Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Crise no mundo árabe ou crise do capitalismo?

Há algumas semanas estamos acompanhando através dos diversos meios de comunicação – principalmente a Internet – a uma série de manifestações populares de contestação aos regimes vigentes nos países de população majoritariamente árabe. Primeiro foi a Tunísia, depois do Egito e agora no Iemen, Bahrein, Líbia, Marrocos… É todo um mundo em ebulição. É um momento que lembra muito os anos 70 e os diversos movimentos revolucionários da América Latina, especialmente a América Central.
Naquela época, Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Colômbia, Peru, entre outros, viviam guerras civis que enfrentavam os exércitos nacionais, trinados, financiados e dirigidos pelas diversas agências militares norte-americanas com movimentos revolucionários que se identificavam como socialistas e que pretendiam reproduzir no continente o modelo político e econômico da Europa do Leste e de Cuba. Baseados numa ideologia secular – o comunismo – estes movimentos revolucionários pretendiam derrubar o capitalismo – tanto na sua dimensão nacional como na internacional – e criar condições de autonomia para os países do continente e melhores condições de vida para seus habitantes.
Os atuais movimentos populares do mundo árabe não são motivados por uma ideologia política secular, mas por uma motivação religiosa – o islamismo – que, sim, inclui uma proposta política: a implantação da lei islâmica – a sharia – como forma de reger as relações entre os habitantes destes países e purificá-los da presença opressora dos estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos.
Alguns noticiários e alguns analistas políticos apresentam a irrupção destes movimentos como uma grande novidade e até mesmo como uma grande surpresa. Um olhar mais atento, no entanto, nos deixa ver que não há novidade nenhuma no que está acontecendo no Norte da África e no Oriente Próximo. Em 1979 a Revolução Islâmica no Irâ foi o primeiro movimento revolucionário inspirado pelo Islã a implantar uma República com base na lei islâmica. Em seguida tivemos o Afeganistão e o governo dos estudantes de teologia, os talibãs. A vitório da Frente Islâmica de Salvação na Argélia nas eleições de 1991 e o consequente Golpe Militar que se estendeu numa guerra civil com mais de 300 mil mortos… Depois veio a Al-Qaeda e o Hezbollah que, numa atuação internacional, buscam a expulsão da presença norte-americana e ocidental e a implantação de regimes islâmicos.
Por trás de tudo, a dependência norte-americana, européia e japonesa do petróleo depositado sob as areias dos desertos do Oriente Próximo. As duas Guerras Mundiais contra o Iraque deixaram a problemática do petróleo completamente explícita.
Visto numa perspectiva longa do tempo, a agitação nos países árabes é mais um episódio da longa crise do capitalismo do século XX. Crise que teve seus momentos fortes na Primeira Guerra Mundial, na ascenção dos regimes naz-fascitas na Europa que culminou com a Segunda Guerra Mundial, a simbólica Guerra do Vietnã, as lutas pela independência na África,a s guerrilhas socialistas dos anos 60 e 70 na América Latina, a reconfiguração da África Negra nos anos 80 e 90 e, agora, a eclosão islâmica no mundo árabel.
Onde tudo isso vai levar? Como diriam os norte-americanos, nobody nows! O mais provável é que tudo ainda tenha apenas terminado de começar. Muitos episódios nos aguardam. Duros e sanguinários, muito provavelmente. O único que podemos fazer é solidarizar-nos com as dores de tantos homens, mulheres, velhos e crianças que sofrem as consequências de uma situação que eles não criaram e muito menos desejaram. E pedir a Deus, chamê-mo-lo de Deus-Trindade ou de Allá, que destas dores de parto nasça uma nova realidade de vida para estas nações.

Chico Anísio e Tiririca

Desde 02 de dezembro o humorista Chico Anísio está internado num hospital do Rio de Janeiro com problemas cardíacos e pulmonares. No noticiário de hoje (15 de fevereiro) anunciou-se que está fazendo fonoterapia para recuperar a articulação da fala.
Chico Anísio é um dos personagens mais antigos da minha memória televisiva. Na metade dos anos 70, eu ainda criança, no interior (sic!) de Vila Flores, conheci-o no delecioso programa humorístico Chico City da Globo onde ele encarnava um cem número de personagens. Toda quinta-feira nosso programa era ir até o vizinho abastado que tinha conseguido comprar uma televisão (preto e branco) e, toda a vizinhança reunida, nos deleciávamos com o humor politicamente correto – para os tempos da ditadura – do nobre cearense.
De todos os personagens de Chico Anísio, os que mais me marcaram foram o Bento Carneiro e o Washinton, “o comunista mais comunista que todos os outros comunistas”.
Diante da prolongada internação do ator, dois toques de humor (é a melhor maneira para falar de Chico Anísio) vem à minha mente. O primeiro é que, ao sair do hospital, talvez um dos personagens que Chico venha a encarnar para diante seja o de um doutor. Segundo, um homem que soube tão bem trabalhar a multiplicidade de tons e sons, agora, fazendo fonoterapia, certamente terá capacidade de criar muitas outras vozes e assim nos divertir ainda mais.
Se eu pudesse, daria uma sugestão para o Chico Anísio: criar um personagem a partir do “palhaço” Tiririca! Talvez, com isso, a mídia oficial o promova (ao Tiririca) ao nível de humorista.

