Aparecida!

Basta falar o nome e todos já conhecem a história do Santuário mais famoso do Brasil. O Santuário de Aparecida, na beira do Rio Paraíba, no interior de São Paulo. Foi lá que, no ano de 1717, três pescadores – Domingos, Filipe e João – ao buscar peixes para o almoço de uma comitiva que baixava de Minas para o litoral, antes que as redes se enchessem, encontraram, primeiro o corpo, depois, a cabeça de uma santa.

Juntadas as duas peças, era a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Mas ela tinha algo de especial. Era uma imagem ao mesmo tempo diferente e igual. Era igual porque nela se reconhecia claramente a Imaculada Conceição. Mas era diferente, porque seu rosto era semelhante ao dos pescadores que a encontraram nas águas do Paraíba. Tinha o rosto deles, de suas esposas, de suas filhas, de suas mães. Um rosto negro, a pele negra, as mãos negras. E os anjos que descansavam a seus pés também eram negros. Anjos negros, bem diferentes dos que, com suas peles alvas e rostos rosados, enfeitavam as igrejas dos brancos da cidade de Guaratinguetá e das barrocas igrejas das Minas Gerais de onde vinham os ilustres viajantes.

Quem fez aquela imagem? E por que a fez daquele jeito? Ninguém sabia. Até hoje ninguém sabe. Não há outras iguais em outros lugares. É única. Tão diferente das outras imagens da Conceição. E há tantas e tão variadas. Mas só a encontrada no Rio Paraíba é negra. Só ela tem o rosto, a pele, as mãos, os anjos reproduzindo a carne dos homens e das mulheres que, sob o jugo da escravidão, foram trazidos da África para padecer nas plantações de cana e nos engenhos de açúcar, nas lavouras de cacau e café, nas minas, campos e cidades.

Talvez seu escultor tenha sido um dos tantos milhões de africanos que, no escondido da noite, no fundo da senzala, longe dos olhos do seu senhor, tomou um pedaço de madeira e, com a força e a suavidade de quem chora a dor da escravidão e sonha com um futuro de liberdade, cinzelou pensando no rosto e no corpo de sua esposa, de sua mãe, de suas filhas, que na África ficaram.

Ou talvez seja obra de uma mulher negra que, privada de seus filhos e obrigada a cuidar de rebentos que não eram seus, colocou na imagem a força e o vigor da Mãe África, tão distante na geografia e tão presente no seu rosto, na sua pele, em suas mãos e nos seus pés.

São hipóteses. Apenas hipóteses. Não sabemos quem esculpiu aquela Imaculada Conceição. Assim como não sabemos como ela foi parar no fundo do Rio Paraíba. E por que lá foi jogada depois de ser quebrada em dois pedaços. Quem a quebrou? Quem no rio a jogou? Não sabemos. Ninguém nunca perguntou. Ninguém investigou. É possível que nunca saibamos. Só podemos imaginar…

Talvez tenha sido um daqueles senhores, incomodado com o escravizado que perdia seu tempo a esculpir uma imagem de uma santa. Ou talvez uma senhora perturbada porque a santa era negra, de pele negra, de mãos negras, acompanhada por anjos negros. Não sabemos. É apenas uma hipótese. Mas uma hipótese a se cogitar. Uma hipótese que nos leva a perguntar: porque a Mãe Negra Aparecida se deixou encontrar por Domingos, Filipe e João, nas turvas águas do Paraíba? Não sabemos. Mas podemos a ela perguntar. Ela está no Santuário. Ela está em todo lugar. Basta abrir o coração. Basta rezar.

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