TENHO MEDO!

Tenho medo, sim! E não tenho medo de dizer que tenho medo… Dizê-lo com todas as palavras, é uma forma de afastá-lo e poder viver com os medos que me atormentam no dia a dia. São muitos medos: de morrer antes do tempo, medo de nunca mais ver a pessoa amiga que não vejo há tanto tempo, medo de sair de noite, de ser assaltado, medo de aranhas, de subir num lugar alto… Medos medíocres e grandes medos!
Ter medo é natural no ser humano. Faz parte da dinâmica de preservação. É uma proteção que nos impede de ir em direção ao perigo. O sujeito mais perigoso é o que não tem medo. Ele é capaz de arriscar a própria vida por qualquer coisa. Traficantes e milicianos utilizam jovens e crianças em suas ações assassinas. Elas não têm medo de morrer, pois ainda não sabem o valor da vida.
O medo coletivo pode ser utilizado como estratégia de controle social. Jean Delumeau mostra isso no livro clássico “A História do Medo no Ocidente”. Tanto as religiões como o poder político utilizaram o medo para controlar fieis e súditos. Medo do inferno e medo da cadeia. A política do terror é corrente no Ocidente. Do terror da Revolução Francesa ao terrorismo islâmico. Michel Foucault, por sua vez, nos mostrou que a manipulação do medo, nas sociedades modernas, foi integrada nos dispositivos da biopolítica. Impor o medo sobre a população é uma forma de fazer política. E isso conhecemos muito bem no Brasil atual.
Nesse momento, tenho medo do coronavírus. Ele é invisível. Circula por todos os lugares de forma ágil e sorrateira e, quando se instala nos pulmões de uma pessoa, é o terror! Mata por sufocamento. Tenho medo da Covid19. Muito medo!
Mas tenho mais medo daqueles que não têm medo da Covid19. Ou que aparentam não ter medo. Sua falta de medo é um perigo para a sociedade tão grande ou maior que a própria pandemia. Porque, quem não tem medo, além de expor-se à própria morte, é capaz de provocar a morte dos outros.
Diante de um perigo, precisamos nos proteger. Não com armas e muito menos com mentiras! É preciso encarar o perigo com tranquilidade e, no caso da Covid19, com os recursos da ciência.
Neste Domingo de Ramos, lembramos a entrada de Jesus em Jerusalém. Ele entrou na cidade com medo. Sabia que nela estavam os chefes do povo judeu que tanto o odiavam. E aí estavam também os soldados romanos prontos para controlar, pelo medo, a população judaica.
Jesus não se armou. Ele dispensou cavalos e soldados. Entrou montado num jumento. Um animal pacífico que não servia para a guerra. Entrou acompanhado por mulheres e crianças que o aclamavam com ramos de paz. Diante do medo dos discípulos que mandavam as pessoas calarem, Jesus seguiu seu caminho proclamando a verdade.

É tempo de pensarmos em nossos medos. E na forma como os enfrentamos. Fingindo que não temos medo e caminhando para a morte ou assumindo nossos medos e afrontando-os com a coragem da verdade.
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Baixe aqui a versão áudio 🔉 que pode ser livremente reproduzida. Pedimos apenas que nos informem pelo email zugno1965@hotmail.com

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Calma…deixa-me ver tua alma!