O outro mundo possível chama-se Ecossocialismo

Nova York, Estados Unidos – Joel Kovel, que teve um destacado papel em várias edições do Fórum Social Mundial (FSM), que nesta semana acontece em Dacar, afirma que o movimento deve ter por base uma prática e uma lógica anticapitalistas. Considerado o pai do movimento Ecossocialista, Joel analisa a história, trajetória e o futuro do movimento. Também é um dos autores do Manifesto Ecossocialista, que detalha um caminho alternativo ao atual de destruição ambiental. Joel disse à IPS que é preciso dar nome a este “outro mundo” e posicioná-lo firmemente contra a ameaça do capital global.


IPS: Qual foi seu papel nas edições anteriores do FSM?

JOEL KOVEL: Ecossocialismo é um conceito inerentemente global, não internacional, por isso o FSM é um lugar ideal para discutir suas principais ideias. Apresentamos o manifesto em Nairóbi em 2007, e o revisamos com um grupo de centenas de pessoas. O Ecossocialismo cresce magnificamente no terceiro mundo, mas é o quarto mundo, dos indígenas e dos povos sem Estado, o que realmente está à frente neste assunto. As pessoas do quarto mundo vivem em relações comunitárias e são vítimas diretas das corporações mineradoras e petroleiras predadoras que se enfiam no coração da terra e destroem as comunidades que são parte do solo. Por isso, dependemos do espaço único do FSM para difundir as ideias do Ecossocialismo.

IPS: O que se discute no FSM sobre a crise ecológica é suficiente?

JK: O FSM tende a se concentrar em áreas específicas dentro do assunto mais amplo do ecocídio, ou ecodestruição, como as sementes geneticamente modificadas ou a acidificação dos oceanos e o desmatamento. É preciso atender esses assuntos, mas não é suficiente para lidar com a magnitude da crise, que exige um diagnóstico muito mais amplo do que apenas das causas subjacentes do problema. Há pouquíssimo rigor teórico ou agudo sobre a crise ecológica em geral no FSM por muitas razões. As pessoas estão tão aterradas, há tantas causas válidas para se lutar, os problemas são difusos, com diferentes assuntos arraigados em localidades dispersas e ninguém pode decidir quais são os limites entre uma crise e outra. São tantas interrogações, como a de quando a crise dos oceanos passou para a atmosfera. É compreensível que as pessoas se mostrem reticentes em questões simples como a proliferação das garrafas de plástico.

IPS: O que o FSM pode dar de novo para avançar rumo a uma solução?

JK: Atualmente existe um problema de definição no FSM. Surgem diferentes questões que são transtornos ecossistêmicos, como a dúvida de quando se destroi a floresta pela monocultura, por exemplo. Cada crise ecossistêmica tem sua própria realidade concreta e localização específica, como o desastre de Bhopal, na Índia. A verdadeira crise ecológica é o conjunto de todas elas, que se agravam com rapidez, se propagam pelo mundo e aumentam de forma exponencial. Se quisermos encontrar a causa das diferentes crises sistêmicas, devemos olhar todas elas em conjunto e encontrar o que têm em comum. Cada problema tem sua própria causa, mas, virtualmente cada uma está vinculada à expansão capitalista e pode-se seguir seu rastro até a porta de um banco ou uma potência imperial. Se o FSM pretende atender o problema, deve identificar e articular a questão do capital global, que pode ser pensada de forma metafórica como um câncer que apresenta metástase. Sem importar a forma escolhida para tratar a doença, deve-se reconhecer que é uma realidade.

IPS: Em que o FSM mudou desde sua primeira participação em 2003?

