O pulo do Paulo

Alfabetizar é mais do que aprender a colocar letras lado a lado e palavras formar. É construir palavras e relacioná-las entre si de modo a formar sentido. Frases podem ser eficientes, mas não são suficientes. É preciso que nasçam da própria mente e deem sentido ao mundo. Alfabetizar é descobrir quem somos no universo em que vivemos na relação com os outros e com a natureza. Alfabetizar é humanizar. Alfabetizar é libertar. Uma dupla libertação. Da incapacidade de ler as palavras e poder escrevê-las e das garras daqueles que querem impedir as pessoas de pensar o mundo com os próprios pés, com as próprias mãos, com o próprio coração, com a própria razão.

Alfabetizar é educar. Bem diferente de adestrar. O patrão quer o empregado adestrado. Apenas capacitado para executar a ordem sem perguntar o porquê. Ensino técnico, profissionalizante, despersonalizante, coisificante, instrumentalizante, alienante, escravizante. Nada de filosofia, história, geografia, sabedoria. Os humanos não precisam de humanas. Apenas exatas e práticas. Tecnologia copiada, imitada, sucateada, superada e descartada por aqueles que de verdade produzem ciência e conhecimento. Lixeira mundial do mundo do saber nos querem. Relés imitadores, copiadores e compradores do saber que os outros produzem em seu interesse e querem nos fazer pensar ser o nosso.

Alfabetizar é ensinar a perguntar a razão de ser de todas as coisas que existem. Por que eu não posso morar no condomínio que ajudei a levantar? Por que meu filho não pode estudar na escola que eu acabei de pintar? Por que eu não posso comprar na loja que acabo de limpar? Por que eu não posso compreender a fala do deputado que eu ajudei a eleger? Por que eu não posso comer na mesa que me obrigam a servir para ganhar um salário que não basta para meus filhos saciar?

Alfabetizar é politizar. É mediar as relações cidadãs com a comunicação que sabe dizer e sabe escutar. E sabe polemizar, discutir, cantar e dançar na emoção da multidão na praça reivindicando casa, trabalho e pão. Dizer tudo nas muitas formas de escrever a vida. De forma falada, escrita, gritada, dançada. Na prosa, poesia, música, canção e fantasia. E também com muita emoção e, se for preciso, convulsão, revolução. Sim, pois é preciso o grito, a loucura, qualquer coisa, menos o silêncio do gelo, o silêncio da morte que paira sobre as ruas e praças ao som dos soturnos soldados, armados ou não, que marcham mecanicamente aboletados nos gabinetes do poder.

Alfabetizar é esperançar. É sonhar com um futuro que não seja a repetição do passado ou a eterna continuidade do presente. É a capacidade de fazer-se ausente para contemplar de longe a sociedade em que vivemos e dizer que um outro mundo é possível, sim, se a gente quiser e decidir de fazê-lo, juntos, unindo a indignação e o compromisso com as multidões que não cabem nesse mundo e são impedidas de escrevê-lo com suas próprias histórias.

Alfabetizar é, acima de tudo, amar. Aproximar-se do outro e respeitá-lo em sua alteridade. No seu jeito de ser, de viver, de trabalhar, de rezar, de cantar. É desenvolver a capacidade de escutar o mundo do outro em suas próprias palavras, sem a pretensão de interpretar. Apenas acolher e, se for conveniente, responder, dizendo quem em sou e colocar nossos mundos em comum na diversidade do existir.

Alfabetizar é dar o pulo de Paulo Freire. Passar da mera repetição à criação do saber. Um pulo que assusta os que rastejam pelas estradas do mundo e querem impedir os outros de voar. Isso não deve amedrontar. Nem nos induzir a odiar. O opressor também é desumanizado em sua condição. Ele também precisa de libertação.

Viva Paulo Freire. Viva a educação!

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