A atual pandemia do covid19 é um momento de dor e sofrimento para toda a humanidade. Principalmente para os países, cidades, comunidades, famílias e pessoas atingidas. Para os que morrem e para os que ficam chorando seus mortos.
É ocasião para a solidariedade e compaixão que, devido às características de transmissão do coronavírus, tem sua melhor expressão no isolamento social. Quanto menos contato físico com as pessoas, mais as estamos ajudando!
É uma pandemia que nos obriga à solidão, ao silêncio e à reflexão. Hábitos esquecidos e até desprezados na sociedade da hiperconexão e da interação. Da dificuldade de introspecção de uma cultura voltada para a autoimagem projetada, nascem dois sentimentos aparentemente opostos: a agressão e a depressão.
Nas redes sociais vemos amigos e amigas virtuais expressar a incapacidade de estar consigo mesmos através da agressão a toda e qualquer pessoa que sente, pensa e comunica diferente do que eles gostariam. É a tentação da alma vazia, do espírito incapaz de encontrar-se consigo mesmo, do medo de se olhar no espelho interior e se deparar com o horror vacui da própria existência. Vazio que se projeta agressivamente sobre os outros tentando destruir neles o que não quer apagar de si mesmo.
Por outro lado está a tentação de preencher o vazio de sentido da existência através do consumo de coisas desnecessárias. Horas e horas de shopping, de cinema, de teatro, de restaurantes, de séries televisivas, novelas, viagens e tantas outras coisas mais, com a única finalidade de empanturrar o interior de bens. É o acumulador típico do mercado capitalista. Ele morre sufocado pelos objetos dos quais não necessita. Agora que a pandemia do covid19 o impede de consumir, padece o delirium tremens do consumismo e corre o risco da implosão depressiva.
A covid19 é uma doença física grave. Não é uma gripezinha qualquer. Ela mata. Mais de 15 mil pessoas já perderam a vida. Infelizmente, muitas outras a perderão. A humanidade demorará anos, talvez décadas, para refazer-se.
Mas a covi19 também revela uma doença da alma. De uma humanidade que coloca a economia acima da vida das pessoas e da vida dos outros seres que habitam o mesmo sistema Terra.
É importante que se faça tudo o que é possível para impedir o avanço da pandemia. É importante que se descubra logo um tratamento para os já infectados. Todos os esforços devem ser envidados nesta direção e sem tergiversação e atitudes diversionistas, seja por parte dos cidadãos como dos governantes.
Mas é importante que saiamos desta pandemia com uma alma nova, com a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos e percebermos que não podemos transformar nossas vidas, a vida da humanidade e do Planeta Terra em uma sepultura onde jazem os restos das pessoas que amamos.
Para os que creem na Ressurreição, não há quarto dia. Lázaro está vivo e pode, sim, sair do túmulo e iniciar uma vida nova.
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Da Terra viemos…

A maioria de nós tivemos um dia a ocasião de ler a carta escrita, em 1854, pelo Cacique Seattle ao Presidente dos Estados Unidos, quando este lhe propôs a compra de suas terras. Naquela carta, que é um poema de amor à criação, entre outras afirmações, dizia Seattle: “Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo”.

A consciência de que os humanos pertencemos ao conjunto da criação e de que tudo está interligado são eixos estruturadores da Carta Encíclica Laudato Sì do Papa Francisco.
Com pontos de partida diferentes – a cultura milenar dos povos originários deste continente e a cultura judaico-cristã – o Cacique Seattle e o Papa Francisco chegam à mesma conclusão. Por que, então, temos tanta dificuldade em organizar nossas vidas a partir destes princípios básicos que garantiriam a sobrevivência da espécie humana e de todas as outras formas de vida vegetal e animal?
A nosso modo de ver, por duas razões. A primeira, pela dificuldade em aceitarmos nossa fragilidade humana. Somos seres mortais, tão mortais quanto os outros animais e nossa vida neste mundo é fugaz e poucos ou ninguém lembrará de nós depois da nossa morte. A outra razão, conexa com a primeira, é a tentação de nos pensarmos como senhores da criação, com direito a tudo dominar e a tudo explorar. Tanto os seres humanos como as outras criaturas. Temos dificuldade em aceitar que não somos senhores, mas cuidadores da criação.
A atual pandemia provocada pelo coronavírus é ocasião para lembrarmos e pensarmos nisso. Com todo o avanço científico e tecnológico, estamos ameaçados por um simples vírus. Ou não seria exatamente por causa de uma ciência incapazes de perceber o ser humano em sua relação com a criação as causas desta pandemia que tanto assusta?
Precisamos rever a forma como os humanos nos situamos no mundo. E o tempo quaresmal é adequado para isso. Iniciamos este tempo litúrgico lembrando que somos pó e que ao pó voltaremos. É um chamado à humildade, à simplicidade, à humanidade nas suas formas básicas e fundamentais.
A Palavra de Deus lembra que, num mundo tomado pela doença e agressão, deste mesmo pó da terra, quando conformado pelo sopro e pela saliva divina, pode nascer a esperança da cura e da vida nova. Do pó da terra fomos criados pelo sopro divino. E Jesus, diante do cego que tem sua vida ameaçada pela insensibilidade e prepotência dos fariseus, junta sua saliva ao pós da terra e devolve a luz e a capacidade de sobreviver.
Deixar que a fragilidade humana seja conformada pelo sopro divino que compartilhamos com todas as outras criaturas é um caminho para construir um mundo mais convivial onde todos, humanos e não humanos, podemos conviver em harmonia.
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A verdade no fundo do poço

