A Lei de Gérson

O nome completo é Gérson de Oliveira Nunes. Nasceu em 11 de janeiro de 1941, em Niterói, RJ. Jogou pelo Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense conquistando, em todos eles, vários campeonatos. Com a seleção nacional de futebol foi tricampeão no México em 1970. Sua especialidade eram os dribles curtos e os lançamentos longos, precisos, milimétricos, utilizando sempre o pé esquerdo. Era o “canhotinha de ouro”. Gerson está, sem dúvida, entre os mais importantes jogadores da história do futebol brasileiro.
Mas Gerson é lembrado também por uma expressão que ficou colada ao seu nome: a Lei de Gérson. Ela tem origem numa propaganda de cigarro veiculada em 1976. Nela, o jogador aparecida dando uma entrevista a um jornalista e, nela, fumava determinada marca de cigarro e justificava sua escolha dizendo: “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

No saber popular, a fala do personagem passou a ser entendida como um estímulo a levar vantagem em tudo, independente dos meios utilizados para tal. Associada ao “jeitinho brasileiro”, ela se tornou símbolo da propensão à desonestidade, à corrupção e ao mau-caratismo assumido como algo positivo na cultura brasileira. Ser brasileiro é ser malandro, é levar vantagem em tudo.

A onda de moralismo e de caça aos corruptos que teve sua primeira irrupção no fim da década de 1980 com a “caça aos marajás” pelo Marajá da Alagoas, hibernou nos anos neoliberais do FHC e renasceu como instrumento de desestabilização dos governos petistas no início do século XXI, parecia desmentir a Lei de Gérson. Nas duas últimas décadas, o combate à corrupção se manteve como principal tema dos noticiários e  principal mote de candidatos e partidos que almejavam o poder. E não se queria apenas tirar o país a limpo. Era precisa fazê-lo com a força de um lava-jato: jogar o lodo e a sujeira para o ralo da história como o mostravam os cenários do noticiário noturno de maior audiência da televisão brasileira.

Os dias passaram e os que queriam acabar com a Lei de Gérson chegaram ao poder. E, mais breve do que se desejaria, damo-nos conta de que todo aquele discurso anticorrupção era apenas mais uma expressão da famosa Lei de Gerson. Era apenas um jeito de levar vantagem em tudo. Para uns, era um estribo para alçar-se no lombo do poder para beneficiar os próprios filhos, os familiares, amigos e parceiros de negócios. Para os investigadores e juízes da Lava Jato, um modo de ganhar fama e vender palestras e assessorias milionárias. Para outros ainda, uma forma de esconder e potencializar a bandidagem miliciana na qual sempre chafurdaram.

Gérson tinha razão? O brasileiro só quer levar vantagem em tudo? Às vezes sou tentado a pensar que sim. Esperançosamente, no entanto, afirmo que não. Talvez as elites brasileiras sofram da Síndrome de Gérson. O povo, na sua maioria, é honesto. Até porque o povo sofre as consequências da Lei de Gérson praticada pelas elites.

Como cristão, fico com o chamado de Jesus. Em meio a tantas pessoas que tentam tirar proveito do dinheiro mal havido, há um princípio fundamental: “Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”. Ou, como dizia Deus através do profeta Amós àqueles que maltratavam os humildes e pisavam sobre os pobres da terra: “Nunca mais esquecerei o que vocês fizeram.
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Jogo ou competição