JK: Infelizmente, o FSM tem tendência a girar em falso devido aos limites inerentes ao seu lema de “outro mundo é possível”, que é repetido até cansar e acaba sendo desanimador porque nunca chega a ser realmente desenhado. Porém, fato é que o FSM é o único lugar no qual se pode articular uma nova realidade, não apenas pensar na possibilidade de uma. Logicamente, deveríamos poder dizer que este “outro mundo” é o do Ecossocialismo. Entretanto, dada a natureza das organizações não governamentais e sua especialização em certas crises, o FSM não se refere o suficiente à causa da crise do capitalismo. O Fórum deve identificar o inimigo e lhe responder.

IPS: Pensa que Dacar oferece uma oportunidade para consegui-lo?

JK: Totalmente. A África é um dos lugares mais vulneráveis da Terra, o que é tremendamente irônico, pois é o menos industrializado do planeta. O continente é saqueado pela desapiedada extração de recursos como em nenhum outro lugar do mundo, em primeiro lugar porque é rico. E, em segundo, pela falta de proteção para deter a chegada das companhias. Há mais incentivos na África para começar a pensar de forma sistêmica. Dacar também é um centro mundial de pesquisa em ecologia, muito mais do que Nairóbi, e até mesmo do que Mumbai. O calibre geral dos intelectuais de esquerda presentes é extremamente alto no Senegal..

IPS: O que o FSM pode fazer para lidar com os desafios apresentados no Fórum Econômico Mundial que acontece quase simultaneamente?

JK: É preciso basear-se firmemente em uma prática e uma lógica anticapitalistas. É difícil, mas certamente possível. Creio que acima de tudo o FSM é um lugar onde a grande variedade de tendências se encontra, conscientes de que seus diferentes problemas são sistemáticos e têm a ver com a penetração do império e do capital global em cada rincão da Terra. Para continuar com a analogia médica, se você tem um paciente com um tumor no pâncreas, só é possível tratá-lo se os médicos concordarem que se trata de câncer. Só a partir daí se pode reunir e pensar no remédio, e há muitíssimas formas de curar isto. Envolverde/IPS

“Programa de renda negligencia mulheres”

Políticas de proteção social raramente consideram a desigualdade de gênero, apesar de a pobreza feminina ser mais grave.

Apesar das evidências de que a pobreza afeta mais as mulheres, os programas de proteção social — como os de transferência de renda ou de frentes de emprego — negligenciam as desigualdades entre os sexos, avaliam as cientistas sociais Rebecca Holmes e Nicola Jones, do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino, com sede em Londres.

“Poucos programas sociais têm como objetivo primordial aumentar a autonomia de meninas e mulheres ou transformar as relações de gênero”, escrevem as pesquisadoras na edição mais recente da Poverty in Focus, revista do CIP-CI (Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), um órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro.

Em alguns casos, o problema simplesmente não é abordado. Em outros, a única medida adotada é incluir as beneficiadas como pessoa responsável por receber o dinheiro. Essa abordagem, argumentam as autoras, “resulta num conceitualização estreita das vulnerabilidades de gênero e num foco que apoia as responsabilidades domésticas tradicionais das mulheres”.

Raramente as políticas priorizam a transformação das relações domiciliares de modo a assegurar que o ganho de renda no lar seja alocado igualmente. Também são poucos os exemplos de programas que enfrentam as desigualdades de poder de decisão e de distribuição do trabalho dentro de casa.

Ao adotar essas estratégias, avaliam as pesquisadoras, os programas sociais abordam os riscos e vulnerabilidades econômicos, mas dão pouca atenção às dimensões sociais, como desigualdade de gênero, discriminação social e relações desiguais de poder. E, “para muitas populações pobres e marginalizadas, as fontes sociais de vulnerabilidade são frequentemente tão ou mais importantes”.

Uma pesquisa feita pelo Instituto de Desenvolvimento Ultramarino detectou alguns programas que tentam conciliar as duas abordagens – em Bangladesh, Gana, Peru, Etiópia, Índia e México. Há projetos que tentam facilitar o acesso de mulheres e meninas à escola e ao sistema de saúde, sobretudo durante a gravidez e a amamentação. Em outros, os benefícios em forma de dinheiro ou víveres são acompanhados de cursos de conscientização sobre violência de gênero. O mapeamento também encontrou iniciativas em que se estimulam a participação e a liderança feminina na comunidade, inclusive em debates que decidam o rumo dos programas.

Algumas ações de frente de emprego (em que se paga para o beneficiado exercer um serviço público) construíram creches e permitiram que as trabalhadoras tivessem horários mais flexíveis, contam as autoras. Outras incluíram a construção de estruturas que fazem com que as mulheres percam menos tempo em trabalhos domésticos (por exemplo: fonte de água potável próxima à comunidade, para que elas não tenham que se deslocar até outro local).