Não vou falar aqui das fake news que invadem as redes sociais e da infodemiaque se gerou em torno ao coronavírus. Simplesmente lamento que, em pleno século XXI, quando os cientistas conseguem desvendar, em 24 horas, o genoma de um vírus e, outros cientistas, em longos anos de pesquisa, ajudam-nos a compreender os mistérios do universo, ainda somos obrigados a ouvir pessoas afirmando que uma doença é castigo de Deus ou que a Terra é plana e que os astronautas nunca pisaram na Lua. Não é fácil… Mas, no fundo, este é um problema derivado.
De fato e o que realmente deve nos preocupar, é a raiz desta insanidade que hoje parece tomar conta de nossa sociedade e leva a atitudes de intolerância, violência e desejo de extermínio do outro. A raiz de tudo isso, é a dificuldade de encarar a verdade sobre nós mesmos.
A aceleração do tempo gerada pelas condições extremas de trabalho – penso num motorista de aplicativo que tem que trabalhar 12 ou 16 horas por dia – e o impacto alucinante das mídias sociais sobre o nosso cérebro, faz com que estejamos sempre voltados para fora e incapazes de olhar para o interior de nós mesmos e fazermos aquelas perguntas básicas que estão na origem de toda filosofia e de toda religião: quem sou, de onde vim e para onde vou? Em outras palavras: qual o sentido da minha vida? Como estou vivendo o tempo que me cabe habitar neste mundo?
Quando não paramos para pensar no fundamental, é fácil ser tentado a colocar nos outros a culpa por tudo aquilo que de mal acontece. Se não sei porque estou a viver, a solução fácil que desobriga a pensar, é culpar o irmão, o pai, a mãe, o filho, o vizinho, o colega de trabalho ou de faculdade, o professor, o patrão, a empregada, o estrangeiro, os chineses, o prefeito, o presidente, a oposição. E, da culpabilização à agressão e extermínio, é só um passo, fácil de ser franqueado, quando se tem as armas do poder.
O diálogo de Jesus com a samaritana junto ao Poço de Jacó é uma amostra de como é difícil, mas necessário, olhar para dentro de nós mesmos, para o fundo do poço da nossa existência, para reconhecermos quem somos, quem são os outros e quem é Deus.
No diálogo, Jesus não ensina nenhuma novidade à mulher. Apenas a ajuda a perceber quem ela é em seu presente e em seu passado. E não só a história pessoal, mas a história de seu povo – os samaritanos – e do povo de Israel a quem havia sido ensinada a odiar.
A verdade estava ali, na sua frente, no fundo do poço cavado pelo patriarca Jacó. Estava dentro dela mesma e na sua vida sofrida que a obrigara a ter cinco maridos. Estava na cidade que a segregava e não lhe permitia ir junto com as outras mulheres buscar água no poço. Estava em Jesus que com ela dialogava, despido de todo e qualquer preconceito.
No momento em que pôde olhar para a verdade e compreendê-la, a mulher deixou de odiar-se a si mesma, deixou de odiar a cidade que a discriminava e violentava, deixou de odiar a Jesus, o judeu que estava à sua frente. E passou a anunciar a verdade que encontrara no fundo do poço de si mesma e de seu povo.
Que o caminho da Quaresma, com seu jejum e sua penitência, nos impeça de jogar a verdade no fundo do poço do ensimesmamento e nos dê forças para descobri-la e proclamá-la a todos e todas.
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O 8 de março ou a transfiguração das relações

Dois lados nada brilhantes da sociedade brasileira a serem considerados neste Dia Internacional da Mulher. De um lado, a realidade laboral. Em todas as empresas, em todas as funções, desde as básicas até as gerenciais, as mulheres, exercendo as mesmas funções que os homens, ganham, em média, 30% a menos que os homens.

Nas profissões que exigem menos qualificação, a diferença é menor. Nas profissões ditas “de ponta”, a diferença pode ultrapassar os 100%. Ou seja, os homens ganham o dobro das mulheres, pelo simples fato de serem homens… Segundo dados do IBGE, em 2019, a renda média dos homens brasileiros foi de R$2.043,00. A renda média das mulheres, por sua vez, foi de R$ 1.762,00. Uma diferença de R$ 489,00.