Gosto muito de futebol. Muito corri atrás da bola em minha vida. Desde criança, junto com meus irmãos, primos e vizinhos. No pátio da casa, na rua, na escola. Todos os lugares eram adequados para a bola. Na adolescência e juventude, então, era quase um vício. Futebol de campo e de salão. Não era um craque. Mas garantia a titularidade, às vezes na ponta direita e às vezes de centroavante. Duas funções que no futebol atual não existem mais. Valdomiro e Dario eram os craques a imitar. Lamento que os jovens amantes de futebol não os tenham conhecido.
Há alguns anos, por problemas físicos, fui obrigado a deixar os gramados e a quadra. Mesmo sem me identificar com nenhum – a cada campeonato escolho um time para torcer naquele ano! – continuo apreciando o esporte bretão que virou brasileiro e hoje é alemão.
Das muitas memórias da carreira amadora, uma me é especial. É antiga… Há uns vinte e cinco anos, estava eu jogando futebol com um grupo de amigos oriundos de vários países. Um pouco por habilidade e um pouco por sorte, fiz um “gol de placa”. Bola cruzada na área e, de voleio, acertei um petardo no ângulo. Golaço! Todos os jogadores africanos, tanto os de meu time como os do time adversário, vieram comemorar comigo! Na hora não entendi. Mas depois pensei: eu estava competindo; eles estavam jogando. Para mim o importante era ganhar o jogo. Para eles, ver um gol bonito. São dois modos de pensar que tem sua origem em duas culturas diferentes. A minha, a ocidental, do individualismo, da competição, da vitória sobre o adversário. A deles, a africana, da coletividade, da colaboração, de não deixar ninguém para trás.
São dois paradigmas dos quais me dei conta no futebol. Mas eles estão presentes na sociedade. E em todos os seus âmbitos. A lógica do capitalismo é “cada um por si” e “que vença o mais forte”. Os que caem, os que ficam para trás, são vistos como competidores a menos. Dentro desta lógica, quanto menos gente na competição, melhor.
O mundo da religião também pode se deixar guiar por esta lógica. Para alguns religiosos, as pessoas que discordam de algum ponto da moral ou da doutrina são taxadas de hereges a expulsar da Igreja. Os que pecaram, devem ser impedidos da participação nos sacramentos. É a lógica da exclusão pregada por elites sectárias que se pretendem donas de Deus e da salvação.
Jesus pensa diferente. Para ele, o bom pastor é aquele que deixa as noventa e nove ovelhas e vai em busca daquela que está perdida. Deus é a mulher que varre toda a casa em busca da moedinha que se perdeu e, quando a encontra, faz a festa com as amigas. O verdadeiro Pai é aquele que se alegra mais com o filho mais novo que errou e voltou para casa do que com o filho mais velho que sempre fez tudo certinho.
A vida em sociedade não é competição, mas jogo que constrói o espaço para a convivência inclusiva de todas as pessoas. Religião não é corrida aonde só os santos chegam aos céus, mas comunhão onde cada um cuida das feridas dos outros para que todos possam comemoram juntos a vitória da vida.
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Ruinas de um futuro que nunca existiu

Uma das coisas que mais incomoda os cidadãos contribuintes são as obras inacabadas ou inúteis. É algo endêmico em nosso país. Tanto em nível federal, como estadual e municipal. Usinas nucleares em construção há mais de cinquenta anos; estradas que foram engolidas pela floresta ou pelos lamaçais antes de serem concluídas; pontes em lugares onde não há rios; sistemas de transporte urbano que não respondem às demandas da população; hospitais sem equipamentos; escolas gigantescas onde há poucas crianças ou salas de aula sem professores onde são muitos os que desejam estudar; estádios faraônicos onde não há times de futebol; aeroportos onde sequer cidades existem… E a lista poderia continuar ad infinitum.

Vendo tais situações, logo uma resposta nos vem à mente: corrupção! É verdade. Em tudo isso há muito de corrupção. Obras que foram iniciadas sem necessidade, apenas para satisfazer o apetite dos empresários financiadores de campanha. Ou obras que se prolongam para justificar aditivos orçamentários que perfazem uma soma maior que o plano original. E com o conveniente de que os aditivos não precisam passar por licitação. Basta uma decisão da Bic do governante de plantão para estufar as bolsas dos amigos e amigas.
Mas há algo mais profundo e grave nisso tudo. A falta de planejamento. Obras inacabadas são sintoma da falta de um projeto de nação. Tudo é feito a esmo, sem preocupação com o que queremos para o amanhã de nossos municípios, estados e nação. E como não há um sonho de futuro que nos una, cada governo vende para a população um pseudoprojeto que promete começar tudo do zero como se nada antes houvesse sido feito. E como, de fato, não há projeto de governo, cada administrador faz o que lhe dá na cabeça ou aquilo que lhe demandam seus financiadores ou o grupo econômico ou social que ao qual está vinculado. E os recursos públicos se vão pelo ralo sem que perspectivas de esperança se abram para o povo.
Tal modo de fazer chega ao seu paroxismo quando governantes assumem com o confessado propósito de destruir tudo o que foi feito antes. “Antes de mim o caos” parece ser o que anima pseudomitos a se apresentarem como salvadores da nação. Desmantelar empresas exitosas, anular os projetos em andamento, sucatear o serviço público governando de improviso conforme as emoções do momento que traduzem pulsões de ódio e destruição. O resultado para esse modus operandi é o de um país em chamas. Tanto físicas como sociais. As físicas já estão ardendo na Amazônia. As sociais, já ardem há muito tempo, tanto no campo como na cidade e nas periferias. E, infelizmente, tendem a aumentar. E podem se tornar incontroláveis.
Basta trocar os governantes? A mentalidade mágica na qual muitos ainda vivem, diz que sim: “se não dá certo a gente tira!” Mas não é assim. O que carecemos é de planejamento. E planejamento a longo prazo. O próprio Jesus já dizia isso. Não se começa uma obra sem saber se se tem recursos para ir até o fim. E não se começa uma disputa se não temos certeza de ter mais forças que nosso adversário. Se não temos certeza disso, é melhor não arriscar.
E tudo tem que estar sustentado por uma experiência de fé. É ela que nos dá a coragem de empreender e ir até o fim. Tudo o mais é improviso. E caminho para o desgaste e fracasso. Que tenhamos fé, coragem e cálculo para desenhar e construir uma nação onde não haja mais ruínas de um futuro que nunca existiu.

