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Uma interessante análise das eleições

 

Fernando Haddad. ReutersHaddad venceu no principal ninho tucano, acendendo um alerta para o PSDB em 2014

A vitória em São Paulo do novato em eleições Fernando Haddad, do PT, sobre uma das principais lideranças do PSDB, José Serra, acende um alerta no chamado “ninho tucano”. A repercussão do resultado, no entanto, vai além dos limites municipais, com forte eco em Brasília, já prenunciando a disputa para a Presidência em 2014.

O PSDB mantem número maior de prefeituras ganhas, 702, se comparado ao PT, com 635 executivos. Os dois partidos também são menos capilarizados que o PMDB, que conquistou 1.024 prefeituras país afora.

Para especialistas ouvidos pela BBC Brasil, os resultados são mais positivos ao PT, sobretudo por causa da vitória paulistana. Berço de petistas e tucanos, a cidade e o Estado de São Paulo tornaram-se uma espécie de fortaleza do PSDB nos últimos anos, frente ao avanço do PT no plano federal.

“O PT sai bastante fortalecido. Já no primeiro turno avancou 14% em número de prefeituras e sobretudo porque venceu na principal cidade brasileira. O PSDB é talvez o maior perdedor. Diminui cerca de 14% e perde São Paulo”, diz o cientista político Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas na capital paulista.

Para Marco Aurélio Garcia, cientista político da Unesp em Franca (SP), “o PSDB é o grande perdedor”, mesmo assegurando prefeituras importantes como as de Belém (PA), Manaus (AM), Maceió (AL) e Teresina (PI).

“O partido perdeu a joia da coroa (São Paulo). Apesar de manter prefeituras importantes, não mostrou um conteúdo programático, nem envergadura nacional. Parece que perdeu um pouco a capacidade de fazer política”, diz.

Para João Luiz Passador, do Centro de Estudos em Gestão e Políticas Públicas Contemporâneas da USP de Ribeirão Preto (SP), “a presidente Dilma (Rousseff) deve estar muito satisfeita, já que a base de sustentação do governo saiu vitoriosa”.

O PMDB manteve grande número de prefeituras, com destaque para a reeleição de Eduardo Paes em primeiro turno no Rio de Janeiro. O PSD de Gilberto Kassab (agora alinhado ao governo) conquistou 497 executivos, e o PP, 469. O PSB, que ensaia uma postura mais independente, ganhou 442 prefeituras.

Renovação do PSDB

José Serra. AFPEx-presidente FHC defendeu a renovação do PSDB, partido do candidato derrotado em SP, Serra (foto)

Apesar da “fragilização” do PSDB, os especialistas concordam que o partido se manterá no centro da política nacional nos próximos anos. Todos falam em necessidade de “renovação das lideranças tucanas”, ressoando a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, minutos após votar.

“O partido vai precisar de renovação. (…) A gente tem que empurrar os novos para ir para a frente”, disse FHC, em declarações à imprensa.

Para Passador, da USP, “o resultado em São Paulo foi uma grande chacoalhada no PSDB. Apesar da provável substituição de Serra por Aécio (Neves) como líder nacional, o partido precisa ser repensado. Parece que os tucanos perderam o charme. Com o PT ocupando o centro, o partido acabou sendo deslocado à direita”, diz.

Para Fonseca, da FGV, “o PSDB perdeu o discurso” e terá de reformulá-lo se quiser ter sucesso no futuro.

“O PSDB substituiu temas de políticas públicas por temas sociais, de maneira oportunista. Primeiro foi a questão do aborto nas eleições presidenciais. Agora foi a questão da homofobia em São Paulo. Isso afastou o PSDB do discurso moderno com o qual o nasceu. O partido acabou conservador”, diz.

PSB

Para os três especialistas, o PSB foi o grande destaque das eleições. Apesar do crescimento vertiginoso de mais de 40% no número de prefeituras, todos se mostram cautelosos em relação ao papel do partido nos próximos anos.

“O PSB é um partido em ascensão, com a figura em ascensão do Eduardo Campos. E tem um projeto nacional, mas ainda não é capaz de se sobrepor ao PT. Hoje o PT é um partido sem adversários à altura”, segundo Fonseca.

Para Nogueira, da Unesp, o PSB é ainda “um partido que orbita em torno de uma pessoa, Eduardo Campos”.

“Ele se projetou como liderança, mas ainda não dá para saber se o PSB terá musculatura para postular um papel maior já em 2014. Talvez vá se cacifar para 2018”, diz.

Engajamento eleitoral da Igreja Católica é inédito, diz dom Fernando Figueiredo

Bispo responsável por uma das igrejas mais assediadas por políticos em São Paulo –o Santuário do Terço Bizantino, do padre Marcelo Rossi–, dom Fernando Figueiredo admite nunca ter visto a Igreja Católica se envolver tão fortemente numa eleição municipal quanto neste ano.