O que explica isso? Apenas uma razão: o machismo que impregna a sociedade brasileira como um todo e se expressa no mundo do trabalho onde uma mulher, mesmo tendo a mesma formação e desempenhando a mesma função, recebe uma remuneração inferior à de um homem nas mesmas condições.

O outro dado, ainda mais estarrecedor do que o primeiro, é o da violência contra a mulher. No Brasil, a cada quatro minutos, uma mulher é vítima de violência física, sexual ou psicológica. Número que inclui apenas os casos notificados em que as vítimas sobreviveram. E todos sabemos que os casos não notificados são muito mais numerosos que os que chegam aos registros policiais ou médicos. A cada duas horas, uma mulher é estuprada.  No ano de 2017, no Brasil, 4.396 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres, ou seja, casos tipificados como feminicídios.

As maiores vítimas de violência sexual são mulheres com até 19 anos, ou seja, crianças e adolescentes. A violência física é cometida principalmente contra mulheres entre 20 e 39 anos.
O mais aterrador destes dados – já de por si assustadores – é que 70% dos atos violentos contra as mulheres acontecem dentro do próprio ambiente familiar. Os principais abusadores de crianças e adolescentes são os pais, avôs, tios, irmãos, primos… 36% das agressões físicas contra as mulheres adultas são cometidos pelo cônjuge e 14% por ex-maridos ou ex-companheiros. Apenas 9% das agressões contra as mulheres são cometidas por desconhecidos.

Que dizer de tudo isso e de outros dados que poderiam ser acrescentados? Primeiro, que é necessário, assim como foi naquele março de 1911, quando 125 mulheres e 21 homensem greve foram queimados dentro de uma fábrica nos Estados Unidos, continuar lutando pela igualdade de gênero. Sonhamos com uma sociedade em que ninguém seja julgado melhor ou pior pelo fato de ser homem ou ser mulher.
É o primeiro passo que, para ser pleno, necessita de um segundo: o da transparência nas relações entre homens e mulheres. Na nossa sociedade, as mulheres sofrem, em todos os âmbitos das relações, a violência do machismo. Isso não pode ser negado, ocultado, disfarçado. Precisa ser dito e superado. Mas para isso é preciso superar as masculinidades tóxicas que fazem sofrer as mulheres e também fazem sofrer os homens. Como dizia Paulo Freire, o opressor, ao mesmo tempo em que desumaniza o oprimido, se desumaniza a si mesmo.

A igualdade de gênero buscada pelas mulheres não é um perigo para os homens. Pelo contrário… É a ocasião para os homens libertarmo-nos da condição de opressores que – consciente ou inconscientemente – carregamos dentro de nós e possamos realizar a transfiguração do nosso ser masculino para que, homens e mulheres, possamos conviver em harmoniosa diferença e pluralidade.
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Depois do Carnaval…


Carnaval é festa. É transgressão. É subversão da ordem. É tempo de alegria e de ilusão. É ser por alguns dias aquilo que não se é e, nessa doce sensação, extravasar os desejos reprimidos pelas convenções e normas sociais.