O peso da comida

Comer é uma necessidade biológica. É o meio pelo qual suprimos os nutrientes necessários ao funcionamento do corpo. Se não comemos, enfraquecemos e, no limite, morremos por desnutrição.
O ser humano, no entanto, na medida em que passou da sua condição animal à condição social, transformou aquilo que era uma necessidade física em uma expressão cultural. Em outras palavras, para os seres humanos, o comer tem um sentido, uma significação que ultrapassa o simples ato de ingerir alimentos.

Analisando o modo como se dá a alimentação nas diversas sociedades, os antropólogos afirmam que em todas elas, desde as mais simples até as mais complexas, o ato de comer é um dos mecanismos fundamentais através dos quais se iniciam e se mantém as relações humanas. E que, quando descobrimos onde, quando e com quem se dá a alimentação, chegamos muito perto de conhecer quase tudo sobre as relações sociais deste grupo humano.

E mais: o modo como se compartilha a comida dentro de um determinado grupo social, desde a família até a escala global, permite delinear o caráter de uma sociedade. Com efeito, compartilhar a comida é uma transação que envolve uma série de obrigações mútuas e dá origem a um complexo interconectado de mutualidade e reciprocidade, tanto no âmbito das relações domésticas quanto no das relações sociais. Não são todas as pessoas que convidamos para almoçar ou jantar em nossa casa. E também somos seletivos quando alguém nos convida para uma refeição em sua casa. Receber alguém para comer ou ir comer na casa de alguém, simboliza fazer parte do mesmo grupo social.

Em todas as cidades, pequenas ou grandes, os restaurantes e as festas onde há comida são distinguidas pelo tipo de pessoas que as frequentam. Cada restaurante e a comida nele oferecida é tipificado segundo a classe social de seus fregueses. E quem vai um tipo de restaurante, dificilmente acessa um lugar “de outro nível”. Se o faz, ou se sente mal ou é mal visto.

Mas não é preciso ser antropólogo para perceber estas realidades ligadas à comida. O “filósofo” Zeca Pagodinho já dizia: o mundo se divide entre aqueles que comem caviar e aqueles que comem arroz, feijão, ovo frito e torresmo. A divisão entre os que comem caviar e o que dele só ouvem falar, é o retrato de um país onde “na mesa de poucos fartura adoidado, mas se olha pro lado, depara com a fome”.

Esse é o país onde os cereais não são mais vistos como “comida” mas como “commodities” e não se pergunta mais quem produz e quem vai comer o trigo, o arroz, o leito, o soja, a carne, mas se pergunta apenas pela cotação de tais produtos na Bolsa de Valores. Nesse mesmo país, quarenta por centos dos alimentos produzidos são desperdiçados enquanto uma parte significativa de sua população ainda passa fome. Isso diz quase tudo sobre o caráter de nossa sociedade…

Jesus não era antropólogo nem cantor. Mas, com certeza, um fino observador da realidade em que lhe tocou viver. Por isso, além de instituir uma refeição como símbolo de sua perene presença na humanidade, chamou a atenção para o modo como são organizadas as refeições. Aconselhou os discípulos a nunca buscarem os primeiros lugares nas refeições, mas a colocarem-se entre os últimos e com eles partilhar a comida.

E os aconselhou também a convidar aqueles que não têm comida para serem comensais em suas casas: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos.”

Esse é o caminho para construir uma nova sociedade baseada não na capacidade de cada um, mas na graça de Deus e em relações gratuitas com as pessoas. Fazendo isso, as refeições certamente serão mais leves, tanto no seu custo como na sua digestão.
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Quem poderá me salvar?

Todos os que vivemos a infância ou adolescência nas duas últimas décadas do século passado, tivemos o privilégio de conhecer o Chapolin Colorado. Ele deu o nome à serie mexicana que, com mais de duzentos episódios, retratava situações hilariantes de um super-herói sem poderes que, com suas trapalhadas, conseguia salvar pessoas em situação de perigo. O cômico personagem era vivido por Jorge Bolaños, o mesmo da série “O Chaves” e continua sendo reprisado em alguns canais de televisão.