Mesmo esses programas, porém, ainda enfrentam desafios para promover a autonomia das mulheres (ou “empoderamento”), como destaca o texto. Algumas frentes de emprego, por exemplo, de fato aumentaram a renda feminina e ofereceram formas não abusivas de trabalho, mas preconceitos arraigados dificultaram a redução da desigualdade.

O artigo aponta que, como às vezes se assume que há alguns trabalhos que não são apropriados para mulheres, os homens em média ganham mais e elas trabalham menos dias. No Peru, as mulheres de fato participaram das discussões, mas isso tornou ainda mais difícil para elas conciliar as outras tarefas.

O ideal, avaliam as cientistas sociais, é estabelecer vínculos mais estreitos entre esses programas as políticas econômica e social. “Quando os instrumentos de proteção social são parte de um pacote maior da política econômica e social, eles têm mais probabilidade de ajudar a transformar as relações entre homens, mulheres, meninos e meninas.”

Uma nova verdade raia sobre o mundo árabe

Por

Os “documentos da Palestina” são tão demolidores quanto a Declaração de Balfour. A ‘Autoridade’ Palestina – e as aspas são indispensáveis – estava e está pronta a ceder o “direito de retorno” de talvez sete milhões de refugiados ao que hoje é Israel, em troca de um “estado” ao qual corresponderá apenas 10% (se tanto) do território do Mandato britânico na Palestina.

E, à medida que são revelados esses documentos terríveis, o povo egípcio começa a exigir o fim do regime do presidente Mubarak, e os libaneses indicam um primeiro-ministro que servirá ao Hezbollah. Poucas vezes o mundo árabe viu coisa semelhante.

Para começar pelos Documentos da Palestina, é evidente que os representantes do povo palestino estavam prontos para destruir qualquer esperança que os refugiados tivessem de algum dia voltar para casa.

Será – e é – ultraje para os palestinos saber que seus representantes lhes deram as costas. Não há modo pelo qual, à luz dos Documentos da Palestina, os palestinos ainda crerem que algum dia recuperarão direitos seus.

Já viram, em vídeo e por escrito, que jamais voltarão. Mas em todo o mundo árabe – o que não significa mundo muçulmano – há hoje uma compreensão da verdade que jamais por ali se viu antes.

Já não é possível, para o povo do mundo árabe, mentir uns aos outros. Acabou-se o tempo das mentiras. As palavras daqueles líderes – que desgraçadamente são também nossas palavras – esgotaram-se. E nós as levamos até esse fracasso. Nós mentimos a eles todas essas mentiras. E nunca mais conseguiremos recriá-las.

No Egito, nós britânicos amamos a democracia. Incentivamos a democracia no Egito – até que os egípcios decidiram que queriam por fim à monarquia. Então os metemos na prisão. Queríamos mais democracia. Sempre a mesma velha história. Assim como quisemos que os palestinos gozassem de democracia, desde que votassem ‘certo’, nos candidatos ‘certos’, quisemos que os egípcios apreciassem nossa vida democrática. Agora, no Líbano, parece que nossa democracia será substituída pela democracia libanesa. E não gostamos dela.

Queremos que os libaneses, é claro, apóiem o pessoal que nós apoiamos, os muçulmanos sunitas que apoiavam Rafiq Hariri, cujo assassinato – cremos, com razão – foi orquestrado pelos sírios. E agora enfrentamos, nas ruas de Beirute, queima de carros e violência contra o governo.

Mas… Em que direção estamos andando? Será, talvez, na direção de deixar que o mundo árabe escolha seus próprios líderes? Veremos talvez um novo mundo árabe não controlado pelo ocidente? Quando a Tunísia fez saber ao mundo que estava livre, Mrs. Hillary Clinton não abriu a boca. Foi o presidente do Irã, o doido, o primeiro a dizer que muito o alegrava ver a Tunísia liberta. Por quê?

No Egito, o futuro de Hosni Mubarak parece ainda mais perturbador. Bem pode acontecer de seu filho ser escolhido para sucedê-lo. Mas só há um califado no mundo muçulmano, e é a Síria. Os egípcios não querem o filho de Hosni. Não passa de empresário peso leve, que nada garante que consiga (sequer que tente), resgatar o Egito de sua própria corrupção.

O chefe da segurança de Hosni Mubarak, um certo Suleiman – hoje, muito doente – dificilmente poderá substituí-lo.

Por toda parte, em todo o Oriente Médio, estamos à espera de assistir à queda dos amigos dos EUA. No Egito, Mubarak deve estar decidindo para onde fugirá. No Líbano, os amigos dos EUA estão em colapso. É o fim do mundo dos Democratas no Oriente Médio árabe. Ninguém sabe o que acontecerá depois. Só a história, talvez, conheça as respostas.