“Já vi uma manifestaçãozinha aqui e acolá, mas jamais um pronunciamento oficial”, afirma, ao comentar a ação do arcebispo dom Odilo Scherer, que no primeiro turno determinou que padres lessem comunicado com críticas à campanha de Celso Russomanno (PRB).

À Folha, o bispo de Santo Amaro diz que abre as portas de seu Santuário para que os fiéis possam “conhecer melhor” os candidatos.

Rechaça, no entanto, que líderes religiosos indiquem nomes aos eleitores. Apesar disso, direcionou os maiores elogios a José Serra (PSDB), que concorre com Fernando Haddad (PT).

Alessandro Shinoda/Folhapress
Dom Fernando Figueiredo concede entrevista na sede da Diocese de Santo Amaro, em São Paulo
Dom Fernando Figueiredo concede entrevista na sede da Diocese de Santo Amaro, em São Paulo

Folha – O Santuário acabou se tornando alvo do périplo de políticos. Como vê isso?
Vejo o santuário como local de congregação do nosso povo. Isso não só chama a atenção da imprensa, como também dos políticos, que têm ali acesso a um grupo bastante grande para se apresentar. Muitos deles vão movidos também pela fé. Gostaria que todos fossem assim.

O objetivo político incomoda?
Eu não pergunto a ninguém se foi lá por razão política ou religiosa. Cabe à pessoa.

É positiva essa aproximação dos políticos com as igrejas?
É um modo de eles se apresentarem e também de nós os conhecermos. Para votar, creio que uma das leis máximas é justamente conhecer e conhecer bem o candidato. É verdade que eles vão lá e as pessoas os veem naquele instante. Mas talvez essa primeira impressão já traga uma alegria de saber que conhece aquele candidato.

Não há risco de a igreja ser instrumentalizada?
Se eles [os políticos] instrumentalizam, o problema é deles. Nós fazemos com a consciência reta, desejando apresentá-los e levá-los a um encontro com o Senhor.

Na última semana, os materiais anti-homofobia que Haddad e Serra produziram viraram tema na campanha. Como vê isso?
Não vou entrar na questão do kit. A igreja sempre propugnou contra todo tipo de discriminação. Todos são chamados à salvação.

*Mas elaborar esse material pode ser considerado algo que desabone um candidato?
Creio que essa questão é muito delicada. Delicada demais para, numa pincelada, tratarmos sobre ela.*

Delicado para tratar em uma pincelada. E para tratar em ano eleitoral?
Muitas vezes os debates se tornam não muito elucidativos e, às vezes, distorcidos. Não colocaria essas questões num período eleitoral.

O pastor Silas Malafaia pediu voto para Serra dizendo que Haddad queria ensinar a homossexualidade. Ele está pregando o preconceito?
Eu não gostaria de julgar.

Mas o que acha de um líder religioso indicar candidato?
Ninguém deveria dizer quem é o candidato. É um abuso do contato e da credibilidade que os fiéis nos dão.

Então qual é o limite para a participação dos religiosos?
Eu diria que devemos apresentar, sim. Mas dar conhecimento não é indicar.

O sr. disse que é preciso conhecer bem os candidatos. Pode falar um pouco o que conhece de Haddad e Serra?
O Haddad me foi apresentado pela família Tatto [dez irmãos filiados ao PT-SP]. Eu já o vi em outra ocasião, mas não tenho contato. Vejo que é muito inteligente, tem capacidade intelectual e também flexibilidade quando discursa. O Serra eu conheço há tempos. Pediram-me para dar a unção dos enfermos a uma senhora. Na saída, vi um porta-retratos com foto dele e perguntei de onde o conheciam. Era a mãe dele. Difícil encontrar alguém que conheça mais a cidade do que ele.

O sr. foi a muitas inaugurações desta gestão. Se Haddad for eleito, continuará indo?
Eu não sou ligado a este ou aquele partido. Sabia que quando os cristãos eram martirizados, eles rezavam pelo imperador, que os estava levando à morte? É uma responsabilidade da autoridade estar sempre sintonizado com o Senhor.

No primeiro turno, dom Odilo Scherer pediu para que padres lessem nas missas texto contra a campanha de Celso Russomanno. Como viu isso?
Eu não tinha claro até aquele momento que o Russomanno estivesse ligado à Igreja Universal. Até hoje não tenho. Como o conhecia há muito tempo, o que eu via era ligação com a Igreja Católica.

O sr. declarou publicamente que ele era católico.
Você sempre deve fazer o que é melhor para a pessoa. Se nada me dizia que ele não era católico, como poderia não defendê-lo?