Parodiando os filmes de super-heróis norte-americanos, o Chapolin Colorado aparecia quando alguém, em perigo, gritava a frase: “E agora, quem poderá me salvar?” ou então, “E agora, quem poderá me defender?” ou “E agora, quem poderá me ajudar?”

A série, direcionada ao público infantil, trabalha com a fragilidade e a necessidade de proteção que toda criança tem. Com efeito, a criança vê no adulto, mesmo que sem grandes poderes ou atabalhoado, aquele ou aquela que pode lhe trazer ajuda, proteção, segurança, salvação. Essa é a condição infantil. Quanto alguém se torna adulto e faz positivamente essa transição psicológica, passa a não mais precisar de proteção. Ele sabe e pode resolver as situações difíceis. E mais: é capaz de partir generosamente em auxílio dos mais fragilizados e em risco.

Mas, e do ponto de vista existencial, podemos dizer o mesmo? Tenho minhas dúvidas… Acho que toda pessoa humana, por mais adulta que seja, também precisa sentir-se ajudada e protegida. Na resposta a este sentimento, um papel fundamental é jogado pelas religiões. Elas, efetivamente, suprem esta necessidade. E o fazem de formas variadas. Por isso existem diferentes religiões.

Há religiões que, paradoxalmente, afirmam que o ser humano faz sua própria salvação. Nelas, o fiel toma o lugar do próprio Deus e cria a certeza de que, praticando este ou aquele tipo de ação, garante a sua salvação. Em outras religiões, a salvação é alcançada através da prática ritual. Quando o crente executa o rito de forma perfeita, os deuses se sentem satisfeitos e garantem a salvação àqueles que os buscam. São religiões ritualísticas.

O cristianismo, por sua vez, coloca a ação salvadora totalmente nas mãos de Deus. É ele quem nos salva, seja no momento em que Deus-Pai nos cria já com o desígnio de ternos em sua convivência, na ação redentora de Deus-Espírito e pela presença, em nós e em todas as criaturas, de Deus-Espírito que nos conduz de volta ao seio do Pai. Deus não exige nada em troca. A salvação é graça. O único que Ele pede é que correspondamos a essa gratuidade da salvação sendo graça para aqueles que estão ao nosso lado.

Quando perguntado sobre o número dos salvos, Jesus, olhando ao redor e vendo o contexto de injustiça e indiferença que grassava em Israel, responde: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. E logo esclarece: a dificuldade em entrar não é por não terem ouvido a pregação ou não dizerem-se adoradores de Deus. A dificuldade de muitos em alcançar a salvação nasce do fato de não terem praticado a justiça para com os empobrecidos e debilitados do povo.

E Jesus acrescenta: haverá multidões vindas do norte, do sul, do leste e do oeste que, mesmo sem nunca terem ouvido falar de Deus e sem professarem qualquer tipo de fé e sem praticarem qualquer tipo de religião, mesmo assim entrarão pela porta estreita pelo fato de terem praticado a justiça.
Os discípulos não contavam com a astúcia de Jesus que continua a afirmar: Que me sigam os bons!
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Sobre utopias, distopias e heterotopias

A Modernidade nasceu sob o signo da utopia. A Europa, que durante quase setecentos anos vivera enclausurada, vence o cerco árabe e, singrando Atlântico, Índico e Pacífico, encontra o Novo Mundo que excede a tudo aquilo até então visto. Um mundo exótico que assusta e encanta. Um mundo cheio de riquezas. Especiarias nas Índias Orientais, escravos da África negra, o ouro e prata das Índias Ocidentais.
Com a força de cães, cavalos e canhões, o El Dorado das terras “descobertas” foi transferido para a Europa onde financiou o Renascimento cultural, a Revolução comercial e industrial e os nascentes Estados nacionais. Para os europeus, tudo parecia possível. Thomas Morus, em sua “Utopia”, faz uma crítica da moderna sociedade inglesa e afirma que tudo poderia ser ainda melhor. Igual Tomás de Campanella na “Cidade do Sol” onde as contradições da modernidade são superadas e chega-se à  cidade ideal.
Não durou muito e, aquilo que parecia utópico, se mostrou distópico. Primeiro, nos continentes periféricos onde milhões de pessoas foram sacrificadas na produção e transferir das riquezas para o Velho Continente. Depois, na própria Europa onde a máquina de produzir riqueza para poucos não se importou com a cor da pele das pessoas e os camponeses e operários brancos foram transformados em matéria prima do capitalismo. Jonathan Swift, em suas “Viagens de Gulliver”, descreve as cidades absurdas da modernidade. John Stuart Mill cria a palavra para nomear esta realidade: distopia. Karl Marx, em “O Capital”, destapa as entranhas deste sistema que produz absurdos e chega à exasperação na Primeira e Segunda Guerra Mundial. Absurdo que tem sua versão coletivista nos “gulags” soviéticos, nos campos de reeducação maoísta, nas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e se atualiza nas guerras da Afeganistão, Iraque, Congo, Iêmen, Síria e nos setenta milhões de homens e mulheres que peregrinam em busca de um lugar para morar e, muitos deles, acabam afogados no Mediterrâneo ou no Rio Grande que, no dizer do Papa Francisco, se transformaram em grandes cemitérios de corpos e esperanças.
Os clássicos “A Máquina do Tempo” de H.G. Wells, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley e no mais conhecido “1984” de George Orwell e seu famoso “Grande Irmão” refletem, em forma de arte, o mundo distópico que nos ameaça com seu sonho pavorosamente real.