Igreja do interior de SP anuncia rifa de Fusca lotado de cerveja

O anúncio seria comum se não estivesse exposto na entrada da catedral de Ribeirão: “concorra a um charmoso Fusca branco, 1980, a álcool, carregado de cervejas”.

É o que diz o banner, iniciativa do padre Francisco Moussa, 33, que visa arrecadar fundos para construção do centro social da catedral.

Para os fiéis, no entanto, a inclusão da cerveja ao prêmio da rifa vendida a R$ 2 vai contra o que a igreja sempre pregou: o combate ao uso excessivo do álcool.

“Estou sem palavras. A igreja prega que a gente não pode abusar do álcool, que não pode apelar a jogos de azar, mas está fazendo tudo isso”, disse a funcionária pública Alzira Gonçalves, 50.

Outras duas fiéis ouvidas pela Folha concordaram com Alzira. O sorteio está marcado para hoje, às 20h, em frente à catedral.

Para o padre Jerônimo Gasques, existem outras formas “éticas” para a igreja captar recursos. “Isso [sorteio de carro carregado de cervejas] denigre a igreja, além de não ser sadio evangelicamente”.

Ele é autor de diversos livros que abordam a atuação da igreja -como “Dízimo e Captação de Recursos”- e aboliu as festas na paróquia de Presidente Prudente (SP).

Procurado pela reportagem da Folha, o padre não quis explicar os motivos que o levaram a rifar um Fusca carregado de cervejas. O arcebispo de Ribeirão Preto, Joviano de Lima Júnior, não comentou o assunto.

Casais brigam 312 vezes por ano, diz pesquisa britânica

Foto de série da BBC de 2003, sobre hábitos do parceiro que irritam os casais

O controle remoto da TV: fonte de desentendimentos (BBC/Arquivo)

Uma pesquisa feita na Grã-Bretanha com 3 mil pessoas indicou que os casais brigam em média 312 vezes por ano – principalmente às quintas-feiras por volta das 20h, por dez minutos.

O levantamento, encomendado por um varejista online de artigos e peças para banheiros, sugeriu que a esmagadora maioria das brigas se origina de motivos banais, como deixar pelos na pia, entupir o ralo do chuveiro com cabelo e “surfar” entre canais de TV.

“Todos os casais brigam, mas ver o quanto eles discutem por causa de coisas simples, como as tarefas domésticas, nos faz abrir os olhos”, disse o porta-voz sobre a pesquisa, Nick Elson.

“Parece muito tempo perdido em bate-bocas, independentemente de quão irritante sejam os hábitos.”

As razões dadas por homens e mulheres refletem algumas já conhecidas e proclamadas diferenças no comportamento dos sexos.

Enquanto elas reclamam que os parceiros não trocam o papel higiênico quando este termina nem abaixam a tampa do aparelho sanitário, eles ficam nervosos quando as parceiras demoram para ficar prontas e reclamam sobre as tarefas domésticas.

Deixar as luzes acesas, acumular entulhos e não recolher as xícaras espalhadas pela casa após o chá ou café também são razões citadas por ambos os sexos para as brigas.

Oito de cada dez entre os três mil adultos britânicos pesquisados disseram ser obrigados a limpar, constantemente, a sujeira do outro.

E se as mulheres ficam mais frustradas com os hábitos dos parceiros, a pesquisa indicou que são eles que mais vêem nas razões banais motivos para uma separação.

Um quinto dos homens entrevistados disseram considerar essa opção em consequência das dificuldades de convivência.

A seguir, os hábitos que mais irritam as mulheres:

1. Deixar pelos na pia
2. Deixar a privada suja
3. ‘Surfar’ entre canais de TV
4. Não trocar o rolo de papel higiênico
5. Não abaixar a tampa da privada
6. Deixar as luzes acesas
7. Xícaras sujas pela casa
8. Toalhas molhadas no chão / na cama
9. Acumular pertences
10. Não dar descarga

E os hábitos que mais irritam os homens:

1. Demorar para ficar pronta
2. Reclamar que ele não faz nada
3. Deixar as luzes acesas
4. Entupir o ralo do chuveiro com cabelo
5. Acumular pertences
6. Encher a lata de lixo além da capacidade
7. Deixar lenços de papel pela casa
8. Xícaras sujas pela casa
9. ‘Surfar’ entre canais de TV
10. Assistir a novelas

O sobrenatural na era da Internet

Entre os lançamentos recentes de livros de terror e fantasia, uma das capas mais interessantes é a do romance A Corrente, de Estêvão Ribeiro (Editora Draco, 184 págs., R$ 33,90), por se distanciar dos clichês do gênero. Em vez de uma casa mal-assombrada ou alguma entidade sobrenatural da noite, exibe um teclado de computador queimado – um objeto familiar, hoje quase onipresente, deformado de maneira a parecer mais ameaçador que um monstro imaginário, o que está de acordo com o espírito do enredo.