É inédito o engajamento eleitoral da igreja em São Paulo?
Essa pergunta é para ele [dom Odilo], não para mim. Cheguei aqui como bispo em 1989. Sempre houve uma manifestaçãozinha aqui e acolá, mas não um pronunciamento oficial. Isso jamais.

Qual é o limite desse engajamento religioso?
Você apresenta [candidatos], simplesmente. Mas a igreja deve iluminar a mente do eleitor para que ele possa considerar os candidatos não só no momento presente, mas também no passado. Senão, aparece alguém da Lua com um belo discurso, e as pessoas são levadas. O conhecimento que temos, por exemplo, do Serra. Ele é mais conhecido. É mais fácil termos julgamento.

Ele tem alta rejeição, em parte por ter saído da prefeitura.
Mas isso é tão secundário. Ele saiu por quê? Porque não queria servir o povo? Ou quis servir o povo ainda mais, como governador? Perdemos essa referência.

O sr. falou do Serra, poderia destacar méritos das gestões que viu desde 1989?
A Erundina teve muita preocupação social, pela realidade sofrida do povo. O Maluf é um homem de decisão. Quando tivemos problemas na região sul, agiu imediatamente. O Pitta bem menos…

E a Marta Suplicy?
Marta, Marta, Marta…. O que eu poderia falar da Marta? Aqui na região sul… Ela tinha uma preocupação pela saúde. Vemos postos de saúde que ela incentivou. Isso foi importante. A atuação do Kassab também tem sido marcante aqui na região.

A maioria da população reprova a gestão dele.
Eu fico sempre me perguntando: de onde que vem isso? Acho injusto. Acho não, creio. Vocês que estão na imprensa, o que me dizem? Não é um pouco pegar os aspectos que não são positivos e alardear, e isso faz com que a imagem da pessoa seja denegrida?

O senhor se refere ao Kassab?
Pode ser qualquer pessoa, até um santo. Pegue irmã Dulce. Pega um aspecto que não era muito positivo e começa a divulgar. Cria-se uma ideia contrária à pessoa.

O sr. recebe crítica por receber os políticos?
Às vezes recebo críticas: “Você recebeu Fulano, ele nem é católico e o senhor o deixou comungar”. Há uma lei na igreja que, se a pessoa se aproxima para a comunhão, você não pode negá-la.

Antes do primeiro turno, o candidato Gabriel Chalita veio a uma missa na qual estava o Serra. Ele reclamou que precisou “se convidar” para o evento. Na ocasião, o sr. não quis comentar.
Continuo sendo elegante com ele.

Ele se queixou com o senhor?
Continuo sendo elegante com ele. Estou começando a ser político! [risos]

Veja a intenção de voto em SP pelas principais religiões

O candidato a prefeito de São Paulo Celso Russomano perdeu 17 pontos percentuais entre os evangélicos não pentecostais, segundo a última pesquisa Datafolha. O candidato do PRB caiu de 42% na pesquisa anterior para 25% das intenções de voto.

Ao mesmo tempo, o candidato do PSDB, José Serra, registrou um crescimento de 10 pontos percentuais entre essa parcela do eleitorado, elevando seu porcentual a 24%. A margem de erro, no entanto, é alta: 11 pontos.’

A corrente não pentecostal dos evangélicos abrange as igrejas mais antigas, como a Metodista, a Presbiteriana e a Batista. Até o momento, nenhuma delas declarou a abertamente apoio a qualquer dos candidatos. No quadro geral, Russomano lidera as intenções de voto com 32%. O tucano José Serra e o petista Fernando Haddad têm 20% e 17%, respectivamente, e estão tecnicamente empatados em segundo lugar. Entre os segmentos religiosos, devido a amostragem reduzida, a margem de erro é superior ao da pesquisa geral – cujo máximo atinge 3 pontos percentuais . Baixe aqui o relatório completo da pesquisa Datafolha.

Fonte: Censo 2010, IBGE

Entre os evangélicos pentecostais, Russomano tem o apoio da Universal do Reino de Deus, uma das maiores igrejas do país. Ele também disputa com Serra o aval da Renascer, que tem 20 mil fiéis apenas em São Paulo, segundo o Censo 2010. A Igreja Mundial, do pastor Valdomiro Santiago, já declarou apoio a Serra.

Neste segmento, Russomano também oscilou para baixo, assim como Serra. Os demais candidatos permaneceram estáveis. A margem de erro da última pesquisa foi de 7 pontos percentuais. Veja o gráfico abaixo:

O Datafolha também mensurou as intenções de voto entre os eleitores católicos. Somente Chalita apresentou aumento na categoria, com dois pontos percentuais. Nesta última pesquisa, Serra e Haddad permaneceram estáveis e Russomano perdeu 2 pontos percent