Hoje constatamos que as utopias fracassaram e as distopias nos aterrorizam cada vez mais. Há para elas um alternativa possível? Michel Foucault, já na perspectiva de uma pós-modernidade, criou o termo heterotopia. Com este neologismo ele quer significar aqueles espaços marginais dentro da sociedade onde se pode viver não apenas o contrário da sociedade presente, mas uma antecipação do ideal que sonhamos para cada pessoa e para toda a humanidade. O heterotópico sempre é minoritário e, às vezes, fugaz. Mas indica que um outro mundo é possível e que a humanidade não está condenada à prisão do presente ou ao devaneio de um futuro incerto. É possível viver no presente o futuro.

A esta experiência de heterotopia os cristão chamam de Ressurreição. Ressuscitar não é nascer para outra vida. Ressuscitar é ter esta vida radicalmente transformada pela graça de Deus. Simbolizamos esta vida nova no renascer batismal. E esperamos que ela se complete na morte quando nos encontraremos face a face com Deus na Nova Jerusalém. Entre o batismo e o sábado de Deus, cabe-nos viver no presente como se já estivéssemos no futuro.

Tarefa difícil, pois o mundo nos seduz com sua lógica que parece insuperável. Mas difícil também pela tentação de evadir-nos deste mundo. Alguns conseguem viver esta dupla tensão de forma limitada. Outros conseguem ir mais além. A estes nós os chamamos de “santos” e “santas”. Entre estas últimas, Maria, a Mãe de Jesus. Em toda sua vida, desde a experiência de Deus em Nazaré até o Pentecostes, ela viveu no quotidiano o futuro de Deus. Em seu cântico diante do Anjo, ela lembra a fidelidade de Deus para com seu povo e sua decisão de colocar-se inteiramente a serviço de Seu projeto. Sua fidelidade leva-a ao pé da cruz e à missão guiada pelo Espírito. Viveu tão perfeitamente o futuro de Deus em seu presente, que a Igreja proclamou que ela já vive na plenamente na realidade divina. Não só seu espírito, mas também seu corpo. É a Assunção de Maria.

Na sua pessoalidade, Maria vive a heterotopia do Reino. Ela vive o novo em meio ao velho. E ela não vai sozinha. Junto com Maria de Nazaré vão tantas outras Marias da Graça, Marias de Lourdes, Marias das Dores, Marias das Neves, as Isabeis, Roses, Marieles, Dorothys, Matildes, Martas, Márcias, Joanas, Anas, Terezinhas, Tânias, Anastácias, Nargis… Mulheres testemunhando que não basta a utopia e que não se há de temer as distopias. Elas são a prova de que é possível viver a vida nova aqui e agora. Em amostra antecipada, sim,  mas já ressurreição.
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O presente do futuro

Que é o tempo? Uma velha pergunta que a humanidade sempre se colocou e que hoje parece em desuso. Vivemos a civilização do instantâneo, do agora, do imediato, onde o que importa é o presente.

Mas, concomitantemente, nos queixamos de que tudo passa muito rápido, que não temos tempo para tudo o que gostaríamos de fazer, que a realidade é fugaz, que tudo flui tão rapidamente e temos a impressão de que não somos nós mesmos o que fomos ontem e o que seremos amanhã ainda não o sabemos. Vivemos o paradoxo da atemporalidade e de um tempo que nos devora. Cabe, pois, voltar a pensar o que significa o tempo.

Ninguém melhor que Santo Agostinho para nos ajudar a pensar esta realidade humana. Na obra “Confissões”, Livro XI, ele se pergunta: “O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” Se ficarmos só nesta frase, parece que o santo africano desistiu de compreender a condição temporal de nossa existência. Mas, em seguida, no mesmo livro, ele nos convida a pensar o tempo não na sequência linear passado-presente-futuro, mas na mistura dos tempos que constitui o âmago da nossa existência: “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.”