A estrutura da obra, por outro lado, não é particularmente original. Segue um modelo comum a muitos thrillers de suspense, nos quais uma maldição ligada a um fantasma vingativo (ou outra entidade com a mesma função) abate um grupo de personagens, um a um. A referência mais próxima parece ser o filme O Chamado (The Ring, 2002) de Gore Verbinski, baseado no Ring japonês de Hideo Nakata, de 1998, derivado, por sua vez, do romance homônimo de Koji Suzuki, inspirado no conto “Okiku e os nove pratos”, do folclore japonês.

Em O Chamado, as vítimas recebiam um telefonema anunciando sua morte depois de assistir a uma misteriosa fita de vídeo. O enredo de A Corrente, nacional e atual, torna-se mais próximo do leitor, mais familiar, verossímil e por isso, mais perturbador, ao recorrer a uma dessas repetitivas e banais “correntes” de e-mails, que prometem a felicidade a quem as repassar e castigos terríveis a quem as ignorar – que neste caso, sempre se realizam.

Muitas das histórias de terror – principalmente as que envolvem fantasmas e similares – são fundadas em boa parte na culpa. E este tipo de combinação do mal-estar tecnológico com a culpa associada à insuficiência ou à inadequação de normas morais tradicionais para lidar com as novas realidades é um achado que sem dúvida outras obras voltarão a explorar no futuro.

Isso dá ao romance um toque de slipstream. A expressão em inglês significa literalmente “cone de aspiração” (ou de sucção), ou seja, o efeito de “vácuo” ou “arrasto” que produz um veículo ao se deslocar em grande velocidade, mas seu uso literário (cunhado por Bruce Sterling, um dos criadores da ficção científica cyberpunk) se refere a obras que, recorram ou não à especulação científica ou fantástica, exploram o efeito de estranheza ou de dissonância cognitiva que resulta da rapidez das transformações sociais e tecnológicas, a sensação de ser “aspirado” e “arrastado” por mudanças rápidas e mal assimiladas. Como em Reconhecimento de Padrões de William Gibson (co-criador do cyberpunk, junto com Sterling) que nada tem de fantástico ou especulativo, mas com a consciência de estar descrevendo uma realidade que há muito pouco tempo seria ficção científica e ainda causa certo pasmo.

Neste caso, o romance testemunha a rápida incorporação ao quotidiano do brasileiro comum de uma cidade média (Vitória, do Espírito Santo) de comportamentos que até início dos anos 90 soariam como ficção científica de vanguarda, difundidos por uma revolução tecnológica, mas que se articulam contraditoriamente com hábitos, superstições e ideias morais e religiosas herdadas de nossos avós. Dentro das convenções do gênero, o enredo de A Corrente é satisfatoriamente bem construído. Os personagens são verossímeis e têm vida. O fundamento da maldição, revelado no final, é suficientemente interessante para não decepcionar, ao ser revelado após longa expectativa.

Deixa a desejar, por outro lado, a adesão desnecessária, às vezes inadequada, a certos clichês do gênero. Por exemplo, antes de apagar o e-mail fatal, cada um dos personagens “punidos” comete algum pecadilho de internet. Baixar um vídeo pornô ou uma música pirata, acessar um chat na hora do expediente, perder tempo atualizando o blog quando se deveria estar procurando emprego…

Lembra os tantos filmes de terror adolescente nos quais as vítimas sempre são apanhadas ao fazer algo “errado”, como fumar maconha ou ter relações sexuais. Além do clichê reproduzir um moralismo irrefletido, neste caso os “erros” são tão periféricos e sem importância que dificilmente alimentarão uma real sensação de “culpa” no mais ingênuo e impressionável dos adolescentes. Só o protagonista cracker (e não apenas hacker, como diz o texto) comete crimes sérios, como roubar senhas de correntistas bancários para cometer fraudes financeiras.

Outro cacoete do cinema a se evitar é a tendência a recair, vez por outra, numa visão “cinematográfica” da cena, mostrando coisas que o personagem em foco não poderia ver, mesmo se os acontecimentos são narrados do seu ângulo limitado (como é usual numa história de mistério) e não do ponto de vista de um narrador onisciente.

