expressão e o direito ao contraditório, além de diminuir, tanto quanto possível, o monopólio da informação.

Evidentemente, hoje essa regulamentação encontra dificuldades postas pela estrutura oligopólica dos meios, controlados globalmente por um pequeno número de empresas transnacionais. Mas não é por ser difícil, que a regulamentação não deve ser estabelecida e defendida. Trata-se da batalha moderna entre o público e o privado.

CM: Você concorda com a seguinte afirmação: “A mídia brasileira é uma das mais autoritárias do mundo”?

MC: Se deixarmos de lado o caso óbvio das ditaduras e considerarmos apenas as repúblicas democráticas, concordo.

CM: Na sua opinião, é possível fazer alguma distinção entre os grandes veículos midiáticos, do ponto de vista de sua orientação editorial? Ou o que predomina é um pensamento único mesmo.

MC: As variações se dão no interior do pensamento único, isto é, da hegemonia pós-moderna e neoliberal. Ou seja, há setores reacionários de extrema direita, setores claramente conservadores e setores que usam “a folha de parreira”. A folha de parreira, segundo a lenda, serviu para Adão e Eva se cobrirem quando descobriram que estavam nus.

Na mídia, a “folha de parreira” consiste em dar um pequeno e controlado espaço à opinião divergente ou contrária à linha da empresa. Às vezes, não dá certo. O caso do Estadão contra Maria Rita Kehl mostra que uma vigorosa voz destoante no coral do “sim senhor” não pode ser suportada.