“Presente das coisas passadas” é aquilo que vivemos e constitui a identidade que carregamos conosco como lastro ou como suporte. “Presente das presentes” é o agora que nos cabe viver e do qual não podemos fugir. Mas o que é “presente das coisas futuras”? Como algo que ainda não aconteceu pode incidir no que somos agora e, por paradoxal que possa parecer, mudar o passado que já se foi?
Se pensarmos bem, isso é mais comum do que reconhecemos. Na linguagem cotidiano, a isso nós chamamos “fé”. Não a fé enquanto conceito intelectual de acreditar no que não pode ser visto ou não pode ser compreendido. Mas a fé enquanto atitude existencial de viver no presente aquilo que sonhamos ser o futuro do ser humano e do mundo.

Quem tem fé em Deus, vive no presente como se já estivesse na presença do Deus que espera ver plenamente na eternidade futura. Se acredita num Deus que é amor, vai viver no presente relações amorosas com as pessoas com as quais convive. Se acredita num Deus de justiça, vai praticar a justiça para com os injustiçados. Se acredita num Deus da vida, vai cuidar das vidas feridas pelas forças da morte. Se acredita num Deus da verdade, vai opor-se a todas as calúnias, mentiras e trapaças semeadas pelos inimigos de Deus.

Essa fé de Abraão, de Isaac, de Jacó e de tantas personagens da tradição bíblica judaica que viveram coerentemente com aquilo que acreditavam ser o desejo de Deus para suas vidas. Essa também é a fé de Jesus que viveu no seu quotidiano aquilo que acreditava ser o projeto do Pai. Com efeito, ter fé significa, acima de tudo, viver no presente aquilo que acreditamos ser o mundo futuro.

Aquele que pratica no presente o contrário daquilo que afirma ser o ideal para o futuro, ou não tem fé, ou é mentiroso. Para enganar os outros, pode apresentar sonhos de futuro mirabolantes que não se concretizam em suas ações no presente. Com isso até é possível que engane alguns incautos. Mas, não passará muito tempo e a sua máscara cairá e todos perceberão que o seu futuro, na verdade, é o retorno do passado de morte e o sonho da sua continuidade num presente sem fim. Mas ninguém vive sem sonhos, sem futuro, sem fé. E os que se deixaram enganar, em pouco tempo, retomarão seus sonhos e sua fé e destruirão o devorador do tempo para que o presente volte a ser futuro e todos possamos voltar a sonhar.
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Vaidade das vaidades!

Em meio à crise econômica mundial e nacional, alguns números chamam a atenção. Segundo a OXFAM, uma das mais sérias entidades internacionais de combate à pobreza e à desigualdade, em meio à essa crise, a distância entre os mais ricos e os mais pobres vem aumentando em um ritmo nunca visto antes. Atualmente, as 36 pessoas mais ricas do mundo acumulam a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Ou seja, 36 pessoas detêm o equivalente a 3,6 bilhões de outros seres humanos. Nos anos de 2017 e 2018, a cada dois dias, surgiu mais um bilionário no mundo. Essa distância entre ricos e pobres têm uma de suas fontes na desigual tributação que os dois extremos sofrem.

No Brasil, sempre segundo dados da OXFAM, essa situação é ainda mais grave. Os seis brasileiros mais ricos – todos homens – detém a mesma riqueza que a soma dos 100 milhões de brasileiros mais pobres! A desigualdade no Brasil é seis vezes superior à média mundial. Em termos de desigualdade social, assim como no futebol, somos campeões do mundo…

É justo isso? Dentro da lógica capitalista, sim. Riqueza produz riqueza e “quem pode mais, chora menos”. É a lógica do mercado onde o mais forte engole o mais fraco. Dentro da lógica cristã, não. Pois, “não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos.” E mais: a riqueza que uns poucos privilegiados acumulam, é o que falta na mesa do pobre. E pior: é o que foi tirado da mesa do pobre. Com efeito, os bens disponíveis são limitados. E, para que um acumule o que não precisa, é preciso tirar do outro o que lhe é necessário. Como diz o profeta Jeremias, “como a perdiz que choca os ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas por meios injustos.”

Diante desse fato, pergunta o Livro do Eclesiástico: que adianta ao rico acumular tantas riquezas se, no final de uns poucos anos, morre e deixa tudo para outro que nada fez? Jesus é mais enfático: o desejo de acumular bens, a ganância de ter sempre mais, além de provocar a desgraça dos outros, leva à desgraça daquele que dedica sua vida a acumular. O rico, além de fazer a infelicidade dos outros, cava, ao mesmo tempo, o sepulcro de sua própria desgraça. A ganância só faz sofrer. Tanto ao que acumula, como ao que é espoliado. Este sofre injustamente. O ganancioso, sofre de sua própria maldade.