Em certas passagens críticas ou violentas, atitudes, percepções e manifestações físicas deixam a desejar em verossimilhança. Policiais atendem a um chamado de emergência para deter um suposto assassino e se fazem anunciar pelo porteiro. Um personagem luta com uma pessoa acamada pela posse de um molho de chaves sem perceber que a segunda está se encharcando de álcool e acendendo um isqueiro (impossível visualizar) e as reações ao incêndio que se seguem são pouco convincentes. Um tiro e o desabamento de uma pilha de sacos de cimento num corredor ligado a um hospital lotado passam despercebidos, sem chamar a atenção de ninguém. Mesmo uma história de terror fantástico deveria ser mais realista em pormenores como esses.

Certas repetições de situações e reafirmações do óbvio deixam a sensação de “já li isso antes” e poderiam ter sido evitadas. A revisão deixou escapar alguns erros incômodos, tais como “não apreciará de estar ali” (p. 23), “mal estado” (p. 25), “sofrível cena” (com o sentido equivocado de “cena de sofrimento”, p. 46), “parecem não lhe obedecerem” (p. 65), “sua amiga está lhe traindo” (p. 66). Referimo-nos ao discurso do narrador, é claro: em diálogos, chats e e-mails, os “erros” reproduzem adequadamente a linguagem coloquial do contexto.

No conjunto, apesar destas as ressalvas pontuais, as imperfeições não chegam a comprometer o resultado. É um bom thriller sobrenatural para quem aprecia o gênero.

Freira troca Amazônia por doentes de cólera no Haiti

Freira italiana morou na cidade de Parintins, no Amazonas. Foto: Alessandra Correa/BBC Brasil

Há cinco anos, quando a freira italiana Marcella Catozza, 47 anos, trocou a cidade de Parintins, no Amazonas, pelo Haiti, ela tinha como objetivo abrir uma escola.

A região escolhida foi Waf Jérémie, uma das partes mais pobres da favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe.

“Na primeira semana, vi 12 crianças morrerem vítimas de desnutrição”, conta a missionária franciscana. “Resolvi abrir uma clínica.”

Hoje, a pequena clínica comandada pela irmã Marcella é a esperança dos moradores da região para combater a epidemia de cólera, que já matou 3,6 mil haitianos.

O porto de Waf Jérémie é a porta de entrada para muitos dos haitianos vindos do interior para a capital. A população é calculada em 70 mil pessoas, mas Marcella diz acreditar que o número real seja o dobro.

Lixo

Assim como na maioria das favelas de Porto Príncipe, em Waf Jérémie não há saneamento. Nas vielas entre os casebres, porcos reviram o lixo enquanto crianças brincam descalças.

Nesse cenário, a epidemia de cólera se alastra. “As condições de higiene aqui são terríveis. Eles não têm latrinas, não têm água potável. É muito fácil contrair a doença”, diz a religiosa.

A clínica comandada por Marcella começou a tratar de doentes de cólera em 7 de novembro, duas semanas após o início da epidemia no país. Segundo a freira, já foram atendidas cerca de 1,5 mil pessoas.

“Nas primeiras semanas, tivemos 16 mortes”, diz. “Quando íamos às casas explicar sobre a necessidade de buscar tratamento rápido em caso de diarreia ou vômito, as pessoas riam, diziam que esses problemas são parte do dia-a-dia aqui. Tivemos de explicar que esse tipo de diarreia matava.”

Agora, segundo a missionária, os moradores já têm mais informações a respeito da doença e sobre a importância de buscar atendimento logo. Com isso, não foram registradas mais mortes.

São atendidos em média 25 pacientes por dia, divididos em três alas, de acordo com a gravidade do quadro.

Dificuldades

Além de voluntários, a equipe é formada por enfermeiras locais, que falam o crioulo haitiano – uma das duas línguas oficiais do país, junto do francês – e ajudam a orientar a população sobre cuidados de higiene para evitar o contágio.

Apesar dos esforços, Marcella admite que a luta contra a doença é difícil diante das condições de vida na favela.

“Na verdade, fiquei até surpresa que o número de pacientes seja tão pequeno. Dadas as condições em que vivem, imaginava que em duas ou três semanas a doença iria se propagar muito mais”, diz a freira.

“Enquanto não houver água potável e saneamento, o problema vai continuar.”

Porto de Waf Jérémie é a porta de entrada para muitos dos haitianos vindos do interior para a capital. Foto: Alessandra Correa/BBC Brasil

Por iniciativa da freira italiana, casas foram construídas em Waf Jérémie

O prédio original em que a freira instalou sua clínica quando chegou ao Haiti foi destruído pelo terremoto de 12 de janeiro de 2010, assim como uma escola que funcionava ao lado e era comandada por outra irmã franciscana.