Por isso, o símbolo maior do carnaval é a fantasia. Ela mostra a cara daquilo que não somos mas gostaríamos de ser. As fantasias, por mais exóticas que pareçam, revelam as mazelas e os desejos populares. Como filosofava Joãozinho Trinta, numa sociedade de pobres, a fantasia mais desejada é a que ostenta riqueza. Na mesma direção, podemos dizer que, numa sociedade de corpos reprimidos, a nudez dissimulada é a vitória, mesmo que momentânea, da autenticidade de ser homem e mulher em todas as formas e gêneros. Numa sociedade de repressão, o palavrão, a bebedeira, a transgressão, permitem viver a liberdade negada no dia a dia.
Quando o carnaval, livre das amarras do poder, traduz com músicas, danças, cores e amores os anseios populares, ele deixa de ser fantasia e se transforma em utopia. Que o diga o samba enredo da Estação Primeira da Mangueira: “Favela, pega a visão, não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão. Favela, pega a visão, eu faço fé na minha gente que é semente do seu chão”.
Mas o carnaval passou. É hora de voltar ao normal. Hora de voltar ao real. Volta que não implica no esquecimento das fantasias que impulsionaram o sonho. Pelo contrário, elas permanecem como critério para as duras escolhas do dia a dia. Afinal, para a fantasia se tornar realidade, é preciso escolher entre o sonho que alimenta a esperança e o fascínio do passado e do presente que nos dão segurança.
Para iniciar a longa marcha da transformação em direção à utopia, é preciso iniciar com uma opção: a quem vamos servir? Àqueles que sufocam nossos sonhos com o discurso do conformismo ou àquele que nos provoca à aventura dos caminhos nunca dantes percorridos?
É o momento da prova, o momento da tentação. Ele sempre marca o início de um novo projeto. Adão e Eva, no paraíso, foram colocados diante de uma escolha. Eles optaram pela satisfação imediata de um desejo que era real. Mas a satisfação no imediato ocultou o sonho do futuro. A fantasia do paraíso aqui e agora tornou-se sofrimento, dor e peso. Querer o céu na terra, aqui e agora, pode tornar-se o pior dos infernos.
Jesus, no início de sua missão, também passou pela tentação de abandonar o sonho do Reino em troca da acomodação aos poderes que tudo lhe ofereciam. Ele não sucumbiu. Preferiu sonhar com a fantasia divina onde a festa é para todos e não apenas para alguns. Na festa de Jesus, entram, cantam e dançam toda classe de pessoas. Pecadores, prostitutas, estrangeiros, judeus descumpridores da lei, doentes, mulheres, velhos, crianças… E aqueles e aquelas que, por medo ou pudor, não querem com eles e elas se misturar, ficarão fora da festa.
Jesus pagou caro por esse seu sonho. A quaresma termina com a cruz e a paixão. Mas ele não deixou de sonhar. Não esqueceu da alegria do encontro com Deus, sem leis e sem repressão. Por isso, o caminho da Quaresma, que segue ao Carnaval, não é apenas tempo de penitência. É tempo de continuar sonhando na ilusão de que a festa da inclusão seja plenificada pela festa da Ressurreição.

Você tem medo de quê?

Pesquisa realizada no segundo semestre de 2019 pelo Instituto Ipsos – um dos mais conceituados do mundo – revela que a violência, a saúde e o desemprego são as três maiores preocupações da população brasileira. Das três, a violência, com 47% de indicações, aparece em primeiro lugar.
Pesquisas, claro, medem sempre percepções. E, percepções, nem sempre refletem o mundo real. Por isso sempre é bom checar esses dados com outros e ver se eles têm uma justificativa plausível ou é fruto de sensações muitas vezes influenciadas pela mídia que busca audiência através da exploração da violência.
Quando fazemos isso, infelizmente, constatamos que a pesquisa tem base real. O Brasil é um dos países do mundo onde mais jovens são mortos de forma violenta. A cada quatro minutos, uma mulher sofre algum tipo de violência física no Brasil. Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de brasileiras foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. A cada duas horas, um feminicídio é cometido. E, o que é pior, boa parte dessa violência contra as mulheres acontece dentro de suas próprias casas e é cometida por um familiar.

Somos campeões mundiais em violência contra pessoas LGBTs. A cada 24 horas, um homicídio é cometido tendo como única razão, a homofobia.

E, para piorar, temos a polícia mais violenta do mundo. E, violenta, de maneira especial, contra os pobres e negros. 73% das vítimas de violência policial são pretos ou pardos.

Poderíamos continuar com números sobre a violência que, desgraçadamente, abundam e dão sustentação aos dados da pesquisa. Mas, duas perguntas devem ser feitas e precisam de respostas. A primeira é sobre a origem da violência e, a segunda, é sobre como superá-la.

À primeira pergunta, todos os estudos indicam na mesma direção: a violência é fruto da desigualdade social. Quanto mais desigual uma sociedade, maior é a violência que nela campeia. Sendo o Brasil uma das sociedades mais desiguais do mundo, é consequência que seja uma das mais violentas. Reprimir a violência fruto da desigualdade só gera mais violência. É o que estamos constatando. Seria muito mais barato e eficaz reduzir a desigualdade social do que aumentar a força policial e o encarceramento da população. Mas isso requer uma mudança de mentalidade e a aceitação, por parte da minoria que tudo tem, de ceder um pouco para aqueles que nada ou quase nada tem.

E aí já há uma indicação para a segunda questão, a de como superar a violência. Para alcançar esse objetivo, é preciso uma mudança cultural. Ela inclui, por um lado, a superação da mentalidade patriarcal escravocrata, ainda profundamente arraigada na sociedade brasileira, de que a desigualdade é natural e de que alguns podem ter tudo enquanto outros não precisam ter nada. E, junto com isso, a mentalidade do dono de escravos e de seus feitores de que violência só se combate com mais violência.