Diante do rico afogado em sua riqueza acumulada que faz o pobre sofrer, cabe uma atitude irônica como a de Jesus. Pobres ricos que só tem as riquezas nas quais locupletarem-se! E uma afirmação taxativa: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens”, pois pode ser que, nesta mesma noite, a morte bata à sua porta e, então, quem ficará com os bens acumulados?

Se os 36 homens mais ricos do mundo ou os seis brasileiros que detêm mais riqueza que os 100 milhões de compatriotas mais pobres se colocassem diante dessa possibilidade de que hoje mesmo podem ter a sua vida ceifada, talvez se dessem conta que sua riqueza nada mais é do que vaidade de vaidades. E uma triste vaidade que faz os outros sofrerem e, por isso, vaidade culpável diante de Deus e diante dos homens.
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O pão nosso de cada dia…

O que é religião? Pergunta instigante que já encontrou muitas respostas e continua a suscitar dúvidas e controvérsias. Difícil encontrar uma definição de consenso. A paleta de opções vai desde o considerar a religião como “ópio do povo” até a de proclamá-la como aquela que dá o “sentido último” a cada cultura e, dentro dela, à existência de cada grupo ou pessoa.
No fundo, creio que as duas visões não se contradizem. Pelo contrário, elas se complementam na medida em que indicam as duas possibilidades extremas da experiência humana. Com efeito, a religião pode levar a pessoa ao extremo da realização ou ao extremo da perversão. Porque religião – e aqui avanço uma possível definição de religião – é o conjunto de crenças, ritos, valores, normas e instituições – que prometem levar o ser humano à sua realização plena.
Evito aqui intencionalmente a palavra “transcendente”. No uso habitual, “transcendente” indica algo que não é deste mundo. Mas nem todas as religiões tem como meta conduzir as pessoas para um outro mundo futuro ou a um mundo paralelo ao mundo presente. Existem, sim, religiões que podem ser assim caracterizadas. Mas há sistemas religiosos que são marcadamente mundanos. Ou seja, prometem a salvação para este mundo mesmo, aqui e agora. E se não for agora, num futuro breve que está ao alcance da mão de todos. Pensemos na chamada “religião do mercado”. Basta você seguir as “leis do mercado”, seus ritos, seus valores, normas e instituições e, em pouco tempo, você terá sucesso e ficará rico.
É uma religião que tem seus livros sagrados e seus sacerdotes que, dominicalmente, tentam convencer as pessoas de que pequenas empresas podem se transformar em grandes negócios. Basta seguir a orientação dos empreendedores bem sucedidos que, por sua relação íntima com o Deus Mercado, agora têm a capacidade de guiar os que se convertem à nova religião. Os que fracassaram, é porque não tiveram fé suficiente nas eternas leis do mercado, não seguiram seus ritos e instituições ou não quiseram ouvir seus sacerdotes. Ou foram fracos e impersistentes. Pois na religião do Deus Mercado, só se salvam os mais fortes. Os fracos, são engolidos na voragem da luta pela sobrevivência. Por essas suas faltas, os fracassados já pagam no presente com o colapso de seus empreendimentos e ficarão para sempre gemendo e chorando no vale de lágrimas da pobreza, pois na religião do Deus Mercado não há graça. Aqui se faz, aqui se pena. Quem pode mais, chora menos. E são poucos os que se salvam.
Mas, e no cristianismo, como funciona a salvação? Qual é a meta do ser mais, de alcançar a plenitude do ser humano? Faço esta pergunta pensando na oração que Jesus ensinou a seus discípulos. Afinal, a oração é a expressão máxima dos desejos e promessas de uma religião. Nela, o fiel pede a Deus aquilo que mais almeja. E o que Jesus ensina a pedir no Pai Nosso? Coisas muito simples e mundanas. Em primeiro lugar, a justiça para os fracos. Era isso que a palavra Reino significava para um judeu: que o órfão, a viúva e o estrangeiro tivessem seus direitos respeitados. Pede o pão para o dia de hoje. Não pede riqueza, nem o acúmulo de bens. Basta a comida para satisfazer a necessidade presente e urgente. Pede o perdão das dívidas… Para o pobre, o mais cruel é estar devendo, pois o único que tem é a sua honra. E essa não tem preço!
E a oração termina com um “não nos deixes cair em tentação”. Mas não diz qual é a tentação. Pelo contexto anterior, sou levado a pensar que a tentação da qual Jesus nos ensina a pedir a Deus que nos livre, é a de não perdoar os que nos devem, de acumular o pão a tal ponto que a outros falte, de não fazer justiça para com os fracos e assim não acreditar que Deus é Pai de todos.
Estranha oração essa a do Pai Nosso. Ela revela uma religião dos fracos, dos fracassados, dos derrotados, dos endividados… que sonham com um mundo em que as relações não sejam marcadas pela dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Um mundo onde não haja vencedores nem vencidos, nem saciados nem esfaimados, nem credores e nem endividados.
Rezar o Pai Nosso, é comprometer-se com essa crença. E um desafio a cultivar valores e constituir normas e instituições que ajudem a forjar um mundo novo tal qual o rezado nesta oração tão simples e, ao mesmo tempo, tão transformadora.

