Milícia que derrubou ex-presidente do Haiti volta a se mobilizar no país

Luis Kawaguti

Atualizado em  11 de abril, 2012 – 14:28 (Brasília) 17:28 GMT

Ex-militares haitianos mobilizados em Porto-Príncipe

Ex-militares desfilam em parada no terreno de uma base militar abandonada na capital Porto-Príncipe
A milícia de ex-militares que ajudou a derrubar o ex-presidente Jean Bertrand Aristide em 2004 voltou a se mobilizar no Haiti após quase sete anos na inatividade. O grupo já reúne 15 mil membros e mantém o controle de um edifício do governo invadido há mais de 20 dias em Cap Haitien.

As principais exigências da milícia são a recriação do Exército – uma promessa do atual presidente Michel Martelly – e o pagamento de pensões a militares reformados.

O governo haitiano e a Polícia Nacional tentam resolver o impasse de forma pacífica, segundo o general brasileiro Fernando Rodrigues Goulart, comandante da missão de paz da ONU no Haiti.
Ele afirmou à BBC Brasil que as forças internacionais acompanham a negociação à distância, mas podem intervir se necessário.
“Estamos preparados para cumprir qualquer tarefa”, disse Goulart.
Dos 10.700 militares em missão de paz da ONU no Haiti, 2.132 são brasileiros.

Mobilização

O Exército haitiano foi dissolvido em 1995 pelo então presidente Aristide, que temia sofrer um golpe militar.
Em 2004, uma milícia de ex-militares se aliou ao grupo 184 (bloco político de direita) e conquistou militarmente o norte do país. Aristide deixou o poder dias depois e a ONU enviou capacetes azuis ao Haiti.
Os ex-militares operaram ilegalmente até 2005, quando foram desbaratados por forças da ONU. Seu líder, Remissanthe Ravix, foi morto pela polícia.
Porém, no fim do ano passado jovens interessados em integrar o novo Exército prometido por Martelly se juntaram a ex-militares para pressionar o governo. Eles ocuparam bases militares abandonadas e começaram a treinar.

Liderança

Armados e fardados, invadiram edifícios públicos em março de 2012. O maior deles é o escritório da Secretaria de Agricultura, em Cap Haitien (segunda maior cidade do Haiti), que permanece ocupado.
O movimento não tem uma liderança clara. O assessor do governo haitiano, Georges Michel, estimou o grupo em 15 mil integrantes e recomendou ao presidente criar um comando militar interino para preencher o vácuo de poder.
Em meio a uma crise política, Martelly vem pedindo calma e orientando os ex-militares a voltarem às suas casas enquanto o governo toma uma decisão sobre a recriação do Exército.
No último dia 29, Guy Philippe, o ex-líder do golpista grupo 184, disse em entrevista a uma rádio local que os ex-militares devem chegar em breve aos 30 mil homens.
“Eles têm armas e são treinados. Caso se tornem um Exército livre ninguém será capaz de controlá-los”, disse.

Segurança

Apesar da turbulência política, a situação de segurança no país permanece estável, segundo o general Goulart.
“Tivemos recentemente relatos de tiros em Cité Soleil [principal favela haitiana], mas quando nossa tropa chegou ao local indicado não havia mais nada”. Segundo ele não há região do país onde as tropas da ONU não operem.

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