É preciso superar a lei do “olho por olho e dente por dente” e caminhar na direção do indicado pelo Profeta da Paz de que o amor ao inimigo é o único caminho para a superação da violência. Quando amado, o inimigo deixa de ser visto como tal e passa a ser nosso próximo, aquele com quem compartilhamos o caminho, a cidade, a mesa e a comida. E aí toda violência acaba.

Aos inimigos, a lei.

Um dos mais importantes jornais de economia do Brasil publicou no final do passado mês de janeiro uma pesquisa chamada “A cara da democracia”. Realizada anualmente pelo “Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação”, o estudo tem como objetivo aferir a percepção da democracia pela sociedade brasileira.
Um dos resultados que mais chamou a atenção foi sobre o índice de confiança dos brasileiros e brasileiras para com o Poder Judiciário. Os números são assustadores: 38,2% disseram não confiar no Poder Judiciário. Outros 61% afirmam não acreditar na independência do Judiciário. Apenas 26% dos brasileiros acreditam que o Judiciário toma decisões sem ser influenciado por políticos, empresários ou outros interesses.
Comparada com a pesquisa de 2018, o resultado é ainda mais preocupante. A cada ano, o Poder Judiciário aparece como menos confiável.
Qual a causa de tamanha desconfiança da população brasileira para com esta instituição tão necessária para a vida em sociedade?
Suspeito que seja por uma simples razão já apontada há cinco séculos pelo filósofo italiano Nicolau Maquiavel. Dentre as suas famosas frases, uma das mais notáveis se refere à justiça. Segundo ele, no seu tempo, a justiça funcionava a partir do princípio de que “aos amigos, favores; aos inimigos, a lei”.
Parece que pouca coisa mudou de lá para cá. As pessoas que têm amigos na justiça ou tem dinheiro para contratar advogados com boas relações no sistema judiciário, nunca serão condenadas. Já os que não gozam destes privilégios, estes podem se preparar para a aplicação da lei que lhes cairá como um raio na cabeça. Infelizmente, a justiça é para poucos. É o que a maioria da população constata…
Que fazer diante disso?Entrar no jogo e também tentar burlar a lei, refugiar-se na ilegalidade, fugir do sistema judicial?É uma tentação nada desprezível e na qual muitos caem.
A única forma de resistir, é agarrando-se na convicção de que a lei é algo exterior, que vem de fora, e não pode alterar nossas convicções pessoais. Se o sistema judicial torna legal o ilegal e ilegal o justo, não por isso podemos nos sentir livres para praticar o que a consciência nos indica como errado.
A consciência é a norma última de todo comportamento e, para além da lei, está a grande razão que deu origem a todas as leis: a defesa da vida e da dignidade humana. Que a nossa fé no Deus da vida e na vida que tem sua origem em Deus, nos permita resistir nestes tempos de injustiça institucionalizada.
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O sabor do sal