Depois do terremoto, as freiras mantiveram o atendimento em barracas, até que uma organização não-governamental italiana financiou o projeto de cólera.

Trabalho

Dos cinco anos que viveu no Brasil, Marcella trouxe a experiência do trabalho com crianças de rua. O centro educacional que comandava em Parintins atendia 700 jovens.

No Haiti, além da clínica e da escola – que está sendo reconstruída –, ela coordena outros projetos na comunidade de Waf Jérémie, como uma cozinha comunitária e a construção de 122 moradias populares, erguidas graças a doações de amigos.

Em breve, a italiana pretende iniciar um programa profissionalizante para jovens, ensinando os adolescentes da região a trabalhar em carpintaria, padaria e outros ofícios.

“O maior problema ainda é a falta de emprego”, diz Marcella. A taxa de desemprego no Haiti chega perto de 80%.

“Eles precisam de trabalho. Não está certo deixá-los dependendo de nós (voluntários e organizações de assistência)”, afirma.

Ao comentar a situação um ano depois do terremoto, a freira diz que, em Waf Jérémie, a tragédia acabou significando uma oportunidade de mudança.

“Antes não havia nada aqui. Agora eles têm escola, casas e atendimento de saúde”, diz. “Mas no resto do país, só mudou para pior.”

‘Invasão’ de cultura e cidadania no Complexo do Alemão (RJ)

Os 33 anos de sacrifícios de tia Beth na luta contra a violência e miséria foram recompensados nesta segunda-feira (10/1) com a visita da ministra Ana de Hollanda (Cultura) ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), onde assinou a criação do segundo Ponto de Cultura da comunidade. Esse novo equipamento no local beneficiará o projeto Oca dos Curumins, que tia Beth toca desde 1977, alfabetizando e oferecendo atividades esportivas e culturais para crianças e jovens.

O projeto nasceu na sala da casa de sua mãe, cresceu e hoje atende 300 meninos e meninas da comunidade, oferecendo atividades esportivas, artesanato, aulas de inglês e reforço escolar. Com o apoio do Ministério da Cultura, tia Beth — que chegou ao Complexo do Alemão aos 10 anos de idade junto com os pais e os cinco irmãos — acredita que irá, no mínimo, triplicar o número de beneficiados. Nos próximos três anos, o projeto receberá R$ 180 mil:

Muda muito, porque vamos ter uma estrutura para desenvolver as ações já existentes, implantar novos projetos e atender muitos outros interessados. E vou dizer: nesses mais de 30 anos, percebi que a Cultura é um divisor de águas na vida dos meninos. Através da cultura, melhoramos a saúde, educação, e promovemos a cidadania. É maravilhoso.

O Complexo do Alemão, antes considerado quartel-general da principal facção criminosa do Rio de Janeiro, foi ocupado pela polícia e pelo Exército no dia 28 de novembro de 2010 e desde então vem procurando meios para transformar sua realidade — e a cultura é um dos mais poderosos agentes dessa transformação. “Decidi ter como minha primeira agenda pública a visita ao Complexo do Alemão, pela importância simbólica e fundamental que a cultura tem no combate à violência”, afirmou, destacando que acompanhou de perto a vitória contra o tráfico, “uma vitória do cidadão junto com o Estado brasileiro”. Segundo a ministra, a cultura tem uma função a cumprir nesse processo: dar as ferramentas para que as comunidades possam ser autoras na transformação de sua realidade e na promoção de uma cultura de paz.

“A experiência dos Pontos de Cultura é fundamental, como a presença do Estado nesses territórios ao reconhecer e potencializar o trabalho dessas comunidades pela sedimentação da paz.”

Os Pontos de Cultura são um projeto do Ministério da Cultura, por meio do qual organizações não governamentais de todo o país recebem recursos federais para desenvolver projetos na área. O outro Ponto de Cultura do Alemão, Raízes em Movimento, que desenvolve o Projeto Circulando, de pintura com grafite e de leitura, também foi visitado por Ana de Hollanda.

O coordenador do Instituto Raízes em Movimento, Alan Pinheiro, aposta que em 2011 mais de mil jovens serão beneficiados pelo projeto, praticamente o dobro de 2010, “com a ajuda do Ponto de Cultura”. Desde 2001, o grupo trabalha a questão ambiental, promove atividades esportivas e ações para a educação e cultura, além da capacitação constante de seus integrantes. “O objetivo é formar replicadores e protagonistas sociais dentro da própria comunidade”, avaliou Alan.