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Sempre se fez assim!

Vivemos na sociedade da inovação. Todos aspiram ao novo. E, quanto mais novo, melhor! Aquilo que aconteceu ontem, já é passado, velho demais. O que foi feito ontem, já está ultrapassado, não serve mais. As novidades acontecem em um ritmo cada vez mais frenético. A aceleração do tempo parece não ter limites a tal ponto que, aquilo que ainda não aconteceu ou ainda não saiu de fábrica, já está fora de moda. O futuro é uma miragem cada vez mais distante que, parece, nunca alcançaremos.
Nesse contexto, a frase algumas vezes pronunciada de que “sempre se fez assim”, pode, por um lado, incomodar por expressar um não reconhecimento dos tempos em que estamos vivendo e, por outro, pode também ser um sinal de resistência à cultura da obsolescência antecipada. De um lado estão os “novidadeiros”. De outro, os tradicionalistas. De um lado os que querem fazer sempre o novo. Do outro, os que querem fazer o que sempre já se fez, pois na repetição do passado encontram a segurança em tempos de mudanças aceleradas ao infinito.
Quem tem razão nesta disputa? Atrevo-me a dizer que nenhum dos dois lados. De fato, ambos colocam o acento no “fazer”. É uma atitude típica da cultura moderna do “homo faber” que avalia o ser humano por aquilo que ele faz. Os que fazem coisas do passado, são ditos cavernários. Os que fazem as coisas do futuro, visionários. Mas o que nos permite distinguir entre o que é típico do homem das cavernas e o que é típico do homem das estrelas?
Costumo dizer, em tom de ironia, que não há nada mais pós-moderno do que a Idade Média!… Sei que com isso não faço justiça nem a Baumann e muito menos a Tomás de Aquino. Os dois se revolveriam nos túmulos se ouvissem estas minhas palavras… Mas o fato é que, alguns comportamentos humanos apontados como típicos do período medieval, estão renascendo nestes tempos da ultramodernidade. Por exemplo, a compreensão religiosa do mundo, seja através das religiões ou de outras expressões culturais que se organizam com a lógica religiosa. A política, por exemplo vive de mitos fundadores, de santos, liturgias e dogmas. E a economia também. É só observar o discurso que se faz sobre os “humores do mercado” e veremos que ele é tratado como um Deus. E mais: os massacres na Síria, na Líbia, no Afeganistão, no Iêmen…, não podem ser comparados com as cruzadas medievais? Como dizia o poeta, “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.”
Qual a alternativa a essa mentalidade baseada no fazer que tanto pode nos enclausurar no passado fossilizado como nos enlouquecer por um futuro de miragens enganadoras? Não pretendo ter a solução, mas uma alternativa pode ser a de passar do “homo faber” ao “homo audiens”. Deixemo-nos de preocupar com o fazer e passemos a escutar. Passar do ativo que se pretende dono do mundo ao auscultante que procura entender o sentido daquilo que está ao seu redor.
Diante de Jesus que chega a sua casa, Marta e Maria têm duas atitudes diferentes. Marta parte imediatamente para fazer aquilo que sempre fazia quando o Mestre chegava a sua casa. Maria senta-se aos pés de Jesus para escutar o que Jesus pede dela. E se Jesus não precisasse daquilo que Maria estava sempre acostumada a oferecer-lhe? Seu trabalho, mesmo sendo feito com perfeição, teria sido inútil. Antes de fazer algo, é melhor escutar, estar atento ao que está ao nosso redor e discernir o que o momento presente pede de nós. Se não somos capazes de ouvir os rumores do presente, podemos nos perder num passado que já não existe ou num futuro que ainda não é e, até pode ser, nunca será.
Menos ação e mais contemplação. Menos certezas e mais escuta. Menos preocupação e mais auscultação. E nossa ação não será sem sentido e nem inútil!
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