Os cinco sentidos são indispensáveis para nossa sobrevivência. Eles nos comunicam com o mundo ao nosso redor. Sem eles, nos isolamos e morremos. Ser privado de um deles resulta numa limitação que exige um redobrado esforço dos outros.
Dentre todos, talvez o paladar seja aquele a que damos menos atenção. Mas não por isso é menos importante. Ele nos permite realizar de forma eficaz uma das necessidades elementares do ser humano: comer!
Sem comer, morremos por inanição. Mas também não podemos comer qualquer coisa. Comer sem critério, também pode levar à morte. A função do paladar inclui selecionar aquilo que comemos. Fazemos isso através dos milhares de botões gustativos que recobrem nossa língua e permitem identificar e classificar os alimentos.
Mas, além do gosto, existe também o sabor. O gosto é a reação química do corpo diante do que é colocado na boca. O salgado é um dos cinco gostos básicos que nossas papilas gustativas conseguem identificar. Sabor, é a combinação do gosto com outros sentidos e com toda uma aprendizagem do que é agradável e desagradável.
Em nossa cultura, o sal joga um papel fundamental na composição dos alimentos. Mas ninguém come sal. Se comemos sal puro, sentimos um enorme desprazer. Mas, comida sem sal não tem graça, é insossa, sem sabor, nosso paladar a rejeita. Um dos desafios de todo o cozinheiro, é encontrar o ponto certo do sal de modo que o gosto seja saboroso e agrade.
Talvez por isso, Jesus, ao falar da missão aos seus discípulos, tenha usada a imagem do sal. Ele afirma que seus discípulos são o sal que dá sabor à terra. Sem o sal do anúncio, o mundo fica sem graça. Mas a pregação, assim como o sal, deve ser posto na justa medida. Caso contrário, se torna intragável.
Mas aí vem a pergunta: qual é a justa medida da pregação de modo que ela realmente se torne o sabor do mundo?
O apóstolo Paulo, na Carta aos Coríntios, afirma que o sabor da pregação não é dado pelas palavras bonitas do pregador. O que dá o gosto ao anúncio cristão, segundo Paulo, é o Cristo crucificado que se identifica com os sofredores deste mundo.
Já o profeta Isaías, dá nome ao sal da pregação. Para ele, a pregação só tem o sabor de Boa Nova quando leva a repartir o pão com o faminto, a acolher na própria caso o pobre e o peregrino, vestir o nu, destruir os instrumentos da opressão, abandonar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, acolher de coração aberto o indigente e a prestar socorro a todo tipo de necessitado.
Segundo Isaías, quando prega e pratica este modo de ser, o discípulo compõem o bom prato que satisfaz ao paladar de todos. E mais: além de contemplar o paladar, este bom prato também desperta o sentido da visão. E o cristão, além de ser sal da terra, torna-se também luz do mundo.
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Bauman e Simeão

Em sua obra “Tempos Líquidos”, o filósofo polonês Zygmunt Bauman, apresenta a incapacidade de planejar a longo prazo como uma das características da “modernidade líquida” em que vivemos.

Para ele, estamos na era do tempo presente. Ou seja, a grande preocupação das pessoas não é mais preparar o futuro, mas viver o agora. Tanto a nível individual como a nível social. Tal fenômeno emerge, por exemplo, na ânsia consumista que invade mentes e corações. Afinal, para que poupar para gastar mais adiante se posso ter o prazer de consumir agora? Consumir o máximo possível parece ser um modo de viver o futuro já no presente…

No âmbito da convivência social, a falta de planejamento em longo prazo se reflete no fim das utopias. Sacrificar-se no presente para um futuro coletivo melhor para as próximas gerações, é algo absurdo para a maioria das pessoas. O lema parece ser “cada um por si e quem pode que sobreviva ao presente”.

A despreocupação com o meio ambiente e o modo cego como caminhamos para uma catástrofe ecológica de dimensões planetárias, é sintoma da presentificação da experiência humana característica dos tempos líquidos em que vivemos.

Há alternativas para isso? Segundo Baumann, é possível outro modo de nos pensarmos no mundo e no tempo de modo a que o presente não se torne o coveiro do futuro. Duas condições são necessárias para que tal mudança aconteça. A primeira, é a capacidade de indignação diante do mundo em que vivemos. Afinal, só sonha com um futuro aquele e aquela que tem a sensibilidade para não conformar-se com o agora. A anestesia cultural que impede sentir as dores e os sofrimentos do presente, é o veneno que mata o sonho de um mundo melhor.

A segunda condição, é a confiança no ser humano. Se não confiarmos nas pessoas que conosco partilham as horas, os dias, as casas, as ruas, as praças, o ônibus, a fábrica, a escola e a igreja, não haverá futuro possível. Semear a desconfiança e a divisão é o primeiro passo para matar a utopia.
Para escapar do círculo vicioso da pós-modernidade voltada sobre si mesma, é preciso seguir o exemplo do velho Simeão. Sentado à porta do Templo, ele não só esperava a esmola dos que ali vinham para rezar. Ele também esperava o tempo futuro em que Deus enviaria Seu Filho para tirar o povo de Israel da escravidão.

Simeão continuava a sonhar com a utopia do Reino de Deus. E, ao ver o jovem Jesus chegando, ladeado por José e Maria, Simeão confiou nele como ninguém o faria. Jesus era apenas mais um dos tantos meninos judeus que seriam apresentados no templo. E mais: era um galileu, morador de uma região de pessoas não confiáveis. Mas o velho Simeão confiou na humanidade de Jesus e viu nele a possibilidade da realização das promessas de Deus.

E, na sua velhice, teve a certeza de que, pela ação daquele menino, a realidade podia ser mudada e conduzida para o futuro desejado por Deus. E por isso pode proclamar: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz”.
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